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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Delírio & Vertigem


Acaba de estrear no Rio para curtíssima temporada o espetáculo Delírio & Vertigem. Com direção e roteiro de Rita Clemente e onze atores no elenco, a trupe mineira se debruça sobre a dramaturgia do carioca Jô Bilac (mesmo autor dos elogiados Cachorro! e Rebu) e constrói um variado painel das relações humanas com um tom bastante pautado pelas sensações do título.

As treze minitramas que compõem o espetáculo sempre surpreendem pelo inusitado e pela provocação que, em diversos momentos, flerta com o teatro do absurdo. São tragédias rodrigueanas que despontam em meio ao cotidiano, desbundes carnavalescos que são levados para a vida real, rompantes de superficialidade que provocam risos nervosos na plateia e, quando menos se espera, até mesmo uma tocante declaração de amor. Não faltam referências cinematográficas, metalinguagem, intertextualidade e muitas cutucadas sarcásticas nos relacionamentos modernos. Um exemplo disso é o trecho Las Vegas, no qual pessoas que acabaram de se conhecer marcam um casamento como quem combina um programa qualquer. A pitada extra de ironia está no modo como a situação se repete ao longo da peça.

Também vale destacar o dinamismo da montagem e o modo como os atores ocupam o espaço cênico, com cenas que se entrecruzam e personagens de diferentes núcleos que se esbarram sem que haja uma separação definida de cenário. O elenco é coeso e possui excelente timing, o que fica ainda mais interessante quando diferentes atores assumem o mesmo papel. O cenário é simples e funcional e os figurinos são criativos, permitindo que cenas sejam rearranjadas com muita rapidez.

O espetáculo estreou em Belo Horizonte em 2012, como resultado do projeto Oficinão de reciclagem de atores do Galpão Cine Horto. Aqui no Rio de Janeiro, a temporada vai até 28 de setembro na Caixa Cultural (Av. Almirante Barroso, 25), de terça a domingo, sempre às 19h. Ingressos a R$ 16,00.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Azul Resplendor


Depois de uma temporada em São Paulo, chega ao Teatro Sesc Ginástico Azul Resplendor. A peça, que estreou na última quinta-feira, também marca a comemoração dos 60 anos de carreira e 80 de vida de Eva Wilma. Para tanto, nada mais referencial do que aniversariar interpretando uma grande diva, uma espécie de Norma Desmond dos palcos. O texto do dramaturgo peruano Eduardo Adrianzén foi descoberto pelos diretores Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas durante um projeto por eles empreendido entre 2008 e 2009 que visava justamente incentivar o intercâmbio entre as dramaturgias de língua espanhola e portuguesa. 

Blanca Estela, a personagem de Eva Wilma, é uma grande atriz que se afastou de seu ofício sem explicações há mais de 30 anos. Sozinha, amargurada e esquecida pelo público, Blanca não consegue resistir à tentação quando é procurada por Tito Tápia, ator sem talento que passou a maior parte da vida cuidando da mãe doente e fazendo pontas inexpressivas no teatro e na TV. Mas Tito agora escreveu uma peça e tem um milhão de dólares para patrociná-la, o que finalmente lhe dá coragem para procurar Blanca, confessar seu amor platônico e convidá-la para ser a protagonista de seu espetáculo.

A estrela aceita, desde que a peça seja dirigida por um nome de peso. É então que entra em cena o incensado e vaidoso Antônio Balaguer, que tem ideias no mínimo discutíveis sobre teatro e, principalmente, autopromoção. O espetáculo investe na ironia metalinguística, que ganha muita força com a aparição deste personagem. Aliás, o elenco é um dos pontos fortes de Azul Resplendor: embora Eva brilhe como protagonista, todos os integrantes do elenco têm boas oportunidades de momentos-solo. Reina em cena a harmonia entre veteranos como Eva Wilma e Renato Borghi (em substituição a Pedro Paulo Rangel)  e atores de gerações mais recentes como Dalton Vigh, Luciana Borghi, Luciana Brites e Felipe Guerra. Especialmente interessante é a construção de Vigh: em um papel completamente diverso dos galãs que a TV costuma lhe impor, o ator apresenta uma inesperada veia cômica como o diretor ambicioso que passa por cima de tudo e todos não em nome da arte e sim visando novas polêmicas que o deixem cada vez mais famoso, temido e adorado.


O cenário funcional de André Cortez e a iluminação precisa de Lúcia Chediek ajudam a dar dinamismo à montagem bacana concebida por Borghi e Seixas. Por outro lado, o texto de Adrianzén não consegue evitar uma desnecessária guinada para o melodrama na parte final. O tom da peça, que até então primava pela ironia e fazia correlações bem divertidas com personagens que estamos acostumados a ver no meio artístico, ganha cores dramáticas que parecem um pouco em dissonância com o que vinha sendo apresentado até então. Um adendo dramático que enfraquece não apenas o texto esperto e cheio de frescor, mas também toda a energia do espetáculo.  

Em todo caso, vale a pena conhecer esse belo exemplo de dramaturgia sul-americana, além de prestigiar Eva e o afinado elenco nessa crítica ao falso vanguardismo e à pseudo-intelectualidade que permeiam o meio artístico como uma praga moderna.


Serviço:
Teatro Sesc Ginástico
De quarta a domingo às 19h
Ingressos a R$ 40,00 (sexta a domingo) e R$30,00 (quarta e quinta)
Até 23 de fevereiro de 2014

domingo, 24 de novembro de 2013

Prof! Profa!


O público carioca tem mais quatro semanas para conferir a talentosa Jandira Martini neste provocador monólogo que estreou na noite de ontem sob os mais calorosos aplausos. A peça, que vem de uma festejada temporada em São Paulo, agora faz uma curta passagem pelo CCBB do Rio. Nela, Jandira é uma ex-professora de literatura que cometeu um crime terrível e sua pena, além da prisão, é subir no palco e reviver sua história diante dos espectadores, dessa forma transformando as pessoas na plateia em confidentes. O texto original é do dramaturgo belga Jean-Pierre Dopagne, que foi por muitos anos professor da Universidade de Bruxelas e, portanto, também traz sua experiência como docente para a história.

