terça-feira, 6 de outubro de 2009

The Chaser


Jung-ho, ex-policial que passou a ganhar a vida como cafetão, está possesso porque duas de suas garotas desapareceram sem pagar o que lhe deviam. Logo depois de forçar Mi-jin a se encontrar com um desconhecido, descobre que o mesmo homem foi o último cliente das outras duas moças. Ele tenta localizá-la, mas uma falha no sinal do celular deixa Mi-jin à mercê do psicopata. Atormentado pelo remorso, o ex-policial faz de tudo para convencer a polícia da culpa do homem e assume pessoalmente a missão de descobrir o paradeiro de Mi-jin. Exibido no Festival de Cannes de 2008.

Uma boa surpresa que só evidencia o alto nível que o cinema coreano vem apresentando nos últimos anos. A cada Festival o país traz novidades interessantes, seja de cineastas já conhecidos como Park Chan Wook, seja de um estreante absoluto como é o caso diretor e roteirista deste longa, Hong-jin Na (estreante mesmo, o cara não tinha feito nem um curta antes desse filme).

Um policial ágil e violento, mas também com aqueles toques de humor pastelão totalmente fora de hora como só os coreanos conseguem inserir sem tornar o filme ridículo. Um exemplo é a cena em que Jung-ho consegue arrastar o psicopata debaixo de sopapo para a delegacia e, chegando lá, os homens da lei ficam batendo boca entre si como um bando de madames tresloucadas. Sem contar que o longa explora com extrema habilidade um estilo de suspense no qual o espectador já sabe de tudo (quem é o assassino, seu modo de agir, o que aconteceu com a vítima, etc.) e a tensão vem justamente da sensação de que ele conseguirá ficar impune porque não há provas contra ele.


O filme só não é muito recomendado para os mais sensíveis à estética gore, pelo excesso de cenas com mutilações, fraturas expostas e, sobretudo, muito sangue pingando e esguichando na tela. Está certo que a história em si não chega a apresentar nenhuma novidade, mas a direção de Hong-jin Na é tão competente que conquista por seu vigor e também pelo carisma de Yun-seok Kim no papel do cafetão que, no fundo, tem bom coração.

Aqueles que não tiverem oportunidade de conferir o longa ainda neste Festival, não precisam ficar tristes: The Chaser tem previsão de estreia para daqui a duas semanas.

Nota: 8,0

(Choo Gyeok Ja, de Hong-jin Na. Coréia do Sul, 2008. 125 minutos. Midnight Movies)

domingo, 4 de outubro de 2009

A Sereia e o Mergulhador


Tem dois comentários que eu vinha fazendo com frequência dentre amigos que encontrava pelo Festival: 1) esse ano eu estava dando a sorte de não ter visto ainda nenhum filme que fosse 100% pavoroso (muitos medianos, alguns ruins, mas nada completamente imprestável); 2) a Première Latina, no geral, estava apresentando longas de ótimo nível. Pois bem. O filme A Sereia e o Mergulhador soterra, de uma só vez, ambas as afirmativas.

Vejam a sinopse: O cadáver de Simbad, homem do mar, aparece flutuando na Costa da Nicarágua. Wangki, a sereia, converte a alma de Simbad em uma tartaruga, e a tartaruga o leva à superfície, devolvendo-o ao mundo dos humanos como um índio misquito, e ele cresce nas margens do Rio Coco, vivendo a rotina da tribo. Quando o local é atingido por um furacão, Simbad migra para a Costa Atlântica, onde vira um mergulhador e pesca lagostas. No fundo do mar, a sereia o espera. Parece uma história com toques de fábula, certo? Não é. Aliás, é até difícil classificar o estilo do filme, embora ele tenha o formato de um documentário. Poucas vezes tive o desprazer de assistir a algo tão desprovido de sentido. Notem que o filme não apenas é enfadonho e pessimamente conduzido, ele não tem sentido mesmo.

