sexta-feira, 11 de junho de 2010

Cartas para Julieta


Cartas para Julieta, que estreou de maneira oportuna às vésperas do dia dos namorados tupiniquim, tem tudo para fazer a alegria não somente dos casaizinhos apaixonados, mas também dos românticos em geral e ainda dos apreciadores das incontestáveis belezas da Itália. Como toda comédia romântica, é claro que o filme já começa prometendo um indefectível e redentor final feliz. Mas o que realmente importa nesses casos é que toda a previsibilidade do roteiro é recheada com uma história fofinha, um elenco simpático e todo o charme extra das paisagens italianas.

A trama inicia em Nova Iorque, onde Sophie trabalha para uma revista como checadora de fatos e sonha dar seu upgrade para escritora. No que deveria ser uma viagem romântica com o noivo para Verona, o rapaz – um chef obcecado com seu restaurante prestes a ser inaugurado – passa os dias mais interessado em obter fornecedores incríveis do que em estar com sua Sophie. Logo começam a fazer programas em separado – ele visita vinícolas, queijarias, etc. – enquanto ela vai conhecer os atrativos da cidade.

Existe em Verona a “casa de Julieta”, uma reprodução da mansão dos Capuleto descrita por Shakespeare, e em seu jardim há um muro onde mulheres de todas as idades e nacionalidades deixam bilhetes para Julieta, desabafando suas mágoas ou pedindo conselhos. E a prefeitura tem funcionárias para recolhê-las e respondê-las – fato real. Remexendo no muro, Sophie encontra uma carta escondida. A remetente é Claire, uma inglesa que 50 anos antes foi a Verona e se apaixonou perdidamente por um italiano. Sophie responde à carta e Claire, hoje uma senhora viúva, vê nas suas palavras sonhadoras um sinal de que deve voltar à Itália para tirar a limpo o passado. Está estabelecida a base para que o filme se transforme num road movie divertido, levando-nos a deslumbrantes recantos da Toscana. Somando isso à beleza da própria Verona, o longa vira um prato cheio para os italomaníacos.


Não deixa de ser curioso que a grande força do filme esteja nas duas mulheres e não em um casal. A bonitinha Amanda Seyfried faz de Sophie uma jovem moderna e ativa, mas cheia de romantismo. Uma personagem com a qual é difícil não simpatizar. Já a personagem Claire cabe à grande Vanessa Redgrave, que a interpreta com tanta delicadeza e beleza que ilumina a tela a cada aparição. Comentou-se muito o fato de Vanessa aparecer em cena ao natural, quase sem maquiagem – o que não a torna menos charmosa e encantadora. A química entre Amanda e Vanessa é muito legal, com uma cumplicidade impressionante. Pena que não se possa dizer o mesmo do australiano Christopher Egan, que interpreta o neto mal-humorado e cético de Claire, por quem Sophie está fadada a se interessar. Fica um pouco difícil crer que a moça o prefira ao charme latino de Gael García Bernal – o noivo Victor –, mesmo porque o longa resiste à tentação de pintar Victor como um canalha.

Completando o elenco está o italiano Franco Nero como Lorenzo Bartollini, a paixão inesquecível de Claire. E é este casal em particular que dá nova dimensão à história, já que Franco e Vanessa foram casados na juventude, tiveram filhos, se separaram e há uns cinco anos resolveram voltar a se casar. Esse detalhe da arte imitando a vida torna Cartas para Julieta ainda mais bonitinho. Dirigido por Gary Winick – que fez o pavoroso Noivas em Guerra, mas também o divertido De Repente, 30 –, trata-se de um filme para curtir sem maiores pretensões, mas realizado com eficiência e muito charme. Ideal para ver a dois, com o namorado(a) ou até mesmo para tentar um approach com aquela pessoa especial.

sábado, 5 de junho de 2010

Príncipe da Pérsia


Assim como a enxurrada de adaptações oriundas das graphic novels, outro filão aparentemente interminável para o cinema hollywoodiano são as aventuras em carne e osso dos personagens de videogame. E foi-se o tempo em que eram apenas celebridades virtuais como Super Mario e Lara Croft. Hoje em dia o cidadão que não tem intimidade alguma com esse universo se perde. Eu confesso que desconhecia completamente que existia um game chamado Príncipe da Pérsia. Portanto, as opiniões abaixo se referem estritamente ao filme feito a partir dele.