O texto retrata com muito sarcasmo e acidez o inferno diário vivido pelos educadores que realmente tentam passar adiante seu conhecimento, em contraste com aqueles que simplesmente cumprem seu horário e deixam os alunos em “ponto morto”. Mas será que vale a pena travar uma batalha perdida contra jovens que não estão interessados em adquirir tal conhecimento? E qual é o custo emocional disso? Temas como choque de gerações e um sistema educacional em crescente empobrecimento são apenas algumas das questões apontadas.

Outra correlação interessante e bastante oportuna é a que se faz entre a sala de aula e o teatro. Ao colocar o espectador presente no espaço no mesmo lugar do aluno passivo, o texto arranca o tema do universo escolar e o leva não somente para o campo da arte, mas para a chamada vida adulta de um modo geral. Com falas provocadoras como “as pessoas que vêm ao teatro pagam para ouvir e ficar caladas”, a discussão se amplia para a tendência do ser humano ao comodismo e à resignação.


A encenação proposta por Dopagne e executada por Celso Nunes é bastante despojada: a atriz se apresenta em um palco quase nu – com exceção de uma mesa, uma cadeira e um cabideiro – e totalmente vestida de preto, tendo uma maleta como único adereço cênico. Uma concepção que faz eco ao conceito de “teatro pobre” proposto por Grotowski, mas também remete à essencialidade da clausura – seja religiosa ou penitenciária. Toda a atenção, portanto, se concentra no texto e na excelente interpretação de Jandira, que domina completamente o palco e tem os espectadores cativos durante os 60 minutos de duração do espetáculo. Talvez justamente por isso pareçam desnecessárias as intervenções que ocorrem através de vozes gravadas. Teria sido mais condizente com a proposta cênica que havia sido adotada até então que a própria Jandira se encarregasse destas passagens, mesmo porque a atriz já havia estabelecido intimidade com a plateia e assumido o papel de narrador brechtiano.

De todo modo, Prof! Profa! é um monólogo extremamente pertinente e que resgata o melhor do jogo de cena e da catarse que são próprias do universo teatral, além do atrativo extra de contar com uma atriz que domina perfeitamente seu ofício. Jandira pode até não ter se tornado professora (ou melhor, profa), mas também ela dá aula quando o assunto é representação.

Serviço:
CCBB – Teatro I, às 19h
De 23 de novembro a 2 de dezembro de sábado a segunda
De 5 a 22 de dezembro de quinta a domingo
Ingressos: R$ 10,00

sábado, 16 de junho de 2012

O Cara


Numa época em que se busca cada vez mais um teatro espetaculoso, com tantas recriações de musicais vindos da Broadway e peças que se apoiam em recursos como projeções, slides, enfim, sensações diversas emprestadas das artes visuais – em especial o cinema – e que tentam conquistar o espectador com encenações de encher os olhos e amortecer os sentidos, parece cada vez mais ousado colocar em cena um espetáculo que reduza seus atrativos ao binômio fundamental proposto por Jerzy Grotowski em sua definição de “teatro pobre”: ator e plateia.

Muitos entendem erroneamente tal conceito, deduzindo que ele traduz-se necessariamente em um trabalho carente de recursos financeiros. É bem verdade que essa linha de pesquisa teatral pode até ter como consequência promover uma maior democratização por dispensar os grandes aparatos, mas reduzir proposta artística tão rica ao patamar puramente financeiro é, no mínimo, limitado. O que se vê em um trabalho como O Cara é simplesmente a centralização da experiência teatral na figura do ator. Afinal de contas, é justamente o binômio ator-espectador a única condição essencial para que se faça teatro. Paulo Mathias Jr., a exemplo do que já havia feito Julio Adrião em A Descoberta das Américas, consegue, apenas com seu ótimo preparo corporal e vocal, ser narrador e personagem de si mesmo nesta história sobre poder, ambição e consumismo.

Ao entrar no espaço cênico do Centro Cultural Justiça Federal (que está deixando um pouco a desejar em suas instalações), o público é recebido pelo simpático ator, que toca num radinho jingles de sucesso e conversa com os espectadores enquanto estes se acomodam em seus lugares, principiando aí uma ótima estratégia para ganhar a cumplicidade da plateia. O que nem seria necessário, já que a interpretação do ator como Getúlio Batista, jovem e ambicioso publicitário de sucesso que quer da vida mais, sempre mais, é realmente bastante dinâmica e envolvente. Até mesmo nos poucos momentos em que o bom texto de Miguel Thiré se alonga um pouco além do necessário, Paulo não deixa o ritmo do espetáculo cair, mantendo a plateia ligada o tempo todo em cada gesto e inflexão, além de ser sempre muito claro e preciso ao delinear objetos, cenários e outros personagens. Ele é, de fato, o cara.

Vale a pena conferir o espetáculo, que fica até o dia 15 de julho no Centro Cultural Justiça Federal (Av. Rio Branco, 241), de sexta a domingo, às 19h.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

JT – Um Conto de Fadas Punk


A temporada está quase acabando, mas ainda dá tempo de compartilhar – e recomendar – a boa surpresa que foi assistir a este inteligente e divertido espetáculo. O texto é da jornalista Luciana Pessanha, que, baseada na polêmica real envolvendo uma fraude literária, criou este texto esperto, sarcástico e cheio de referências ao universo pop e à era das celebridades.

Em 1999 foi publicado o livro Maldito Coração, supostamente um relato autobiográfico de um adolescente traumatizado e que teria passado por todo tipo de abusos em sua infância. O mistério em torno da identidade do autor vai ganhando proporções épicas, já que ninguém sabe quem é este JT Leroy que se esconde da mídia e dá entrevistas somente por telefone. Quando JT finalmente aparece, a curiosidade em torno dele fica ainda maior, graças à sua figura andrógina, sempre oculta por trás de enormes óculos escuros. O rapaz teria fobia social e estaria sujeito a ataques de pânico, não sendo raro que saísse correndo dos eventos que participava.

Luciana Pessanha teve oportunidade de entrevistar JT Leroy em 2005, quando ele esteve em Paraty, participando da Flip. Alguns meses depois, veio a público o grande segredo: os livros de Leroy haviam sido escritos por Laura Albert, ex-cantora punk e escritora frustrada que havia inventado o personagem com o intuito de alcançar a fama. A pessoa que se apresentava como JT, na verdade, era sua cunhada Savannah. Na imaginação delirante de Laura, era preciso dar ao público o personagem esperado. A essa altura, Maldito Coração já havia sido filmado por Asia Argento e JT era cultuado por celebridades como Madonna e Bono Vox.


