quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1


Pela primeira vez, os personagens centrais da saga Harry Potter não se encontram no Expresso de Hogwarts rumo à escola e à aura protetora emanada por Alvo Dumbledore. Voldemort finalmente consegue instaurar seu reinado de terror no mundo bruxo e, como diz a frase publicitária do longa, nenhum lugar é seguro. De seguro mesmo, só a alta qualidade que o cineasta David Yates vem imprimindo à série desde que assumiu sua direção há três anos, em Harry Potter e a Ordem da Fênix. A versão para a telona do universo mágico criado por J.K. Rowling se iniciou em 2001, com o simpático e ainda bastante infantil Harry Potter e a Pedra Filosofal e foi acompanhada por espectadores de todas as idades por nada menos do que uma década, sendo que grande parte deles cresceram junto com os protagonistas (e atores) e amadureceram junto com a história.

Neste princípio do fim, Voldemort e seus Comensais da Morte tomam o Ministério da Magia e alastram o pânico não apenas pelo mundo bruxo, mas pelo dos trouxas também. Logo no início do filme, vemos Hermione usar um feitiço para se “apagar” da mente e da vida de seus pais, desta forma protegendo-os do que está por vir. Harry, Rony e Hermione sabem que a jornada será solitária de agora em diante e que a única esperança de salvação seria encontrar as horcruxes (artefatos malignos que contém fragmentos da alma de Voldemort). Duas já foram destruídas, mas ainda restam outras quatro. Enquanto elas existirem, o lorde das trevas continuará invencível. Mas quais seriam esses artefatos e onde estariam? E, encontrando-os, como destruí-los? E como três adolescentes poderiam dar conta de tamanha responsabilidade sozinhos, já que não podem mais se arriscar a procurar a ajuda de ninguém? São questões como essas que porão à prova a amizade entre o trio, criando sequências de profundo desalento e transformando-os irreversivelmente em adultos.


A decisão de dividir esta última aventura em dois filmes, motivada ou não por razões financeiras, traz como saldo positivo a possibilidade de uma história mais encorpada e coesa, sem os cortes radicais que marcaram as adaptações anteriores. Como Rowling é pródiga em adicionar à trama central uma enorme quantidade de subtramas e personagens secundários, a cada filme ficava mais azeda a discussão sobre o que foi deixado de fora. Discussão essa que certamente será bem menos acirrada em relação a este longa. Claro que o filme é intensamente referencial aos anteriores, mas a essa altura da história não dá mais para ficar pensando em um espectador ocasional e muito menos julgar o longa por seus méritos puramente cinematográficos. Não que tais méritos não existam: eles estão na tela, e em abundância, mas o que mais impressiona neste sétimo filme é sua extrema adequação em termos de adaptação.

A parceria entre o diretor Yates, que comanda a franquia pela terceira vez, e Steve Kloves, roteirista de todos os filmes da série – com exceção de Harry Potter e a Ordem da Fênix – resulta em um filme maduro e bem estruturado, e que se equilibra com louvor entre injetar tensão ou criar uma atmosfera melancólica, conforme a necessidade do momento. O português Eduardo Serra, fotógrafo do belo Moça com Brinco de Pérola, assina a arrojada e sombria fotografia, enquanto o cultuado Alexandre Desplat se encarrega da trilha sonora. Somando-se esses talentos ao sempre eficientíssimo time de efeitos visuais, o produto final é perfeito em todos os aspectos técnicos. Sem contar que pela primeira vez um dos filmes da série traz uma sequência em animação – muito bem encaixada, por sinal. Outra característica marcante da série é a constante aquisição de grandes atores britânicos a cada longa. Neste capítulo, somam-se ao já consagrado elenco que conta com feras como Alan Rickman, Ralph Fiennes e Helena Bonham Carter os nomes de Rhys Ifans, John Hurt e Bill Nighy. Já o trio central formado por Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint demonstra amadurecimento artístico e entrega boas interpretações em cenas dramáticas, com destaque especial para Grint.