Dastan é um garoto pobre adotado pelo sultão da Pérsia, criado como príncipe ao lado de seus dois outros filhos legítimos, com a única diferença de não ter direito ao trono. Adulto, torna-se um guerreiro destemido e, ao lado do tio e dos irmãos, se vê em meio ao delicado dilema de invadir ou não uma cidade sagrada acusada de fornecer armas aos inimigos dos persas (qualquer semelhança com uma invasão recente certamente não é coincidência). Dastan é contra, mas seu irmão mais velho, o príncipe herdeiro, é convencido pelo tio, conselheiro do rei ausente. Sempre leal à família, Dastan lidera o ataque e captura a princesa Tamina. Mas não tem tempo de colher os louros da vitória, já que é vítima de um complô. O rei é assassinado, Dastan é acusado do crime e logo descobre que tudo foi engendrado por causa de um artefato capaz de controlar o tempo.

Príncipe da Pérsia não nega suas origens de videogame. Cenas acrobáticas, peripécias juvenis e muito corre-corre realmente podem ser divertidos em um jogo. Em um filme, onde temos que assistir a tudo sem nenhuma interação, nem tanto. Pelo menos, não sem uma boa história embasando tudo isso. E esse é o grande problema do filme: limitar-se a copiar as regras de diversão de seu meio de origem e não ter o mínimo de ambição para transpor os limites do game em busca de atrativos cinematográficos. Certamente um longa bem ao estilo do cinema produzido por Jerry Bruckheimer, ainda que cause estranheza que um cineasta de prestígio como Mike Newell assine a direção.

Com uma história atravancada e cheia de incoerências, resta ao filme investir pesado em coreografias espantosas, cenários exóticos e muito deslumbre visual. Por vezes sentimos que não há sequer uma transição entre uma situação e outra. Vamos resumir da seguinte maneira: depois de Príncipe da Pérsia, o espectador pode até chegar a pensar que Fúria de Titãs é um filme profundo.


Podia ser pior? Sim, podia. Sem o talento, carisma e simpatia desse ator maravilhoso chamado Jake Gyllenhaal a coisa ficaria realmente feia. Tendo Jake em cena praticamente em todos os fotogramas, o espectador tem a alternativa de se concentrar nele e dar um voto de confiança ao seu príncipe aventureiro.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Eu Te Amo, Phillip Morris


O Golpista do Ano (título que beira o constrangimento para I Love You, Phillip Morris) é um filme curioso. Como produto cinematográfico, é irregular e salpicado de pequenos defeitos narrativos, escorregadelas de ritmo e confusões de estilo, indeciso entre mergulhar na comédia ou narrar com maior sentimento a sui generis história de amor entre um estelionatário e seu companheiro de cela. No entanto, mesmo estando longe de ser uma produção perfeita, há algo no filme que conquista e comove, tornando impossível não simpatizar com ele.

Baseado no livro do jornalista Steve McVicker, Eu Te Amo Phillip Morris acompanha a inusitada (e verídica) trajetória de Steven Russell, pai de família cristão e conservador que leva uma vida de aparências até o dia em que sofre um grave acidente de trânsito e resolve que a vida é curta demais para ser passada dentro do armário. Steve se assume, arruma um bofe luxo (interpretado por Rodrigo Santoro) e tudo estaria perfeito não fosse um detalhe: a vida de jóias extravagantes e viagens fabulosas que ele tanto aprecia custa caro, muito caro. Para manter o padrão, Steve passa a aplicar os mais diversos golpes, desde forjar acidentes para receber indenizações indevidas até falsificar cartões de crédito. Capturado, vai para a prisão e lá apaixona-se perdidamente por outro detento – o Phillip Morris do título original.


