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quarta-feira, 12 de março de 2014

Azul é a Cor Mais Quente – a HQ


Seguindo com as leituras complementares, foi a vez de conferir a HQ da francesa Julie Maroh que deu origem ao filme de Abdellatif Kechiche e inspirou o título internacional do filme, que foi batizado em francês pelo cineasta como “A Vida de Adèle” – personagem que, aliás, se chama se chama Clémentine no livro.

A primeira coisa a ser percebida é que, embora quadrinhos e filme contem basicamente a mesma história, em termos de abordagem há bastante diferença. Enquanto Kechiche optou por carregar mais nas cores da polêmica – não somente nas cenas de sexo explícito, mas também em seu olhar sobre a sociedade francesa –, a HQ é muito mais poética e delicada e se concentra nos vários estágios pelos quais passa a relação de Clémentine e Emma. Tirando o conflito com os pais e uma passagem (reproduzida em uma cena do filme) em que Clémentine é hostilizada por uma colega na escola, há muito mais luta interna e autocensura do que interferências externas no relacionamento das garotas. Inclusive a consumação da relação entre as personagens é mais lenta e hesitante, marcada por indecisões e inseguranças. Os amigos artistas de Emma e toda aquela pressão sobre as escolhas profissionais de Clémentine sequer são retratados no livro. O foco está no processo de descoberta e aceitação da própria homossexualidade em uma época confusa como a adolescência e seus conflitos internos.

Graficamente, a HQ reflete essa delicadeza com tons pastéis e uma arte que lembra a aquarela. A paleta de tons esmaecidos das páginas contrasta sempre com as madeixas azuis de Emma, daí, para a narradora, a cor considerada fria ter se tornado tão “quente”. Muito bonito mesmo o trabalho gráfico, tendo como único senão o tamanho reduzido da letra em determinados balões. Em todo caso, Azul é a Cor Mais Quente é uma pequena obra de arte que vale a pena ter na estante. A edição brasileira é da Martins Fontes e custa entre R$30,00 e R$ 40,00. 

Clique aqui para ler sobre o filme.


domingo, 9 de março de 2014

12 Anos de Escravidão – o livro

Chiwetel Ejiofor como Salomon Northrup em uma cena do filme

Ao saber que o agora oscarizado 12 Anos de Escravidão fora baseado em um relato verídico publicado há mais de cento e cinquenta anos, logo surge a pergunta: por que ninguém conhecia esse livro antes? Evidente que com “ninguém” quero dizer o grande público – talvez historiadores e sociólogos já o conhecessem. Também não deixa de ser surpreendente que a descoberta do potencial cinematográfico dessa história tenha vindo pelas mãos de Steve McQueen, um cineasta que, não obstante a cor da pele, não apresenta uma filmografia marcada pelo engajamento em questões raciais. Por fim, o fato de também o roteirista John Ridley ter levado seu Oscar pela adaptação das tocantes memórias de Solomon Northup torna ainda mais interessante a leitura complementar deste livro.

Já no prefácio descobrimos que a história, na verdade, foi narrada por Northup a um redator chamado David Wilson. É preciso levar em consideração, ainda, que o objetivo primordial deste relato, mais que literatura, era o seu teor de denúncia. O estilo do texto (ou, pelo menos, do tradutor que o verteu para a língua portuguesa) é um tanto barroco. Também há um detalhismo por vezes desnecessário: são feitas descrições exaustivas não apenas a respeito das fazendas, mas também do processo de semeadura e colheita primeiro do algodão e, posteriormente, da cana-de-açúcar – quatro páginas, neste último caso. Ainda que tenha por finalidade inserir o leitor no universo retratado e na rotina diária do personagem, um pouco de concisão em um assunto tão secundário não faria mal. Por outro lado, a narrativa é rica em diversos particulares pouco elucidados pelo roteiro do filme, como, por exemplo, a transação que fez com que a posse do protagonista passasse do senhor tido como “bom” para o cruel.

Outro aspecto que chama muito a atenção neste livro é a própria atitude do protagonista. Se o Solomon Northup das telas demonstra claramente que está sujeito aos desmandos de seus senhores por pura questão de sobrevivência, o das páginas parece venerar genuinamente os brancos que o trataram com alguma humanidade, dando inclusive a impressão por vezes de que nunca teria lutado pela readquirir a liberdade caso permanecesse como propriedade de pessoas de bom coração. Em diversas passagens, mesmo condenando ferozmente o sistema escravagista, Northup não reprime um certo orgulho por ter se destacado dos demais escravos graças a seus talentos e inteligência. Uma ideia perturbadora, para dizer o mínimo.

Enfim, livro e filme são diferentes entre si, mas, de alguma forma, se complementam. Esse é um daqueles casos em que vale a pena ler o livro e ver o filme para formar um juízo mais completo sobre essa história inacreditavelmente verdadeira. 12 Anos de Escravidão possui duas edições diversas aqui no Brasil. A da Seoman costuma sair mais em conta, oscilando entre R$ 15,00 e R$ 20,00 nas livrarias. 

Clique aqui para ler sobre o filme.



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Paperboy - o livro


Antes de tudo, cabe esclarecer que Paperboy é um livro sobre o jornalismo. Através de uma família cujo pai e dois filhos se envolvem de uma maneira ou outra no ofício, Pete Dexter discorre sobre temas como talento investigativo, limites éticos e o jogo de vaidade e aparências desta profissão que costuma ser vista de modo excessivamente romântico por aqueles que não a praticam.

A história é narrada por Jack James, o “paperboy” a quem se refere o título. Seu pai é dono de um pequeno jornal e figura de destaque na cidadezinha onde vive e seu irmão mais velho é uma estrela em ascensão em um grande jornal de Miami. Talvez justamente devido a isso, Jack evita o quanto pode o chamado da profissão que parece correr nas veias dos James. Mas depois de sua breve carreira de nadador ter sido interrompida e a faculdade abandonada, só lhe resta retornar à casa paterna e trabalhar como entregador dos jornais do pai. Também seu irmão Ward retorna à cidade em companhia de um vaidoso colega para realizar uma reportagem investigativa que logo se mostra mais complicada e cheia de ramificações do que poderiam supor.

Certamente muitas pessoas que viram apenas a versão cinematográfica dirigida por Lee Daniels ficaram com uma impressão totalmente equivocada sobre essa história. Isso porque o diretor não somente deslocou o foco principal do livro, como também torceu fatos, alterou completamente alguns personagens e quis levantar questões pessoais que nunca estiveram em pauta no (bom) livro escrito por Dexter. Tudo que diz respeito ao assassino e sua noiva chave de cadeia, na verdade, é menos importante do que o processo como foi feita a reportagem em si e suas consequências na vida dos jornalistas envolvidos.