A partir de um fiapo de trama sobre uma lenda indígena envolvendo sereias, homens do mar e almas de tartarugas renascendo em homens (ou o contrário, juro que não entendi direito), o que vemos é uma arrastada sequência de imagens que começa com um capítulo (sim, o filme é dividido em capítulos) que acompanha com detalhes repugnantes a rotina de uma vila de pescadores cujo sustento consiste em caçar, esquartejar e comercializar a carne de enormes tartarugas marinhas. Depois passamos a outro capítulo sobre o nascimento de um menino. Mais uma vez, com mais detalhes visuais do que a maioria da plateia deseja ver. E para quê? Sei lá. O tal Simbad é apresentado como protegido dos deuses... ou outra viagem parecida. Entre um capítulo e outro, ainda aparece na tela uma receita de sopa de tartaruga. Seria algum tipo de piadinha perversa? Não teve graça.

O filme praticamente não tem diálogos e, na maior parte do tempo, se limita a acompanhar friamente, à distância, o rotina modorrenta dos aldeões. Perto do fim, insere uma animação tosca para ilustrar uma passagem sobre... Sobre o que era mesmo? Sinceramente não sei dizer, porque à essa altura meus pensamentos já estavam há muito divagando. Sem contar que é incrível que um filme rodado em meio à natureza seja tão feio esteticamente. Resumindo: um horror, uma tortura.

Nota: 0

(La Sirena y el Buzo, de Mercedes Moncada Rodríguez. MEX / ESP, 2009. 86min. Première Latina)

O Dia da Transa


Ben tem uma vida tranquila ao lado da esposa até o dia em que Andrew, seu melhor amigo dos tempos de faculdade, aparece em sua casa. Andrew tornou-se um artista e viajante e os dois não se viam há anos. Em nome dos velhos tempos, os dois acabam indo parar numa festa muito louca. No meio da viagem alucinógena coletiva, surge o assunto de um festival de filmes pornográficos e os dois amigos se desafiam mutuamente a produzirem um pornô transando um com o outro, o que seria supostamente audacioso pelo fato de ambos serem heterossexuais. Passado o porre, ambos se arrependem da bisonha ideia. Só que nenhum dos dois quer voltar atrás primeiro: Andrew porque nunca leva adiante suas ideias, e Ben porque odeia que as pessoas o rotulem de careta só porque é casado.

O famoso filme-pegadinha, que se anuncia como uma comédia sexual anárquica e está muito mais para discussão-cabeça sobre relacionamentos. O que não chegaria a ser um problema, caso o roteiro fosse bem desenvolvido. Mas o que vemos aqui é um excelente argumento que vai se perdendo cada vez mais conforme a projeção avança. Para começo de conversa, é muito absurdo que esses dois caras heterossexuais levem tal proposta adiante depois de estarem sóbrios. Tamanha teimosia só teria algum sentido caso eles fossem secretamente apaixonados um pelo outro e usassem o combinado como desculpa para saírem do armário. Mas, como não é o caso, a trama já perde logo a credibilidade.

Ainda assim, mesmo afundando-se em falta de verossimilhança, a história poderia resultar em uma boa comédia absurda. Mas a trama caminha para um anticlímax embaraçoso que deixa bem claro que a diretora e roteirista Lynn Shelton não tinha a mínima ideia de como terminar seu filme, que começou tão bem. O que salva o longa do desastre total é a simpatia dos atores Mark Duplass e Joshua Leonard e uma série de sequências avulsas realmente engraçadas, com destaque para a cena em que Andrew toma um porre com a esposa de Ben na cozinha e fala sobre o filme por achar que ela já estava ciente. A reação dela – que fica sóbria no mesmo instante – é simplesmente hilária.

Uma curiosidade: Lynn Shelton também interpreta a personagem Monica, responsável por uma das cenas mais divertidas, quando ela e a namorada tentam levar Andrew para a cama, desde que ele aceite um “brinquedinho” no jogo a três.

Nota: 5,0

(Humpday, de Lynn Shelton. EUA, 2009. 95min. Mostra Expectativa)

O Último Verão de La Boyita


Jorgelina tem dez anos e passa por um período de grandes mudanças em sua família. Os pais parecem não se entender mais e a irmã mais velha, Luciana, passou a ter novos interesses e atitudes depois que entrou na puberdade. Para aliviar as tensões, seus pais decidem passar o verão separados. Luciana vai com a mãe para a praia, e Jorgelina segue com o pai para a fazenda da família. Lá ela reencontra Mario, filho de um casal de empregados da fazenda. Mas também o pré-adolescente parece estar passando por uma nova fase, e Jorgelina se pergunta o que, afinal de contas, está acontecendo com todo mundo.