Com uma história que lembra o delicioso Prenda-Me se For Capaz, o filme alterna comédia rasgada com romance. A mistura por vezes atravanca um pouco o ritmo da trama, já que o roteiro nem sempre consegue transitar com fluência entre esses dois aspectos. A atuação de Jim Carrey como Steve funciona às maravilhas no quesito comicidade (suas fugas e armações são impagáveis), mas resvala na caricatura em cenas que deveriam ser mais românticas. Já a composição de Ewan McGregor como Phillip Morris é bem mais delicada e precisa, sempre focada nos pequenos detalhes ao invés de cair na fórmula fácil dos trejeitos – e, cá entre nós, ele fica lindo de uniforme de presidiário. McGregor rouba a cena cada vez que aparece, provando mais uma vez sua versatilidade e competência. E Rodrigo Santoro, cada vez mais à vontade em sua carreira internacional, faz bonito em participação pequena porém fundamental para a trama.

O filme também se utiliza de Steve como um narrador não confiável de sua própria história. O recurso, que pode ser uma faca de dois gumes, aqui surpreende mais do que atrapalha. Um exemplo disso é o personagem de Rodrigo Santoro, que desaparece da trama sem explicações e deixa o espectador com a sensação de que tiraram ele de cena apenas para abrir espaço para a chegada de Phillip Morris, ou seja, uma tremenda falha no roteiro. Mais tarde, quando Steve esclarece aquela parte da história, os pedaços se encaixam e o personagem inclusive ganha maior importância na história.


Ameaçado de lançamento direto em DVD, I Love You, Phillip Morris finalmente chega às telonas brazucas mas não sem antes sofrer algumas distorções. A começar pelos cartazes e trailers, que tentam destacar a parte cômica do filme numa clara manobra para desviar a atenção da situação romântica. Não que o filme não tenha seus momentos pastelão, mas é evidente que fazer rir não é seu foco primordial. O longa, na verdade, é quase uma fábula sobre o que acontece quando uma pessoa sem limites encontra uma razão para ficar ainda mais desmedida. É sobre o patético e terno sentimento de estar loucamente apaixonado. Os estreantes na direção Glenn Ficarra e John Requa (roteiristas do bacaninha Como Cães e Gatos) começaram muito bem, demonstrando originalidade e ousadia já em seu primeiro filme.

Na vida real, Steven Russell escapou da prisão quatro vezes, sempre em uma sexta-feira 13. Recorrendo aos mais criativos estratagemas e disfarces, o cara chegou a extremos que ameaçaram sua vida para ficar perto do homem que amava. Chega a ser difícil para a ficção concorrer uma realidade dessas.

Sexta nos cinemas.

sábado, 22 de maio de 2010

Perdoa-Me Por Me Traíres


Estreia neste final de semana no teatro da Casa de Cultura Laura Alvim uma interessantíssima montagem para o clássico de Nelson Rodrigues, Perdoa-Me Por Me Traíres.

Com uma estrutura complexa – como costumam ser as obras de Nelson –, a peça conta uma conturbada tragédia familiar. Glorinha é uma adolescente órfã, que vive com o tio rígido e carrega o trauma de saber que a mãe se suicidara e o pai enlouquecera quando ela tinha apenas dois anos. Mas, como toda ninfeta rodrigueana, Glorinha esconde malícia e dissimulação por trás da aparência angelical. Também o tio Raul carrega pecados inconfessáveis e taras proibidas e, num intrincado jogo de idas e vindas no tempo, somente aos poucos toda a verdade sobre aquela família e suas tragédias é revelada.

O ator e diretor Cláudio Handrey realiza um espetáculo extremamente impactante, valendo-se de recursos simples para ressaltar toda gama de conflitos psicológicos e sexualidade latente sublinhados pelo texto. Alternando com inteligência a abordagem realista e a simbólica, o resultado é um espetáculo vibrante e esteticamente rico. O cenário é básico e funcional, concebido para realçar o trabalho dos atores. A iluminação cheia de dramaticidade é um show à parte, com destaque para a cena do aborto de Nair. De arrepiar. O elenco é afinado e bastante homogêneo, demonstrando ótimo entrosamento e trabalho de equipe. Percebe-se, ainda, que os atores não tem pudor em ir fundo na intensidade dramática proposta por seus papeis, o que tem tudo a ver com o universo rodrigueano e suas obsessões e revela-se cada vez mais uma ousadia em tempos da ditadura do naturalismo.