Paperboy é um livro muito bem-escrito e que interessará não somente aos profissionais do meio jornalístico, mas a leitores dos mais diversos perfis. Cabe ressaltar, porém, que não se trata exatamente do um thriller, conforme propagandeado em sua contracapa. Seu foco está muito mais nas armadilhas da profissão, que afetam os personagens de modo diverso: enquanto um deles se perde devido à embriaguez com o sucesso, outro sofre justamente por sua seriedade e apego obsessivo pelo trabalho bem-feito.

sábado, 15 de junho de 2013

Marco Vichi e os mistérios de Firenze

Não tem a mínima ideia de quem seja Marco Vichi? Não precisa se sentir desinformado, caro leitor. Eu também nunca tinha sequer ouvido falar nele até o ano passado, mas tudo mudou depois de ter vivido por alguns meses em Firenze, cidade natal do escritor. Vichi é um prestigiado autor do gênero policial famoso em toda a Itália, mas um verdadeiro mito em Firenze. Vale dizer que o próprio estilo policial noir (ou romanzo giallo, em italiano) atrai muito a atenção do leitor italiano. Se aqui no Brasil esse gênero de literatura costuma ocupar no máximo uma prateleira em meio às estantes de ficção, nas livrarias italianas existem setores inteiros dedicados a ele.

Marco Vichi é um fiorentino de 55 anos que fez sua estreia literária em 1999 com o romance L’Inquilino. Três anos depois, Vichi inicia a série protagonizada pelo Comissário Bordelli, personagem que o tornaria conhecido em toda a Europa. As tramas são ambientadas na Firenze dos anos 60 e o inspetor de polícia Franco Bordelli está sempre às voltas com crimes misteriosos e horrendos que desafiam sua coragem e perspicácia. Com um senso de moral todo próprio, o policial muitas vezes se sente mais à vontade entre malfeitores de bom coração do que entre as chamadas “pessoas de bem”. Solteirão convicto, Bordelli tem ainda um fraco por mulheres jovens, bonitas e independentes. Até o momento, o autor dedicou cinco romances ao personagem: Il Comissario Bordelli, Una Brutta Faccenda, Il Nuovo Venuto, Morte a Firenze e La Forza del Destino. Bordelli aparece, ainda, na graphic novel Morto Due Volte.

A literatura de Marco Vichi é altamente recomendável a todos os apreciadores do gênero, mas especialmente aos leitores de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Não são poucas as semelhanças entre o Comissário Bordelli e o delegado Espinosa de Garcia-Roza. Mas a literatura de Vichi vai além de seu personagem mais famoso. O autor também escreveu outros ótimos romances e diversas coletâneas de contos, sendo ainda curador de tantas outras, sempre dentro do gênero policial/noir. O denominador comum a toda sua obra é a incrível capacidade de prender a atenção do leitor, além da ironia fina e das descrições precisas de Firenze e das localidades em seu entorno (especialmente deliciosas para quem conhece a região). Mais recentemente, o escritor vem expandindo sua arte também para o teatro e para roteiros televisivos, além de ministrar cursos e laboratórios de criação na Universidade de Firenze. Vichi também escreve para diversos jornais e revistas italianos.

Marco Vichi venceu o prêmio literário Fedeli com Il Nuovo Venuto (2004) e o Giorgio Scerbanenco e o Camaione com Morte a Firenze (2009/2010). Coincidência ou não, são justamente esses dois livros os meus favoritos. Vichi ainda não foi publicado aqui no Brasil, mas em Portugal sim. Então quem tiver interesse e não puder lê-lo no original tem a opção de buscar as edições lusitanas. Fica a dica, vale muito a pena conhecer esse escritor. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Minha Semana Com Marilyn

Enquanto o filme Sete Dias Com Marilyn não estreia – a Imagem Filmes adiou a data novamente, empurrando-o agora para 27 de abril – uma boa pedida é conferir a história no material que serviu de inspiração para o filme, ou seja, no livro escrito por Colin Clark e lançado aqui no Brasil pela Editora Seoman. Nele, Clark narra, em forma de diário, os nove dias durante os quais se aproximou perigosamente de Marilyn Monroe e, por conta disso, esteve no olho do furacão de uma crise envolvendo estrelas como Laurence Olivier e Arthur Miller.

Os dias críticos ocorreram em 1956, na Inglaterra, durante a filmagem do longa O Príncipe Encantado, no qual Marilyn interpreta uma corista que, devido a uma série de imprevistos, acaba fascinando o príncipe interpretado por Olivier. É muito curioso perceber que, enquanto isso, nos bastidores, uma situação análoga ocorria: um simples terceiro assistente de direção – a pessoa menos importante em toda a equipe, na visão do próprio Clark –, também através de uma sequência de acontecimentos fortuitos, acaba partilhando da intimidade da maior estrela da época, alguém que dias antes sequer lhe dirigia a palavra.

Colin Clark tinha 23 anos de idade. Ele havia terminado a Universidade e não possuía nenhuma experiência profissional, conseguindo o emprego tão-somente porque seus pais eram amigos de Laurence Olivier e Vivien Leigh. Marilyn, recém-casada com o dramaturgo Arthur Miller, tinha 30 e era, à época, a maior e mais cobiçada estrela das telas. Como não é segredo hoje em dia para ninguém, a loura vivia dilemas profundos e se ressentia da imagem de “loura burra”, desesperada em provar seu valor como atriz séria. Trabalhar em um filme inglês com Sir Laurence Olivier parecia o modo ideal de perseguir o tão almejado respeito profissional, mas na vida real as coisas não ocorreram de modo tão mágico e, em meio à inevitável crise, o que possibilitou o testemunho direto de Colin (e este livro) foi simplesmente estar no lugar certo em momentos-chave.

Este livro não é nenhum diário. É um conto de fadas, um interlúdio, um episódio fora do espaço e do tempo que, no entanto, ocorreu na vida real. (...) Este livro se propõe a descrever um milagre – alguns dias de minha vida em que um sonho se tornou realidade e meu único talento foi não fechar os olhos.