O Festival deste ano está sendo marcado por uma boa quantidade de filmes com crianças talentosas. Grande parte da carga dramática de alguns filmes a que assisti esse ano são jogados no carisma de uma criança, como é o caso deste, que é apoiado na excelente presença da pequena Guadalupe Alonso. Jorgelina vai buscar nos livros de medicina do pai um método pragmático para tentar compreender essa esquisita experiência chamada adolescência que mudou tanto sua irmã mais velha. O que é menstruação? Quais as diferenças entre meninos e meninas? E, sobretudo, por que o mundo parece ter ficado louco de uma hora para outra?

Em contrapartida à curiosidade da menina, o filme desenvolve em paralelo a história de Mario. Essa vertente de cores mais dramáticas é justamente a parte mais mal-resolvida do filme. Alguns aspectos na atitude dos pais do garoto parecem contraditórios ou pouco explicados, mesmo considerando o nível de ignorância destes. Um exemplo é o modo como o filme destaca o artifício usado para encobrir o segredo do menino, ao mesmo tempo em que evidencia o total desconhecimento de todos em relação ao que ocorre, ou seja, quem se daria ao trabalho de esconder algo do qual não tem conhecimento?

Outro aspecto difuso é a situação dos pais de Jorgelina. Em nenhum momento fica claro se eles estão de fato separados ou apenas vivendo um momento difícil. Está certo que a informação não é de absoluta relevância para a trama, mas, por outro lado, é um dado que poderia ser facilmente esclarecido com uma linha de diálogo. Enfim, são pequenos detalhes como esses que dão uma impressão geral de imprecisão no roteiro escrito pela própria diretora, Julia Solomonoff. No geral, O Último Verão de la Boyita é um filme bonitinho, mas soa meio incompleto.

Nota: 6,0

(El Último Verano de la Boyita, de Julia Solomonoff. ARG / FRA / ESP, 2009. 93min. Première Latina)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Natimorto


Bastante complicado definir e mais ainda criticar esse filme contraditório que é Natimorto. Com muitas qualidades e mais uma penca de incongruências, a impressão que se tem é que o filme equilibra-se numa linha de tensão do mesmo modo que o personagem principal equilibra-se nos beirais da insanidade. Com um quê de Último Tango em Paris – impressão reforçada pela estética retrô – acompanhamos um desesperador mergulho na loucura, na desesperança, na consciência de si mesmo e do outro.

O quadrinista Lourenço Mutarelli, também autor do romance que serviu de base para este filme, interpreta um caça-talentos que intermedia o encontro de uma jovem cantora com um renomado maestro em São Paulo. Depois que a presença da moça é mal-recebida por sua esposa, ele a leva para um hotel e os dois iniciam longas conversas. Ele não quer voltar para a esposa castradora, e ela não se importa que ele fique. Entre maços e mais maços de cigarros, ele lhe propõe que continuem ali, dividindo aquele quarto e confidências. A conversa bizarra do caça-talentos, que a princípio a fascina, logo torna-se um grilhão. Um hábito dele que começa a perturbá-la é sua mania de ler a sorte nas imagens horrendas que acompanham os maços de cigarros, como se estas fossem cartas de tarô. Conforme o clima entre os personagens vai ficando mais pesado e tenso, o filme também abandona o humor e ironia iniciais e torna-se cada vez mais lisérgico e claustrofóbico.

Nada contra filmes com uma pegada mais abstrata, mas certos artificialismos em Natimorto incomodam um pouco. Os diálogos são excessivamente literários, o que até funciona bem por vezes... mas não sempre. Em nenhum momento é mencionado como os personagens se contactaram, informação que faz falta para que o espectador entenda o grau de conhecimento prévio que um tem do outro. E causa ainda mais estranheza quando, ao final, ficamos sabendo a verdade sobre ele. A opção de não mostrar a personagem cantando é interessante porque abre duas possíveis interpretações a respeito dela. Já a narração em off feita por Nasi não funciona muito bem, principalmente porque o som parece alto demais em relação ao restante do filme.

