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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Jurassic World


Remakes, reboots e infinitas sequências. Desse modo vem funcionado uma parcela substancial do cinema americano. As produções com material requentado têm um foco maior no reaproveitamento de ideias e franquias que deram certo entre os anos 80 e 90. Em sua maioria, as novas versões são cópias pioradas, feitas sem esmero nenhum e destinadas a agradar somente a um público que nunca assistiu aos filmes originais. Também Jurassic World (cujo primeiro filme é de 1993) faz parte desse já batido universo de reciclagem, mas, contra todas as expectativas, o filme funciona ao apresentar novos ângulos e inesperados toques de ironia.

O novo parque temático com dinossauros deixou para trás as tragédias anteriores e funciona a todo vapor, movido por muita eficiência, alta tecnologia e rígidos protocolos de segurança. Afinal, agora milhares de pessoas visitam diariamente o magnífico complexo cujas atrações fariam empalidecer qualquer coisa que seus concorrentes sonhem em oferecer. Só que simplesmente ver de perto dinossauros deixou de ser extraordinário. O parque, bem como seus patrocinadores, tem sede de novidades constantes. Como é dito em um diálogo, “animais maiores e com mais dentes”. E como falar em limites na manipulação genética se a própria recriação de um dinossauro já os ultrapassou todos?


O debate por si só já seria interessante, mas o curioso é que tanto o desejo cego de quem oferece a diversão em agradar como a ânsia e excitação do público pelo “novo” remetem à própria produção do filme, que, devido aos incessantes avanços tecnológicos, também tem a obrigação de entregar ao espectador dinossauros mais terríveis, verossímeis e assustadores do que há duas décadas. E a expectativa é atendida. As criaturas têm um nível absurdo de perfeição de movimentos e expressões faciais, o que torna todas as sequências em que aparecem eletrizantes.

Chris Pratt, impulsionado ao estrelato em Guardiões da Galáxia, se firma de vez como a melhor opção atual para herói de ação. O rapaz tem um carisma infalível e seu estilo “macho alfa, mas gente boa” (há, inclusive, uma boa piada no filme a respeito) faz com que o espectador simpatize com ele, independente de sexo ou faixa etária. Sua parceira Bryce Dallas Howard infelizmente não se sai tão bem, aprisionada no superado arquétipo de mocinha vaidosa que corre dos dinossauros sem quebrar o salto do sapato – o que é literalmente classificado como “ridículo” em uma fala, mas ela segue adiante. Os diálogos espirituosos, aliás, são outro ponto forte do filme. Destaque para o personagem de Jake Johnson, um nerd do controle de segurança apaixonado por dinossauros. Já as inúmeras referências e correlações com Jurassic Park são uma simpática piscadela ao público trintão que vibrou há 20 anos com o longa de Spielberg.


O que não funciona? O 3D é desnecessário e por vezes chega mesmo a atrapalhar, borrando alguns detalhes. Também o exageradíssimo embate final deixa um gostinho de frustração, por exigir demais da suspensão da descrença. É nesse ponto que Jurassic World vira um filme de ação óbvio, coisa que vinha lindamente evitando até então. Mas ok. São detalhes de um longa que, no geral, cumpre o que promete com mérito. O diretor Colin Trevorrow, dono de uma filmografia até então inexpressiva, certamente com este trabalho carimba seu passaporte para novos desafios.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Frank


Esse filme, exibido nos Festivais de Sundance e do Rio do ano passado, é daqueles do tipo ame ou odeie, já que sua narrativa trabalha o tempo todo no limite do surreal. Jon é um músico amador que, aproveitando-se de uma situação emergencial, consegue ser aceito como tecladista da banda cult liderada pelo misterioso Frank, gênio musical que não deixa que ninguém o veja sem uma enorme cabeça de papel machê. Frank busca inovação e perfeição a todo custo e, para a gravação do novo álbum, convoca todos para um retiro em uma cabana isolada. Por quanto tempo? Pelo tempo que for preciso para que o trabalho fique impecável.

O longa foi concebido como uma homenagem ao músico e comediante Chris Sievey, que se apresentava nos anos 70 e 80 com esse personagem. Como Frank é desconhecido no Brasil, o público por aqui precisa, antes de tudo, vencer a estranheza quanto à gigantesca cabeça falsa. Reza a lenda que Sievey era de fato cheio das esquisitices, mas cabe também lembrar o quanto o conceito de normalidade é relativo, mutável e abstrato. Em uma cena, um dos músicos diz a Jon que Frank é a pessoa mais sã que ele conhece. Conforme o filme se desenrola, pode ser que o espectador concorde. Da mesma forma que Tim Burton transformou o fracassado Ed Wood em um ingênuo encantador, Lenny Abrahamson nos faz aceitar a pureza insana de Frank.

Michael Fassbender, um dos atores mais prestigiados do momento, demonstra desprendimento total de sua (bela) imagem ao assumir esse personagem bizarro em um filme de pequeno alcance no qual, para culminar, ele precisa atuar caracterizado como um boneco de Olinda. Completam o elenco os sempre ótimos Domhnall Gleeson e Maggie Gyllenhaal.