Muito legal mesmo. Vale a pena conferir.


Perdoa-Me Por Me Traíres. Texto de Nelson Rodrigues. Direção de Claudio Handrey. Com Leonardo Miggiorin, Claudio Handrey, Charles Davis, Breno Guimarães, Bianca Montanas, Andressa Lameu, Alice Motta, Patricia Ramalho, Tamires Nascimento, Fabiana Aveiro e Manuellita Lustosa. Casa de Cultura Laura Alvim, sextas e sábados às 21h e domingo às 20h. Até 01 de agosto.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fúria de Titãs



É com certa nostalgia que recordo da primeira versão desse filme, de 1981. Deuses gregos impiedosos, heróis valentes, monstros ferozes e, sobretudo, a enigmática Medusa e seus cabelos ofídicos foram elementos terrivelmente fascinantes para uma pré-adolescente que vivia com a cabeça mais na lua do que na terra. Por muitos anos, o fascínio do longa permaneceu intocado nos escaninhos das recordações. Qual não foi minha decepção ao rever o filme depois de adulta e perceber que a trama era fraca e os efeitos especiais, toscos de dar dó. A versão 2010 de Fúria de Titãs é um ótimo upgrade visual em relação a seu antecessor, embora o restante continue deixando a desejar.

Numa versão pouco fiel à mitologia grega, o filme narra as aventuras do semideus Perseu. A princípio inconsciente de sua origem divina, Perseu é um pescador que vive com a família nas proximidades de Argos e presencia um momento de descrença e desrespeito aos deuses quando o rei ordena a derrubada da estátua de Zeus, enfurecendo todo o Olimpo. É quando o traiçoeiro Hades convence o irmão a deixá-lo dar uma lição nos mortais e lhes dá um ultimato: se, dentro de dez dias, os homens não sacrificarem a princesa Andrômeda para aplacar a ira dos deuses, ele libertará o Kraken, monstro marinho incontrolável que destruirá tudo e todos. Mesmo relutante em considerar-se filho de Zeus, Perseu aceita sua condição por ser a única esperança de salvação para Andrômeda e parte com uma tropa em busca de conhecimentos que lhe permitam derrotar o Kraken.

Fúria de Titãs faz uma opção clara pelo público infanto-juvenil e, ao focar na plateia abaixo dos quinze anos, concentra-se muito mais em criar sequências de luta empolgantes do que em contar uma história bem estruturada. O resultado é um filme interessante esteticamente, mas fragilizado por um roteiro mal-estruturado (e olha que eu nem estou considerando a infidelidade mitológica) e uma direção de atores frouxa. O diretor Louis Leterrier (Hulk 2) não consegue imprimir personalidade própria ao filme e mantém tudo muito asséptico, limando todo e qualquer teor de sexualidade ou violência. Mesmo quando pessoas são mortas ou feridas, o impacto é o mesmo de um videogame. Também é estranha a concepção do Olimpo à semelhança da Liga da Justiça e o parentesco do Hades de Ralph Fiennes com o Voldemort da série Harry Potter.


O filme fica bem mais rico e interessante quando parte para o segmento das criaturas – exemplos disso são a sensacional concepção das três bruxas e o belo Pegasus negro. Os cenários e paisagens também são bacanas e, claro, não podemos deixar de fora o novo e criativo design da Medusa. Por outro lado, o uso do 3D é absolutamente desnecessário. Mesmo porque o processo usado, que foi a conversão para o formato depois do filme pronto, dá um efeito meio distorcido em algumas cenas. As criaturas grandiosas, os monstros pavorosos e as cenas de ação bem coreografadas podem ser plenamente apreciadas bidimensionalmente, e sem o inconveniente dos óculos ou do ingresso mais salgado.

