quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Academia Britânica divulga indicados ao BAFTA



Um dia antes do anúncio das indicações ao Oscar, a Academia Britânica anuncia os concorrentes ao BAFTA, não por acaso conhecido como “Oscar britânico”. Steven Spielberg e seu Lincoln disparam na frente, com dez indicações, seguidos de perto pelo musical da temporada, Os Miseráveis, e pelo épico As Aventuras de Pi, com nove indicações cada. As surpresas foram as oito indicações para o novo longa da franquia 007, Operação Skyfall, e a indicação de Ben Affleck como melhor ator por Argo – o filme teve outras seis merecidíssimas indicações, mas melhor ator realmente foi forçado. Menção honrosa para a inclusão, na categoria filme estrangeiro, de Headhunters, ótimo longa norueguês que vinha sendo ignorado até então. Os vencedores serão conhecidos no dia 10 de fevereiro. Enquanto isso, confiram abaixo a lista completa de indicados:


Melhor Filme
Argo
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
Lincoln
A Hora Mais Escura

Melhor Diretor
Michael Haneke, por Amour
Ben Affleck, por Argo
Quentin Tarantino, por Django Livre
Ang Lee, por As Aventuras de Pi
Kathryn Bigelow, por A Hora Mais Escura

Melhor Ator
Ben Affleck, por Argo
Bradley Cooper, por O Lado Bom da Vida
Daniel Day-Lewis, por Lincoln
Hugh Jackman, por Os Miseráveis
Joaquin Phoenix, por O Mestre

Melhor Atriz
Emmanuellle Riva, por Amour
Helen Mirren, por Hitchcock
Jennifer Lawrence, por O Lado Bom da Vida
Jessica Chastain, por A Hora Mais Escura
Marion Cotillard, por Ferrugem e Osso

Melhor Ator Coadjuvante
Alan Arkin, por Argo
Christoph Waltz, por Django Livre
Javier Bardem, por 007 - Operação Skyfall
Philip Seymour Hoffman, por O Mestre
Tommy Lee Jones, por Lincoln

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams, por O Mestre
Anne Hathaway, por Os Miseráveis
Helen Hunt, por As Sessões
Judi Dench, por 007 - Operação Skyfall
Sally Field, por Lincoln

Melhor Atriz/Ator em Ascensão
Elizabeth Olsen
Andrea Riseborough
Suraj Sharma
Juno Temple
Alicia Vikander

Melhor Filme Britânico
Anna Karenina
O Exótico Hotel Marigold
Os Miseráveis
Sete Psicopatas e um Shih Tzu
007 - Operação Skyfall

Melhor Filme Britânico de Estreia de um Roteirista, Diretor ou Produtor
The Imposter - Bart Layton (diretor), Dimitri Doganis (produtor)
McCullin - David Morris (direror), Jacqui Morris (diretor/produtor)
Wild Bill - Dexter Fletcher (diretor/ roteirista), Danny King (roteirista)
Os Muppets - James Bobin (diretor)
I am Nasrine - Tina Gharavi (diretora/ roteirista)

Melhor Filme em Língua Estrangeira
Amour (Áustria)
Headhunters (Noruega)
A Caça (Dinamarca)
Ferrugem e Osso (França)
Intocáveis (França)

Melhor Longa de Animação
Valente
Frankenweenie
ParaNorman

Melhor Roteiro Original
Michael Haneke, por Amour
Quentin Tarantino, por Django Livre
Paul Thomas Anderson, por O Mestre
Wes Anderson e Roman Coppola, por Moonrise Kingdom
Mark Boal, por A Hora Mais Escura

Melhor Roteiro Adaptado
Chris Terrio, por Argo
Lucy Alibar e Benh Zeitlin, por Indomável Sonhadora
David Magee, por As Aventuras de Pi
Tony Kushner, por Lincoln
David O. Russell, por O Lado Bom da Vida

Melhor Trilha Sonora Original
Dario Marianelli, por Anna Karenina
Alexandre Desplat, por Argo
Mychael Danna, por As Aventuras de Pi
John Williams, por Lincoln
Thomas Newman, por 007 - Operação Skyfall