Um outro fator a complicar a boa fluência do longa é o fato de Lourenço Mutarelli interpretar o personagem principal. O escritor já havia realizado uma participação divertida nas telonas como o segurança de O Cheiro do Ralo, mas para um papel complexo e cheio de camadas como esse sente-se claramente a falta de um ator mais experiente e tarimbado. Só não chega a comprometer porque no outro canto do ringue há uma atriz fantástica como Simone Spoladore para lhe apoiar.

E, por fim, há o ritmo muito irregular de Natimorto. Depois de um começo excelente, lá pela metade comecei a temer que o longa ficasse dando voltas em torno de si mesmo sem chegar a lugar algum. Mas, depois, em seu terço final, o filme volta a tomar rumo e o desfecho completa a trama com mais sentido do que parecia ser possível a princípio. Resumindo: um filme difícil, porém interessante de modo geral.

Nota: 6,5

(Natimorto, de Paulo Machline. BRA, 2009. 92min. Première Brasil)

A Gruta


Como criticar um filme cuja maior atração para quem assiste não é o filme em si? Dentro da proposta do filme-jogo A Gruta, o grande barato é poder participar ativamente da edição do filme, alterando, inclusive, seu tempo de duração. O simpático brasiliense Filipe Gontijo, diretor da experiência, assume que o longa foi concebido originalmente como um jogo. Cada espectador, ao entrar na sala de exibição, recebe um controle remoto através do qual poderá escolher por qual caminho a trama seguirá em alguns momentos-chave ao longo da projeção.

A historinha do filme propriamente dita remete a qualquer argumento batido de terror: os adolescentes Tomás e Luisa vão curtir um final de semana na fazenda de um tio dela. Chegando lá, o que encontram é um lugar isolado e meio assustador, sensação reforçada pelo sinistro caseiro Tião. Depois que visitam uma gruta nas redondezas e trazem para casa um filhote de porco, Tomás começa a se comportar de modo diferente.

Enfim, nada disso importa muito. Mesmo porque os rumos podem ser ligeiramente alterados a cada vez que o filme para e aparece na tela a mensagem “menu decisão” com as opções. O espectador ainda pode escolher jogar de acordo com a visão de um dos personagens e o que se vê na tela é a opção feita pela maioria. É claro que a autonomia do público é mais limitada do que parece a princípio, e a estrutura do jogo contém um esqueminha básico de sugestão e pegadinhas para manter a trama nos trilhos.


O filme? É terrivelmente trash, com interpretações que dificilmente podem ser consideradas como tal e com um roteiro, no mínimo, primário. Mas a intenção de A Gruta não é fazer cinema e sim proporcionar entretenimento através da sétima arte. E, considerando estritamente esse quesito, o filme cumpre sua função. A nota abaixo é direcionada à originalidade da ideia e um incentivo para que ela dê frutos. Vamos torcer para que, em um futuro próximo, possamos assistir a exemplares mais bem-acabados desta divertida iniciativa.

Nota: 7,0

(A Gruta, de de Filipe Gontijo. Com . Brasil, 2008. 60min. Mostra Midnight Movies)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Um Namorado para Minha Esposa


Tenso não aguenta mais o mau humor crônico de sua esposa, Tana. Ela reclama de tudo, critica seus amigos, já acorda de maus bofes. Radialista desempregada, nenhum emprego lhe parece bom o suficiente. Tenso quer se divorciar, mas sempre que encara Tana falta-lhe a coragem. Até que um amigo lhe fala sobre El Cuervo, um notório galanteador que fora expulso da região por sua lábia irresistível e seu pendor por mulheres casadas. Tenso acredita que seria essa a solução perfeita: fazer com que a própria Tana o deixe. Assim, ele procura El Cuervo e contrata-o para seduzir sua mulher.

OK. O argumento não chega a ser uma novidade do outro mundo, mas Um Namorado para Minha Esposa é tão bem escrito e interpretado com tanta convicção que confere um inacreditável frescor à trama pouco original. A começar pela personagem Tana que, mesmo sendo reclamona e mal-humorada a maior parte do tempo, provoca empatia no espectador pelo fato de suas reclamações serem bastante pertinentes. Um exemplo: ela odeia ir a festas de aniversário porque crê que fatalmente alguma mãe coruja vai lhe encher a paciência falando sobre fraldas e mamadeiras de seu rebento. Quem nunca passou por isso? Tem coisa mais desagradável do que um interlocutor que acha que as maiores banalidades são assuntos de segurança nacional?