O texto de Luciana conta, de modo não-linear, a trajetória desta celebridade fabricada. Em uma era onde as pessoas matam e morrem por um pouquinho de exposição, cria-se um fenômeno da mídia conhecido justamente por sua reclusão ferrenha. No palco, Débora Duboc e Natália Lage encarnam essas duas metades de uma mesma personalidade. Muito interessante a discussão das duas, quando Laura expõe a mágoa de ser a verdadeira autora dos livros e Savannah questiona se os escritos teriam a mesma visibilidade sem sua interpretação pungente de um jovem soropositivo drogado e prostituído. Roberto Souza, Nina Morena e Hossen Minussi, com timing perfeito, dão vida às muitas pessoas que gravitam em torno das duas: amigos, fotógrafos, agentes e até mesmo a atriz e diretora italiana Asia Argento.

Repleta de projeções, música, som e fúria, a encenação dirigida por Susana Ribeiro sob supervisão de Paulo José é dinâmica e muito engraçada, ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão bastante séria sobre o poder do mito e o sempre difuso limite entre o marketing agressivo e a desonestidade. Em que ponto a criação do personagem JT deixa de ser uma representação artística inocente para se tornar uma fraude?

Quem quiser conferir este ótimo espetáculo deve se apressar. JT – Um Conto de Fadas Punk fica em cartaz no Teatro I do CCBB-RJ somente até o dia 27 de maio. Quarta a domingo, às 19h. Ingressos a 6 reais.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Vestido de Noiva 2012


A importância de certos textos teatrais transcende o que está escrito no papel, como é o caso de Vestido de Noiva, obra-prima de Nelson Rodrigues que é considerada marco inaugural da dramaturgia brasileira moderna. Encenada originalmente em 1943 em uma impactante montagem, a peça trouxe para o palco conceitos até então impensáveis, como a narração não-linear de uma trama que ocorre em três planos simultâneos e paralelos. Alaíde, a protagonista, é atropelada na primeira cena e, a partir daí, a trama se desenrola no plano da realidade (notícias sobre o acidente, médicos que tentam salvar sua vida), da memória (delirante e confusa, ela relembra fatos passados) e da alucinação (memórias reais se confundem com fantasias e obsessões). Isso faz com que grande parte da história, na verdade, se passe no subconsciente de Alaíde, cabendo ao plano da realidade fazer o cortante contraponto aos dramas psicológicos da atropelada, ou seja, os planos diferenciados são também estruturais e não meras passagens de tempo. 

Na montagem que ocupa a rotunda do CCBB atualmente, o diretor Caco Coelho aproxima esses planos não só em termos espaciais como também deixa mais difuso a separação entre eles, deixando que o tom imposto ao delírio invada o campo das recordações e até mesmo o da realidade. A decisão, embora possa ter o efeito colateral de confundir o espectador pouco familiarizado com o texto original, tem como saldo positivo proporcionar um espetáculo bastante orgânico e vibrante, onde está tudo interligado, deixando que também a plateia faça parte do impressionante espaço cênico. O espectador poderá ter impressões diversas ao longo de uma hora e quarenta minutos de espetáculo, vivenciando estar em meio a um cabaré, um circo, um globo da morte e, em determinados momentos, até mesmo dentro de um útero.

Contando em ordem cronológica, a história parece simples: Alaíde e Lucia são irmãs e rivais pelo amor de Pedro; Alaíde leva a melhor e casa-se com ele, mas logo fica entediada, já que tomou o namorado da irmã por capricho. Enquanto Lucia tenta recuperar o tempo perdido e se insinua para o cunhado, Alaíde encontra no sótão de casa o diário de uma cafetina assassinada 40 anos antes, tornando-se obcecada com a história. Atravessa a rua distraída, é atropelada e, agonizante na mesa de cirurgia, relembra sua história de amor, mas acaba por confundi-la com o que leu no diário de Madame Clessi.

O elenco demonstra bastante preparação corporal em uma concepção que se utiliza – e muito – de elementos da dança e do canto para impulsionar o ritmo do espetáculo, enquanto a parte vocal em determinadas passagens parece um pouco prejudicada pela demanda física que se exige dos atores, que correm, pulam e sobem escadas em ritmo alucinante, deixando a plateia igualmente agitada, alcançando uma atmosfera febril que vibra por todo o espaço cênico. Viviane Pasmanter se destaca no papel de Madame Clessi, dando o peso certo a um personagem fundamental, mas todo o elenco parece bem afinado e coeso, com uma identidade forte de teatro de grupo, de uma equipe que de fato se dedicou ao preparo dessa montagem de corpo e alma.


Confesso que a primeira impressão do espetáculo foi um pouco imprecisa, já que é difícil para quem é admirador dessa obra aceitar, em um primeiro momento, essa ideia de um Nelson Rodrigues mais, digamos, tropicalista. Dias depois, passado o choque inicial, o que foi visto ainda tem o poder de fervilhar na memória. Nelson Rodrigues certamente ficaria satisfeito com uma montagem que provoca tantas dúvidas e reflexão, já que ele mesmo declarava que “o verdadeiro teatro deve agredir sempre”. Não que a montagem em questão agrida, não seria essa a palavra, mas é certo que a explosão de hormônios, loucura e caos intencional criada por Caco Coelho abala as convicções que todos temos a respeito desse texto imortal.


O espetáculo fica até o dia 6 de maio no Centro Cultural Banco do Brasil, com ingressos (disputadíssimos) a 6 reais. De quarta a domingo, 21h. Vejam, sintam, analisem, concluam.