Sexta nos cinemas.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Robin Hood


Quando convidado pelo produtor Brian Grazer para estrelar uma nova versão de Robin Hood, Russell Crowe a princípio ficou reticente e respondeu que só aceitaria encarnar o lendário personagem se o roteiro o abordasse sob uma ótica diferente: “É uma das histórias da língua inglesa que há mais tempo sobrevive. Isso requer o devido respeito. Assumi a visão de que, se você vai revitalizar Robin Hood, isso precisa ser feito levando em conta que tudo que você achava saber sobre a lenda era um erro. Precisava ser diferente do que veio antes”, sentenciou o astro.

Com a entrada de Ridley Scott no projeto, tal linha de pensamento ganhou ainda mais força. Afinal de contas, há exatos dez anos Scott e Crowe revitalizaram um gênero considerado morto e arrebanharam vários Oscars com Gladiador. O filme unia com tanto bom senso fatos e ficção que é muito difícil discernir onde termina a história real do imperador Marco Aurélio e seu filho psicopata Comodus e onde começa a trama fictícia do general romano transformado em escravo Maximus.

Com sua habitual competência para épicos grandiosos, Ridley Scott realiza um filme sobre Robin Hood sem Robin Hood. Ou um Robin-pré-Hood. Focando no contexto histórico do século XII, época em que se situam as primeiras narrativas sobre o nobre que roubava dos ricos para favorecer os pobres, o roteiro se concentra em mostrar os acontecimentos que levariam o personagem a se tornar futuramente o proscrito Robin Hood. Guardadas as devidas diferenças, é mais ou menos o caminho que Karim Ainouz seguiu em seu Madame Satã.

A biografia criada para o personagem também difere bastante da retratada em longas anteriores. Logo no início da trama, nos surpreendemos ao ver que o Robin desta versão se chama Longstride e é um exímio arqueiro a serviço do rei Ricardo Coração de Leão, que se encontra à frente de suas famosas cruzadas há dez anos e, portanto, distante do trono e dos assuntos políticos. Depois que Ricardo morre no campo de batalha, Robin é levado por uma série de acontecimentos fortuitos a tomar a identidade do nobre Robert Loxley e se encaminhar para Nottingham, onde conhece Marion, a trabalhadora viúva de Loxley, e se envolve nas insurreições dos camponeses contra as injustiças perpetradas pelos representantes da Coroa.


O grande charme do filme reside nesta mistura indefinida do panorama social e político da época com a biografia de um personagem fictício. Um bom exemplo é a seqüência em que o exército inglês resiste a uma invasão francesa por mar. O episódio de fato ocorreu, mas obviamente não contou com nenhuma participação de Robin Hood. Só que ao seguir uma estrutura parecida com a de Gladiador (e até mesmo de Cruzada), Ridley Scott se coloca em um paradoxo: para realizar uma versão de Robin Hood que não tivesse nada a ver com as outras, Scott acaba por recorrer a seus próprios truques anteriores. Ou seja: para ser diferente dos outros, fica parecido consigo mesmo.

Mas deixando essas questões conceituais de lado, Robin Hood é um pipocão de primeira linha: boa trama, cenas de ação bacanas, fotografia deslumbrante e elenco bem escalado. Russell Crowe, sempre mais carismático na tela do que na vida real, encarna o tipo de personagem que lhe cai melhor: o do brutamontes honesto e corajoso. Cate Blanchett faz uma lady Marion guerreira, pé no chão e com mais humor. E o filme ainda se dá ao luxo de ter coadjuvantes do nível de Max von Sydow e Mark Strong, ambos perfeitos. Somando isso a uma abordagem mais política do que romântica, o novo longa de Ridley Scott consegue deixar com cara de novidade uma das histórias mais refilmadas da sétima arte.

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres


O ser humano, de um modo geral, tem uma tendência a acreditar na violência como consequência de uma mazela social. O criminoso vindo de um lar desfeito ou com um histórico difícil teria uma explicação – até mesmo um atenuante – para suas ações. O que realmente tira o sono das pessoas é quando a perversidade vem do cidadão privilegiado, bem-educado, confiável, já que isso abre um leque de possibilidades apavorantes e transforma em suspeito qualquer pessoa.