Resumindo, Frank é daqueles filmes sobre os quais não adianta desenvolver argumentos racionais. Com uma galeria de personagens incomuns e uma abordagem por vezes perturbadora, o espectador gostará ou não do filme norteado pelo aspecto emocional e por seu envolvimento e imersão. Ou não. Certamente alguns vão achar uma bobagem e desdenhá-lo, enquanto outros (como esta que vos escreve) vão se deixar conquistar. 

quarta-feira, 18 de março de 2015

Mapas para as Estrelas


Não é de hoje que David Cronenberg gosta de explorar personagens limítrofes. E que melhor cenário para promover um freak showdo que o delirante universo das estrelas hollywoodianas? O roteiro multiplot de Mapas para as Estrelas gravita em torno de uma fauna de personagens com os mais variados distúrbios, tais como: Havana, atriz obcecada em atuar no remake do filme que a mãe fez antes de morrer; Benjie, ex-astro mirim e adolescente problemático em fase pós-reabilitação; Sanford, pai de Benji que fez fortuna como guru da TV e dos famosos; Agatha, jovem cheia de queimaduras e misteriosos propósitos, suposta amiga virtual de Carrie Fisher. O filme, que foi exibido em Cannes (Julianne Moore foi premiada melhor atriz) e no Festival do Rio do ano passado, finalmente ganha as telas brasileiras. 

Mapas para as Estrelas é uma metralhadora incansável de referências, piadas e sarcasmo. Os diálogos são afiadíssimos e o espectador tem que estar atento para não deixar escapar nenhuma das tantas menções a astros da vida real, já que a zoação em cima dos famosos é um dos aspectos mais divertidos do longa. O longa não deixa espaço para o meio-termo: a meca do cinema vista pelas lentes de Cronenberg é feroz e implacável, retratada através de um exagero intencional. O filme não quer mostrar o outro lado da moeda e sim focar no que há de mais doentio, superficial e bizarro por trás dos contratos milionários, das festas badaladas e de todo o jogo de aparências de pessoas que vendem mais do que uma imagem – pela visão do filme, a própria alma.


Com uma estrutura de roteiro onde todos os atores têm oportunidade de brilhar, o elenco responde à altura. Julianne Moore atua em dois níveis, como a Havana que ela mostra ao mundo e aquela que realmente é. Também Mia Wasikowska chama atenção com sua Agatha cheia de estranhezas físicas e, principalmente, emocionais. Mas o grande destaque do filme é o adolescente Evan Bird. Egresso da TV, Evan rouba a cena como o egocêntrico e perturbado Benjie. Destaque para a cena da sua reunião com os executivos do estúdio.

Esse é um dos filmes que devem ser priorizados na grade do cinéfilo, mesmo porque provavelmente não deve durar muito em nosso circuito comercial.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Blind


Exibido nos Festivais de Sundance, Berlim e do Rio, chega aos nossos cinemas em circuito reduzidíssimo este belo e intrigante longa norueguês. Blind ultrapassa as barreiras de seu sugestivo título e cria um leque de sensações que acaba por envolver o próprio espectador. 

Depois que a visão lhe abandonou, Ingrid reluta em sair de casa e passa os dias a tomar chá diante de uma janela através da qual não pode ver mais nada. Ela desenvolve, ainda, a incômoda impressão de que o marido volta para casa silenciosamente para observá-la. Já Einar tem problemas afetivos e não consegue se aproximar do sexo oposto, o que faz com que ele consuma pornografia compulsivamente e desenvolva fantasias secretas com mulheres que vê pelas ruas.  Elin deixou suas raízes e amigos na Suécia por conta de um amor e agora que a relação terminou, leva uma vida solitária e triste em Oslo. O que estes dois personagens teriam em comum com Ingrid, além da solidão?

O filme parece a princípio se resumir a um (bom) drama existencial, porém não tarda a apresentar novas e inesperadas camadas. O roteiro esperto coloca em evidência a percepção que cada um tem da realidade através de um hábil jogo de verdadeiro ou falso, que se torna sempre mais intenso conforme avança a projeção. Vale destacar, ainda, a estética do filme e como sua luminosa fotografia destaca a atriz Ellen Dorrit Petersen, mais uma vez trazendo o espectador para dentro da trama ao colocá-lo em uma posição de voyeurismo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Livre


Chega aos cinemas Livre, filme que vem sendo exaustivamente comparado a Na Natureza Selvagem. Claro que a semelhança dos títulos em inglês (Wild / Into the Wild) reforça ainda mais essa impressão, mas Livre não se limita a ser uma versão feminina do filme de Sean Penn, mesmo porque a abordagem da história e as motivações dos personagens são diferentes. Baseado em uma experiência real, a trama acompanha a solitária travessia de uma americana de vinte e poucos anos através de uma longa e exaustiva trilha. Cheryl acredita que será capaz de superar traumas emocionais e encontrar a paz através da exaustão física. Assim como os peregrinos que buscam se purificar no Caminho de Santiago, ela espera renascer ao fim dos quase dois mil quilômetros da Pacific Crest Trail.

O canadense Jean-Marc Vallée entrega um filme bem mais interessante do que o seu longa anterior, Clube de Compras Dallas. Neste novo trabalho, felizmente Vallée consegue evitar a manipulação sentimental e tratar a trama de modo adulto. Não que seja um filme revolucionário em algum sentido, mas é um drama bastante honesto que vale o ingresso. O argumento poderia ter resultado em mais uma história de superação piegas, mas o roteiro hábil de Nick Hornby e a entrega de Reese Witherspoon à personagem não deixam o filme cair no lugar-comum.

Sobre Reese, é bom ver que a atriz não se acomodou após vencer seu Oscar e está indo além das comédias românticas e propagandas de cosméticos. Esta personagem (em conjunto com a Juniper de Amor Bandido) mostra que a legalmente loura sempre pode surpreender. Reese foi indicada ao Globo de Ouro como melhor atriz. Perdeu para a imbatível Julianne Moore, situação que provavelmente se repetirá no Oscar, mas não diminui em nada a beleza de sua atuação.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Whiplash – Em Busca da Perfeição


Andrew tem 19 anos, estuda em um conservatório e tem um único objetivo na vida: tornar-se uma lenda na bateria. Determinado a atingir a perfeição, pratica diariamente. Mas a pressão que ele impõe a si mesmo não é nada diante da que passa a sofrer depois de ser escolhido para participar da prestigiada banda de jazz da escola, conduzida pelo temido Terence Fletcher, famoso por forçar seus músicos aos limites de exaustão física e mental. Até onde vai o perfeccionismo antes de resvalar na loucura? 