Tampouco é surpresa que, com a mexida na vida conjugal, Tana passa a tornar-se mais interessante aos olhos de Tenso e reacende nele o ciúme, a vaidade, o desejo. Sendo ele um homem inseguro que, no fundo, não tem lá essa certeza toda de querer se separar, também é um personagem que cria bastante identificação. A impressão que fica é a de que Tenso, na verdade, embarcou nesse plano desesperado mais por “entrar na pilha” dos amigos do que por opção própria. E o filme se isenta de tomar um partido claro, o que só torna a história mais interessante.


Um Namorado para Minha Esposa chegaria bem perto da perfeição se não escorregasse tão feio nos vinte minutos finais, quando perde completamente o senso de humor, torna-se discursivo e muda de tom, baixando consideravelmente a qualidade de um filme que até então beirava a excelência. A última cena do casal com a terapeuta é de um despropósito completo. Uma pena. Errar no desfecho de um filme é o pior dos erros.

Uma curiosidade: Valeria Bertucelli, intérprete de Tana, é protagonista de outro longa que está sendo exibido no Festival: Chuva, de Paula Hernández. É bastante impressionante a versatilidade da atriz, que em Chuva interpreta uma mulher retraída e calada e, neste filme, é um poço de energia e uma metralhadora giratória de sarcasmo. Também é curioso o quanto Adrián Suar, o Tenso, lembra o David Duchovny.

Nota: 7,0

(Un Novio Para Mi Mujer, de Juan Taratuto. Argentina, 2008. 100min. Première Latina)

Matadores de Vampiras Lésbicas





Jimmy acaba de levar um fora da namorada pela enésima vez e seu amigo Fletcher, tentando melhorar seu astral, sugere que os dois tirem alguns dias de férias no campo. Por um lance do destino, o local escolhido é um vilarejo de aspecto medieval que sofre com uma terrível maldição, lançada séculos antes pela rainha-vampira Carmilla: todas as meninas, ao completarem 18 anos, se transformam em vampiras lésbicas. E o bom povo da cidade costuma oferecer viajantes desavisados em sacrifício, o que fará de Jimmy, Fletcher e um quarteto de belas garotas as próximas vítimas.

Eu confesso: desde que botei os olhos na primeira lista de filmes que seriam exibidos neste Festival, fiquei morrendo de curiosidade para ver este. Como resistir a um argumento tão deliciosamente trash? Mas, por incrível que pareça, muitos cinéfilos tem criticado o filme. Injustiça, já que o longa cumpre exatamente o que promete: diversão em doses cavalares. Afinal de contas, o que mais esperar de algo com esse título? Matadores de Vampiras Lésbicas não é o melhor filme a que assisti neste Festival, mas até o presente momento é, de longe, o mais engraçado. Uma viagem muito bizarra, que esculhamba não apenas os cânones dos filmes de vampiros, mas também faz uso de referências de outros gêneros – como o mito de Excalibur, por exemplo.

Cheio de intencionais “defeitos especiais”, como uma música estridente acompanhando as cenas pseudo-assustadoras, uma fumaça constante que se espalha pelo cenário do modo mais fake possível, vampiras que deslizam no ar com roupas esvoaçantes, um caçador de vampiros que parece uma mistura de Van Helsing com o padre de O Exorcista, o visual medieval em pleno século XXI, enfim, um festival de deboche que não deixa pedra sobre pedra. Outro detalhe engraçado é que as atrizes que incorporam as jovens nórdicas (não fica claro a nacionalidade, mas elas se chamam Anke, Trudi, Heidi e Lotte) interpretam seus papéis da forma mais artificial possível, ou seja, tirando o maior sarro dos parcos recursos dramáticos das gostosonas dos filmes de terror.