Melhor Fotografia
Anna Karenina
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
Lincoln
007 - Operação Skyfall

Melhor Edição
Argo
Django Livre
As Aventuras de Pi
007 - Operação Skyfall
A Hora Mais Escura

Melhor Design de Produção
Anna Karenina
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
Lincoln
007 - Operação Skyfall

Melhor Figurino
Anna Karenina
Grandes Esperanças
Os Miseráveis
Lincoln
Branca de Neve e o Caçador

Melhor Som
Django Livre
O Hobbit - Uma Jornada Inesperada
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
007 - Operação Skyfall

Melhores Efeitos Visuais
Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge
O Hobbit - Uma Jornada Inesperada
As Aventuras de Pi
Os Vingadores
Prometheus

Melhor Maquiagem
Anna Karenina
Hitchcock
O Hobbit - Uma Jornada Inesperada
Os Miseráveis
Lincoln

Melhor Curta de Animação
Here to Fall
I'm Fine Thanks
The Making of Longbird

Melhor Curta (Live Action)
The Curse
Good Night
Swimmer
Tumult
The Voorman Problem

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Roma e a obra de Caravaggio


Eu sempre achei que a genialidade de Michelangelo Merisi – mais conhecido simplesmente como Caravaggio – era desproporcional à fama atingida ao longo dos séculos. Com isso, não quero dizer que o artista é pouco conhecido; apenas acho que seu estilo de vida polêmico e seu caráter questionável são excessivamente comentados, ofuscando o que realmente interessa, ou seja, as não poucas inovações que este verdadeiro gênio dos pincéis trouxe à arte e que vem influenciando uma legião de artistas desde então. Embora considerado por muitos um artista barroco, sua obra, na verdade, se situa entre os períodos maneirista e barroco e é tão única que não parece pertencer a um movimento e sim criar um estilo – tanto que muitos pintores posteriores seriam proclamados “caravagistas”.

Michelangelo Merisi nasceu em 1571 em Milano, mas durante muito tempo se acreditou ser o artista procedente de Caravaggio, província para a qual sua família se mudou quando ele era ainda criança – daí a alcunha. Em 1592, transfere-se para Roma, cidade onde conseguiria protetores poderosos e criaria a maior parte de seus trabalhos. Desde o início, sua vida é marcada por escândalos. Caravaggio era boêmio, brigão e sempre andava nas piores companhias. Foi acusado de agressões diversas e preso algumas vezes, mas acabava se livrando do cárcere graças aos amigos influentes que acumulou a despeito da fama de “maldito”. Mas nem mesmo seus protetores podem livrá-lo quando, em 1606, mata um desafeto durante um jogo de pallacorda (uma espécie de tênis medieval). Condenado à morte, o artista foge para Napoli e, posteriormente, para a Ilha de Malta, com a intenção de juntar-se à Ordem dos Cavaleiros de Malta e, desse modo, conseguir imunidade. Por algum tempo seu plano dá certo, já que ele de fato é nomeado cavaleiro, mas em 1608 seu passado é descoberto e seus companheiros o expulsam com desonra e o encarceram. Mais uma vez, Caravaggio consegue escapar em circunstâncias misteriosas e se refugia na Sicília, de onde retorna a Napoli. É nessa época que, prematuramente, começam a circular os boatos sobre sua morte.

Uma observação curiosa: depois da condenação à morte, podemos ver que em alguns trabalhos Caravaggio se coloca em situação análoga à de seus personagens, como, por exemplo, em David con la Testa di Golia, onde o gigante degolado tem as feições do artista. Em 1610, ao saber que o papa Paolo V estava concedendo indultos, Caravaggio decide retornar a Roma e implorar pelo perdão papal, mas sua vida termina em modo operístico: o navio que o reportaria à cidade é castigado pela malária e o artista acaba morto em Porto Ercole. Tinha 39 anos.

Embora Caravaggio tenha obras expostas por toda a Itália e em museus de outros países europeus, em nenhuma outra cidade do mundo está reunida uma quantidade tão grande de trabalhos como em Roma. Considerando que o artista realizou cerca de sessenta pinturas ao longo de sua curta e conturbada vida e que mais de vinte que se encontram espalhadas pela capital italiana, podemos considerar Roma como a cidade fundamental para quem deseja conhecer a sua obra.