A princípio parece uma história edificante sobre um músico determinado e o maestro rigoroso que, com seus métodos pouco ortodoxos, o empurrará rumo à excelência. Logo percebemos que (felizmente) a tônica do filme não é exatamente essa. Ao contrário do que sugere o subtítulo em português, interessa mais ao roteiro de Whiplash falar de limites e obsessão do que de perfeição. Fletcher – interpretado com som e fúria pelo ótimo J. K. Simmons – é abusivo, cruel e faz do bullying um método de trabalho. O interessante é que tampouco o jovem Andrew se enquadra do perfil do mocinho, já que também ele sabe ser arrogante sempre que tem uma oportunidade. Com uma abordagem semelhante à feita em filmes como Shine e Cisne Negro, Whiplash evita o preto no branco e trabalha em zonas cinzentas.

Este é o segundo longa de Damien Chazelle, que escreveu e dirigiu o filme tendo como ponto de partida seu curta homônimo. Com apenas 29 anos, Chazelle mostra competência de veterano e entrega um trabalho vigoroso e lindamente realizado sob todos os aspectos – a sequência final é para aplaudir de pé. O filme venceu o Sundance Film Festival 2014 e teve uma única indicação ao Globo de Ouro (melhor ator coadjuvante para J. K. Simmons). Merecia mais atenção. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Homens, Mulheres e Filhos


Muito já foi dito sobre as facilidades e armadilhas de um mundo excessivamente conectado, no qual as pessoas deixam que estranhos tenham acesso à sua intimidade de um modo que não deixariam na vida real. O argumento proposto por Jason Reitman em seu mais recente filme, embora esteja longe de ser novo, é desenvolvido de maneira envolvente e muito relevante.

Com uma estrutura multiplot, acompanhamos um grupo de jovens do ensino médio, seus pais e as diferentes reações de cada um deles aos novos modelos sociais regidos pela internet. Enquanto a mãe de Hanna é permissiva a ponto de deixar a filha se expor em um site que beira a criminalidade, a de Brandy é obcecada em monitorar cada minuto do dia da filha, rastreando exaustivamente suas mensagens e seus perfis de redes sociais. Don encontra na pornografia uma válvula de escape, mas se assusta ao descobrir os mesmos hábitos no filho de 15 anos. Já Kent não entende como Tim pode preferir jogos virtuais ao time da escola.

Através de personagens em busca de afirmação, afeto ou identidade, sejam pais ou filhos, o roteiro discute os dois lados da moeda de tudo que se pode obter com um simples clique. Parece muito difícil para os personagens encontrar o equilíbrio entre uma cruzada burra contra o inevitável uso da tecnologia e a desatenção que pode desencadear uma exposição indesejada. Afinal de contas, como lidar com algo que nem mesmo a legislação regula corretamente?

Depois de um longa anterior muito abaixo de seu habitual padrão de qualidade (o decepcionante Refém da Paixão), Jason Reitman volta à boa forma com esta trama bastante atual. É preciso, ainda, parabenizar o seu talento para a direção de atores. Reitman é tão bom que consegue fazer uma limonada de limões como Adam Sandler e Jennifer Garner.

Nós Somos as Melhores!


Depois de ter sido exibido no Festival do Rio de 2013, chega nesta quinta-feira aos cinemas o novo filme de Lukas Moodysson. Nele, o diretor sueco apresenta um simpático painel do universo adolescente e da cena punk da Estocolmo do início dos anos 80. O roteiro, escrito por Moodysson, é inspirado nos quadrinhos que sua esposa Coco criou tendo como inspiração episódios da própria juventude. 

Kiara e Bobo têm 12 e 13 anos, são melhores amigas no colégio e se apoiam uma na outra para suportar o tédio da escola e a desatenção de suas famílias ausentes. Um dia, para implicar com um grupo de meninos mais velhos, elas decidem montar uma banda punk. Só que elas não têm instrumentos e não sabem tocar. Além do mais, ouvem dizer que o punk morreu. Mas o mais importante para as amigas é questionar. Para isso, elas se aproximam da certinha do colégio, Hedvig, com um plano: tomar lições de música e convencê-la de que Deus está morto.

O filme leva para as telas a própria essência da rebeldia punk através das meninas Mira Barkhammar e Mira Grosin – ótimas, por sinal. O filme é muito simpático e irreverente, mas, conforme a trama avança, a falta de um foco definido para a história se faz sentir. Há muitas cenas inegavelmente divertidas e uma penca de diálogos inspirados, mas de um modo um pouco desgovernado. Ou seja, muitas sequências são bacanas em separado, mas sente-se falta de um pouco mais de foco e coesão.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sétimo


O recém-divorciado advogado Sebastián tem um jogo recorrente com os filhos sempre que vai buscá-los na casa de ex-esposa: ele pega o elevador no sétimo andar enquanto as crianças tentam chegar antes, descendo pelas escadas. A brincadeira vira drama no dia em que ele chega ao térreo, mas Luca e Luna não vêm correndo a seguir. Como podem duas crianças desaparecer dentro do prédio onde moram sem deixar vestígios?

Esse filme é a prova inequívoca de que mesmo um ator que escolhe cuidadosamente seus papéis pode errar feio. Apesar de protagonizado pelo muso absoluto do cinema portenho, Ricardo Darín, Sétimo é tão banal e sem vitalidade que nem mesmo um ator do calibre de Darín consegue salvá-lo. O roteiro tenta ser engenhoso e criar reviravoltas, mas é pouco convincente e falha em estabelecer qualquer tipo de tensão ou suspense. A trama oscila entre o óbvio e o mal explicado, culminando em uma resolução forçada e sem brilho.