Desde que a obra de Rowling começou a ser adaptada para o cinema, os filmes vem seguindo uma evolução constante, o que faz com que o mais recente seja sempre mais emocionante e bem-resolvido que o anterior. E Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 não decepciona; pelo contrário, apenas eleva ainda mais o nível das expectativas para sua segunda parte, quando finalmente se encerrará a saga do menino bruxo. Afinal de contas, quando um filme deixa o espectador tão grudado na tela que duas horas e meia parecem quinze minutos, podemos considerar que os objetivos foram atingidos. Sem contar que a cena que encerra esta primeira parte não poderia ser melhor. Esperemos agora que a metade final, que tem estreia prevista para 15 de julho de 2011, esteja à altura deste seu bravo predecessor.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

United States of Tara


Como não tenho TV a cabo, muitas vezes tardo um pouco para me inteirar das novidades em termos de séries. Por isso a demora em conhecer a ótima United States of Tara. Criada por Diablo Cody – a oscarizada roteirista de Juno –, a trama é centrada em Tara Gregson, uma mulher casada e mãe de dois adolescentes que sofre de TDI (transtorno dissociativo de identidade), ou seja, tem múltipla personalidade. A série inicia quando Tara e o marido Max resolvem que ela precisa dar um tempo na medicação e se autoconhecer, o que tem como efeito colateral deixar afluir seus outros “alters”: Alice, dona de casa eficiente e ultraconservadora; T., adolescente rebelde de 16 anos; e Buck, um veterano do Vietnã machão.

O assunto da família disfuncional certamente se esgotaria logo na primeira temporada (e a série acaba de encerrar sua segunda) não fossem as boas subtramas secundárias e o excelente elenco. Toni Collette está sensacional no papel-título, conseguindo alcançar estados bastante diferenciados para cada personalidade e, ao mesmo tempo, mantendo uma certa unidade, como se a verdadeira Tara sempre estivesse subjacente. Não foi à toa que a atriz ganhou um Emmy em 2009 e o Globo de Ouro e o SAG deste ano. O sempre simpático John Corbertt interpreta Max, o maridão que ama a esposa acima de todas as suas loucuras e a boa química entre os atores e a sinceridade com que seus personagens são mostrados fazem com que o público se apaixone pelo casal. No elenco coadjuvante, destaca-se Rosemarie DeWitt como Charmaine, a irmã que sempre viveu à sombra de Tara e suas complicações.

Para quem ainda não conhece, fica a dica.

Toni Collette como suas múltiplas personagens. Da esquerda para a direita, Tara, T., Buck e Alice.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sentimento de Culpa


A diretora e roteirista Nicole Holofcener tem uma visão bastante sarcástica dos relacionamentos pessoais e das contradições básicas do ser humano. Egressa da televisão, tendo dirigido alguns capítulos do seriado Sex and the City, o primeiro longa de Nicole a dar as caras por aqui, há três anos, foi Amigas com Dinheiro, uma peculiar história sobre três mulheres casadas e aparentemente bem-sucedidas que mal disfarçavam a inveja da amiga solteira afundada em dívidas.

Em Sentimento de Culpa, como o título em português já escancara, a cineasta volta suas lentes para a culpa. Kate e Alex tem uma loja de móveis antigos e abastecem seu estoque graças a pessoas que perderam seus familiares e querem se desfazer de seus pertences, na maioria das vezes sem terem a mínima noção de que aquelas “velharias” são artigos raros. Para aplacar seu incômodo em estar lucrando com a desgraça alheia, Kate não consegue negar esmola a nenhum desabrigado e inscreve-se em trabalhos voluntários, mas não quer comprar um jeans caro para a filha adolescente e cheia de problemas de auto-estima. Kate e Alex também se sentem mal por terem comprado o apartamento vizinho, onde mora a nonagenária Andra, e agora estarem ansiosos para que ela morra e eles possam finalmente dar início à tão sonhada reforma.