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, adaptação do primeiro livro da bem-sucedida trilogia Millenium, do autor sueco Stieg Larsson, mostra a podridão oculta por trás de uma nação exemplar e culta. Logo no começo da trama, assistimos à crucificação pública do altruísta Mikael Blomkvist. Editor da revista Millenium, Blomkvist é condenado a três meses de prisão por calúnia depois que denuncia um proeminente empresário por negócios escusos e suas fontes o deixam na mão. Pior, seus próprios colegas de trabalho parecem ansiosos por se livrarem dele. É dura a vida de um homem honesto, até mesmo na Suécia.

Nessa fase nada favorável de sua vida, Mikael recebe uma curiosa proposta: trinta e seis anos antes, a aristocrata Harriet Vanger, na época com 16 anos, desapareceu sem deixar vestígios da propriedade da família, situada numa ilha de acesso restrito. Apesar do empenho da polícia local, a investigação teve que ser encerrada por falta absoluta de pistas. Mas o tio de Harriet, o poderoso Henrik Vanger, nunca se conformou e quer contratar Mikael, numa última tentativa de elucidar o mistério que o atormenta há décadas. O jornalista contará ainda com a ajuda de Lisbeth Salander, uma hacker exótica e cheia de problemas de socialização.


A partir do momento em que aceita a missão, Mikael, profissional acostumado a lidar com corrupção e injustiça, percebe que o mundo pode ser ainda pior do que ele pensava. Conforme avança em suas buscas, mergulha num lamaçal de perversão que faz com que os escândalos desencavados por ele antes soem pueris. E o filme não se furta a expor na tela violência sem maquiagem ou meio-termo, tanto em níveis físicos como psicológicos. A incômoda perspectiva que o filme abraça, de um modo geral, é a de uma sociedade prestes a implodir, com todo seu verniz de civilidade roído pelos dentes da insanidade. E esse pano de fundo assustador pouco tem a ver com o desaparecimento que norteia a trama ou com o histórico pessoal dos personagens. Um exemplo disso é a cena em que Lisbeth é hostilizada por um grupo de delinquentes no metrô.

Uma outra abordagem interessante é quanto à evidente inversão dos níveis de agressividade entre os personagens Mikael e Lisbeth. Ele, longe de ser o macho-alfa da história, é um homem de temperamento suave; ela é uma verdadeira explosão de hormônios e atitudes defensivas. E suas personalidades se complementam, sem que haja um grande choque ou uma polaridade maniqueísta para “explicar” o relacionamento entre eles.

Como bola-fora de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (que bobagem esse título brazuca, pegando carona no Truffaut), destaco a sua desnecessariamente longa duração (152 minutos). Ainda não li os livros de Larsson e tenho visto alguns fãs reclamando que o filme deixa muita coisa de fora. Só que, estranhamente, o miolo do longa apresenta uma certa “barriga” e deixa o ritmo cair, dando a sensação de que uma enxugadinha por ali deixaria o filme mais redondo – o que poderia elevar o bom para o patamar do excelente.

Por fim, uma qualidade extrafilme que não se pode deixar de ressaltar é o fato da adaptação para a telona deste best-seller mundial oriundo da Suécia ter sido feita lá mesmo, em seu país de origem, provando que projetos ambiciosos não precisam necessariamente das benesses do tio Sam. Mas, como nada que faz sucesso passa impune pelo apetite hollywoodiano, vários sites de cinema tem noticiado que já existe um remake americano em vias de produção. O filme teria David Fincher na direção e Brad Pitt no papel de Mikael. Dizem, ainda, que atrizes como Natalie Portman, Carey Mulligan e Ellen Page andam se estapeando pelo papel de Lisbeth. Enquanto isso a segunda e terceira parte da trilogia sueca vem aí, provavelmente seguida de perto pelos longas made in USA. Tudo isso apenas porque os americanos tem preguiça de ler umas legendas. Inacreditável, não?