Coprodução entre Argentina e Espanha, o filme também traz no elenco a atriz Belén Rueda, de O Orfanato. Esperemos que Belén e Darín tornem a trabalhar juntos em condições mais favoráveis.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Relatos Selvagens


Estreia hoje o surpreendente e divertido Relatos Selvagens, mais uma bola dentro do sempre relevante cinema argentino. O filme, que foi exibido no Festival de Cannes, se divide em seis episódios. Em cada um deles há pelo menos um personagem que perde completamente o controle. Os motivos são os mais diversos: uma mulher diante do homem que levou seu pai ao suicídio, um xingamento de trânsito levado às últimas consequências, o sentimento de impotência do cidadão perante a burocracia e a corrupção estatal, uma noiva que descobre a traição do amado durante a festa de casamento, e por aí vai. 

A trama busca apresentar situações com as quais o público pode facilmente se identificar e certamente quem já passou por algo parecido teve pensamentos bem violentos a respeito. O que os personagens fazem é transformar tais instintos primitivos do ser humano em ações concretas, potencializando o efeito catártico do cinema. O roteiro poderia ter seguido o caminho do drama, mas em vez disso espertamente optou pelo tom de humor negro. O resultado final é uma delícia de se ver. Especialmente bom é o pesadelo kafkiano protagonizado por Ricardo Darín, contundente em sua pesada crítica às instituições – que na tela são argentinas, mas o espectador brasileiro se verá perfeitamente representado.

Vale muito a pena conferir esse novo exemplar do cinema dos hermanos, ainda mais pelo fato do longa ser o representante argentino para pleitear uma vaga na corrida ao Oscar 2015 de melhor filme em língua estrangeira. Podemos dizer que é uma candidatura bastante ousada, esperemos para ver como será recebida pela Academia. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Garota Exemplar


Logo após uma série de exibições no Festival do Rio, eis que Garota Exemplar entra em circuito comercial hoje. O novo filme de David Fincher é uma transposição fidelíssima do best seller homônimo de Gillian Flynn, adaptado para as telas pela própria autora. Quem já leu sabe o quanto o livro é envolvente, sarcástico e absolutamente viciante. Sem contar que o tom já é tão cinematográfico nas páginas de Flynn que diálogos inteiros foram levados para a tela inalterados.

A trama, na superfície, é um thriller sobre uma mulher que desaparece misteriosamente de casa no dia que completaria cinco anos de casamento. Amy Dunne tem uma vida invejável: é linda, inteligente e famosa, já que seus pais escrevem livros infantis inspirados nela. À primeira vista, sinais de luta na cena do crime sugerem um sequestro, mas logo a polícia começa a suspeitar do marido, Nick, conforme surgem pistas contraditórias e a imagem anterior de um casamento perfeito vai desmoronando. A essa altura, o circo da mídia está armado e a opinião pública exerce grande influência sobre a investigação. Mas o que terá realmente acontecido com Amy? Seria Nick um mentiroso ou um homem injustamente perseguido?

Em uma camada mais profunda, Garota Exemplar trata de outros temas sobre os quais não é possível discorrer aqui sem cometer spoilers. O que podemos dizer é que Fincher realiza uma adaptação bastante fiel e eficiente, ao contrário do que tinha feito no remake de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, quando efetuou mudanças para pior na concepção dos personagens. Com um ritmo intenso e uma série de viradas surpreendentes, o filme prende a atenção de tal forma que sua longa duração passa sem que se perceba. Também é um alívio notar que o profundo tom de ironia que é o diferencial da trama foi em grande parte mantido. Por fim, o elenco foi bem escolhido, com destaque para Rosamund Pike em seu primeiro papel de peso. Até mesmo Ben Affleck – ótimo diretor, mas extremamente limitado como ator – encaixa como uma luva neste papel, já que Nick é descrito justamente como um cara meio pateta que não sabe expressar direito suas emoções.

Resumindo, Garota Exemplar é um belo thriller que tem de tudo para virar cult.

Garota Exemplar (Gone Girl), de David Fincher. Com Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry. EUA, 2014. 145’. Panorama do Cinema Mundial


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Se Eu Ficar


O tema do grande amor interrompido pela morte ou doença de um dos apaixonados costuma ser garantia de sucesso desde Love Story e seu “amar é nunca ter que pedir perdão”. Como na sétima arte nada se perde e tudo se recicla, esse tipo de melodrama tem retornado às telas com força total, ainda que ultimamente direcionado a um público ainda mais jovem. Só este ano já tivemos A Culpa é das Estrelas e agora este Se Eu Ficar, que ainda aproveita para pegar uma parcela do público dos filmes espíritas.

Baseado no romance da americana Gayle Forman, que também está sendo lançado aqui no Brasil, o filme conta a história de Mia, uma tímida violoncelista de dezessete anos que aguarda ansiosamente sua aceitação na renomada escola de arte Juilliard. Caso consiga, sua vida mudará radicalmente e ela terá que tomar difíceis decisões. Porém, antes de saber o resultado da audição, Mia sai com a família de carro e sofre um violento acidente que a deixa em coma. De alguma forma, ela sai do próprio corpo e consegue transitar pelos corredores do hospital, embora não possa se comunicar com ninguém. A partir daí, a trama se desenvolve entre a realidade e flashbacks onde ela relembra a vida em família, a descoberta do amor e seu envolvimento com a música clássica.

O filme se sustenta a partir da crença de que uma pessoa em coma pode circular fora do próprio corpo, ainda que a personagem não consiga se afastar do hospital nem atravessar portas ou paredes. O outro pilar da história seria o de que caberia muito mais ao próprio paciente, independentemente dos cuidados médicos, a decisão definitiva de morrer ou lutar pela vida – daí o título do livro/filme. O que equivale a dizer que toda a trama e os conflitos do filme são, na verdade, decisões internas, memórias e pensamentos da protagonista.


