sábado, 10 de setembro de 2011

Trilogia Millenium

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres


Lembram do ótimo Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, que passou por aqui no ano passado? O filme é o primeiro de uma série, adaptação da trilogia literária conhecida como Millenium, que se compõe ainda de A Menina Que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar. Ao longo de quase duas mil páginas, o jornalista sueco Stieg Larsson – que teve o azar de morrer antes de presenciar o êxito de sua obra – destrincha uma trama violenta, cheia de mistérios, politicagem e corrupção, que estende seus tentáculos a altas esferas do poder público. Os protagonistas da odisseia em busca da verdade são Mikael Blomkvist, um jornalista obcecado, corajoso e incorruptível; e Lisbeth Salander, uma hacker cheia de problemas de socialização e terríveis fantasmas do passado em seu encalço.

Todos os três livros são apaixonantes, daqueles que a gente praticamente “devora”. E o primeiro filme foi relativamente bem-sucedido, então por que cargas d’água suas duas sequências não chegaram nunca aos nossos cinemas e nem mesmo às locadoras? Agora que seu remake americano pelas mãos de David Fincher vem sendo motivo de vários buchichos e muita expectativa me vem a desconfiança de que foi de caso pensado. Os distribuidores devem ter pensado preguiçosamente “vamos esperar pelos longas americanos”.

Mas o mundo é conectado e, graças à ajuda do meu gentilíssimo amigo Alex, tive a oportunidade de assistir aos filmes restantes. A Menina Que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar são tão bons que não consegui evitar vê-los em sequência, numa verdadeira maratona Millenium. Ambas as adaptações foram muito bem-feitas, inclusive nas decisões de quais subtramas dos respectivos livros deveriam ser cortadas. O resultado final é vibrante, denso, sem perder o foco central da história – embora os leitores fatalmente sintam falta de algumas passagens marcantes.

A Menina Que Brincava com Fogo

O elenco afiado, capitaneado por Michael Nyqvist e a impressionante Noomi Rapace (indicada ao Bafta pelo primeiro filme e injustamente ignorada pelo Oscar), continua o mesmo, os roteiros são impecáveis, o ritmo é ótimo. Sinceramente, acho difícil para David Fincher igualar esse resultado, mesmo porque para o mercado americano sempre há aquela pressão de suavizar algumas coisas. Uma personagem como Lisbeth Salander mantida exatamente como ela é? Sei não... Eu tenho cá minhas dúvidas se o Fincher hoje em dia continua com a mesma coragem que ele demonstrou em O Clube da Luta.

Mas tudo bem. O público americano não fará essa comparação, simplesmente porque não conhece o original por conta de sua célebre aversão a qualquer coisa que contenha legendas. Então os filmes de David Fincher soarão como novidade e, sendo Fincher um cineasta talentoso, certamente ele deve realizar uma trilogia competente. Mas a questão não é essa, certo? A questão é: por que refazer pouquíssimo tempo depois o que já foi feito com competência na primeira vez?

E o público brasileiro que sofra o efeito colateral disso tudo.

A Rainha do Castelo de Ar

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Longas Nacionais Selecionados para o Festival do Rio


COMPETIÇÃO LONGAS DE FICÇÃO
1.  A Novela das Oito, de Odilon Rocha 
2.  Amanhã Nunca Mais, de Tadeu Jungle
3.  Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca 
4.  Girimundo, de Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina
5.  Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, de Julia Murat 
6.  Mãe e Filha, de Petrus Cariry 
7.  A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Vinícius Coimbra 
8.  O Abismo Prateado, de Karim Aïnouz
9.  Sudoeste, de Eduardo Nunes 

HORS-CONCOURS FICÇÃO
1.  Capitães de Areia, de Cecília Amado 
2.  Corações Sujos, de Vicente Amorim 
3.  O Palhaço, de Selton Mello
4.  Os 3, de Nando Olival
5.  Reis e Ratos, de Mauro Lima
 

NOVOS RUMOS
1.  Paraíso, Aqui Vou Eu, de Walter Daguerre e Cavi Borges 
2.  Cru, de Jimi Figueiredo
3.  Dia de Preto, de Marcos Felipe, Daniel Mattos e Marcial Renato
4.  Rânia, de Roberta Marques
5.  Teus Olhos Meus, de Caio Sóh
6.  Vamos Fazer um Brinde, de Cavi Borges e Sabrina Rosa
7.  Circular, de Adriano Esturilho, Aly Muritiba, Bruno de Oliveira, Diego Florentino e Fábio Allon 
8.  Espiral, de Paulo Pons 