Lidando com personagens essencialmente bons, mas cheios de ambiguidades morais, o roteiro constrói um mosaico bem sincero e divertido da culpa burguesa de uma classe média que anseia desesperadamente dar vazão aos seus instintos consumistas e, ao mesmo tempo, tentar conviver com a própria consciência. E o impulso de contribuição social é gerado pelo já citado sentimento de culpa e não por um desejo genuíno de ajudar ao próximo – Kate, aliás, lembra a personagem de Goldie Hawn em Todos Dizem Eu Te Amo. Mas não é apenas a culpa que está na berlinda, também tem vez no longa outras atitudes dúbias e essencialmente humanas, como, por exemplo, a garota bonita e descolada que não consegue aceitar o fato de ter sido trocada por alguém que ela considera de aparência pior do que a sua e passa a perseguir a rival.


Catherine Keener, que já havia trabalhado com Nicole Holofcener com Amigas com Dinheiro, está cada vez mais madura como atriz e dá muitas nuances a Kate, personagem que poderia facilmente cair na caricatura, se interpretado de modo menos habilidoso. Também chamam a atenção Amanda Peet e Rebecca Hall como as netas de Andra, irmãs de personalidades totalmente opostas. Enquanto a Mary de Amanda não suporta a avó, mas é incrivelmente parecida com ela em suas rabugices e obsessões recorrentes, a doce Rebecca vive para ser legal com os outros. E não podemos deixar de destacar as igualmente ótimas Sarah Steele, que interpreta a adolescente Abby, e Ann Guilbert, a nonagenária rabugenta.

O único problema de Sentimento de Culpa é que o filme é demasiado linear em sua abordagem. Ainda que tenha méritos indiscutíveis, como o de colocar em pauta questões importantes com leveza e bom humor, e seja muito bem amparado pelo ótimo elenco, ainda assim, ao final da projeção, o espectador pode ficar com a sensação de que ficou faltando no conjunto aquele “quê” a mais. E ficou mesmo. O filme promete muito, mas o resultado final acaba sendo apenas simpático. De todo modo, vale uma conferida.

Estreou hoje.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Atração Perigosa


Ben Affleck, quem diria, é uma caixinha de surpresas. Lá nos idos de 1998, entrou em Hollywood pela porta da frente, vencendo um Oscar em parceria com o amigo Matt Damon (melhor roteiro original, por Gênio Indomável). Só que, depois disso, as coisas foram saindo dos trilhos em sua carreira. Fez péssimas escolhas como ator (Armageddon e Pearl Harbor são apenas dois exemplos dentre tantos), não escrevia mais roteiros e ainda se meteu num romance escandaloso com Jennifer Lopez. E eis que, quando todo mundo achava que o sujeito estava acabado, ele se reinventa como diretor. E dos bons. Seu dèbut em longas foi há três anos, com o filmaço Medo da Verdade, um noir instigante baseado em Dennis Lehane e adaptado para a telona pelo próprio Affleck. Com este Atração Perigosa (lamentável título em português para The Town), Ben Affleck prova que o resultado obtido com seu longa anterior não foi mera sorte de principiante.

Baseado no livro Prince of Thieves, de Chuck Hogan, o filme abre com dados estatísticos sobre o fato de Charlestown, Boston, ser a capital de roubos a carros-fortes, profissão que, muitas vezes, passa de pai para filho na região. Affleck é Doug McRay, o “cérebro” de um pequeno bando de assaltantes, todos eles de descendência irlandesa e amigos de infância. Após um bem-sucedido assalto a um banco, o grupo começa a ficar apreensivo ao descobrir que Claire, a jovem gerente que havia sido feita de refém, mora na vizinhança. Doug toma para si a tarefa de sondar a moça. Oficialmente, por ser o mais sensato da gangue; na real, por estar atraído por ela desde o dia do assalto. Como o espectador já pode prever desde o primeiro olhar, Doug e Claire se envolverão, o que só reforçará a vontade dele de dar um basta na sucessão de golpes que é sua vida.