O cinema já lidou muitas outras vezes com questões metafísicas e certamente não é preciso estar de acordo com elas para apreciar um filme, mesmo porque existe a chamada suspensão de descrença, ou seja, o espectador “compra” uma ideia e decide acreditar nela. A questão aqui não é filosófica e sim dramatúrgica. Enquanto o livro tem o mérito de apresentar personagens tridimensionais, no filme eles são bastante rasos. Como se Mia e sua família fossem protagonistas de uma peça publicitária ou filme institucional, com uma mensagem bem definida a passar. Sem contar que a produção sacrifica a humanidade da protagonista em favor de uma visão exageradamente adocicada. A representação de Mia como menina tímida e certinha chega a interferir no figurino de Chloë Grace Moretz, que usa uma roupa leve e cheia de rendinhas para sair em um dia de neve.

Também as cenas em flashback – que têm como função mostrar como foi a vida de Mia até aquele instante – carregam todos os clichês imagináveis: a garota retraída com pais moderninhos que chama a atenção do carinha descolado da escola justamente por ser diferente, os hesitantes primeiros encontros, o jantar em família, os inevitáveis conflitos e discussões bobas, sendo a pior delas quando ela esconde dele algo que fatalmente viria à tona, etc. Tudo muito previsível, do começo ao fim. Chloë Grace Moretz é uma gracinha, mas precisa começar a escolher melhor seus trabalhos. Indicado para adolescentes ou aficionados com temas como experiência de quase morte ou viagens para fora do corpo.  

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Magia ao Luar


Woody Allen é um sujeito espantoso. Desde o início da sua carreira, vem entregando um novo filme a cada ano, com raras exceções – na verdade, o último ano em que ele deixou de lançar um filme foi 1981. Do alto dos seus 79 anos, o cineasta nova-iorquino mantém a vitalidade e a alegria de filmar. Naturalmente, com tal média nem todos os seus trabalhos podem ser geniais. Pois bem. Depois do furacão Blue Jasmine, é a vez do pálido Magia ao Luar.

Ambientado nas paisagens bucólicas do sul da França e nos charmosos anos 20, a trama gira em torno de Stanley, um grande mestre do ilusionismo que é famoso também por desmascarar charlatães e falsos profetas. Convidado por um velho amigo a usar suas habilidades para livrar uma rica família da influência nociva de uma jovem médium, Stanley parte cheio de certezas e logo começa a se sentir-se perdido, à medida que examina de perto a moça e não consegue refutar suas impressionantes demonstrações psíquicas. Teria ele se enganado a vida inteira?

Woody Allen tem uma série de temas recorrentes, isso não chega a ser uma surpresa e muito menos um problema. O que decepciona aqui é o modo como tudo parece uma cópia desbotada de situações e personagens mostrados com mais graça em outros filmes do próprio Allen. A trama é o máximo da previsibilidade, embora seja interessante a correlação entre os truques de mágica e as ilusões que cada um aceita de bom grado para a própria vida. O roteiro fica no meio do caminho, pois não tem nem o sarcasmo demolidor de Blue Jasmine e nem o romantismo irresistível de Meia-Noite em Paris. E para um filme que tem magia no título, não encantar o espectador é pecado grave.


Colin Firth é ótimo ator e faz o que pode para segurar as pontas com seu personagem arrogante e cabeça-dura, mas tem pouco apoio à sua volta, já que precisa contracenar com uma Emma Stone afetadíssima e caricata e um elenco coadjuvante sem brilho. Contudo, o filme não chega a ser desagradável de se assistir. Woody Allen, ainda assim, consegue rechear o vazio da trama com belas paisagens, boa música, direção de arte caprichada e uma ou outra tirada divertida. Se o cineasta realmente vem intercalando seus grandes filmes com outros dispensáveis, a boa notícia é que o próximo será melhor. Aguardemos e torçamos para que assim seja. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Amantes Eternos


Esqueçam os vampiros sedutores, de pele boa ou que brilham ao sol. Os imortais de Jim Jarmusch estão mais para astros do rock decadentes. Adam vive em Detroit como um músico misterioso e recluso e a única coisa que ainda o tira da letargia é encontrar um novo instrumento raro para sua coleção. Eve, mais apegada aos prazeres da vida, vive em meio ao exotismo de Tânger, no Marrocos. O reencontro dos dois e a chegada de Ava, a incontrolável irmã de Eve, balança o pacato equilíbrio que Adam encontrou para si.

Adam e Eve (seriam os originais?) já viveram de tudo: frequentaram os mais célebres intelectuais, trocaram ideias com os grandes gênios do conhecimento e vagaram pelo vasto planeta se amando através dos séculos. Portanto, nada mais compreensível do que o fato do mundo de hoje enchê-los de tédio. Para completar, a humanidade vem contaminando o próprio sangue e é muito perigoso alimentar-se como antigamente. Imaginem personagens que assistiram, através dos séculos, a uma lenta decadência não somente do próprio estilo de vida, mas do mundo como um todo. Já as pitadas de ironia são quase todas divertidas referências aos ícones com o qual o casal conviveu ao longo dos séculos.

É impossível imaginar dois atores mais condizentes com os papéis de Adam e Eve do que Tom Hiddleston e Tilda Swinton. Talentosos, densos e com uma caracterização inspirada, cada aparição deles enche a tela de magnetismo. Já Mia Wasikowska tem uma participação interessante, porém discreta. Plasticamente, o filme é uma beleza: a fotografia em tons escuros de Yorick Le Saux (que já tinha captado Tilda Swinton lindamente em Io Sono L’Amore) e a direção contida e elegante de Jim Jarmusch fazem com que o espectador supere com facilidade a progressão lenta da trama – e não poderia ser diferente em uma história que tem o tédio existencialista como principal mote.