Madonna dei Pellegrini (Sant'Agostino)

A boa notícia? Seis destas pinturas se encontram em três igrejas no centro histórico da cidade e podem ser apreciadas não somente de graça, mas em uma só manhã, dada a pequena distância entre elas. Em San Luigi dei Francesi está a “trilogia” sobre São Matheus: Vocazione di San Matteo, Martirio di San Matteo e San Matteo e l’Angelo. O primeiro é muito famoso pela luz oblíqua que incide sobre a cena, marcando uma das principais inovações de Caravaggio, que é o efeito de luz e sombra, ou seja, a pintura deixa de ter uma luminosidade uniforme e passa a ter partes dela realçadas enquanto outras são obscurecidas. A técnica conhecida como chiaroscuro é usada de forma extrema, sendo essa luminosidade em tons escuros e terrosos, típica de Caravaggio, posteriormente chamada “tenebrismo”. Na igreja Santa Maria del Popolo encontram-se Conversione di San Paolo e a impressionante Crocifissione di San Pietro, que mostra o apóstolo como um homem velho, cansado e com a expressão carregada de medo diante da iminente crucificação. Essa visão realista e despida de heroísmo dos santos seria outra característica bastante emblemática do estilo caravagístico. Já na igreja de Sant’Agostino está a naturalista Madonna dei Pellegrini, que mostra a mãe de Jesus em pose de grande informalidade diante de dois peregrinos sujos e de aspecto miserável.

Vocazione di San Matteo...

... San Matteo e l’Angelo (esq) e Martirio di San Matteo (dir), todos em San Luigi dei Francesi

Partindo do público para o privado, o maior acervo de Caravaggio em um museu está na Galleria Borghese, que detém nada menos do que seis quadros: Ragazzo con Canestra di Frutta, Bacchino Malato (que mostra o deus pagão com ar doentio e traços inspirados em seu próprio rosto), San Girolamo Scrivente, San Giovanni Battista, David con la Testa di Golia e Madonna dei Palafrenieri. Este último foi objeto de polêmica à época de sua confecção, por mostrar uma Madonna mais voluptuosa do que os cristãos estavam acostumados e um menino Jesus nu já bem grandinho. Some-se isso ao escandaloso hábito do artista de usar suas amantes ou prostitutas como modelos para as figuras santas. O ingresso da galeria Borghese custa onze Euros (em torno de 30 reais), o que eu realmente não acho caro para conhecer um dos maiores acervos de arte do mundo, considerando que um filme em 3D já custa o mesmo. Outro ponto alto são as esculturas de Lorenzo Bernini, famoso arquiteto da Piazza San Pietro (Vaticano) e de algumas das mais belas fontes de Roma, como a Fontana dei Quattro Fiume (Piazza Navona) e a Fontana della Barcaccia (Piazza di Spagna). O visitante deve somente estar atento ao fato de que a Galleria Borghese trabalha com pré-agendamento, ou seja, o dia e o horário da visita (que compreende duas horas) devem ser reservados pessoalmente ou pelo site pelo menos um dia antes.

Também vale destacar as duas pinturas presentes na Pinacoteca Capitolina, que são San Giovanni Battista, retratado por Caravaggio como um sensual e vigoroso jovem nu (nesta o perfeccionismo anatômico do artista é mais evidente que nunca, com a musculatura que parece “saltar” da tela) e o enigmático Buona Ventura, no qual uma misteriosa cigana lê a mão de um mancebo e parece querer hipnotizá-lo com seu dissimulado sorriso. Outras pinturas presentes em Roma são Deposizione nel Sepolcro (Pinacoteca Vaticana), Giuditta e Oloferne, Narciso (ambas no Palazzo Barberini), Riposo Durante la Fuga in Egito e Madalena (ambas na Galleria Doria Pamphilj). Nestas, não há necessidade de pré-agendamento, ainda que a Pinacoteca Vaticana possa ter filas dependendo da época do ano. Se tiver que fazer uma escolha, aconselho o complexo Musei Capitolini, onde, com somente um ingresso, se pode visitar a pinacoteca e o museu, que tem como destaques o original da estátua equestre de Marco Aurélio que está na praça do lado de fora e a estátua da loba capitolina, símbolo de Roma.