Na verdade, Colin Clark fez mais do que não fechar os olhos e, anos depois, se propôs a escrever este relato, em forma de uma doce e sincera homenagem a como o inesperado convívio com Marilyn Monroe definitivamente tocou sua vida. Se o autor aumentou sua participação no episódio? Provavelmente sim. Suas palavras traem certa idealização, adotando sempre um ponto de vista no mínimo simpático à estrela. Nada contra, apenas é preciso deixar claro que a obra tem muito mais de romance do que de relato jornalístico – acredito até que essa sempre foi a intenção de Clark, conforme ele mesmo induz a pensar no trecho acima, retirado da introdução do livro. Outra faceta interessante do livro é mostrar quão facilmente um cronograma de filmagem pode sair do controle dos envolvidos devido a uma crise pessoal.

O afetuoso relato de Colin Clark abrange pouco mais de uma semana no verão de 1956 e não propõe nenhuma teoria ou estudo definitivo sobre o mito Marilyn Monroe; pelo contrário, adiciona ainda mais dúvidas sobre a personalidade de uma das mais controversas e multifacetadas estrelas de todos os tempos. Obrigatório para fãs de Marilyn e muito interessante também para cinéfilos de um modo geral. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret - o livro


Quem se encantou com o filme de Martin Scorsese pode complementar a experiência com essa beleza de livro escrito por Brian Selznick, lançado aqui no Brasil pela SM Edições. Mesmo as pessoas que não veem muito objetivo em ler um livro depois de já ter visto sua adaptação cinematográfica – não é o meu caso – poderão se surpreender com este aqui. A Invenção de Hugo Cabret, o livro, já foi concebido no papel como um produto cinematográfico. O texto é entremeado por páginas e páginas de imagens que vão muito além da ilustração decorativa, criando uma linguagem híbrida bastante rica. Algumas séries de desenhos, por exemplo, avançam a perspectiva a cada página, criando um originalíssimo efeito de zoom.

A metalinguagem também se faz presente, já que o livro é dividido em duas partes, anunciando já em sua diagramação quando a história do menininho órfão que vive na estação de trem ficará em segundo plano para que o personagem até então conhecido como tio Georges entre em evidência para que se conheça o misterioso passado que ele deseja renegar. E é justamente nessa segunda parte de uma mesma história que tudo ganha um sentido mais amplo e as diversas citações cinematográficas realmente se conectam à trama, ganhando, assim, um sentido mais profundo. Outras descrições são ainda mais diretas em sua evocação da sétima arte, como este trecho inicial:

“Antes de virar a página, quero que você se imagine sentado no escuro, como no início de um filme. Na tela, o sol logo vai nascer, e você será levado em zoom até uma estação de trem no meio da cidade. Atravessará correndo as portas de um saguão lotado. Vai avistar um menino no meio da multidão e ele começará a se mover pela estação. Siga-o, porque este é Hugo Cabret. Está cheio de segredos na cabeça, esperando que sua história comece.”

Mas o livro não é válido somente por seu formato interessante e sua belíssima apresentação. A Invenção de Hugo Cabret é um livro que pode até ser categorizado como literatura juvenil, mas sem que isso esteja associado a nada de simplório em termos intelectuais. Qualquer caráter que ele possa ter de didático está tão brilhantemente inserido em sua trama que sua leitura não somente esclarece e aguça a curiosidade de quem não está familiarizado com os assuntos mencionados como também enriquece a mente de quem está apto a reconhecer suas citações, referências e homenagens diversas.

É, ainda, um complemento necessário ao filme, já que detalha melhor várias passagens que são apenas mencionadas em sua versão para a telona. Somente através de sua leitura, pode-se ter uma noção exata da relação de Hugo com o pai e de como o autômato entrou na vida de ambos, por exemplo. Percebe-se, ainda, que Martin Scorsese, embora tenha realizado um filme bastante fiel em linhas gerais, abriu sua própria perspectiva sobre os personagens – e não poderia ser diferente, já que toda boa adaptação doa um pouco de seu realizador para o produto. Alguns personagens que são mais mencionados do que participantes da ação no livro ganham nova amplitude no filme, como é o caso do agente da estação, enquanto outros que são bastante expressivos no original foram sumariamente eliminados na transposição para o cinema, como é o caso de Etienne.

Outra boa notícia está no fato dos exemplares terem chegado às livrarias com um preço bastante acessível, coisa rara quando se trata de um livro ilustrado (o preço de tabela é R$42,00, mas, como algumas livrarias fazem ofertas em seus sites, é possível encontrá-lo até por menos).

Confiram abaixo algumas ilustrações do livro:





Para ler sobre o filme A Invenção de Hugo Cabret, clique aqui. 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Estrada Escura

Patrick Kenzie e Angie Gennaro estão de volta! Se esses nomes não lhe dizem nada, você certamente não é um leitor assíduo de Dennis Lehane, o autor mais interessante da atualidade no gênero policial. Mente criativa por trás das obras Sobre Meninos e Lobos, Paciente 67 e Gone Baby Gone, adaptadas para as telonas por Clint Eastwood, Martin Scorsese e Ben Affleck, respectivamente, Lehane tem como personagens constantes esses dois amigos de longa data que primeiro se tornaram sócios em uma agência de investigações e depois estenderam a sociedade para um apaixonado relacionamento, ao mesmo tempo em que desvendam casos que sempre envolvem a mais pesada escória do submundo de Boston, ou seja, traficantes de drogas, policiais corruptos, mafiosos com ligações internacionais, assassinos frios, estupradores, pedófilos, e por aí vai.

O charme dos personagens está no leve desprezo de ambos pelas autoridades oficiais e também no fato de nem sempre tomarem a atitude politicamente correta que se espera de heróis tradicionais. Assim foi com o já citado Gone Baby Gone, cujo desfecho da história sobre o sequestro de uma menina de quatro anos quase causou o rompimento definitivo do casal. Em Estrada Escura, Angie e Patrick voltam a se deparar com o maior esqueleto em seu armário: Amanda McCready, a menina sequestrada doze anos antes, volta a desaparecer misteriosamente aos dezesseis. Seria uma segunda chance para eles ou a assombração que destruiria de vez o equilíbrio emocional duramente adquirido?

Qualquer que seja o resultado, quem sai ganhando é o leitor, já que o estilo de Dennis Lehane continua afiado, intenso e capaz de deixar o espectador sem fôlego ao longo das pouco mais de 300 páginas de mais esta incrível aventura rumo aos piores aspectos da humanidade. Não é para corações sensíveis. Vale lembrar que é aconselhável (embora não totalmente indispensável) ter lido Gone Baby Gone antes.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Não Me Abandone Jamais – o livro

Algumas pessoas não veem muito sentido em leituras suplementares; ou seja, ler determinado livro depois de já ter visto o filme. Ou vice-versa. Nunca entendi muito bem esse tipo de pensamento, afinal de contas se conhecer o desfecho de alguma coisa atrapalhasse o prazer de conhecê-la em outro formato, isso invalidaria assistir a qualquer montagem de Shakespeare, por exemplo. Em todo caso, há muito tempo que o livro no qual foi baseado o filme Não Me Abandone Jamais está na minha lista de pendências. Pendência que consegui eliminar nesse finzinho de 2011 e que se revelou uma agradabilíssima experiência.