Jarmusch (também autor do roteiro) confere ao filme um tom contemplativo bastante diferente de tudo que vem sendo feito ultimamente no que diz respeito ao tema. Não é, em absoluto, um filme de terror; aliás, o tom lúgubre do filme se aproxima muito mais da atmosfera de Blade Runner do que daquela dos filmes de vampiro. O filme concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado e foi exibido no Festival do Rio ainda com seu poético título original, Only Lovers Left Alive. Só é uma pena que aqui no Brasil se tenha optado por um título em português genérico ao invés de uma tradução fiel.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Paraíso


Fofinho. Provavelmente essa é uma classificação que muitos farão a respeito desse filme. E não vai aí nenhum duplo sentido quanto ao fato de Paraíso ser protagonizado por um casal de gordinhos e sim pela própria estrutura do longa. A trama começa mostrando o quanto Carmen e Alfredo são felizes e apaixonados em sua pequena cidadezinha do México. Casa bacana, família alto astral, cachorro, sorvete e passeios de mãos dadas, enfim, sintonia total. Mas o paraíso conjugal vira purgatório quando Alfredo é transferido para a capital e, pela primeira vez, Carmen se dá conta de que eles são um casal fora dos padrões.

Incomodada com olhares e comentários maldosos, Carmen decide que precisa emagrecer. O problema é que ela não tem nenhuma força de vontade para isso e, para complicar a situação, é Alfredo quem toma gosto pela vida saudável e começa a perder peso muito rapidamente. A partir de então, tudo se complica ainda mais por Alfredo ser um sujeito meio desligado dos pequenos detalhes e Carmen varrer suas inseguranças para debaixo do tapete, numa crise que vai além da questão do peso.

Está certo que o filme exagera em algumas situações e que a protagonista pode incomodar um pouco pelo modo como empurra toda a responsabilidade para cima do marido, mas a história conquista justamente por esse olhar carinhoso e desprovido de censura da diretora Mariana Chenillo sobre os personagens e suas imperfeições. Paraíso não chega a ser tão bem-resolvido quanto o trabalho anterior de Mariana, Cinco Dias sem Nora, mas é, no geral, um filme muito simpático. Também os atores Andrés Almeida e Daniela Rincón ajudam com seu carisma e não deixam o ritmo cair, mesmo quando o roteiro comete alguns pequenos deslizes. Em todo caso, é bom ressaltar que o foco do filme não é discutir a questão da obesidade nem do preconceito e sim temas relativos à confiança e diálogo entre o casal.

O filme é produzido por Gael García Bernal e Diego Luna e participou do Festival de Toronto 2013, além de ter sido exibido na Première Latina do Festival do Rio no ano passado

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A Caçada


Chega aos cinemas o segundo longa do australiano David Michôd, que surpreendeu bastante público e crítica há quatro anos com o chocante Reino Animal. A Caçada é ambientado em um futuro alternativo, dez anos depois de um colapso econômico que teria arrasado o mundo ocidental e transformado a Austrália em uma espécie versão pós-apocalíptica do velho Oeste. Guy Pearce assume o papel do estranho sem nome, de poucas palavras e no limite da paciência. O personagem começa uma perseguição insensata quando tem seu carro roubado e acaba sendo obrigado a levar consigo o irmão abobalhado de um dos assaltantes que havia sido deixado para trás. Mas por que em tais circunstâncias um carro importaria tanto?

O filme é corajoso ao não explicar de cara o que move o personagem nesta caçada insana, mesmo correndo o risco do espectador se desinteressar pela trama. As motivações do personagem existem e são válidas, porém só serão totalmente compreendidas ao término da projeção. Por outro lado, incomoda um pouco a preocupação excessiva do diretor e roteirista David Michôd em ser cult. Deixar transparecer tal preocupação acaba sendo o ponto frágil de um filme que, de resto, é bem interessante. A ambientação e caracterização perfeitas, somadas ao brilho dos dois atores centrais, já seriam suficientes para sustentar a trama, ou seja, o resultado final poderia ter sido muito mais cult se Michôd não forçasse tanto a barra com incontáveis diálogos que tentam ser profundos a todo custo. O que não quer dizer que não seja um bom road movie, repleto de cenas simplesmente memoráveis e embelezado pela fotografia sépia das locações áridas e paisagens poeirentas. Também é interessante notar alguns ecos de Reino Animal, como a idosa exploradora e o tema da inocência esmagada por um ambiente hostil.


Por fim, mas não menos importante, é impossível não destacar o desabrochar de Robert Pattinson, que, depois de passar meio despercebido em Harry Potter, ganhou fama mundial e o desprezo da crítica como o vampiro cintilante da franquia Crepúsculo. Apesar da histeria provocada em milhões de adolescentes, poucos atores foram tão ridicularizados nos últimos anos. Mas o rapaz segurou a onda, sobreviveu aos cinco filmes da série e chamou atenção ao trabalhar com David Cronenberg em Cosmópolis e também no ainda inédito Maps to the Stars. Neste A Caçada, Robert Pattinson esbanja talento com este personagem cativante que parece uma estranha mistura de Forrest Gump e Mad Max. Mesmo dividindo a cena com um Guy Pearce altamente inspirado, podemos dizer que o filme é de Pattinson desde a primeira aparição. Sua atuação, aliás, deve ser seriamente ser considerada para a próxima temporada de premiações. Sim, é boa a esse ponto. Vamos ficar de olho neste novo grande ator que surge diante de nossos incrédulos olhos.  