Buona Ventura...

... e San Giovanni Battista, os tesouros da Pinacoteca Capitolina

Nunca é demais lembrar: não vá a nenhum destes locais com pressa. Reserve ao menos duas horas quando for a um museu ou galeria de arte. Já o acervo das igrejas exige menos compromisso, já que pode ser visitado gratuitamente. Esteja atento somente ao fato de que a maioria das igrejas está aberta para visitação até o meio-dia, reabrindo depois por volta das 15h ou 15h30. Mais importante que tudo: se for a Roma, não perca essa oportunidade única de conferir com seus próprios olhos o legado desse gênio da pintura.

Observação: As fotos usadas neste artigo são das obras originais e foram feitas quando era permitido fotografar sem flash. Justamente por isso a qualidade das mesmas não é muito boa, mas, ainda assim, optei por usar meu registro feito in loco em vez de fotos perfeitas tiradas da internet. 

O belo edifício da Galleria Borghese que, infelizmente, não permite fotografias em seu interior

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Melhores de 2012



Após um semestre sabático, estamos de volta! Desde já, com as sinceras desculpas aos leitores que continuaram passando por aqui e não encontraram publicações novas nos últimos meses. Não foi feito um comunicado oficial a respeito porque o afastamento não foi planejado, mas acabou ocorrendo devido a uma sucessão de acontecimentos que começaram com a minha temporada no exterior, passando pela necessidade de maior concentração em outro país e, sobretudo, em outro idioma... enfim, o A&S está de volta revigorado e cheio de novidades!

Para começar 2013, eis uma seleção dos filmes mais legais que estrearam durante o ano que passou, com a ressalva de que, tendo passado o segundo semestre fora, muitos dos filmes que me encantaram nas telas de cinema não puderam ser listados pelo fato de não terem chegado ainda ao nosso circuito (rezemos para que cheguem logo). Ao mesmo tempo, provavelmente alguns lançamentos importantes foram perdidos, o que, nesse caso, prejudica em particular a inclusão de filmes nacionais. Sem mais delongas, eis os dez lançamentos que achei mais interessantes em 2012:

1 – O Artista
2 – A Separação
3 – Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge
4 – Argo
5 – A Invenção de Hugo Cabret
6 – Shame
7 – Um Método Perigoso
8 – Headhunters
9 – Os Descendentes
10 – Habemus Papam

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Aqui É o Meu Lugar


Este foi um dos filmes mais concorridos no último Festival do Rio, por conta de mais uma das transformações camaleônicas de Sean Penn. Neste longa dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino (do bom Il Divo) e premiado no Festival de Cannes, Penn é o ex-astro do rock Cheyenne. Afastado do mundo da música desde que dois jovens se suicidaram influenciados por suas letras depressivas, Cheyenne agora vive de renda e aplicações na Bolsa – embora ainda se vista como gótico, pinte as unhas de preto e use maquiagem todos os dias. A morte de seu pai, com quem não falava há 30 anos, o obriga a deixar Dublin e retornar a Nova York. Ao descobrir a obsessão do pai em encontrar um oficial nazista que o humilhava no campo de concentração, Cheyenne toma para si a tarefa e, ajudado pelos diários do pai, inicia uma viagem através dos Estados Unidos.


Que ator formidável é Sean Penn. Isso não se pode discutir, pois é ele o grande responsável por manter o espectador focado ao longo de quase duas horas em um filme lento, irregular e cheio informações truncadas. A bizarríssima composição de Penn para Cheyenne é espetacular não apenas pela transformação física (ele ficou a cara do Robert Smith, do The Cure), mas, principalmente, pela sua habilidade em deixar o espectador fascinado por aquele sujeito de voz pastosa, andar arrastado e olhar cansado, o que contrasta enormemente com sua aparência de rebeldia, revelando, no final das contas, uma desesperada e infantil necessidade de chamar a atenção.