Amanhã nos cinemas.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus


Não se pode comentar o filme O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus sem mencionar as conhecidas e tristes adversidades surgidas no caminho de sua realização. Quando morreu, há dois anos, o ator Heath Ledger estava justamente em meio às filmagens deste novo longa de Terry Gilliam. Como podemos perceber pelo resultado final, Heath já tinha rodado boa parte das cenas, mas faltava um trecho considerável para que o filme pudesse ser finalizado. Gilliam, deprimido, chegou a pensar em interromper o projeto. A solução veio com a ajuda de Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law, que se ofereceram para completar as cenas que cabiam a Ledger. E não é que funcionou?

Por uma imensa sorte, a abordagem do filme tem uma pegada não-realista que possibilitou que soasse natural que o personagem Tony assumisse outras faces. O Doutor Parnassus do título é um sujeito que acredita no poder de influenciar as ações alheias com seu rico e exuberante imaginário, que ele exibe dentro de uma carroça de show itinerante, ao estilo dos atores mambembes de outrora. É simples assim: as pessoas pagam e entram no imaginário, mais ou menos como acontecia em Quero Ser John Malkovich. Só que o bom Doutor tem seus vícios e, além de uns bons tragos, também tem compulsão por perigosas apostas com Mr. Nick, o diabo em pessoa. Numa dessas, ganhou a imortalidade e, noutra, a bela jovem por quem se apaixonara à primeira vista. Só que, por outro lado, também perdeu a filha Valentina (não fica claro exatamente quando), que passará a ser de Mr. Nick ao completar 16 anos. A trama começa justamente três dias antes da fatídica data, com Mr. Nick já rondando seu prêmio e se oferecendo para uma nova aposta.

É nesse estado de coisas que o misterioso Tony se junta à trupe depois que Valentina o encontra enforcado sob a Ponte de Londres e salva sua vida. Parnassus havia acabado de tirar a carta do enforcado no tarô e acredita que há algo de profético naquele estranho desmemoriado que cruza seu caminho. Heath Ledger está presente na maior parte das cenas em que os personagens se encontram no mundo real, ainda que algumas tomadas mais distantes possam ter sido feitas com ajuda de um dublê. Os outros atores surgem justamente como a imagem de Tony, quando visto por outra pessoa dentro do imaginário. Claro que fica difícil saber o quanto do roteiro original foi reescrito para que o longa se adaptasse ao funesto imprevisto, mas o resultado final é bom. Muito bom mesmo.


O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus lida com a própria essência teatral, ao escancarar nas telonas os mesmos mecanismos de sedução utilizados pelo teatro desde seus primórdios para transportar seus espectadores a um mundo de sonhos. É bem verdade que, nestes tempos de 3D e perfeição realista, o visual delirante e barroco do filme pode incomodar alguns menos afeitos ao onírico. Um exemplo disso é a surreal cena do primeiro encontro entre Parnassus e Mr. Nick, rodeados por monges meditantes em tapetes voadores. Louco demais. Mas uma vez ultrapassado esse susto inicial, é penetrar no universo do filme assim como alguns personagens penetram no imaginário de Parnassus. É recompensador, podem crer.

OK, o roteiro por vezes deixa algumas coisas no ar. Confuso? Um pouquinho, como tudo que é feito da mesma matéria dos sonhos e com um pé no subconsciente. Mas absolutamente fascinante. Com referências que bebem em fontes tão distintas como as pirações de Charlie Kaufman (em especial Quero ser John Malkovich e Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças) ou um mergulho na Commedia dell’Arte (o que lembra também A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola), O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus não é filme para ficar analisando muito racionalmente. É para viajar junto e, de quebra, curtir esse último encontro com um ator que se foi há pouco e já deixa muita saudade. Ver Heath Ledger em cena é lindo e dolorido ao mesmo tempo. Prestem atenção à fala de Johnny Depp sobre os ídolos que morreram jovens e foram eternizados. Soa como uma homenagem.