COMPETIÇÃO LONGAS DOCUMENTÁRIOS
1. A Era dos Campeões, de Cesario de Mello Franco e Marcos Bernestein
2. Canções, de Eduardo Coutinho 
3. Laiá, Laiá, de Alexandre Iglesias
4. Luz, Câmera, Pichação, de Marcelo Guerra, Gustavo Coelho e Bruno Caetano 
5. Marighella, de Isa Grinspum Ferraz 
6. Mentiras Sinceras, de Pedro Asbeg
7. Olhe Para Mim de Novo, de Kiko Goifman e Claudia Priscilla 
8. Os Últimos Cangaceiros, de Wolney Oliveira

HORS-CONCOURS DOCS
1.  Casa 9, de Luiz Carlos Lacerda 
2.  Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat 
3.  Vida de Artista, de José Joffily 

RETRATOS
1.  Abdias Nascimento, Um Brasileiro do Mundo, de Aída Marques
2.  Augusto Boal e o Teatro do Oprimido, de Zelito Viana 
3.  Bruta Aventura em Versos, de Letícia Simões 
4.  Cena Nua, de Belisário Franca
5.  Marcelo Yuka no Caminho das Setas, de Daniela Broitman 
6.  Salgado Filho - O Herói Esquecido, de Ricky Ferreira 

FILMES BRASILEIROS EM OUTRAS MOSTRAS

PREMIERE LATINA
Carta para o Futuro, de Renato Martins 
Cuba Libre, de Evaldo Mocarzel

MOSTRA EXPECTATIVA
Tambores, de Sérgio Raposo 
Vale dos Esquecidos, de Maria Carvalho Raduan

PANORAMA DO CINEMA MUNDIAL
Rock Brasília, Era de Ouro, de Wladimir Carvalho 

MOSTRA ITINERÁRIOS ÚNICOS
Um dia com Frederico Morais, de Guilherme Coelho
Meia hora com Darcy, de Roberto Berliner

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Riscado


(texto escrito no final de julho e reposicionado devido ao adiamento da estreia do filme)


Digam o que quiserem, mas, noves fora, este está sendo um bom ano para o cinema nacional. Ainda estamos na metade de 2011 e pelo menos duas produções excelentes já abrilhantam nossas telas. A primeira foi A Falta Que Nos Move, resistindo bravamente em cartaz no Rio de Janeiro ao longo de várias semanas, em três salinhas (e mesmo assim, dividindo horário); já a segunda pérola brazuca do ano ganhará os cinemas na próxima sexta-feira. Trata-se de Riscado, longa de estreia do jovem Gustavo Pizzi.

Coincidência ou não, ambos os filmes fazem um interessante paralelo entre os sempre difusos limites entre realidade e ficção e tem seus atores interpretando personagens que poderiam ser eles mesmos. Ou não. No caso de Riscado, o roteiro busca investigar o quanto a sorte pode influenciar uma carreira. Karine Teles, também co-autora do roteiro, é Bianca Ventura. Bianca, assim como Karine, é uma excelente atriz. Entende do Riscado. Então por que sua carreira não está chegando a lugar algum? Por que ela está sempre devendo o aluguel e tem que custear seu sonho com subempregos, ainda por cima ouvindo piadinhas de quem não tem a mínima sensibilidade para entender que arte é uma forma de vida e não um capricho?

A propaganda, a mídia, os programas de TV, os livros de autoajuda, enfim, toda essa indústria de felicidade dos tempos modernos sempre nos fez acreditar que, para atingir o sucesso, basta fazer a sua parte e ser perseverante. Fazer por onde. Quem espera sempre alcança. Deus ajuda quem cedo madruga. Mas seria simples assim, uma mera equação entre esforço dispendido e resultado alcançado? Bianca é talentosa, guerreira, disponível. Ainda acredita no que faz mesmo quando o mundo lhe diz não, mesmo quando confundem atriz com prostituta, mesmo quando lhe jogam na cara que ela estaria “velha demais” para sonhar.