Já sobre o filme, não se podem estender os mesmos elogios. E a principal decisão equivocada de Aqui É o Meu Lugar está no fato de dar muito destaque ao tema da caça ao nazista em detrimento de outro que seria bem mais complexo e interessante: a culpa de Cheyenne em relação aos garotos que se suicidaram inspirados em sua depressão fake, feita para vender discos, e a consequência disso, ou seja, a gradual transformação de um pseudo-problemático em uma pessoa doente de verdade. Quando o roteiro opta por não apenas deixar as inquietações de Cheyenne em segundo plano, mas também por trazer a trama para os Estados Unidos e largar inconclusos os assuntos levantados na Irlanda, o filme perde muito de seu interesse inicial.

E o espectador certamente ficará esperando que algumas ideias deixadas de lado sejam amarradas no desfecho – como, por exemplo, a relação do passivo protagonista com a enérgica esposa (a ótima Frances McDormand, desperdiçada) e também com a menina Mary. Mas, ao final da projeção, muita coisa continua mal-explicada. É bem verdade que Sorrentino acerta o tom da direção, entregando algumas sequências belas e plenas de poesia, mas em termos de roteiro o italiano deixa bastante a desejar. Boas cenas em isolado formam um todo decepcionante, um filme carente de unidade. E aí, temos que ser mais gratos do que nunca por ter em cena um ator com o talento e carisma de Sean Penn. O tempo todo, Sean é maior do que o filme. Isso é ótimo para ele, mas nem tanto para o longa.

terça-feira, 24 de julho de 2012

360 abrirá Festival de Gramado


Foi escolhido o filme de abertura do 40º Festival de Gramado, que se inicia no próximo dia 10 de agosto: será 360, o novo projeto internacional de Fernando Meirelles. O longa, que tem roteiro do oscarizado Peter Morgan (A Rainha), apresenta nove histórias se entrelaçam para fazer um panorama dos relacionamentos na era moderna. No elenco, Anthony Hopkins, Jude Law, Rachel Weisz, Ben Foster, Marianne Jean-Baptiste e os brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré.

Confiram abaixo o trailer de 360:


domingo, 22 de julho de 2012

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge


Há quatro anos Christopher Nolan lançava seu já lendário Batman, o Cavaleiro das Trevas, dando sequência à trilogia iniciada três anos antes com Batman Begins. O filme, além de ser considerado por muita gente como o melhor longa daquele ano (e a colunista aqui se inclui nesse grupo), ainda tornou-se icônico graças à inesquecível atuação de Heath Ledger como o Coringa. Dezenas de prêmios póstumos foram concedidos ao ator – incluindo o Oscar, o Golden Globe, o Bafta e o SAG –, aumentando ainda mais o poder de fogo de um filme que já era um sucesso absoluto sob todos os aspectos. Posto isso, podemos imaginar a pressão e expectativa em torno deste filme que chega na próxima sexta aos cinemas. Seria Nolan capaz de superar tamanho arrasa-quarteirão?

A trama se passa oito anos depois da noite em Batman desapareceu, carregando consigo o fardo de levar a culpa pela morte de Harvey Dent. Afinal de contas, Gotham precisava de um herói inquestionável. E a ficção criada em torno disso funcionou por algum tempo, já que a imagem do Harvey bom, antes de se transfigurar no Duas Caras, foi responsável por uma dura lei anticrime que limpou as ruas de Gotham. Só que a paz será novamente ameaçada com a chegada de Bane, mercenário mascarado com um passado obscuro. Ao mesmo tempo em que uma ousada ladra de joias parece desafiar Bruce Wayne, Batman se sente compelido a ressurgir para impedir que Bane instaure o caos e destrua a cidade. Mas estaria ele à altura de tamanho desafio depois de longos oito anos vivendo nas sombras?