(Fotos:  Fabio Nagel / Divulgação)

Para ler texto anterior sobre Nelson Rodrigues e Vestido de Noiva, clique aqui.

domingo, 4 de março de 2012

O Que Você Gostaria Que Ficasse



Estreou na última sexta na Sala Multiuso do SESC Copacabana este original e comovente espetáculo. Descrito em seu programa como uma “experiência-performance-happening”, O Que Você Gostaria Que Ficasse propõe uma reflexão a partir da seguinte hipótese: e se, de repente, todas as pessoas do mundo simplesmente desaparecessem? Não importa se por uma epidemia, desastre natural ou qualquer outro motivo, o ponto de partida do espetáculo não são as razões e sim imaginar o que aconteceria a partir do fato. Por quanto tempo as luzes elétricas continuariam ligadas? Quantos dias nossos animais de estimação sobreviveriam trancados em nossas casas? Quanto tempo até que todos os papéis, CDs, filmagens, enfim, tudo o que registra nossa história desaparecesse sob a ação de fungos e bactérias? E se cada um pudesse escolher algo para ficar? O que você escolheria? Um quadro, um livro, um sorvete, um momento especial?

O Que Você Gostaria Que Ficasse nasceu a partir de uma pesquisa do grupo teatral Brecha Coletiva sobre o livro O Mundo Sem Nós, de Alan Weisman. Nele, o autor imagina, passo a passo, o processo de desaparecimento da história da humanidade, já que nenhum dos meios de preservação existentes perduraria para sempre sem que o homem estivesse presente para monitorar o seu funcionamento. Segundo o autor, bastariam duzentos anos para que desaparecesse qualquer vestígio de expressão artística. O espetáculo, embora seja fruto da pesquisa coletiva, é concebido e dirigido pelo integrante Miguel Thiré. Este é o terceiro trabalho de Miguel como dramaturgo. Os anteriores foram Superiores (indicado ao Prêmio Shell por sua pesquisa de linguagem) e 2 p/ Viagem.

Antes de tudo, é preciso esclarecer que o espetáculo, apesar de seu tema filosófico, é calcado num estilo de encenação extremamente dinâmico, interagindo com o público das mais diversas formas. Logo ao entrar no espaço cênico, o espectador perceberá que não há uma divisão clara entre plateia e elenco. Não apenas em termos de cenário, mas de interação mesmo. Pode ser que algum ator venha até você e pergunte o nome do seu melhor amigo ou sobre alguma canção que lhe traga boas recordações e depois você veja aquela sua resposta integrada à história de Maria (que em outra noite certamente terá outro nome). Através da história dessa personagem fictícia, criada a partir de fragmentos das histórias reais dos presentes, olhamos para dentro de nós mesmos e nos reconhecemos em momentos especiais como o primeiro beijo, uma crise profissional, a morte de uma pessoa amada.

O tempo todo, os “espect-atores” são incentivados (não obrigados, que fique bem claro, mas bastante estimulados) a contribuir das mais diversas formas. Com um desenho, uma música, uma pequena intervenção, desse modo possibilitando que cada um também deixe algo de si naquela noite de encontro e celebração. Aliás, celebração é melhor palavra para definir o que ocorre no espaço cênico, já que a sensação permanente ao longo daquela hora e meia de encontro (não é por acaso que a palavra “espetáculo” acabou substituída pela palavra “encontro”) não é a de lamentar o fim, mas de celebrar o que cada um pode preservar de bom, importante e vital. Impossível deixar de lembrar que tal espírito de celebração também está intimamente ligado ao que o teatro tem de mais essencial, remetendo aos cultos dionisíacos – não por acaso, o vinho foi um elemento muito presente na noite. E o mais interessante nessa proposta do Brecha Coletiva é que, mesmo aqueles que optarem por não interagir, certamente terão contribuído em suas mentes, imaginando sua própria lista de coisas que devem ficar eternizadas no tempo-espaço. Por fim, devemos destacar o carisma, empenho e verdade cênica dos atores Cynthia Reis, Eduardo Cravo, Jarbas Albuquerque, Raquel Alvarenga e Suzana Nascimento, incríveis em nos confundir na difícil arte de apagar as fronteiras entre o que é espontâneo ou ensaiado.

O Que Você Gostaria Que Ficasse fica em cartaz até o dia 25 de março na Sala Multiuso do SESC Copacabana. Sextas e Sábados às 20h e Domingos às 18h. Ingressos a R$20,00, (R$10,00 a meia-entrada e R$5,00 para associados do SESC). Em tempos nos quais o teatro carioca parece dominado pelo riso fácil e descartável, é muito importante que um trabalho deste nível de qualidade – e que prova, de uma vez por todas, que a alegria pode estar associada a algo de mais profundo – seja visto, comentado e, sobretudo, vivenciado. Não fique apenas aqui lendo esse texto, vá e seja parte. E aproveite para deixar lá o que for importante para você. Os deuses do teatro agradecem.


Miguel Thiré (ao centro) com o elenco

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Breu


Breu. Uma única palavra e tantos significados para um espetáculo. Ao entrar no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil, o espectador se sente intimidado e, ao mesmo tempo, acarinhado pela penumbra familiar de uma cozinha. Uma geladeira, um fogão, uma mesa, utensílios diversos. Ao começar o espetáculo, partimos da leve penumbra para o breu propriamente dito. Uma mulher fala no escuro. Sensação de curiosidade e angústia. A luz chega, ainda que tímida, com a entrada da outra personagem. Percebemos que a primeira é cega, mas esse é somente um dos sentidos – o mais literal – da escuridão que domina a sua vida. Naquela cozinha, naquela noite, as duas mulheres se estudarão em um jogo de segredos, desconfianças e revelações.

O espetáculo, que estreou na noite de ontem no Rio e fica em cartaz até março, vem de uma temporada de sucesso no CCBB de Brasília. A dramaturgia se desenrola a partir de um texto original de Pedro Brício, que é simplesmente um dos autores mais interessantes do teatro brasileiro atual, com uma maturidade dramatúrgica que contrasta sensivelmente com a sua ainda pouca idade. Depois de surpreender com textos mais efusivos e divertidos como A Incrível Confeitaria do Senhor Pellica e Cine-Teatro Limite, Brício agora investe em uma trama mais árida, tensa, cheia de silêncios e elipses.