Mas eis que um belo dia a sorte (olha ela aí de novo) sorri para Bianca. A moça faz um teste para um longa-metragem, coprodução entre Brasil e França, e o diretor não somente se encanta com seu trabalho como também resolve se basear na experiência pessoal dela para enriquecer a personagem do filme. Bianca estará contando sua própria vida nas telas, fazendo um filme sincero, que inspirará as pessoas. Tudo que ela sofreu, afinal, não foi em vão.

A partir desse ponto, o longa ganha três desdobramentos muito próximos: a atriz de Riscado, Karine Teles, se mescla com sua personagem Bianca Ventura, que, por sua vez, se confunde com a atriz do filme dentro do filme que terá Bianca como protagonista. Mas até onde essas três atrizes caminharão juntas? Terão todas o mesmo destino? Na verdade, o que o filme sugere é bem essencial: aquelas atrizes são todas as atrizes.

Karine Teles e Gustavo Pizzi – que são casados na vida real, criando aí mais uma leitura metalinguística – entregam para nós o que promete o diretor do filme de dentro: uma história sincera, que vai tocar o coração das pessoas. E que certamente tocará ainda mais fundo na alma de todos aqueles que tentam sobreviver de sua arte no Brasil. Que são denegridos, humilhados, menosprezados, tão-somente por estarem à margem da engrenagem de lucro, poder e satisfação imediata que rege o mundo das ditas “pessoas sérias”. Por serem diferentes. Por serem ingênuos a ponto de terem se tornado adultos que sonham.


O filme fez bonito no último Festival do Rio, agradando público e crítica, e dando o troféu Redentor de melhor atriz para a performance arrasadora de Karine Teles. Vamos torcer para que repita esse sucesso agora no circuito comercial. Gustavo e Karine merecem. Eles entendem (e muito) do riscado.

9 de setembro nos cinemas. Não percam!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Homem do Futuro


Uma coisa que eu sempre defendi quando o assunto é cinema brasileiro é que o mesmo carece de uma maior pluralidade de estilos. Nossos filmes parecem, em sua maioria, se dividir entre duas vertentes bem distintas: de um lado, as comédias de apelo popular com astros das novelas ou adaptações de seriados televisivos; de outro, os filmes que retratam as mazelas sociais e/ou violência urbana. Gêneros como terror, suspense e ficção científica são solenemente ignorados pela nossa cinematografia. Mas esse é apenas um dos motivos que tornam O Homem do Futuro, novo longa de Claudio Torres, tão interessante.

Wagner Moura é João, conhecido como Zero desde o dia em que foi humilhado em uma festa pela bela Helena, por quem estava perdidamente apaixonado. Apesar de ser um gênio da física, sua vida é um caos. Solitário, mal-humorado e ainda ressentido pelo que lhe aconteceu 20 anos antes, Zero dedica-se febrilmente a uma invenção revolucionária que criará uma nova forma de energia. Ao testar a máquina, acaba criando uma fenda no tempo e seus pensamentos obsessivos acabam levando-o de volta à fatídica noite de 1991 que bagunçou sua vida para sempre.

OK. O argumento não é a coisa mais original do mundo, podendo até ser descrito como uma mistura de Efeito Borboleta e De Volta Para o Futuro. Mas, mesmo lidando com uma história que, a princípio, parece batida, Claudio Torres entrega um filme apaixonante e que ganha uma feição bem brasileira. Talvez pela boa decisão de ambientar o passado no início dos anos 90, época em que, recém-saídos da ditadura, vivíamos um momento de liberdade e encanto. Era a época ideal para sonhar, ao embalo do rock Brasil que explodia nas festas tresloucadas da garotada.


Com doses balanceadas de comédia, romance e ternura, acompanhamos Zero em suas tentativas de consertar a própria vida. Sendo um físico, o personagem sabe melhor do que ninguém que mesmo a menor das interferências pode ter desdobramentos infinitos, criando toda uma nova cadeia de acontecimentos futuros. Mas quem pode colocar a razão acima da sensibilidade quando o que está em jogo é uma segunda chance de ser feliz? Quando a reconquista da pessoa amada está tão ao alcance?

Tem muita gente que reclama da supremacia de Wagner Moura nas telas de cinema. Fazer o que, se o cara é um dos maiores atores do momento? Se eu fosse fazer um filme, também ia querer o Wagner no meu elenco. Fazendo qualquer papel que fosse. Porque ele dá conta. No caso deste filme, de interpretar o mesmo personagem em diferentes idades, momentos e situações. Outra coisa interessante é que a caracterização se apóia muito mais no talento do ator do que em artificialismos de maquiagem. A expressão de lesado que ele faz para o Zero jovem consegue suspender nossa descrença e realmente nos convencer que estamos diante de um garoto de 20 anos.