Neste filme nos reencontramos com o Bruce Wayne/Batman de Christian Bale, o Comissário Gordon de Gary Oldman, o Lucius Fox de Morgan Freeman e o Alfred de Michael Caine. Ao lado destes velhos conhecidos, novos personagens interpretados por Tom Hardy, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e, claro, a mulher-gato de Anne Hathaway. Sobre essa última, vale dizer que a personagem (que é apresentada apenas como Selina Kyle, não sendo chamada pela alcunha em nenhum momento do filme) tem uma sensualidade mais atlética, talvez para se contrapor à interpretação dengosa imortalizada por Michelle Pfeiffer no longa de Tim Burton. Ponto para Anne, que acerta ao buscar sua própria leitura do personagem e não tenta reproduzir o mesmo estilo seguido por Michelle. Podemos dizer, ainda, que cada um dos novos personagens tem um desdobramento surpreendente ao longo do filme.


Aliás, o filme como um todo acerta justamente por não cometer o maior erro das sequências, ou seja, repetir o que deu certo antes e não trilhar caminhos novos. Se no longa anterior o carisma e a inteligência refinada do Coringa se sobrepunham ao restante do filme, aqui Nolan apresenta um vilão sem humor e sem sutilezas, portador de uma maldade em estado bruto. Também aproveita para equilibrar melhor o espaço dado a cada personagem, fazendo com que não haja um grande destaque em particular e sim um somatório de grandes atores fazendo sua parte e contribuindo para um filme mais coeso. Com esse equilíbrio, personagens como o Alfred de Michael Caine finalmente tem oportunidade de brilhar em algumas cenas memoráveis, sendo Caine responsável pelos momentos mais emotivos do filme.


Também vale dizer que, mesmo com alguns flashbacks e momentos explicativos, é fundamental que o espectador tenha assistido aos filmes anteriores para entender completamente a história. Um exemplo disso é o momento cômico gerado pela súbita aparição de um personagem de Batman Begins, o que só tem graça se o espectador souber de quem se trata.

Falar sobre a parte técnica do filme chega a ser perda de tempo, já que ninguém esperava que ela fosse menos que perfeita. Falemos então da sensação geral: são duas horas e quarenta e seis minutos que parecem passar voando, na velocidade dos veículos incríveis e dos saltos vertiginosos que vemos na tela. Com uma parte final cheia de surpresas e um desfecho ambíguo, no qual a conclusão dependerá do grau de romantismo ou cinismo do espectador, Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge fecha a trilogia em grande estilo. O filme é tão espetacular que, por mais que um impulso infantil nos leve a querer mais, devemos torcer para que Christopher Nolan não seja convencido a realizar mais um filme e mantenha firme sua promessa anterior de ser este o capítulo final para a saga do atormentado homem-morcego.

Desde já, o filme do ano. Imperdível. 


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Menos Que Nada


O protagonista da história é Dante, paciente em uma instituição psiquiátrica que alterna estados de completo isolamento com crises violentas sempre que alguém tenta interferir em seu universo particular. Quando a dra. Paula, jovem psiquiatra que faz residência no hospital, resolve usar Dante como objeto de sua tese, é desaconselhada a seguir adiante pelo fato de seu estado mental ser considerado irreversível. Mas Paula encontra uma ponte para dialogar com Dante através de vídeos que faz de pessoas que o conheceram no passado, assim atraindo sua atenção e, ao mesmo tempo, desvendando os motivos que acabaram com sua saúde mental.

Menos Que Nada é o novo longa do cineasta gaúcho Carlos Gerbase, que trabalha mais uma vez em colaboração com a esposa, Luciana Tomasi. Gerbase é especialmente conhecido pelo provocador Tolerância (2000), filme no qual a tecnologia também desempenha um papel fundamental para a trama. Se em Tolerância a manipulação de imagens acaba por criar mal-entendidos graves e precipitar uma série de conflitos, em Menos Que Nada os seus efeitos são mais conciliadores, permitindo que o personagem Dante se reencontre com o passado através dos vídeos gravados pela dra. Paula.


O roteiro escrito por Gerbase em conjunto com Marcelo Backes e Celso Gutfreind arrisca um pouco ao criar tantos desdobramentos para a história de Dante, em um leque que vai do triângulo amoroso à arqueologia, mas, no final das contas, consegue manter a unidade e amarrar as situações.