No cenário extremamente realista, as personagens cozinham, lavam a louça, abrem janelas. O cheio do molho de cachorro-quente que preparam chega até nossas narinas. A brisa do ventilador pode alcançar espectadores dentro de determinado raio. O toque estridente do telefone faz sobressaltar a plateia inteira. Ou seja, somos envolvidos por nossos sentidos enquanto Kelzy Ecard e Andréia Horta se estudam através do grande tabuleiro que é o espaço cênico, medindo cada palavra, gesto, pergunta. Primeiro parece que Carmen, personagem de Kelzy, domina a situação; depois, aos poucos, percebemos quanta fragilidade se esconde por trás do seu jeito despachado. Também percebemos que Aurora está longe de ser a mocinha ingênua e insegura que nos parecera a princípio. Seriam todas as teorias de Carmen meras neuroses, transferidas para o público?


Existe mais breu em cena do que a deficiência física de Carmen. É a escuridão da alma, dos pesadelos, a cegueira política de um país inteiro mergulhado em trevas. Breu é um espetáculo estudado, medido, tenso. Na cenografia precisa, na direção enxuta, no embate calmo – porém feroz – entre as duas atrizes em cena. Não é exatamente um espetáculo fácil, digerível. Mas, conforme dizia o mestre Nelson Rodrigues, “qualquer peça autêntica é um julgamento brutal”. É preciso destacar, ainda, o impressionante domínio do espaço cênico demonstrado por ambas as atrizes, que planam com desenvoltura entre obstáculos físicos e emocionais para nos entregar uma atuação de tirar o fôlego.

A dica? Se puderem, sentem-se em uma das cadeiras disponíveis dentro de cena. A sensação de intimidade é incomparável.

Breu. Texto: Pedro Brício. Direção: Maria Silvia Siqueira Campos e Miwa Yanagizawa. Com Andréia Horta e Kelzy Ecard. De quarta a domingo, às 19h30, no Teatro III do CCBB. Ingressos a R$ 6,00. Até 11/03/2012.


Fotos: Paula Huven

sábado, 14 de janeiro de 2012

A Cripta de Poe


Ontem, em plena sexta-feira 13 – a data não poderia ter sido mais apropriada – estreou o fascinante espetáculo A Cripta de Poe, nascida de uma fértil parceria entre duas companhias teatrais, a brasileira Companhia Nova de Teatro e a italiana Cia. Teatro del Contagio. Tomando como sugestiva locação o Castelinho do Flamengo e suas escadarias, salões e recantos, o grupo monta uma dramaturgia inspirada não somente nos contos, mas em toda a atmosfera lúgubre reinante na literatura de Edgar Allan Poe.

OK, eu sei que a minha opinião é meio suspeita. Eu amo Poe. Claro que uma pessoa que tem um corvo e a palavra nevermore tatuados no braço não poderia deixar de curtir essa peça. Mas creiam-me: o espetáculo é capaz de fascinar qualquer espectador que se deixe levar pelo caldeirão de sensações proposto pelos encenadores. Com o auxílio de projeções, fumaça, iluminação tétrica, portas batendo, sons estridentes, muito pancake no rosto e preto nos figurinos, o elenco, durante pouco mais de uma hora, nos conduz a uma febril viagem pelo mundo de pesadelos e delírios do grande escritor americano. Sim, é uma peça itinerante; e esse é um dos grandes baratos: não saber o que nos espera a cada novo patamar ou salão.

Em cena, os brasileiros Matheus Prestes, Rosa Freitas e Carina Casuscelli se juntam aos italianos Omero Affede e Carmen Chimienti para interpretar a dramaturgia criada a partir de fragmentos retirados dos contos/poemas O Espectro, Ligéia, O Retrato Oval, Berenice e William Wilson, além, é claro, da obra-maior de Poe, O Corvo. Numa boa sacada, as projeções dos textos feitas nas paredes auxiliam o público a compreender as falas ditas pelos atores italianos. Vale dizer que ambos são tão claros e expressivos que a legendagem nem me parece tão necessária, mas, de todo modo, é uma solução prática e eficiente para a platéia brasileira.

O melhor de tudo? Trata-se de um espetáculo gratuito. Dá uma alegria danada ver um espaço tão bacana e geralmente tão mal-aproveitado como o Castelinho do Flamengo sendo ocupado por um espetáculo desse nível. A Prefeitura do Rio e a Secretaria de Cultura realmente deveriam incentivar mais propostas assim. A temporada de A Cripta de Poe vai até 5 de fevereiro, com apresentações às sextas e sábados às 21h e domingos às 20h. A classificação etária é de 14 anos. A noite de estreia acabou sendo um pouco tumultuada pelo fato da peça comportar em média 15 espectadores e a produção, numa atitude bastante simpática, ter feito um esforço para atender aos 27 presentes. Claro que isso acabou prejudicando um pouco a logística do espaço cênico, então creio que das próximas vezes o público deve ficar restrito a 15 espectadores mesmo. Minha dica é: deem uma passada por lá cedo, uma hora antes, deixem o nome na lista e retornem depois. No mais, é só abrir a mente e a alma para essa experiência rumo aos recantos mais arrepiantes da existência humana. Bons pesadelos para todos.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Judy Garland – O Fim do Arco-Íris



Estreou sábado no Teatro Fashion Mall Judy Garland - O Fim do Arco-Íris, o novo espetáculo de Charles Möeller e Claudio Botelho. Trata-se da adaptação nacional para o texto do britânico Peter Quilter (que, aliás, estava presente à estreia) que vem sendo um enorme sucesso no West End londrino desde o ano passado. Vale lembrar que a peça estreará na Broadway somente em 2012, o que configura mais uma conquista impressionante para essa dupla cujo trabalho já é sinônimo de alta qualidade no teatro brasileiro.

Aqui na nossa versão, Claudia Netto arrasa no papel de 
Judy Garland, mãe de Liza Minelli e lembrada principalmente como a Dorothy do clássico O Mágico de Oz. O espetáculo acompanha os conflitos por trás de uma temporada de seis semanas que a estrela – que viria a falecer no ano seguinte – fez em uma casa noturna de Londres em 1968. Inspiradora de biografias, minisséries e documentários diversos, Judy Garland é até hoje uma personagem fascinante e controversa, retrato de uma Hollywood tanto glamorosa quanto desmedida. No caso de Judy, habituada pela mãe desde muito jovem a tomar pílulas o tempo todo para render melhor – prática incentivada pela própria MGM, é bom lembrar –, as consequências não poderiam ter sido mais desastrosas. Citando a própria peça, ela "estava sempre tão dopada que quase voava na estrada de tijolos amarelos sem precisar do tornado".