Antes de qualquer coisa, é preciso esclarecer que, como trama, o filme não apresenta absolutamente nada de novo. Segue quase uma cartilha do gênero, com elementos batidos como a figura do marginal que tenta mudar de vida, mas tem suas escolhas dificultadas pelo meio e pelas companhias; a pressão do melhor amigo criminoso a quem ele deve grandes favores; a mocinha que se apaixona sem conhecer sua vida pregressa; e, claro, o famoso apelo de realizar um “último trabalho” antes de parar. Mas, estranhamente, todos esses clichês são trabalhados com frescor graças à excelente direção de Ben Affleck, tanto no que diz respeito a obter o melhor de seu elenco como nas empolgantes cenas de ação. Adicionando-se a esta direção segura uma edição precisa e um roteiro bem azeitado, o resultado final é um filme que se destaca pela competência, usando a seu favor até mesmo as limitações de um ator como Jeremy Renner, que parece estar se especializando em tipos brutamontes e de pavio curto. E o próprio Affleck se sai bem no papel principal, embora quem roube a cena seja sempre Rebecca Hall.


Atração Perigosa não chega a estar no mesmo nível de Medo da Verdade, mas é um ótimo thriller de ação e um mais um degrau no caminho de Ben Affleck rumo a um novo e mais elevado patamar. Bom para ele. E para todos nós, que temos mais um talento promissor para ficar de olho.

Sexta-feira nos cinemas.

sábado, 9 de outubro de 2010

62 na disputa por um Oscar


Um total de 62 países inscreveram seus representantes na corrida por uma indicação ao Oscar 2011 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, ou seja, não falado em inglês. Muitos bons filmes vistos recentemente no Festival do Rio brigam por uma vaga, como é o caso do argentino Carancho, do chileno A Vida dos Peixes e do italiano A Primeira Coisa Bela.

Confiram a lista completa:

Afeganistão: Black Tulip, de Sonia Nassery Cole
África do Sul: Life Above All, de Oliver Schmitz
Albânia: East, West, East: The Final Sprint, de Gjergj Xhuvani
Alemanha: When We Leave, de Feo Aladag
Argélia: Outside the Law, de Rachid Bouchareb
Áustria: La Pivellina, de Tizza Covi e Rainer Frimmel
Argentina: Carancho, de Pablo Trapero
Azerbaijão: The Precinct, de Ilgar Safat
Bangladesh: Third Person Singular Number, de Mostofa Sarwar Farooki
Bélgica: Illegal, de Olivier Masset-Depasse
Bosnia e Herzegovina: Cirkus Columbia, de Danis Tanovic
Brasil: Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto
Bulgária: Eastern Plays, de Kamen Kalev
Canadá: Incendies, de Denis Villeneuve
Cazaquistão: Strayed, de Akan Satayev
Chile: A Vida dos Peixes, de Matías Bize
China: Aftershock, de Feng Xiaogang
Colômbia: Crab Trap, de Oscar Ruíz Navia
Coreia do Sul: A Barefoot Dream, de Kim Tae-gyun
Costa Rica: Of Love and Other Demons, de Hilda Hidalgo
Croácia: The Blacks, de Goran Devic e Zvonimir Juric
Dinamarca: In a Better World, de Susanne Bier
Egito: Messages from the Sea, de Daoud Abdel Sayed
Eslováquia: The Border, de Jaroslav Vojtek
Eslovênia: 9:06, de Igor Sterk
Espanha: También la Lluvia, de Icíar Bollaín
Estônia: The Temptation of St. Tony, de Veiko Õunpuu
Filipinas: Noy, de Dondon Santos
Finlândia: Steam of Life, de Joonas Berghäll e Mika Hotakainen
França: Of Gods and Men, de Xavier Beauvois
Grécia: Dogtooth, de Yorgos Lanthimos
Holanda: Tirza, de Rudolf van den Berg
Hong Kong: Echoes of the Rainbow, de Alex Law
Hungria: Bibliothèque Pascal, de Szabolcs Hajdu
Islândia: Mamma Gógó, de Friðrik Þór Friðriksson
Índia: Peepli Live, de Anusha Rizvi
Indonésia: How Funny (This Country Is), de Deddy Mizwar
Irã: Farewell Baghdad, de Mehdi Naderi
Iraque: Son of Babylon, de Mohamed Al Daradji
Israel: The Human Resources Manager, de Eran Riklis
Itália: La Prima Cosa Bella, de Paolo Virzì
Japão: Confessions, de Tetsuya Nakashima
Letônia: Hong Kong Confidential, de Maris Martinsons
Macedônia: Mothers, de Milcho Manchevski
México: Biutiful, de Alejandro González Iñárritu
Nicarágua: La Yuma, de Florence Jaugey
Noruega: Angel, de Margreth Olin
Peru: Contracorriente, de Javier Fuentes-León
Polônia: All That I Love, de Jacek Borcuch
Porto Rico: Miente, de Rafi Mercado
Portugal: Morrer Como um Homem, de João Pedro Rodrigues
República Checa: Kawasaki‘s Rose, de Jan Hrebejk
Romêmia: If I Want to Whistle, I Whistle, de Florin Serban
Rússia: The Edge, de Alexei Uchitel
Sérvia: Solemn Promise, de Srdjan Karanovic
Suécia: Simple Simon, de Andreas Öhman
Suíça: La Petite Chambre, de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond
Taiwan: Monga, de Doze Niu
Tailândia: Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, de Apichatpong Weerasethakul
Turquia: Honey, de Semih Kaplanoglu
Uruguai: La Vida Útil, de Federico Veiroj
Venezuela: Hermano, de Marcel Rasquin