Alinne Moraes vem provando nos últimos anos que é muito mais do que uma mulher bonita e, com este filme, deixa claro que aquela Alinne de Fica Comigo Esta Noite – que parecia muito pouco à vontade com a sétima arte – definitivamente ficou para trás. No elenco coadjuvante, o ótimo Fernando Ceylão faz o clássico papel do melhor amigo do protagonista e o lindo Gabriel Braga Nunes encarna mais um vilão maquiavélico.


A ótima escalação de elenco, somada aos diálogos espertos e ao bom ritmo, resultam em um filme vibrante, terno e engraçado, que faz o espectador torcer pelos personagens a cada nova reviravolta dos acontecimentos. E, por fim, não podemos deixar de mencionar os efeitos especiais, sempre bem aplicados e na medida certa, ou seja, nunca ofuscando a história que está sendo contada.

O Homem do Futuro é uma ótima surpresa e uma prova de que cinema pode ser inteligente, popular, sério, divertido e metafísico. Tudo ao mesmo tempo e feito com extrema competência. Adorei. Desafio você, leitor, a não sair da sala cantarolando Tempo Perdido.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Super 8



Super 8 é um filme que acertará em cheio o coração de cinéfilos quarentões, com sua pegada assumidamente nostálgica e a homenagem escancarada ao cinema dos anos 80, especialmente o de Steven Spielberg – sendo Os Goonies e ET as principais referências. Ambientado em uma era pré-internet e reality shows, Super 8 representa, ainda, uma ingenuidade deliciosa no próprio modo de fazer cinema, com sua fotografia assumidamente antiga e seus protagonistas infantis (crianças que se comportam como crianças, e não adultos em miniatura).

O filme é centrado em um grupo de amigos quer fazer um filme de zumbis – rodado com a câmera super 8 que batiza o longa – e acaba testemunhando um estranho acidente que o governo dos Estados Unidos faz de tudo para camuflar. A trama ainda pega carona na paranoia da época da guerra fria e em uma sociedade para a qual a misteriosa União Soviética era o grande bicho-papão – como os americanos devem sentir falta desses terrores difusos de então. Em meio a esse panorama, a garotada quer fazer cinema e disputar as atenções da menina mais bonita de escola, mas tem sempre que lidar com a intolerância e falta de diálogo da parte dos adultos. Em especial, Joe, que perdeu a mãe em um acidente alguns meses antes e não sabe como se aproximar do pai tenso e sisudo, nem entende porque ele tem tanta bronca do pai da menina por quem ele está apaixonado.

Não tem vez na trama os celulares, a internet e muito menos as câmeras digitais. É tempo de brincar com walk-talkies, revelar filmes e a grande novidade do pedaço é o walkman. Talvez por isso espectadores de outras gerações não entendam muito bem o que emociona tanto o verdadeiro público-alvo de Super 8, que é essa geração que foi adolescente nos anos 80 e cresceu embalada por aventuras incríveis, caças a tesouros, buscas por alienígenas e, sobretudo, uma dose de ingenuidade que não é mais possível nos tempos de hoje.


Assim como ocorre em Os Goonies e ET, os adultos entram em cena como figuras repressoras e coadjuvantes. Que se comportam de forma infantil, arbitrária ou violenta. Portanto, o filme poderia dar terrivelmente errado se não contasse com um elenco infantil de primeira. Mas Super 8, felizmente, tem no seu elenco outro ponto forte. É claro que a ótima Elle Fanning (a irmã de Dakota, que pode ser vista também em Somewhere, de Sofia Coppola) impressiona, mas isso já era de se esperar. O que é preciso destacar e enfatizar é a estreia dos carismáticos Joel Courtney e Riley Griffiths, que dão vida aos melhores amigos Joe e Charles com uma naturalidade e cumplicidade muito gostosa de ser ver em cena. Vamos ficar atentos a esses nomes.

Vale destacar que o longa foi escrito e dirigido por J.J. Abrams, ele próprio um quarentão que com certeza se divertiu muito fazendo esse filme. No mais, é se munir de um bom saco de pipoca e embarcar nessa máquina do tempo divertida e encantadora que é Super 8. 