O resultado, anos depois, é aquele mostrado no espetáculo: com apenas quarenta e sete anos, Judy era uma mulher infeliz, endividada, torturada pela solidão apesar de seus muitos amores, dependente de comprimidos e álcool. Ainda uma diva quando conseguia subir ao palco, tinha contra si o fato de estar cercada de pessoas que a bajulavam como estrela, mas não enxergavam a carência de afeto por trás de sua exuberância. A única exceção, talvez, fosse o amigo Anthony, pianista inglês que a acompanhava há anos e presenciou a fatídica turnê. Anthony é interpretado com delicadeza e carisma por Gracindo Júnior, enquanto Micky, quinto e último marido de Judy, é personificado pela bela figura de Igor Rickli (de Hair).

Existe uma confusão muito recorrente aqui no Brasil entre musical, como gênero, e espetáculos que, de alguma forma, contenham músicas. Musical propriamente dito é quando a ação é interrompida para que o elenco cante e dance músicas que, em geral, foram escritas para ajudar a contar aquela história. O Fim do Arco-Íris é outro departamento: trata-se de um drama que tem números musicais, pelo fato de ter como pano de fundo os bastidores das apresentações da biografada, mas é, sobretudo, um drama - ou uma tragédia, se preferirem.

Talvez justamente por não ser um musical, a opção dos diretores foi manter todos os números com seus arranjos e letras originais, mesmo porque estamos falando de clássicos absolutos como For Once in My Life, Just in Time, Smile e That’s Entertainment, além, é claro, da emblemática Over the Rainbow. Uma banda composta de seis músicos acompanha Claudia Netto, que impressiona não somente pela potência vocal, mas também pela carga de dramaticidade que confere a cada canção. Que comoção eletrizante paira sobre toda a plateia ao vê-la cantando, com ar desamparado, How Insensitive (que eu particularmente considero uma das letras mais doloridas já escritas sobre separação). Do início divertido e espirituoso até o desfecho comovente, Judy Garland – O Fim do Arco-Íris é um espetáculo denso e muito emocionante sobre o entardecer de um dos maiores mitos de todos os tempos. Imperdível!

Judy Garland – O Fim do Arco-Íris segue no Teatro do Fashion Mall até 12 de fevereiro de 2012. Quintas às 18h, sextas às 21h30, sábados às 21h e domingos às 20h. Ingressos a 80,00 (qui e sex) e 100,00 (sab e dom).


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Obituário Ideal


Depois de uma pequena temporada no Sesc Copacabana reestreou ontem na Casa de Cultura Laura Alvim o espetáculo Obituário Ideal, escrito, co-dirigido e interpretado pelo talentoso Rodrigo Nogueira (já indicado ao prêmio Shell anteriormente por Play). O texto parte da solução nada convencional que um casal de trinta e poucos anos encontra para driblar o tédio existencial e a rotina: frequentar enterros de desconhecidos e, desse modo, conseguir extrair de si mesmos emoções verdadeiras e profundas. A esposa (vivida por Maria Maya) é enfermeira e ele, professor de matemática. Ambos levam uma vida confortável, moram em uma casa arrumadinha e usam roupas impecáveis, enfim, parecem um casal de comercial de margarina. Mas alguma ausência os corrói por dentro, o que faz com que iniciem esse passatempo, que logo se transforma em um vício como outro qualquer. Antes que perceba, o casal passa a negligenciar tudo o mais em busca do enterro mais triste, da morte mais sinistra, da maior emoção, do obituário perfeito.

A televisão onipresente que anuncia tragédias e mantém-se ligada como trilha sonora incidental durante toda a peça é uma solução bastante criativa e que torna a trama ainda mais rica com suas intervenções bizarras. Narrado por Maria Beltrão, o noticiário faz rir nas horas mais inusitadas com sua profusão de membros esquartejados, personalidades midiáticas assassinadas e todo tipo de desgraça, levando também o espectador à sensação – familiar aos protagonistas – de ficar indiferente diante do trágico. O único senão é que a gravação por vezes abafa um pouco a voz dos atores, problema que certamente só deve atingir os que estiverem sentados mais para o fundo do teatro (que foi o meu caso).

O texto, repleto de humor negro e pérolas como “morte de velho não emociona” ou “em enterro de rico eles metem aqueles óculos escuros enormes e ninguém chora”, é redondinho e bastante divertido, além de ser muito bem interpretado pelos atores. Maria Maya e Rodrigo Nogueira demonstram ótima química e muito entrosamento em cena, o que faz com que o espetáculo ganhe um ar descontraído e um ritmo ágil. Também a direção leve de Rodrigo e Thiare Maia contribui para o bom resultado final. Longe de pesar a mão, a encenação toma o caminho da farsa, do exagero calculado, da inversão de valores, mas tudo isso sem nunca perder o foco. OK. A partir de determinado ponto o espectador já pode pressentir qual será o desfecho, mas isso em nada atrapalha o prazer de assistir a essa peça tão bem-escrita e encenada. Vale a pena conferir.

Obituário Ideal fica até o dia 11 de dezembro, na Casa de Cultura Laura Alvim. Sextas e sábados às 21h, domingos às 20h. Ingressos a R$ 30,00. Vale a pena conferir.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Wicked


A quantidade de musicais exibidos no chamado West End londrino só é comparável à Broadway. Tem desde clássicos como Grease e Os Miseráveis até novidades menos ortodoxas como Shrek, o Musical. Um amigo que esteve há pouco em Nova York tinha me falado maravilhas desse Wicked e, quando eu soube que a peça também estava em Londres, quis aproveitar minha estadia na cidade para vê-la. Em primeiro lugar, por ser um dos poucos musicais cuja trama ainda não foi adaptada para o cinema e nem trazida para os palcos brasileiros. Confesso, ainda, que fiquei atraída pela frase publicitária: “a história não contada sobre as bruxas de Oz”.

Chegando ao imponente Apollo Victoria Theatre, só o palco coberto já chama a atenção. Um mapa enorme cobre toda a sua extensão e, no alto, um gigantesco dragão de asas abertas parece pronto a voar sobre a plateia. Ao longo do espetáculo, o mapa dá lugar a todo tipo de cenário, desde uma sala de aula até a corte de maravilhas do Mágico de Oz. Cenários enormes e complexos entram e saem de cena com rapidez impressionante, enquanto o elenco canta e dança.