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Planeta dos Macacos – O Confronto


A série de filmes Planeta dos Macacos vem assustando os humanos desde 1968, quando foi lançado o filme original estrelado por Charlton Heston. Baseada no livro do francês Pierre Boulle, a trama é ambientada em um planeta (que posteriormente descobrimos ser a Terra em um tempo futuro) onde macacos são a raça dominante. A nova franquia, iniciada há três anos com Planeta dos Macacos – A Origem, não é um remake, mas sim de uma prequel, ou seja, os filmes se situam em um momento anterior e mostram como aconteceu a ascensão dos macacos ao poder.

No longa de 2011 foi visto como as experiências do cientista Will Rodman possibilitaram o inacreditável desenvolvimento do chipanzé Caesar, que conseguia se comunicar através da linguagem de sinais e, posteriormente, até mesmo falar. Embora tratado com respeito por Will, Caesar era para todas as demais pessoas um mero animal. Daí à revolta foi um pulo e a trama se interrompe quando Caesar parte para viver em companhia de seus iguais. Nesta sequência, a população humana foi drasticamente reduzida devido a um vírus chamado de “gripe símia”. Os poucos sobreviventes enfrentam um cenário apocalíptico enquanto a sociedade símia, ainda liderada por Caesar, cresceu e prosperou. A possibilidade de gerar energia através de uma usina que se situa justamente onde vivem os macacos pode desencadear uma guerra se as espécies não encontrarem o caminho do diálogo.  


O filme funciona em dois níveis e, portanto, tem atrativos para agradar tanto aos que buscam puro entretenimento quanto àqueles que procuram no cinema uma reflexão mais elaborada. As muitas cenas de ação e os efeitos especiais espetaculares não ofuscam a interessante e até mesmo irônica discussão sobre uma sociedade animal que se desenvolve a ponto de se tornar tão parecida com a humana que o que antes era considerado evolução logo passa a significar involução, fazendo nascer nos símios sentimentos até então inéditos como traição, inveja e ambição.

Caesar não é um líder fanático. Devido a seu histórico, ele entende que há humanos bons e sabe reconhecer quando está diante de um. O que ele não podia conceber é a outra face da moeda, ou seja, o fato de haver macacos malignos. Ainda que o filme trabalhe com personagens um pouco maniqueístas e deixe tudo muito preto no branco, essa falta de tonalidades de cinza nos personagens é compensada pelo roteiro vibrante de Mark Bomback, Rick Jaffa e Amanda Silver e pela direção eficiente de Matt Reeves, o mesmo diretor de Cloverfield e Deixe-me Entrar.


Os efeitos especiais e a direção de arte são ótimos, como não poderiam deixar de ser, embora este seja mais um filme que poderia ter sido realizado em 2D sem nenhum tipo de prejuízo à sua grandiosidade. Mas ok, talvez essa seja uma evolução/involução da qual o blockbusterdos dias de hoje não consiga mais prescindir. Por último, mas não menos importante, é preciso destacar o trabalho excepcional de Andy Serkis, que mais uma vez põe suas expressões faciais a serviço de um personagem digital. O ator, que já havia impressionado “nos papéis” de Gollum (de O Senhor dos Anéis) e King Kong, emociona ainda mais como Caesar e a intensidade de seu olhar atinge o espectador a ponto de fazê-lo acreditar que tem diante de si um verdadeiro milagre evolutivo. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Melhor Lance


Giuseppe Tornatore, que ganhou um Oscar e o mundo com o seu Cinema Paradiso em 1988, é conhecido, sobretudo, por seus filmes delicados e que retratam a perda da inocência. Neste filme, o cineasta siciliano surpreende ao criar uma trama de ares hitchcockianos sobre um leiloeiro excêntrico e arredio que se deixa arrastar para um surreal jogo de sedução. La Migliore Offerta (no original) é uma produção italiana falada em inglês e com elenco internacional, com destaque para Geoffrey Rush, Donald Sutherland e Jim Sturgess.

Virgil Oldman é o melhor no que faz: profundo conhecedor de arte, é capaz de distinguir o falso do autêntico logo em um primeiro exame. Metódico, trata a vida privada com a mesma assepsia dedicada ao trabalho, mas sua até então inabalável rotina é alterada por uma mulher misteriosa. Claire tem um imenso acervo para vender, mas revela-se uma cliente irritável e imprevisível. Devido a uma extrema fobia social, comunica-se com Virgil só por telefone, bilhetes ou através de uma porta fechada. A princípio ele se exaspera, mas logo começa a sentir uma inesperada afinidade com aquela estranha mulher. Não deixa de ser significativo que o homem que construiu uma barreira imaginária a seu redor se desarme justamente diante de alguém que lhe impõe a distância física.  

É bem verdade que Tornatore já havia flertado com o thriller no (ótimo) Uma Simples Formalidade e no (nem tão bom) A Desconhecida, mas o gênero não costuma ser associado ao estilo cheio de lirismo e sentimento do diretor. Também este filme tem sua poesia, mas de modo menos explícito. O Melhor Lance é um filme de dualidades. Concreto e abstrato. Original e cópia. Luz e sombra. Procura e oferta. O mundo da arte, com seus valores atribuídos e conceitos subjetivos, funciona como um pano de fundo bastante apropriado. Verdadeiro e falso permeiam toda a estrutura do filme, acrescentando um subtexto instigante. Contexto enriquecido lindamente pela trilha sonora do genial Ennio Morricone, cuja parceria com Tornatore vem desde Cinema Paradiso e já dura mais de 25 anos.