PS> Não deixem de acompanhar, ao longo dos créditos, a exibição do filme de zumbi feito pelos meninos. Sensacional!

sábado, 27 de agosto de 2011

Amor a Toda Prova


Amor a Toda Prova é daquele tipo de filme que, à primeira vista, se parece com tantos outros que você já viu antes. Ainda assim, a produção agrada e diverte por sua despretensão e delicadeza, associadas a um elenco de primeira linha. Dirigido por Glenn Ficarra e John Requa, a mesma dupla por trás do bom e subestimado I Love You, Phillip Morris, o filme garante não somente a diversão, como também boas doses de reflexão sobre o que é realmente fundamental para manter um relacionamento nos trilhos.

A trama é centrada em Cal Weaver, um quarentão muito satisfeito com a própria vida: tem um emprego estável, filhos adoráveis e um casamento feliz com a mulher por quem sempre foi apaixonado. Mas sua esposa Emily sente-se sufocada pela rotina dos 25 anos de relacionamento. O inesperado pedido de divórcio deixa Cal perplexo e desorientado, ainda mais considerando que sua experiência com o sexo oposto resume-se a Emily. É quando entra em cena Jacob, um conquistador irresistível que resolve fazer as vezes de fada-madrinha e transformar Cal em um novo homem.

Amparado pelo roteiro inteligente e pelas boas falas, o ótimo elenco capitaneado por Steve Carell, Julianne Moore e Ryan Gosling cria cumplicidade e identificação com o público, compondo seus personagens com nuances e delicadeza. Ainda que o filme por vezes tropece no moralismo e tenha alguns problemas de ritmo lá pela metade, o saldo final é mais do que positivo. Crazy, Stupid, Love (no original) traz para a telona os pequenos dramas cotidianos de pessoas comuns, buscando o amor, a cumplicidade, enfim, um relacionamento que as complete e as faça felizes.

Merece uma conferida!


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Planeta dos Macacos – A Origem



Refilmagens, de um modo geral, se situam em terreno pantanoso. Se o diretor toma muitas liberdades em relação a seu antecessor, é acusado de desrespeitar o original; se, por outro lado, o novo filme resulta muito parecido, nos perguntamos por que, afinal de contas, foi feito o remake. No caso de O Planeta dos Macacos, até mesmo um cineasta competente e criativo como Tim Burton tropeçou ao refilmar o clássico da ficção científica na década passada. O novato Rupert Wyatt foi mais esperto e apostou na tendência do momento, que é dar um novo ângulo a um enredo já conhecido. Planeta dos Macacos – A Origem, como o título já define, se situa em um momento anterior e mostra o início da dominação símia sobre o homem.

A história parte do ponto em que o cientista Will Rodman faz experiências em macacos para testar uma droga inovadora que pode curar o Mal de Alzheimer. Mas, devido a um erro de interpretação, o teste final perante os patrocinadores dá terrivelmente errado e o antes promissor cientista cai em desgraça. As cobaias são sacrificadas, com exceção de um chipanzé recém-nascido que Will leva para casa e ao qual se afeiçoa paternalmente. Logo ele descobre que o chipanzé, batizado de Caesar, tem habilidades inacreditáveis e, estimulado, consegue se comunicar através de sinais e demonstrar sentimentos e raciocínio semelhantes ao do ser humano. O grande problema é que, fora de seu restrito círculo familiar, Caesar é visto por todos como apenas um animal. E não gosta nem um pouco disso.


Apesar do roteiro um pouco esquemático, o filme cativa o espectador devido a seu ritmo eletrizante e o frescor que consegue impor a uma história tão conhecida do público. Outro ponto alto são as referências; não apenas ao Planeta original, mas também ao universo sci-fi de um modo geral. E, embora o elenco cumpra bem sua parte (com destaque para o veterano John Lithgow), os personagens humanos são os coadjuvantes da trama e o grande atrativo fica mesmo por conta da macacada digital. O filme comete a ousadia de ter longas sequências protagonizadas somente pelos macacos e – surpresa! – são justamente essas as melhores e mais vibrantes cenas do filme. Através da técnica de captura de expressões faciais, o ator Andy Serkis dá show como o inteligente e revoltado Caesar. Serkis, aliás, já é um expert em dar vida a personagens digitais, tendo no currículo o Gollum da trilogia O Senhor dos Anéis e o King Kong mais recente.