Mas falemos da trama. Baseado no livro de Gregory Maguire, Wicked pega como gancho a conhecida história do Mágico de Oz para fazer um retrocesso no tempo e investigar as origens de Elphaba, posteriormente conhecida como “a bruxa malvada do Oeste”. O que a teria levado a se tornar tão malvada (wicked)? Descobrimos que Elphaba e Glinda, a bruxa boa, foram amigas em uma escola de bruxaria (seria Hogwarts?) e que a jovem tímida sempre foi discriminada por sua coloração verde, mas, por outro lado, era protegida da diretora por seu talento inquestionável. Já Glinda era bonita e coquete, mas nem de longe tão talentosa quanto Elphaba.


Elphaba sempre almejou conhecer o poderoso Mágico de Oz e qual não foi sua decepção quando conseguiu realizar seu desejo e descobriu que o ídolo era, na verdade, um sujeito manipulador e um mago medíocre que se aproveitava de jovens como ela para fazer sua fama. Íntegra, Elphaba se recusa a participar da farsa e é perseguida, tornando-se, assim, a bruxa malvada do Oeste que foi derrotada por Dorothy. Já Glinda joga de acordo com as regras e consegue fama, sucesso e o amor do rapaz por quem ambas se apaixonaram. Ou não foi bem assim?

Rachel Tucker e Louise Dearman são as atrizes que atualmente interpretam Elphaba e Glinda e podemos dizer que as duas são a alma do espetáculo. Numa rara produção onde as protagonistas são duas mulheres, as moças são ótimas cantoras e atrizes, criando sempre um contraste equilibrado e interessante entre as personalidades dessas duas amigas tão improváveis.


Cheio de metáforas profundas e inteligentes, o espetáculo encanta não apenas por sua excelência em termos artísticos, mas também pela tocante história. Por trás de toda cor, luzes, música e dança, há uma séria discussão sobre preconceito, imagem pública e sobre o quanto a opinião alheia acaba influenciando a percepção que uma pessoa tem de si própria. Muito interessante também é o pano de fundo escolar, quando os professores animais são proibidos de lecionar e é tirada deles a condição de “humanos”, trancando-os em gaiolas onde eles desaprendem a falar. Qualquer semelhança com a perseguição nazista aos judeus não é mera coincidência.

E tudo isso embalado por canções incríveis, diálogos irônicos e afiados, interpretações tão boas quanto as vozes (nem sempre isso acontece em musicais), cenários majestosos, figurinos impecáveis e efeitos especiais dignos do cinema hollywoodiano. Resumindo, Wicked é um musical para encher os olhos, acarinhar os ouvidos e alimentar o coração, uma raríssima combinação de espetáculo grandioso com conteúdo dramático de primeira classe. Uma das melhores coisas a que eu já assisti, de verdade.


Já existe um boato por aí de que Salma Hayek (que, para quem não sabe, é a produtora por trás do sucesso Ugly Betty) está correndo atrás dos direitos para transformar Wicked em uma minissérie de seis capítulos para a TV. Vamos torcer para que a ideia se concretize e para que o resultado seja digno do incrível espetáculo teatral que o inspirou.


sábado, 11 de setembro de 2010

Marina


Confesso que me sinto em dívida com os caríssimos leitores por ainda não ter falado aqui sobre esse espetáculo maravilhoso que é Marina. Ontem fui assisti-lo pela segunda vez, carregando comigo alguns novos adeptos para apreciar o trabalho preciso e irretocável apresentado pela Cia. Pequod. Em cartaz com seu sétimo espetáculo, a companhia dirigida por Miguel Vellinho especializou-se numa vertente teatral extremamente difícil de realizar (ao menos, realizar bem) e que nem sempre obtém o reconhecimento que merece: o teatro de animação. Arte constantemente confundida com o teatro infantil, a manipulação de bonecos e objetos é feita de encantos e sutilezas passíveis de deslumbrar espectadores de qualquer faixa etária.

Basta estar com a mente aberta e o coração idem para penetrar no universo marinho criado no Teatro III do CCBB e se deixar comover pelo conto da sereia rebelde que ousou querer ser gente e pagou um preço alto por isso. Aqui, o tradicional conto da Sereiazinha de Hans Christian Andersen (esqueçam a versão açucarada da Disney) é embalado pelas canções do mar de Dorival Caymmi e emoldurado por uma deslumbrante cenografia composta por quatro aquários enormes, dentro dos quais serão manipuladas as marionetes aquáticas, além dos mais diversos elementos sensoriais.

O público que for assistir a Marina terá a oportunidade rara de estar em um espetáculo que mexe com todos os sentidos. Em um casamento perfeito entre sons, cores, formas e texturas, os excelentes atores-cantores-ilusionistas da Cia. Pequod levam o espectador para dentro de seu universo mágico, e o que é melhor, com total domínio de sua arte. Vale muito a pena conferir! Prestem atenção na perfeitas transição de proporções e na interação entre os atores e seus respectivos personagens em animação.

Em tempo: a peça está sendo exibida em duas versões. Marina, o espetáculo adulto, acontece de quarta a domingo, às 20h. Ingressos a inacreditáveis 10 reais (inteira) e 5 reais (meia-entrada). Já a versão infantil da peça é apenas aos sábados e domingos às 18h e tem entrada gratuita, mediante a retirada de senhas. Mais informações com o Centro Cultural Banco do Brasil no telefone 3808-2020.

sábado, 22 de maio de 2010

Perdoa-Me Por Me Traíres


Estreia neste final de semana no teatro da Casa de Cultura Laura Alvim uma interessantíssima montagem para o clássico de Nelson Rodrigues, Perdoa-Me Por Me Traíres.

Com uma estrutura complexa – como costumam ser as obras de Nelson –, a peça conta uma conturbada tragédia familiar. Glorinha é uma adolescente órfã, que vive com o tio rígido e carrega o trauma de saber que a mãe se suicidara e o pai enlouquecera quando ela tinha apenas dois anos. Mas, como toda ninfeta rodrigueana, Glorinha esconde malícia e dissimulação por trás da aparência angelical. Também o tio Raul carrega pecados inconfessáveis e taras proibidas e, num intrincado jogo de idas e vindas no tempo, somente aos poucos toda a verdade sobre aquela família e suas tragédias é revelada.