Embora o diretor Mark Romanek e o roteirista Alex Garland tenham sido bastante fiéis ao livro do japonês Kazuo Ishiguro, a leitura do original oferece toda uma nova coleção de nuances que não podem ser totalmente apreendidas somente assistindo ao (bom) filme. São duas obras bem parecidas, é verdade, mas, ainda assim, complementares. Creiam-me, mesmo já conhecendo de antemão a chocante condição dos personagens principais, é muito difícil não se emocionar ao reviver a história de Kathy, Tommy e Ruth.

A trama acompanha esses três personagens, criados em um idílico internato no interior da Inglaterra e suas primeiras descobertas sobre amizade, desejo, competição e, principalmente, acerca do inflexível destino já traçado para cada um deles. Com uma narrativa engenhosa, que revela tanto para o leitor como para os próprios personagens em doses homeopáticas a verdade duvidosa escondida por trás daquela vida aparentemente perfeita, trata-se de um livro que prende a atenção do leitor desde a primeira e enigmática página até o desfecho comovente.

Vale muito a pena ler, tendo visto ou não o filme. Fica a dica.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Nelson Rodrigues e Vestido de Noiva


Reza a lenda que um dia qualquer, em 1941, Nelson Rodrigues, recém-casado e imerso em apertos financeiros, passava em frente ao Teatro Rival quando viu uma enorme fila que se formava para assistir a uma chanchada e pensou: “por que não escrever teatro?” Assim, meio por acaso, nasceu o dramaturgo. Sua peça de estréia foi A Mulher sem Pecado, encenada no ano seguinte com pouca repercussão perante o público e a crítica.

Mas eis que, em janeiro de 1943, o autor escreve sua segunda peça: a revolucionária Vestido de Noiva. Hoje em dia ninguém mais duvida que Nelson Rodrigues desempenhou um papel vital na dramaturgia brasileira. E tal ruptura com todo um passado de influência européia se deu justamente com esta peça. Nela, o autor trabalha com simultaneidade de tempo e ação e planos dramáticos diferenciados, sem contar a até então inédita utilização de um ritmo narrativo picotado bastante próximo da linguagem cinematográfica moderna. Vestido de Noiva possui três atos com passagem de tempo indefinida entre eles. A ausência de linearidade cronológica situa a peça no teatro contemporâneo, de princípios realistas. O cenário é uma representação do subconsciente da protagonista: passado, presente e futuro se misturam e se influenciam, fazendo com que não haja uma verdade absoluta.

Cópias do texto foram enviadas a jornalistas, críticos e amigos. Dentre eles, Manuel Bandeira, que gostou e escreveu um artigo elogioso sobre ela. Os jornais falavam sobre Vestido de Noiva, mas, ainda assim, ninguém se dispunha a encená-la. Dizia-se que era uma peça inviável, que exigia cenário complexo e teria custo muito alto. Somente Thomaz Santa Rosa - ex-funcionário do Banco do Brasil, cantor lírico, desenhista, músico e poeta - achou que era possível. Juntou-se à trupe o polonês Zbigniew Ziembinski, que, recém-chegado ao Brasil, leu a peça e entusiasmou-se, dizendo não conhecer nada no teatro mundial que se comparasse a ela. A opinião foi profética, pois, passados mais de 60 anos, ainda não voltou a ocorrer no teatro nacional evento que supere a ruptura que Vestido de Noiva significou à época para os palcos brasileiros. O espetáculo, dirigido e iluminado por Ziembinski, provocou uma revolução estética graças à pioneira utilização de recursos do expressionismo na interpretação dos atores e na direção cênica.

Após sete meses de ensaios diários, em 28 de dezembro de 1943, mais de dois mil espectadores lotam o Theatro Municipal do Rio de Janeiro para a estréia. Ao fim, silêncio total na platéia. Nos bastidores ninguém sabia o que fazer. Ziembinski, entre palavrões em polonês, manda subir o pano. Os artistas surgem e o aplauso é ensurdecedor.

Podemos dizer que a dramaturgia nacional divide-se entre antes e depois de Vestido de Noiva. Sua estrutura, que segue três diferentes planos narrativos - realidade, delírio e memória -, é até hoje considerada inovadora. A trama parte de um argumento aparentemente simples: uma jovem toma o namorado da irmã e casa-se com ele, mas o rapaz não deixa de cortejar a cunhada e os dois chegam a desejar a morte da esposa que de traidora passa a ser a traída. Mas a trama noir que poderia daí advir não chega a se concretizar, pois antes que qualquer plano seja executado a indesejada esposa é atropelada, assim liberando o caminho para o casal de amantes. Contada assim, de modo objetivo e linear, a história não soa nada original. Pelo contrário, insinua até um certo anticlímax por prometer um grande mistério e acabar de modo tão prosaico e conveniente.

Mas é aí que entra a genialidade de Nelson Rodrigues, que montou sua história de um modo tão anti-convencional que fez a peça ganhar fama de “impossível de ser montada”. Em primeiro lugar, Alaíde, a esposa traída, parece não ter lá muito afeto pelo marido tão disputado. Seu interesse logo se desvia dele e transfere-se para uma inusitada descoberta que faz no sótão de sua casa: o diário de Madame Clessi, uma cafetina que morrera apunhalada pelo amante adolescente décadas antes. Alaíde fica tão obcecada por Clessi que passa os dias a tentar descobrir mais sobre ela. Alheia a tudo o mais, atravessa a rua sem olhar e é atropelada. O fato é mostrado ao espectador na primeira cena, fazendo de grande parte da trama um longo e surrealista flashback. Levada ao hospital com vida, é na mesa de cirurgia que Alaíde relembra sua vida. Nesses momentos finais, anestesiada e delirante, sua fantasia se mescla à memória.

Sempre suspensa por um quê de tensão, a história mergulha na mente da personagem. Perturbada e confusa, a protagonista descobre junto com a platéia pedaços de sua história, para só então juntá-los e enxergar no todo alguma coerência. Entre a vida e a morte, entre o delírio e a realidade, entre a sanidade e a loucura, todos nos tornamos Alaíde, ansiosos em entender o que se passara em sua vida até o fatídico atropelamento.