O grande destaque do filme, sem dúvida, é o trabalho excepcional de Felipe Kannenberg como Dante. Contido e muito retraído nas cenas do passado são e com uma mobilidade incrível de se transfigurar em suas cenas como louco, o ator faz com que o espectador não consiga desgrudar os olhos de sua imagem em cada uma de suas cenas. Igualmente feliz é a escalação de Roberto Oliveira para o personagem de Gregório, pai de Dante. Com uma verve cômica, sem, contudo, resvalar na caricatura, o personagem é um sopro de irreverência em meio a um panorama tão tenso.


É uma pena que as personagens femininas não causem uma impressão tão forte quanto as masculinas, já que seria interessante saber mais sobre as motivações da dra. Paula de Branca Messina (como, por exemplo, o motivo daquele paciente em particular ter tocado seu coração). Também a René de Rosanne Mulholland e a Berenice de Maria Manoella parecem pouco reveladoras. Mesmo considerando Dante como o protagonista absoluto da trama, faz falta conhecer um pouco mais a fundo essas três mulheres que tocaram a sua vida tão decisivamente.

Em todo caso, trata-se de um filme que levanta questões interessantes sobre questões éticas, morais e, principalmente, sobre os mistérios que servem de alicerce para a nossa saúde mental. A partir de amanhã nos cinemas.  

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Na Estrada



Chega aos cinemas o tão aguardado Na Estrada, ambicioso projeto franco-brasileiro de Walter Salles que se propõe a traduzir em imagens o icônico On the Road, obra-prima de Jack Kerouac que vem apaixonando leitores de todas as gerações desde seu lançamento em 1957. O livro, que foi traduzido por aqui como Pé na Estrada, definiu toda uma geração de jovens americanos - a chamada "geração beat" - que ansiava por ganhar o mundo com uma mochila nas costas, prontos para qualquer aventura e dispostos a encontrar a si mesmos através do batismo na poeira da estrada.

A trama é focada em dois amigos, o introspectivo Sal Paradise e o hedonista Dean Moriarty, que buscam autoconhecimento e liberdade cruzando os Estados Unidos de carro. Farras, garotas, bebedeiras, drogas, enfim, tudo que possa acrescentar uma nova experiência é permitido, embora as atitudes e personalidades diversas façam com que cada um se entregue de uma maneira a esse rito de passagem. Enquanto Sal parece estar amadurecendo e ganhando com as experiências, os exageros de Dean parecem estar empurrando-o cada vez mais rumo a um abismo de frustração e desesperança.


O filme de Walter Salles encanta por ter uma cadência muito parecida com a da própria prosa de Kerouac, que flui com um ritmo solto, maleável, pulsante, muito próximo da vida real, uma literatura que parece jorrada num fluxo de consciência, plena de fragmentos, frases anotadas ao longo do caminho, rabiscos feitos às pressas em bloquinhos. Também está muito presente o universo intelectual dos personagens e suas influências, um exemplo disso é como um exemplar surrado de No Caminho de Swann (primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, saga escrita ao longo de 14 anos por Marcel Proust) impõe-se quase como um personagem da trama.

Outro ponto interessante a destacar nessa adaptação é justamente o fato dela ter sido dirigida por Walter Salles. Podemos notar que ela dialoga diametralmente com o primoroso Diários de Motocicleta, com a diferença de que enquanto a viagem feita de moto pela América do Sul por Che Guevara e Alberto Granado serve para moldar o caráter dos rapazes e aproximá-los do que eles viriam a ser no futuro, a viagem de Sal e Dean pela América do Norte parece levá-los a um beco sem saída, diante do qual Sal tem mais forças para não sucumbir, talvez por conseguir expurgar seus demônios através da literatura. Certamente não é por acaso que o filme começa e termina em meio às mesmas citações, o que equivale a dizer que enquanto Diários da Motocicleta apresenta uma jornada que vai de um ponto de partida rumo a algo novo, este Na Estrada tem um caráter muito mais circular.


Em meio a esse carrossel de emoções e descobertas, os ótimos Garrett Hedlund e Sam Riley conduzem o espectador por essa viagem libertária. Garrett empresta angústia e hiperatividade na medida certa a Dean, jovem criado entre o abandono e a marginalidade, enquanto Sam compõe Sal (alter ego de Kerouac) com o olhar atento e introspectivo de quem tem maturidade para mergulhar no lado sombrio da vida e retornar à superfície.