Outro acerto é o saudável desprezo do filme ao bom gosto, atitude sempre corajosa nesses tempos de ditadura do politicamente correto. James Corden, que interpreta Fletcher e parece uma versão britânica do Seth Rogen, é o responsável pela tiradas mais anárquicas do roteiro. São dele falas como “essas garotas estão mortas e preferem transar umas com as outras do que comigo”, “agora só me falta ser atacado por um lobisomem gay” ou seu impagável grito de guerra “vocês querem me pegar, suas sapatões?”.

Com um único longa-metragem anterior (Alone, 2002) e um curta no currículo, o diretor inglês Phil Claydon entrega um longa muito divertido e cheio de espirituosas referências à cultura pop e também a diversas produções de outros gêneros. Outro detalhe para se notar é o modo como o filme debocha do próprio mecanismo da sétima arte, com uma montagem assumidamente grosseira e movimentos de câmera que celebram os clichês e cacoetes repetidos à exaustão nos filmes terror. E o melhor de tudo é que, embora seja uma sátira, o filme não se limita a fazer colagens – como a série Todo Mundo em Pânico – e se dá ao trabalho de contar uma história com início, meio e fim. Bisonha, mas coerente.

Matadores de Vampiras Lésbicas é mais do que um título engraçadinho. É uma saudável celebração do bom humor, do deboche e da anarquia. As pessoas podem até não admitir depois que saem do anonimato da sala escura, mas eu fui não apenas testemunha como também participante ativa das gargalhadas coletivas. E esse é o melhor termômetro.

Nota: 8,0

(Lesbian Vampire Killers, de Phil Claydon. UK, 2009. 88min. Mostra Midnight Movies)

Segredos de Juan José Campanella


O cineasta argentino Juan José Campanella tem uma trajetória admirável. Sua filmografia inclui, dentre outros sucessos, O Filho da Noiva, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2001 e uma das produções argentinas de maior sucesso mundo afora. Atualmente, Campanella divide seu tempo entre a direção de séries de TV nos Estados Unidos (Lei & Ordem, House) e seus projetos mais pessoais, rodados na Argentina. De passagem pelo Festival do Rio para divulgar seu novo longa-metragem, O Segredo dos Seus Olhos, o cineasta gentilmente me concedeu a entrevista abaixo. É sua primeira visita ao Rio de Janeiro, embora ele tenha já estado no Festival de Gramado em duas ocasiões: em 2000, com O Mesmo Amor, A Mesma Chuva, e dois anos depois, com o Filho da Noiva – ocasião em que voltou para casa levando dois Kikitos.

Entrevista:

O teu novo filme pode ser classificado como um policial, mas trata temas como assassinato e vingança de um modo bem mais sensível do que se vê habitualmente. E o personagem do Darín (Ricardo Darín, ator-assinatura de Campanella) também é bem diferente dos tipos noir, ao estilo Bogart.

Campanella: Sim, exato. O que mais me agradou no livro foi justamente o fato de ser um romance policial “com gente normal”. Não tem o detetive decadente, a mulher fatal, os mafiosos. Era uma gente muito comum, muito normal. E eu não classifico apenas como um filme policial, porque é um policial com história de amor. Para mim, pesa até mais a história de amor. Pelo menos, eu tentei colocar nesse filme o mesmo sentimento presente em outros filmes meus.

E o que te encanta na interpretação de Ricardo Darín, quase sempre protagonista de tuas histórias?

Campanella: Ah, muitas coisas. Ricardo entende muito facil e intuitivamente esse tom que transita entre o trágico e o cômico, e tudo o que há de ridículo nas tragédias. Além do mais, ele tem uma forte empatia com o público e é uma pessoa muito carismática na tela. Para completar, eu o conheço há muitos anos e isso facilita o entendimento. Então, tudo isso contribui para que estejamos sempre trabalhando juntos.

E sobre a carreira nos Estados Unidos, com as séries de TV? É muito diferente o sistema de trabalho?

Campanella: Eu sou muito influenciado pelo cinema americano dos anos 70 e não vejo grande diferença entre trabalhar na Argentina ou nos Estados Unidos. As pessoas sempre esperam que eu diga que é muito diferente, mas, na verdade, não é. A mecânica de trabalho é a mesma, as equipes trabalham de forma muito parecida em qualquer lugar do mundo. Se há alguma diferença, é em termos de linguagem visual entre a televisão e o cinema.

Como é ser um homem de cinema na América do Sul?