Sexta-feira nos cinemas.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Simplesmente Beth


Para aqueles que ainda não conseguiram ver a incrível transmutação de Beth Goulart em Clarice Lispector, o Teatro SESI Rio (Av. Graça Aranha, 1 - Centro) oferece uma última chance. O espetáculo Simplesmente Eu, Clarice Lispector segue até o final deste mês às terças e quartas, 19h30. O valor do ingresso, 40 reais, infelizmente não é mais aquele camaradinha do CCBB, mas tampouco é a extorsão praticada em alguns teatros da Gávea/Leblon. De todo modo, vale muito a pena ver o tour de force da atriz, que, sozinha num palco quase nu, mantém cada espectador na palma da mão durante uma hora de confissões, memórias e divagações da grande musa da literatura brasileira. Simplesmente incrível!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Tudo Pode Dar Certo


Woody-allen-maníacos, alegrai-vos! Finalmente chega aos cinemas do país Tudo Pode Dar Certo, seu novo longa-metragem. De volta a Nova Iorque depois de quatro filmes rodados na Europa, Woody retorna não somente à cidade-musa, mas também ao seu estilo de trabalho mais típico, ou seja, a uma produção onde a trama é menos importante do que as angústias e idiossincrasias do protagonista – que se apresenta como um alter ego de Allen, independentemente de ser interpretado ou não por ele.

O personagem hipocondríaco e depressivo da vez atende pelo nome de Boris Yellnikoff, um intelectual divorciado e rabugento que não acredita em quase nada e não suporta a companhia de quase ninguém, salvo dois ou três velhos amigos. E, mesmo assim, só consegue estar com eles por um curtíssimo período de tempo. Professor aposentado e candidato frustrado a um prêmio Nobel, Boris ensina xadrez a crianças, atividade que parece desempenhar apenas com o objetivo de destratar, ofender e até mesmo agredir fisicamente os indefesos alunos. Sem contar que ele tem absoluta certeza de estar sendo observado por pessoas que pagaram ingresso para ver sua vida, brincadeira metalinguística que faz com que os outros personagens o classifiquem como neurótico.

Uma noite, ao retornar para seu apartamento, Boris é surpreendido por Melodie St. Ann Celestine, que dorme na rua e lhe implora um prato de comida. Boris deixa que ela entre, ainda que a contragosto. Ao saber que a garota, vinda do sul, fugiu de casa e não tem para onde ir, permite que ela passe a noite. A noite se converte em dias, os dias em meses, e, com o passar do tempo, o rabugento acaba gostando de ter alguém para quem expressar toda sua frustração e egocentrismo, já que Melodie o acha genial e recebe cada ofensa como um ensinamento. Está estabelecida a base para os diálogos afiados e ironias finas em cima dos problemas do cotidiano.

Não tarda para que o improvável torne-se realidade e os dois se envolvem, mais por carência de ambas as partes do que propriamente por amor, e poderiam ter uma vida tranquila caso Melodie não fosse encontrada primeiro por sua mãe, fanática religiosa e perua preconceituosa, e depois pelo pai, mulherengo com muitas coisas a esconder. É a partir desse ponto que a trama ganha novo e insuspeito fôlego e o que parecia pré-estabelecido vira de pernas para o ar. A chegada dos novos personagens e os novos conflitos por eles criados acrescenta inesperados desdobramentos e leveza a uma história que até então pendia mais para a melancolia, apesar de suas tiradas irônicas e diálogos cheios de sarcasmo.

Larry David está perfeito como Boris, uma visão extremada e mais dura da habitual persona neurastênica interpretada por Woody Allen nas telas. Ao mesmo tempo, o comediante-roteirista consegue conferir alguma dose de fragilidade a um personagem que, se interpretado sem nuances, poderia ser insuportável. Evan Rachel Wood também convence com sua burrice ingênua e doce, fazendo parecer viável que uma jovem como ela se interesse por uma figura como Boris. Outro grande destaque do elenco é a sempre competente Patricia Clarkson como a mãe conservadora que acaba por soltar a franga quando liberta do ambiente sulista onde vivera até então. Sensacional.

Tudo Pode Dar Certo, tradução não muito fiel de Whatever Works, é daqueles filmes que passam em instantes, tamanho o prazer do espectador em assisti-lo. E ainda tem o charme extra de deixar um sorriso de indulgência e compreensão no nosso rosto muito tempo depois das luzes se acenderem. Afinal de contas, a vida é louca e vale a pena tentar seja lá o que for que funcione.