Planeta dos Macacos – A Origem é uma grata surpresa com potencial para agradar tanto aos fãs do clássico com Charlton Heston quanto aos neófitos que não conhecem nada sobre essa ótima alegoria sobre o grau de involução do ser humano. 


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dylan Dog e as Criaturas da Noite



Não podemos desprezar o poder da inversão de expectativa. Tudo que eu lia e sabia antecipadamente deste Dylan Dog e as Criaturas da Noite, que estreou nos EUA em abril, me desanimava um pouco mais a cada dia. A escolha do ator-protagonista me soava equivocada, as imagens veiculadas pareciam tender ao terrorzinho barato e, principalmente, a supressão de um dos personagens centrais da trama cheirava a heresia completa e irrestrita. Para completar, a direção foi entregue a Kevin Munroe, cujo único longa anterior é Tartarugas Ninja – O Retorno. Do alto da minha condição de fã dos quadrinhos que inspiraram o filme, já tendia a desgostar dele antes mesmo de tê-lo visto. Mas não é que o longa, no final das contas, até se mostrou digno?

Pouco conhecidas por aqui, as surreais aventuras do detetive mediador entre o mundo dos vivos e dos mortos são objeto de verdadeiro culto em seu país de origem, a Itália. Provavelmente não existe um italiano de até seus quarenta anos que nunca tenha lido ao menos um fumetto de Dylan Dog. Criado nos anos 80 por Tiziano Sclavi e publicado ininterruptamente desde então, o personagem pode ser descrito como um Sherlock Holmes de ares bogartianos que vive no universo dos irmãos Winchester do seriado Supernatural. Mas Dylan não é um caçador de monstros, pelo contrário; é a ele que os mortos recorrem quando tem algum problema. Para completar, o cara é assessorado por uma figura bufa chamada Groucho – uma espécie de mordomo com direito a bigodão ao estilo Groucho Marx. Doido? Com certeza, o bagulho é doido mesmo. Mas é justamente isso que vem apaixonando os fãs há três décadas.

No longa, Dylan deixou Londres pela Louisiana e se aposentou dos casos sobrenaturais depois que sua amada foi morta por criaturas do além e ele perdeu seu status de homem de confiança dos seres sobrenaturais. Agora ele se dedica a investigações menos polêmicas, como flagrantes de adultério. Mas o misterioso assassinato de um rico contrabandista de artefatos raros faz com que ele, mesmo a contragosto, volte a ser o mediador entre seres humanos e mortos-vivos.


Como filme, Dylan Dog tem pontos positivos e negativos. O que mais faz falta é a presença do irônico Groucho. Com suas tiradas sarcásticas e totalmente fora de hora, o personagem é um dos toques de bizarrice mais interessantes das histórias. Tampouco Brandon Routh – mais conhecido como “o Superman que não deu certo” – pode ser considerado a melhor escolha para o papel. O ator devidamente caracterizado até fica parecido com o Dylan Dog dos quadrinhos, mas deixa a desejar na interpretação. Sem contar que o intérprete ideal deveria ser um pouquinho mais velho e menos marombado. O destaque no elenco fica por conta do ótimo Sam Huntington como o atrapalhado ajudante Marcus - ironicamente, Huntington havia sido Jimmy Olsen no Superman de Brandon Routh.

O filme peca ainda por ser mais referencial do que seria necessário a sucessos do momento, em especial ao seriado True Blood. Mas nem todas as intertextualidades são negativas: uma que foi muito bem sacada, por exemplo, foi a ideia de batizar uma das criaturas como Sclavi, numa divertida homenagem ao criador dos quadrinhos, Tiziano Sclavi. Resumindo: embora seja bastante infiel à HQ, o filme se salva porque teve o bom senso de manter intactos o humor negro e o tom de deboche que são os aspectos mais característicos do Dylan Dog original.

Vale uma conferida, desde que se mantenha o espírito da diversão e não se vá ao cinema com a expectativa ver a adaptação que o personagem merecia. E eu não consigo deixar de imaginar uma coisa: que filmaço Dylan Dog poderia ser nas mãos de um diretor como Sam Raimi. Pronto, falei.

Sexta nos cinemas. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Salve Helena!


Ainda sobre o assunto Harry Potter, é preciso destacar o acerto constante dos produtores em sempre escalar os atores certos para cada um dos muitos personagens. Uma escalação furada seria desastrosa, já que, salvo algumas exceções, os atores do elenco participam de vários filmes.