Campanella: É que eu não me considero um homem de cinema, embora viva disso e me conheçam pelos meus filmes. (rindo) O que quero dizer é que eu não me sinto tão definido assim pelo meu trabalho. Tenho minha família e outros interesses... Também não acredito em classificar alguém como argentino, latino-americano ou qualquer outra coisa. Não falo isso no sentido de querer me sentir europeu ou algo assim, e sim porque eu não me sinto preso a um lugar. Não sei se vão me interpretar mal...

Seria por isso que você prefere contar histórias de apelo universal nos teus filmes?

Campanella: Sim. O contexto das minhas histórias é bem portenho, mas pode falar de qualquer grande cidade do Ocidente. Nesse aspecto, eu tenho muito mais proximidade de uma pessoa do Rio, de São Paulo ou qualquer outra metrópole do que de alguém lá dos confins da Argentina, por exemplo. Acho que os grandes centros urbanos todos se parecem.

Para encerrar, uma pequena polêmica. A velha rivalidade entre Brasil e Argentina se estende ao cinema também?

Campanella: Não, infelizmente não. Não sei como é aqui com os nossos, mas os poucos filmes brasileiros que chegam lá são apenas os violentos, como Tropa de Elite e Carandiru. Às vezes fazem sucesso umas novelas, mas filmes são poucos. Não entendo porque não se faz a semana do filme brasileiro na Argentina, semana do filme argentino no Brasil. Quando acontece, é só entre cinéfilos. Eu creio que há mais no cinema daqui do que miséria e violência. Eu adoraria ver uma comédia de classe média brasileira, por exemplo. E a imagem que acaba sendo vendida é de coitadinhos, mostrando apenas esse aspecto como se fosse só o que ocorre aqui. Se fosse assim, eu não poderia estar agora aqui, conversando com você em um festival de cinema.


Leia sobre O Segredo dos Seus Olhos:

Singularidades de uma Rapariga Loura


Macário trabalha como contador no armazém do seu tio Francisco e apaixona-se perdidamente por uma moça loura que vê todos os dias à janela da casa em frente. Através de um amigo, fica sabendo que a moça se chama Luisa Villaça e logo consegue aproximar-se dela e cortejá-la. Mas o tio não consente que Macário se case e o despede. Para conseguir desposar Luisa, Macário parte para Cabo Verde e enriquece. De volta a Lisboa, somente quando finalmente está para se casar e novamente às boas com seu tio, é que descobre as tais singularidades do título a respeito de sua noiva. Baseado em conto homônimo de Eça de Queiroz.

Um dos filmes mais esquisitos a que assisti neste Festival, e não digo isso no bom sentido. Desde o começo, um inexplicável artificialismo permeia a abordagem da história. Toda a trama é contada por Macário a uma senhora durante uma viagem de trem, e esta nunca olha para ele. A ponto de pensarmos que a personagem é cega, o que, como fica provado mais adiante, não é o caso. Grande parte do elenco interpreta de modo pouco convincente e farsesco, sem que isso pareça ser uma característica que ajude a destacar o filme de alguma forma. O personagem tio Francisco acaba arrancando risadas da platéia, e transformando suas cenas em comédia involuntária.

Mais do que tudo, me parece que foi uma péssima decisão do diretor Manoel de Oliveira tentar dar uma roupagem mais atualizada a uma trama tão datada. Os conflitos vividos por Macário não fazem sentido algum quando transpostos para tempos modernos. Fazer fortuna para poder ser digno de cortejar uma moça? Pedir permissão ao tio e patrão para se casar? E, mais que tudo, pedir em casamento uma moça com quem apenas algumas palavras foram trocadas? Isso tudo é totalmente século XIX, no máximo início de século XX. É inexplicável que um cineasta com a experiência de Oliveira não tenha se dado conta disso. E caso tenha percebido e realizado o filme assim mesmo, por pura teimosia, a decisão é ainda mais equivocada. Para completar, o ritmo arrastado e a total falta de um clímax fazem com que se possa considerar este longa como um dos mais aborrecidos vistos neste Festival.

Nota: 3,0

(Singularidades de uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira. PORT/FRA/ESP, 2009. 63min. Panorama do Cinema Mundial)