Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Lembram do ótimo Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, que passou por aqui no ano passado? O filme é o primeiro de uma série, adaptação da trilogia literária conhecida como Millenium, que se compõe ainda de A Menina Que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar. Ao longo de quase duas mil páginas, o jornalista sueco Stieg Larsson – que teve o azar de morrer antes de presenciar o êxito de sua obra – destrincha uma trama violenta, cheia de mistérios, politicagem e corrupção, que estende seus tentáculos a altas esferas do poder público. Os protagonistas da odisseia em busca da verdade são Mikael Blomkvist, um jornalista obcecado, corajoso e incorruptível; e Lisbeth Salander, uma hacker cheia de problemas de socialização e terríveis fantasmas do passado em seu encalço.
Todos os três livros são apaixonantes, daqueles que a gente praticamente “devora”. E o primeiro filme foi relativamente bem-sucedido, então por que cargas d’água suas duas sequências não chegaram nunca aos nossos cinemas e nem mesmo às locadoras? Agora que seu remake americano pelas mãos de David Fincher vem sendo motivo de vários buchichos e muita expectativa me vem a desconfiança de que foi de caso pensado. Os distribuidores devem ter pensado preguiçosamente “vamos esperar pelos longas americanos”.
Mas o mundo é conectado e, graças à ajuda do meu gentilíssimo amigo Alex, tive a oportunidade de assistir aos filmes restantes. A Menina Que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar são tão bons que não consegui evitar vê-los em sequência, numa verdadeira maratona Millenium. Ambas as adaptações foram muito bem-feitas, inclusive nas decisões de quais subtramas dos respectivos livros deveriam ser cortadas. O resultado final é vibrante, denso, sem perder o foco central da história – embora os leitores fatalmente sintam falta de algumas passagens marcantes.
O elenco afiado, capitaneado por Michael Nyqvist e a impressionante Noomi Rapace (indicada ao Bafta pelo primeiro filme e injustamente ignorada pelo Oscar), continua o mesmo, os roteiros são impecáveis, o ritmo é ótimo. Sinceramente, acho difícil para David Fincher igualar esse resultado, mesmo porque para o mercado americano sempre há aquela pressão de suavizar algumas coisas. Uma personagem como Lisbeth Salander mantida exatamente como ela é? Sei não... Eu tenho cá minhas dúvidas se o Fincher hoje em dia continua com a mesma coragem que ele demonstrou em O Clube da Luta.
Mas tudo bem. O público americano não fará essa comparação, simplesmente porque não conhece o original por conta de sua célebre aversão a qualquer coisa que contenha legendas. Então os filmes de David Fincher soarão como novidade e, sendo Fincher um cineasta talentoso, certamente ele deve realizar uma trilogia competente. Mas a questão não é essa, certo? A questão é: por que refazer pouquíssimo tempo depois o que já foi feito com competência na primeira vez?
E o público brasileiro que sofra o efeito colateral disso tudo.




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