Talvez seja difícil para o público de hoje entender o grau de revolução que Vestido de Noiva representou não apenas para o teatro nacional, mas também considerando todo o contexto artístico de então. Embora nos dias atuais seja muito natural misturar recursos e linguagens de diferentes mídias, em 1943 o teatro seguia as regras estritas da linguagem teatral. Em Vestido de Noiva, Nelson trabalha com recursos do teatro, mas também da crônica de jornal (estilo fragmentado e cortante presente no plano da realidade) e do cinema (uso da voz em off, flashbacks, cortes bruscos). Sem contar que é uma tragédia desprovida de formalismo, que ousa utilizar a linguagem do dia-a-dia e colocar no palco a classe média e todas suas questões prosaicas.

Nelson Rodrigues escreveu Vestido de Noiva aos 31 anos. Era sua segunda peça e, para ele, apenas um meio de melhor sustentar a família. Certamente não imaginava que estava criando uma obra de referência, um símbolo de modernidade e um marco na ruptura com um teatro arcaico que a cena brasileira não poderia sustentar por muito tempo mais. Vestido de Noiva, casamento perfeito entre o popular e o erudito, uma inédita tragédia carioca com elementos do cotidiano, a colocar o dedo na ferida do dilema da mulher pré-feminista, enfim, uma revolução tão grande que o público da época não pode digerir em todas as suas ramificações. Afinal de contas, os grandes acontecimentos só com o devido distanciamento temporal podem ser devidamente avaliados.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Leite Derramado

Às vésperas da estréia da esperada versão cinematográfica de Budapeste – prevista para 22 de maio –, conferi o novo romance de Chico Buarque. Leite Derramado narra, em primeira pessoa, as memórias do centenário Eulálio Assumpção. Agonizante em um leito de hospital, o protagonista rememora não apenas sua vida mas também toda a saga de sua outrora ilustre família. Descendente de uma nobre estirpe que inclui um barão do Império e um senador da primeira República, Eulálio viu o prestígio e poder aquisitivo de sua família decair a partir de sua geração. Sem rumo desde que a esposa, Matilde, saiu de sua vida, foi um pai omisso para a confusa Maria Eulália. Cheio de descendentes que levam seu nome – neto, bisneto, tataraneto –, ele confunde e funde todos esses eulálios cujo parentesco não consegue mais distinguir.

Essas são apenas algumas das pequenas histórias que conta num fluxo de consciência, perdido entre delírios e lembranças. Dirige-se a uma enfermeira, à filha, ou a quem mais se dispuser a ouvir. Desrespeitando a ordem cronológica e menosprezando a acuidade, Eulálio é um narrador nada confiável, visto que falseia a própria história. E o leitor enreda-se nas idas e vindas do personagem, aos poucos montando o estranho quebra-cabeça de sua biografia. Algumas questões cruciais, como o destino da amada esposa Matilde, ficam abertas à interpretação. Outras aos poucos são desveladas a contragosto, como seu racismo e sua negação irracional do fato de ter se casado com uma mulata.

Em seu quarto romance, Chico Buarque distancia-se do tom kafkiano de suas obras anteriores e segue em um estilo diverso, porém igualmente genial. Com naturalismo e singeleza, o autor cria uma narrativa refinada, cheia de associações diretas e indiretas. Através de suas mentiras e omissões, Eulálio deixa entrever mágoas seculares e feridas não cicatrizadas. O título do livro, que parece abstrato a princípio, faz todo sentido quando terminada a leitura. Uma curiosidade: comenta-se que um dos primeiros leitores dos originais foi Rubem Fonseca, que recomendou a Chico que trocasse o título.

Para quem é fã do nosso grande compositor-cantor-dramaturgo-escritor, a dica é obrigatória. E aqueles que ainda não conhecem sua porção literária, certamente se encantarão com sua maturidade e domínio da arte literária.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Mais Woody Allen


Mais um pouco da sinceridade desconcertante do cineasta:

- "É verdade que depois de alguns filmes eu parei de pensar em popularidade e no público, ou no que escreviam sobre os meus filmes, mas não por arrogância, nem algum sentimento de superioridade. Só porque essa parte do processo - a chamada gratificação - não estava me deixando feliz, nem satisfeito. As pessoas muitas vezes tomam erroneamente a minha timidez por indiferença, mas não é. Eu precisava de um centro espiritual e, sendo ateu, isso é difícil de encontrar. Então experimentei uma espécie de apatia em relação ao sucesso ou fracasso e, é triste dizer, em relação à vida em geral. Tanto o sucesso como o fracasso provaram não significar muito para mim do jeito que pensei que fossem significar quando comecei. Nenhum dos dois contribui muito para a solução dos verdadeiros problemas da vida."

(extraído de Conversas com Woody Allen, livro imperdível de Eric Lax)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Sandálias da Humildade


- "Tenho uma visão muito realista de mim mesmo. Algumas pessoas acham que é humildade excessiva, ou até mesmo falsa modéstia, quando digo que nunca fiz um grande filme. Quando eu dramatizo minhas observações da vida, dizem que é cinismo. Mas não é nada disso, em nenhum dos casos. Estou dizendo a verdade. Não me vejo como um artista. Eu me vejo como um cineasta trabalhador, que escolheu seguir no rumo de trabalhar o tempo todo em vez de fazer dos meus filmes algum evento especial do tapete vermelho de três em três anos. Não sou cínico, e estou longe de ser um artista. Sou um sortudo viciado em trabalho."

(o gênio Woody Allen e a visão totalmente deturpada que tem da importância de sua obra, em trecho do excelente livro Conversas com Woody Allen, de Eric Lax)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Conversas com Almodóvar

O livro, escrito a partir de entrevistas que o cineasta espanhol concedeu ao crítico de cinema Frédéric Strauss ao longo de uma década, traz em sua contracapa uma advertência pra lá de verdadeira: “Depois de ler Conversas com Almodóvar, o leitor terá vontade de rever os filmes aqui comentados”. É a mais pura verdade, ler Almodóvar falando sobre seus filmes é simplesmente apaixonante e o desejo de rever seus filmes sob sua ótica vem num impulso imediato. Depois de ler o livro, me peguei curiosa para dar uma nova conferida até mesmo nos longas que não são meus preferidos, justamente por ter ficado com uma nova impressão deles através da percepção plena de significados mostrada pelo autor.