Se na obra literária Sal e Dean são protagonistas absolutos da história, o eficiente roteiro de Jose Rivera dá mais atenção e profundidade às mulheres na vida de Dean. Marylou, apresentada por Kerouac como uma garota fútil e brigona, ganha contornos misteriosos na pele de Kristen Stewart (que parece finalmente ter deixado a fase teen para trás) enquanto Camille transpira sofisticação e inteligência através de Kirsten Dunst. Enfim, embora seja um roteiro fidelíssimo, com várias citações literais, a versão cinematográfica tem sua própria pulsação e identidade. 


A produção ainda brinda o espectador com belas participações especiais, que fazem com que personagens que seriam meras citações se transformem em momentos iluminados na tela, graças à sensibilidade e presença de atores como Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi, Alice Braga e Terrence Howard.

Resumindo, Na Estrada é um grande momento cinematográfico, uma adaptação muito feliz, que sabe quando ser fiel e quando alçar voo independente. O filme concorreu à Palma de Ouro no último Festival de Cannes e é simplesmente inexplicável que tenha saído do evento de mãos abanando. Sexta nos cinemas. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Headhunters


O cinema escandinavo surpreende mais uma vez. Depois da trilogia sueca Millenium – injustamente ofuscada pelo remakeamericano de David Fincher –, vem daquelas bandas, mais especificamente da Noruega, outra ótima surpresa cinematográfica. Trata-se de Headhunters, um thriller dinâmico, sangrento e muito engenhoso.

Roger Brown é um dos mais respeitados especialistas em seleção e recrutamento da Noruega. Ele acredita que a reputação de um homem é tudo e, portanto, gosta de exibi-la usufruindo um padrão de vida muito acima de suas reais possibilidades. Para conseguir manter as aparências, Roger concebeu um esquema: com as informações conseguidas ao entrevistar altos executivos, ele e seu cúmplice Ove roubam obras de arte, substituindo-as por réplicas, cuja falsidade só é descoberta quando o original já foi entregue a um receptador fora do país. Nem mesmo Diana, esposa de Roger, conhece sua vida dupla, mas esses estilos de vida totalmente antagônicos entrarão em choque quando ele conhece Clas Greve, uma vítima em potencial que também possui uma faceta oculta.

OK. Apresentar um personagem fora-da-lei e antiético e, mesmo assim, fazer com que o público torça por ele quando as coisas realmente ficam complicadas não é novidade, mas geralmente esse tipo de personagem é personificado por um ator com o biotipo do herói, ou seja, alto, forte, bonito. Headhunters foge do lugar-comum ao escalar para o papel de Roger o baixinho Aksel Hennie e ainda colocar em seu encalço o galã Nikolaj Coster-Waldau (ele mesmo, o Jaime Lannister de Game of Thrones).


Também é muito interessante o modo como a trama se inicia no mundo empresarial, descamba para a ação desenfreada e, ao final, consegue unir essas vertentes distintas em um desfecho irônico, inteligente e bem amarrado com os pontos estabelecidos no início do filme. Especialmente saborosa é a explicação para a competência do policial infalível.

Algumas pessoas poderão achar que o filme abusa um pouco da suspensão da descrença do espectador. Bobagem. O roteiro de fato usa o exagero como metáfora do capitalismo selvagem e, nesse ponto, lembra um pouco o argentino O Que Você Faria? (ainda que com uma pegada mais radical), mas aqui vale muito mais a engenhosidade com que a história se desenrola do que o apego excessivo à verossimilhança. E vamos combinar, o que seria do gênero ação/aventura sem algumas façanhas sobre-humanas?


Falar mais sobre Headhunters acabaria sendo um desserviço ao espectador, já que estragaria a maioria das surpresas. Fica aqui a recomendação de que vale muito a pena conferir essa original aventura à la James Bond vinda da Noruega. Só não demorem muito, porque talvez o longa não consiga se manter muito tempo em circuito diante da concorrência dos blockbusters de julho.