Curiosamente, a grande reviravolta do filme constitui justamente o trecho de maior fragilidade do roteiro. Os melhores lances se encontram antes, em seu desenvolvimento: na atmosfera romântica da mansão decadente, na sedução que ocorre através de frestas e portas fechadas, na cuidadosa composição de um Geoffrey Rush cada vez mais requintado, enfim, em toda a preparação para o clímax que antecede o desfecho. Ainda que essa meia hora final esteja aquém do restante, podemos dizer que ¾ do filme funciona às maravilhas. Em todo caso, é sempre revigorante ver um cineasta com um estilo consagrado arriscar-se fora de sua zona de conforto. Ao contrário do que ocorreu com Baarìa, que, mesmo sendo mais equilibrado, resultou em um filme “morno”.
  
O filme venceu cinco prêmios David di Donatello em 2013 (filme, diretor, trilha sonora, figurino e cenografia) e chega aos nossos cinemas com um ano e meio de defasagem.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Viva a Liberdade


Pessoas que trocam de lugar e passam a ver a vida pelos olhos uma da outra é um argumento recorrente na sétima arte. No caso de Viva a Liberdade, não foi preciso nenhum tipo de acontecimento mágico, já que os personagens em questão são gêmeos idênticos. Enrico é secretário geral do principal partido de oposição e sente-se pressionado tanto pela população quanto por seus correligionários. A crise existencial torna-se tão forte que ele resolve sair de circulação e tirar um tempo para si, deixando todos os seus aliados políticos desesperados. Sua esposa Anna e seu assessor Andrea optam por uma solução radical: convencer o irmão gêmeo Giovanni a fazer algumas aparições públicas como Enrico e, desse modo, ganhar tempo. Mas Giovanni, carismático poeta e filósofo recém-saído de um tratamento psiquiátrico, tem seus próprios planos e ideias.

O grande atrativo do filme não está em seu argumento e sim no modo como ele é tratado. Embora a sinopse leve a crer tratar-se de uma comédia, Viva a Liberdade segue uma abordagem bastante diversa e mostra-se um filme inteligente e reflexivo sobre temas como exercício do poder e escolhas pessoais. O bom humor está presente, é claro, mas sempre a serviço de uma crítica mais profunda. Outro ponto interessante é o modo como o roteiro se abstém da clássica oposição entre protagonista e antagonista. Cada personagem mostra-se bastante complexo e além do reducionismo de ser mocinho ou vilão.


Diretor e co-roteirista, Roberto Andò é também o autor do romance Il Trono Vuoto (O Trono Vazio), no qual se baseia o filme. Destacam-se, ainda, a sobriedade e elegância com que Andò conduz toda a trama, além dos diálogos sempre oportunos, abrilhantados pelo ótimo desempenho de todo o elenco.

Toni Servillo é considerado há muito tempo um dos grandes atores de seu país, embora só tenha alcançado projeção mundial com o sucesso de A Grande Beleza. Aliás, a chegada de Viva a Liberdade aqui no Brasil provavelmente se deve a isso, já que o lançamento deste filme na Itália é anterior ao do longa de Sorrentino. Em todo caso, Servillo mais uma vez demonstra ser um ator de grande talento e versatilidade ao interpretar não somente irmãos de personalidades diversas, mas também o desdobramento de um se passando pelo outro.

Vale destacar, ainda, o trabalho de Valerio Mastandrea, outro excelente ator italiano pouco conhecido aqui no Brasil. Valerio, que foi premiado com dois David di Donatello no ano passado (melhor coadjuvante por este papel e melhor ator por Gli Equilibristi), expõe com delicadeza as indecisões e fragilidades por trás de um assessor político que tenta ser uma fortaleza diante dos outros, mas, em seu interior, se encontra perdido e precisando desesperadamente de algo no qual acreditar. Especialmente significativa é a cena em que ele confessa ao carismático gêmeo do patrão: “no senhor eu votaria”.


Viva a Liberdade venceu, ainda, o David di Donatello de melhor roteiro. Apesar de contextualizado no universo político italiano, as suas reflexões não se limitam a ele e o público brasileiro com toda certeza poderá se identificar com este belo filme. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Vic + Flo Viram um Urso


Exibido no Festival do Rio do ano passado, este foi um daqueles filmes que entraram na programação desta que vos escreve sobretudo devido ao título curioso. E “curioso” realmente é um adjetivo que se aplica a este filme. Vic é Victoria e acaba de receber a condicional aos 61 anos. Buscando uma vida nova, ela vai morar na casa de um parente inválido em um local ermo, no meio da floresta. Quem não fica muito satisfeita com o arranjo é sua namorada Florence (a Flo), também ela uma ex-detenta. Mas, apesar das intervenções de Guillaume, um agente de condicional meio enxerido, a vida das duas começaria a entrar nos eixos não fosse o aparecimento de uma misteriosa ameaça do passado.

O filme parte de um argumento que já foi bastante explorado com personagens masculinos, o do malfeitor que tenta a todo custo deixar a vida criminosa para trás, mas sempre tem que se deparar com assuntos pendentes ou pessoas que não querem deixá-lo em paz. O estranho deste filme não é seu tema e sim o modo como tudo é realizado de modo incrivelmente bizarro. Ao longo da projeção, o público ri diversas vezes; mas sempre pelos motivos errados. Ao final, fica difícil concluir qual era a intenção do diretor Denis Côté. Até mesmo as atrizes protagonistas, Pierrette Robitaille e Romane Bohringer, parecem atuar no piloto automático. Somente Marc-André Grondin, que interpreta o oficial de condicional, ainda dá um pouco de credibilidade à trama.

Mas não é só. O filme é cheio de esquisitices inexplicáveis, a começar pela vilã caricata que nunca usa sutiã. Outra coisa que irrita progressivamente é a trilha sonora com tambores ensurdecedores todas as vezes que a malvada entra em cena. E o que dizer de seu capanga violentíssimo que em determinada cena começa a tocar um violãozinho? Tudo muito estranho, mas pode agradar a quem estiver buscando exotismo a todo preço.