Mas Almodóvar vai além de dissecar os dezesseis longa-metragens que realizou em vinte e seis anos: o cineasta discorre sobre sua vida, família, iniciação na sétima arte, influências e até relacionamento com os atores. Ficamos sabendo, por exemplo, detalhes sobre as dificuldades de Gael García Bernal para atuar travestido de mulher em Má Educação e também sobre o deterioramento da longa parceria entre Almodóvar e sua musa Carmen Maura. Outro aspecto interessante é o fato de Almodóvar não possuir uma educação formal na área de cinema e, a despeito disso, conhecer tão profundamente cada etapa da realização de um filme, da elaboração do roteiro a detalhes minúsculos a respeito da cenografia ou do figurino.

Mais do que tudo, o leitor sente em cada declaração a paixão e sinceridade com que Almodóvar vivencia sua arte, nunca colocando as conveniências comerciais acima de sua visão artística privilegiada. Leitura obrigatória para qualquer um que se considere amante não apenas do cinema, mas de qualquer expressão artística.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Zodíaco

Por mais que a imaginação humana seja capaz de inventar perversões, não existe história de horror mais impressionante do que a realidade. O serial killer conhecido como o Zodíaco aterrorizou São Francisco por décadas, sem que nunca se tenha chegado a uma conclusão satisfatória sobre sua identidade. Um mistério tão intrigante quanto o de Jack, o Estripador e que perdurou por muito mais tempo, já que o assassino zombou da polícia e da imprensa por anos a fio. O mais desconcertante no Zodíaco é que, ao contrário da maioria dos serial killers, ele não seguia um padrão rígido. Seus assassinatos não eram ritualisticamente repetidos nos mínimos detalhes. Ele parecia estar mais interessado em confundir as autoridades e provar a própria esperteza de que propriamente em seguir padrões. Por isso, o número de vítimas nunca será conhecido com exatidão.

Tudo começa em 1969, quando três jornais recebem três diferentes cartas, cada uma contendo parte de uma mensagem cifrada. O autor, que se auto-intitula “O Zodíaco”, fornece detalhes só conhecidos pela polícia sobre o assassinato de três pessoas e a tentativa de homicídio de uma quarta e exige que as cartas sejam publicadas, do contrário mais pessoas morreriam. Mesmo tendo seu desejo atendido, as mortes e as cartas se multiplicam, deixando cidadãos em pânico e autoridades desnorteadas. David Toschi, detetive responsável pelo caso, vira celebridade, assim como o repórter Paul Avery. Mas é Robert Graysmith, um tímido cartunista que trabalha no mesmo jornal que Avery, quem chega mais perto de solucionar o caso. Recentemente, li o livro de Graysmith que relata minunciosamente a cronologia dos assassinatos, bem como o rumo das investigações policiais e suas próprias pesquisas para o livro. A leitura por vezes pode ser pesada por seu excesso de detalhamento, mas sem dúvida é um trabalho intrigante e completíssimo. Zodíaco, o livro, também me fez reavaliar o filme homônimo realizado em 2007.

Com uma história dessas e um nome como David Fincher na direção, a expectativa a respeito do filme era das maiores. Afinal de contas, à frente do projeto estava o cara que revitalizou o gênero com o cultuadíssimo Seven – Os Sete Crimes Capitais e ainda dirigiu o surpreendente e polêmico Clube da Luta. Este foi o terceiro filme feito sobre o Zodíaco: os anteriores foram The Zodiac Killer, de 1971 (o filme deve ser muito ruim, já que o diretor Tom Hanson encerrou a carreira por aí) e O Zodíaco, de 2005. Sem contar Perseguidor Implacável (primeiro dos filmes de Dirty Harry), também de 1971, que mostra Clint Eastwood caçando um serial killer que ataca em São Francisco chamado Scorpio.

A idéia inicial para a nova versão era criar uma ficção em cima dos fatos relatados por Robert Graysmith no livro. Mas quando o roteirista James Vanderbilt e o produtor Bradley Fischer, dois apaixonados pela história, conseguiram os direitos do livro, acabaram optando por uma adaptação fiel. O que criou um problema de ordem dramatúrgica, já que, como a identidade do Zodíaco nunca foi confirmada e o principal suspeito nem chegou a ser preso, não existe exatamente um desfecho para a trama.


O filme é muito bom até a metade, quando o ritmo fica arrastado e o espectador tem a impressão de que pouca coisa está acontecendo na tela. Perto do final, ganha fôlego novamente. Não é que o longa tenha um grande defeito, é mais uma falha em segurar a atenção do espectador – como Seven faz ao longo de toda a projeção. O que nos leva à questão que seria, no final das contas, a grande deficiência do filme: Zodíaco tem 158 minutos. Nada contra filmes longos, desde que tal duração seja justificada. Não é. Daí a sensação de quebra no ritmo narrativo. O que é uma pena, porque fora isso o filme tem todos os elementos certos: uma história interessantíssima, um clima de suspense bem estabelecido e trilha sonora caprichada. Sem contar o elenco de primeira, encabeçado pelos ótimos Jake Gyllenhaal (Robert Graysmith) e Robert Downey Jr. (Paul Avery). Rodado com câmeras digitais de alta definição e com um orçamento de US$ 85 milhões, era para ser o thriller do ano. Não foi isso tudo, mas o saldo final ainda pende para o positivo. Vale reservar um tempinho (ou melhor, um tempão) para conferir a produção.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Pensamento do Dia


"Mas o pano de fundo se rasga, os cenários desaparecem e o elenco é devorado pela peça. Há um assassino na matinê. Há cadáveres na platéia. Os produtores e atores também não estão certos se o show terminou. Com olhares oblíquos, esperam suas deixas. Mas a máscara apenas sorri."

- Alan Moore & David Lloyd (V de Vingança - tomo 2)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Maria Antonieta


“Se o povo não tem pão, que coma brioches”. A frase, atribuída a Maria Antonieta, entrou para a história como um dos mais notórios símbolos de despotismo e indiferença de um governante para com seu povo. No entanto, pesquisas históricas mostram que muito do que ouvimos falar sobre a princesa austríaca que se tornou rainha da França aos 18 anos e foi decapitada pela Revolução Francesa aos 37 não passa de lenda urbana. Incluindo aí a tão famosa frase, que já havia sido atribuída a outros membros da nobreza pelo menos cem anos antes do reinado de Luís XVI e Maria Antonieta.