O ator e diretor Cláudio Handrey realiza um espetáculo extremamente impactante, valendo-se de recursos simples para ressaltar toda gama de conflitos psicológicos e sexualidade latente sublinhados pelo texto. Alternando com inteligência a abordagem realista e a simbólica, o resultado é um espetáculo vibrante e esteticamente rico. O cenário é básico e funcional, concebido para realçar o trabalho dos atores. A iluminação cheia de dramaticidade é um show à parte, com destaque para a cena do aborto de Nair. De arrepiar. O elenco é afinado e bastante homogêneo, demonstrando ótimo entrosamento e trabalho de equipe. Percebe-se, ainda, que os atores não tem pudor em ir fundo na intensidade dramática proposta por seus papeis, o que tem tudo a ver com o universo rodrigueano e suas obsessões e revela-se cada vez mais uma ousadia em tempos da ditadura do naturalismo.

Muito legal mesmo. Vale a pena conferir.


Perdoa-Me Por Me Traíres. Texto de Nelson Rodrigues. Direção de Claudio Handrey. Com Leonardo Miggiorin, Claudio Handrey, Charles Davis, Breno Guimarães, Bianca Montanas, Andressa Lameu, Alice Motta, Patricia Ramalho, Tamires Nascimento, Fabiana Aveiro e Manuellita Lustosa. Casa de Cultura Laura Alvim, sextas e sábados às 21h e domingo às 20h. Até 01 de agosto.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Simplesmente Beth


Para aqueles que ainda não conseguiram ver a incrível transmutação de Beth Goulart em Clarice Lispector, o Teatro SESI Rio (Av. Graça Aranha, 1 - Centro) oferece uma última chance. O espetáculo Simplesmente Eu, Clarice Lispector segue até o final deste mês às terças e quartas, 19h30. O valor do ingresso, 40 reais, infelizmente não é mais aquele camaradinha do CCBB, mas tampouco é a extorsão praticada em alguns teatros da Gávea/Leblon. De todo modo, vale muito a pena ver o tour de force da atriz, que, sozinha num palco quase nu, mantém cada espectador na palma da mão durante uma hora de confissões, memórias e divagações da grande musa da literatura brasileira. Simplesmente incrível!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Ensaio Sobre Carolina


Um dos grandes baratos de assistir a uma peça ou a um filme do qual pouco ou nada se sabe é a possibilidade de ser surpreendido. E eu confesso: o motivo inicial de ter ido ao espetáculo Ensaio Sobre Carolina foi o fato de ter recebido um convite, já que ainda não conhecia o excelente trabalho da companhia teatral Os Crespos. A informação básica de que dispunha sobre a peça foi que tinha como ponto de partida o livro Quarto de Despejo, Diário de Uma Favelada, escrito no início dos anos 60 pela catadora de papel Carolina Maria de Jesus. Na época, a tiragem de 14 mil exemplares esgotou rapidamente e o relato foi traduzido para 13 idiomas. Carolina estudou somente até o segundo ano do ensino fundamental e era moradora da favela do Canindé. Logo me preparei para assistir a um espetáculo engajado e sisudo. Engano meu. Engajado, com certeza; sisudo, de modo algum.

O grupo formado pelas atrizes Maria Gal, Lucélia Sérgio, Mawusi Tulani, Joyce Barbosa e pelo ator Sidney Santiago (dos filmes Os Doze Trabalhos e O Signo da Cidade) é oriundo da ECA (Escola de Arte Dramática da USP) e convidou para a direção deste espetáculo seu ex-professor José Fernando de Azevedo. A montagem tira partido de muito bom humor e doses cavalares de ironia para dramatizar, de forma episódica, trechos do diário de Carolina. A concepção cênica é simples e extremamente eficiente, formada por cadeiras dispostas por todo o espaço, sendo que este é delimitado por um varal com roupas dependuradas. A peça não separa os atores do público e literalmente acontece em todos os lugares, ao alternar os focos da ação e com os atores se deslocando entre as pessoas.

A abordagem proposta dribla com inteligência o tom panfletário e o sentimentalismo barato e torna ainda mais cortante os preconceitos sofridos não apenas pela personagem, mas pelo brasileiro em geral. O que Ensaio Sobre Carolina evidencia é que as agruras vividas pela protagonista, na verdade, são comuns a todo cidadão nascido negro ou pobre ou de algum modo desprovido de status social. O elenco, formado apenas por atores negros, se reveza no papel de Carolina e de seus diversos algozes, o que reforça essa idéia e ainda tem a vantagem extra de deixar a encenação bem dinâmica e ágil. Vale destacar que os atores vão fundo nesta linha de deboche e autoironia. Um momento curioso é quando eles ilustram os preconceitos sociais reproduzindo algumas piadas racistas e se pode sentir um certo ar de constrangimento pairando pela platéia.

O grupo utiliza o canto, a dança e a expressão corporal como ferramentas de representação, além de um telão em que imagens são por vezes projetadas em tempo real. E que domínio vocal e corporal tem o elenco! Com o auxílio do músico Giovanni Pereira, eles não somente interpretam como cantam o cotidiano de Carolina em músicas que tiram sarro dos grandes musicais da Broadway, com a diferença de que as letras, em geral, relatam privações terríveis. Perucas platinadas, vestidos de debutante e até a Globeleza servem de mote para a ferina crítica social, sempre usando para isso os próprios símbolos de subserviência que escravizam e discriminam. Genial mesmo. Numa cena teatral quase sempre dominada por comédias descerebradas ou musicais exuberantes, é preciso conhecer o vigor e a originalidade do trabalho da companhia Os Crespos. E considerando o valor módico do ingresso (10 reais), não tem desculpa para deixar de ir.

Serviço:
Ensaio Sobre Carolina, sábados às 20h e domingos às 19h, no Espaço Teatro de Anônimo da Fundição Progresso (Rua dos Arcos, 24 – Lapa – Telefones: 2240-2478 / 2524-0930). Ingressos a 10,00. Duração: 100 minutos. Até 25 de abril.