E para quem ainda tem dúvidas de que Helena Bonham Carter é uma das maiores atrizes do mundo, fica de prova a cena de Harry Potter e as Relíquias da Morte 2 na qual a atriz tem que interpretar Hermione no corpo dela. Na trama, Hermione toma a poção polissuco e fica com a aparência da insana e maligna Bellatrix Lestrange, dando a Helena a oportunidade de simular o que seria a menina tentando se fazer passar por sua personagem.

Prestem atenção, é simplesmente genial!

sábado, 16 de julho de 2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte – parte 2


É o fim de uma era. Ninguém em sã consciência poderia analisar a oitava parte desta franquia única na história da sétima arte como apenas um filme em separado. Sete livros, adaptados em oito filmes, ao longo de uma década. Um elenco que cresceu e amadureceu diante das câmeras e em conjunto com seu público-alvo, tornando-se icônico para toda uma geração que sofreu as dores da adolescência juntamente com Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson – intérpretes de Harry, Rony e Hermione. Se partiu da escritora J.K. Rowling a brilhante ideia de criar personagens que crescem em tempo real, foram essas três crianças que traduziram esse conceito em realidade.

Deixando a parte afetiva de lado, tampouco é possível encontrar outro exemplo de uma série cinematográfica que tenha conseguido manter um padrão de excelência tão alto ao longo de tantos filmes. Qualidade realçada ainda mais desde que o britânico David Yates, diretor televisivo pouco conhecido à época, assumiu o quinto filme e deu à franquia o impulso que faltava, tendo sido mantido na função até este último e espetacular desfecho para a batalha entre o Bem e o Mal – representados por Harry e Voldemort, respectivamente.


Desde o terceiro longa, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, a saga tem começado a ganhar contornos mais sombrios, preparando-nos para o inevitável confronto final. Personagens queridos foram eliminados, laços foram rompidos, novas alianças foram criadas, verdades fundamentais foram mantidas ocultas. E, felizmente, a fidelidade aos livros foi sempre respeitada. Criticada a princípio por sua intransigência, a supervisão de Rowling sobre os filmes mostrou-se sempre acertada, evitando qualquer desvirtuamento fatal ao longo do caminho.

A decisão de dividir o último livro em dois, tendo sido norteada por fatores mercadológicos ou não, se mostrou extremamente positiva no final das contas. Tal decisão permitiu que Yates pudesse criar um filme onde o desenvolvimento dos personagens e seus sentimentos é tão ou mais importante do que as muitas – e bem-realizadas – sequências de batalhas. Há que parabenizar sua coragem de entremear os espetaculares efeitos visuais com cenas contemplativas e silêncios significativos.

Nesta segunda parte, Voldemort finalmente está de posse da varinha poderosa que buscava há tempos, Harry e seus amigos continuam sendo caçados pelas forças do Mal, Hogwarts encontra-se sob o controle dos comensais da morte e ainda faltam várias horcruxes para serem encontradas e destruídas antes que o vilão esteja vulnerável. Mas a resistência está pronta para agir, e Harry tem aliados secretos que nunca ousaria imaginar. O problema é que, não importando quem tenha a seu lado, a batalha final deve ser necessariamente travada somente entre ele e Voldemort. Já dizia a profecia, um não pode viver enquanto o outro viver.   


A fotografia espetacular do português Eduardo Serra e a trilha sonora perfeita de Alexandre Desplat são dois fatores que ajudam bastante a ambientar o espectador no universo do filme e na atmosfera reinante neste ponto da trama. Já a tecnologia 3D, embora discutível em termos de necessidade, é utilizada com discrição e, portanto, não chega a atrapalhar a imersão na trama. Mas realmente não precisava.

No mais, Harry Potter e as Relíquias da Morte – parte 2 é certamente o capítulo final que todos esperavam ver na tela para a odisseia do menino bruxo. Não consigo imaginar soluções melhores do que as encontradas pelo longa, chegando mesmo a achar que ele é, em muitos pontos, mais bem-resolvido do que o livro do qual foi adaptado. Principalmente na meia hora final, que é justamente quando ganham a tela alguns aspectos da história que não são exatamente uma unanimidade dentre os leitores da saga. Yates parece ter tornado tais pontos polêmicos mais, digamos, palatáveis.

Ao final da projeção a sensação é a de que foi um belo desfecho para uma era. Adeus, Harry. Vamos sentir saudades.