Acabei de ler há pouco Maria Antonieta, biografia escrita pela inglesa Antonia Fraser que serviu de base para o filme de Sofia Coppola. A autora realizou uma meticulosa pesquisa, que culminou numa visão completamente diferente e humanizada da personagem. No lugar da vilã absolutista, uma adolescente que, aos catorze anos, é empurrada para um casamento arranjado com um príncipe estrangeiro. Uma mera engrenagem num acordo de boa convivência entre a França e a Áustria. Antonieta sempre foi vista com desconfiança na corte de Versalhes pelo simples fato de ser estrangeira e era chamada desdenhosamente de “a austríaca” pelas costas. Acredita-se, inclusive, que o principal fator para que o tímido Luís XVI tenha levado anos até consumar o casamento tenho sido o pavor que sempre lhe fora incutido a respeito dos “ardilosos” e “malignos” austríacos. Um belo dia, seu avô resolve fazer aliança com os antigos desafetos e, de quebra, lhe arruma uma noiva da dinastia até então odiada. Dá para entender a demora para rolar “um clima” entre o casal.

Inadaptada ao ambiente de intrigas e fofocas e entediada com as rígidas normas cerimoniais, Maria Antonieta realmente tinha como principal passatempo gastar dinheiro e fez do desbunde sua marca registrada. Roupas, festas, caprichos, enfim, o sonho da maioria das adolescentes tornado realidade numa escala descomunal. Mas suas extravagâncias apenas seguiam o ritmo de uma corte exuberante, que não só incentivava como exigia uma rainha resplandecente. Mesmo porque como rainha consorte – e não de direito – sua autonomia era muito reduzida.

Com os ventos da Revolução Francesa soprando cada vez mais fortes, Antonieta passa a simbolizar tudo que o povo odiava na nobreza como um todo. Mais uma vez, sua origem torna mais fácil vilanizá-la. Como a adoração pela monarquia ainda estava muito enraizada nos corações franceses, os cidadãos menos radicais ainda tinham resquícios de afeto e respeito pelo rei. Era mais confortável, então, transformar “a austríaca” numa manipuladora que desvirtuava um rei bem-intencionado. A figura altiva e elegante de Maria Antonieta, em contraste com o gorducho e desajeitado Luís XVI, também ajudava a cristalizar essa imagem. Não que isso tenha ajudado muito o infeliz monarca, que, no final das contas, acabou decapitado antes de sua odiada rainha.

O que as pesquisas de Fraser mostram simplesmente é que ambos eram dois jovens despreparados que tiveram o azar de reinar numa época em que a revolta do povo estava num nível onde a explosão seria inevitável. Bodes expiatórios de um sistema prestes a ruir, apenas as pessoas erradas no momento errado. No livro, um contemporâneo da Revolução ilustra bem o clima da época ao declarar seu espanto com o fato de justamente o rei mais pacífico e bonachão que a França já teve acabar na guilhotina. Vale lembrar que seus antecessores, o absolutista Luís XIV (aquele do “O Estado sou eu”) e o devasso Luís XV, tiveram reinados longos e inquestionados.

Um livro revelador e impactante, com uma linguagem bastante simplificada, que certamente mudará a visão sobre o tema dos que o lerem. E o mais curioso é perceber que a maior parte das intrigas, traições e hipocrisias descritas em Maria Antonieta não são exclusividade da Corte de Versalhes e nem do século dezoito.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Buda e o Budismo


A história do budismo se confunde com a saga de Siddharta Gautama - o Buda. Nascido por volta de 621 a.C. numa região onde hoje encontra-se o Nepal, era filho único do rei da nação Sakya, Suddodana, e da rainha Maya. Logo que o príncipe nasceu, o rei recebeu a visita de um velho sábio que profetizou que seu filho libertaria a humanidade do sofrimento. Mas o rei desejava que seu herdeiro o sucedesse no trono e, assustado com a profecia, fez com que qualquer vestígio de decadência ou dor fossem sempre mantidos longe de Siddharta. Assim, ele cresceu saudável e feliz, ignorando os males da vida. Passava os dias nos palácios de seu pai e desconhecia tudo o que não estivesse ali inserido. Casou-se aos 16 anos com a bela Yasoddhara, e tinha uma vida perfeita. Apesar disso, algo lhe inquietava, e Siddharta desconhecia o porquê de sua insatisfação. Aos 29 anos, um pequeno incidente desencadeou a descoberta de sua vida: ouviu uma canção linda e triste num idioma que desconhecia. Perguntou à Yasoddhara de que se tratava e esta respondeu que falava de terras distantes. Intrigado, indagou se existiam lugares tão belos como ali. Preocupada com a curiosidade do marido, a princesa disse que fora daqueles muros só havia sofrimento. Mas o príncipe não sabia o que era sofrimento e Yasoddhara logo percebeu seu erro, mas já era tarde. Siddharta decidiu que precisava ver o mundo.

O rei havia previsto esse dia e estava preparado: mandou recolher todos os velhos, doentes e pobres para que o filho saísse num luxuoso cortejo. Assim, Siddharta vislumbrava o mundo maquiado por seu pai e estava quase convencido de que sua angústia não tinha razão de ser, quando avistou na multidão dois monstros - pareciam humanos, mas eram tortos e suas peles, enrugadas. O príncipe interrogou seu criado quanto às causas daquela aberração. Channa sabia que não devia responder, mas não se conteve: “São homens, meu senhor. A idade destrói a memória, a beleza e a força.” Ao saber que aquele era o destino de todos, Siddharta abandona o cortejo e sai pelas ruas vendo tudo que lhe fora vedado por toda sua vida. Miséria, doença e, para culminar, um cortejo fúnebre. Tomado por uma dor até então inédita, o príncipe percebe que não poderá ser feliz enquanto não descobrir uma maneira de quebrar aquele ciclo - nascimento, velhice, morte. Ali mesmo, tira suas jóias e pede a Channa que troque de manto com ele. O príncipe dos Sakyas abandona o palácio e sua família e parte em busca de respostas.

O primeiro passo de Siddharta foi se juntar aos ascetas - sábios que acreditavam que a iluminação era resultado de uma severa mortificação do corpo. Ficavam imóveis, não tomavam banho, comiam insetos e bebiam a água da chuva. Siddharta experimentou tais provações, mas compreendeu que aquele não poderia ser o caminho. Um dia, escutou um professor de violino, que dizia a seu aluno: “Se esticar demais ela arrebenta. Se ficar frouxa, você não consegue tocar.” A referência era à corda do instrumento, mas Siddharta compreendeu que era válido para a vida humana também e daí surgiu uma das bases da filosofia budista, o “Caminho do Meio”, ou seja, do mesmo modo que uma vida de excessos é destrutiva, também a mortificação não leva a nada. “Aprender é mudar”, concluiu.

Após seis anos de busca incansável, Siddharta já havia experimentado de todas as religiões e não se satisfazia com nenhuma. Conta a lenda que foi então que sentou-se sob uma figueira, determinado a só se levantar dali quando obtivesse suas respostas. Mara, o deus dos infernos, sabendo que o príncipe estava vivendo sua última encarnação, fez uma última tentativa de afastá-lo do Nirvana e enviou suas cinco filhas para tentá-lo: eram os demônios do orgulho, avareza, medo, ignorância e desejo. Mas nenhuma das inúmeras formas de sedução que usaram fez sequer com que ele abrisse os olhos. Mara então enviou as forças dos elementos - relâmpagos, tempestades, trovões. O príncipe mantinha-se sereno e refugiado na armadura da meditação. Finalmente, o ardiloso Mara tentou confundi-lo com seu reflexo, representando seu ego. Em vão, pois Siddharta acabara de descobrir as Quatro Nobres Verdades. Foi então que, aos 35 anos, tornou-se Buda (o Desperto).

Buda viveu até os 80 anos, dedicado a disseminar sua doutrina por toda a Ásia. Era uma alma errante e seus únicos bens eram seu manto e uma tigela para receber comida. Hoje, passados 2.500 anos, o budismo está presente em todo o Oriente e a cada dia conquista novos adeptos no Ocidente. Em cada país, desenvolveu-se uma nova vertente: Zen (Japão), Tibetano, Ortodoxo (Tailândia), etc.

As Quatro Nobres Verdades

1- A existência do sofrimento. Perder o que amamos, não alcançar o que desejamos, velhice, doença, morte. Não se sofre como punição por algo e sim, porque é condição natural do ser humano;

2- O homem sofre porque deseja e se apega a esses desejos. Seja por não alcançar o objeto de sua cobiça, seja por possuí-lo e ter medo de perder. Não aceita que as coisas vêm e vão e quer retê-las eternamente;

3- O único modo de libertar-se dessa incessante roda de desejos e frustrações é praticar o desapego. Não há nada de errado em desfrutar das coisas boas da vida, desde que se compreenda que elas são impermanentes;

4- A quarta verdade é a própria filosofia budista, o caminho para transcender as correntes do eterno renascimento, cuja conduta se divide em oito de ações que devem ser feitas de modo correto: percepção, pensamento, fala, comportamento, meio de vida, esforço, atenção e concentração.

A Impermanência

O homem está em constante mutação e, ainda assim, tem a ilusão de um “eu”. Constrói uma imagem de si próprio e se agarra a ela. Não existe um “eu” permanente, pois hoje não somos os mesmos que éramos ontem. Vivemos novas experiências, evoluímos, mudamos de opinião. Mas fazemos um esforço enorme para continuar correspondendo ao modelo que escolhemos para nossa vida. Planejamos obsessivamente o amanhã ou nos agarramos ao passado, quando é o presente que mais importa.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Devorando Shakespeare

A editora Objetiva iniciou em 2005 uma coleção muito legal, intitulada Devorando Shakespeare. Nela, autores nacionais recriam num contexto contemporâneo comédias do bardo imortal. A coleção tem três volumes até agora: Trabalhos de Amor Perdidos, por Jorge Furtado; A Décima Segunda Noite, por Luis Fernando Verissimo; e Sonho de Uma Noite de Verão, por Adriana Falcão.

Trabalhos de Amor Perdidos, no original, conta a história de um rei que convoca três amigos nobres para que, juntos, se dediquem a cultivar o espírito e o conhecimento. Os tolos estabelecem que passarão três anos estudando, longe das festas e das mulheres. Mas a chegada de uma princesa e suas belas damas de companhia ao reino faz com que eles se arrependam imediatamente de seu juramento, dando início a uma série de mal-entendidos, disfarces, identidades trocadas, etc. O cineasta Jorge Furtado, com seu humor peculiar e sua habilidade de ser erudito de forma divertida, transforma os nobres em estudantes beneficiados por uma bolsa de estudos de uma fundação americana. Um deles é Robin, um ator brasileiro desempregado que, na companhia do americano Duck e do canadense Gavil, se mete em versões contemporâneas das trapalhadas dos nobres medievais.

Noite de Reis, a peça, narra a história de Viola, donzela que durante um naufrágio perde-se de seu irmão gêmeo Sebastião e vai parar numa ilha desconhecida, governada pelo Duque Orsino. Viola se disfarça de homem e vai trabalhar para o duque, por quem se apaixona. Mas ele está apaixonado pela Condessa Olívia, que logo se apaixona pelo simpático rapaz que leva os recados de Orsino, ou seja, a própria Viola. Está armada a confusão, tendo como tema a troca de identidade – uma constante shakesperiana. Já na história de Verissimo, que batizou seu livro com a tradução literal do original, Orsino é um cabeleireiro italiano que tem um salão em Paris e adora tudo que vem do Brasil. Viola vira Violeta, brasileira que pretende morar clandestinamente na França e cujo irmão gêmeo fica retido na alfândega. Sozinha e desesperada, tem o telefone de um contato que promete lhe arrumar um emprego na salão de Orsino. Só tem um problema... ele só contrata homens! O resto vocês já podem imaginar. O grande diferencial é o fato de todas essas peripécias serem narradas por Henri, um papagaio metido a intelectual.

A lírica Sonho de Uma Noite de Verão narra os desencontros amorosos de dois pares: Hérmia, que é prometida a Demétrio mas ama Lisandro; Lisandro, que a ama mas não tem a aprovação de seu pai; Demétrio, que abandonou Helena em prol de Hérmia; e Helena, que ainda ama Demétrio loucamente. Interferindo na sorte dos amantes e criando ainda mais confusão, o ciumento rei dos elfos, Oberon, e sua geniosa consorte Titânia, rainha das fadas. Adriana Falcão transformou Titânia, Oberon e seu séquito em moradores do Olimpo que, seguindo ordens de Hera, descem à Terra numa comitiva que tem como objetivo investigar a existência dos seres humanos, depois que uma pesquisa de opinião revelou que 52% dos espíritos acham que os mortais não existem. Eles têm exatamente quatro dias para cumprir sua pesquisa. Animados, se lançam na Terra e caem em Salvador, em meio à loucura do carnaval baiano. É claro que o leitor que conhecer as obras originais vai se divertir em dobro, mas as tramas não são excludentes. Basta saber apreciar uma história bem-humorada e inteligente.