10+ e 10-


Terminado o Festival, é hora de listar os filmes que mais impressionaram e irritaram na sala escura. Lembrando mais uma vez que a lista abaixo é totalmente subjetiva, o que pode acarretar que filmes que as pessoas consideram bons estejam na lista dos 10-, assim como na dos 10+ podem figurar produções que só eu gostei. 

Posto isso, seguem abaixo minhas pérolas e abacaxis: 

10+

1. Machete
2. A Woman, a Gun and a Noodle Shop
3. Minhas Mães e Meu Pai
4. Dois Irmãos
5. Micmacs
6. A Primeira Coisa Bela
7. Somewhere
8. Carancho
9. Kaboom
10. The Killer Inside Me

10-

1. Rio Sex Comedy
2. O Jardim das Folhas Sagradas
3. O Errante
4. À Oeste de Plutão
5. Água Fria do Mar
6. A Invenção da Carne
7. Complexo: Universo Paralelo
8. O Pecado de Hadewijch
9. Trampolim do Forte
10. A Mulher Sem Piano

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Lope (filme de encerramento do Festival do Rio)


Há quem estranhe o fato desta coprodução entre Brasil e Espanha – e falada em espanhol – sobre o célebre dramaturgo Félix Lope de Vega ter sido entregue nas mãos de um brasileiro. Andrucha Waddington chegou ao filme através de um de seus roteiristas, que assistiu ao fabuloso Casa de Areia e, impressionado, pediu ao cineasta que lesse o roteiro de Lope. Andrucha se empolgou com o projeto e correu atrás de parceiros para realizá-lo. O resultado é um longa com surpreendente “sotaque” espanhol, não transparecendo nenhum cacoete de olhar estrangeiro sobre o tema.

A trama acompanha o início da carreira de Lope de Vega, sua dificuldade em conseguir que encenassem suas primeiras peças e também os primeiros dos muitos escândalos amorosos associados a seu nome. Na Madri no século XVI e recém-chegado da guerra, Lope entra no teatro pela porta dos fundos, como copista de uma das mais prestigiadas companhias teatrais. O todo-poderoso Velásquez reconhece que o subordinado é talentoso, mas reluta em dar-lhe uma chance porque o trabalho de Lope mistura tragédia com comédia e, portanto, vai contra os cânones teatrais da época.

Ao mesmo tempo em que realiza um filme bastante clássico, puro cinemão de época, Andrucha Waddington também conta a história de um espírito indomável e subversivo. Lope de Vega era, antes de tudo, um rebelde que se insurgiu não apenas contra a caretice teatral de seu tempo, mas também contra as hipocrisias sociais vigentes. E pagou um preço por isso. Justamente quando começava a ser reconhecido, o dramaturgo caiu em desgraça por conta de seus ímpetos passionais e foi acusado de diversos crimes de ordem moral.

Tecnicamente, Lope é perfeito. A fotografia de tons escuros é deslumbrante, chegando a lembrar o estilo das pinturas de Velásquez (o mestre da pintura, não o personagem do filme), e ajuda muito o espectador a entrar no clima da época retratada. Assim como a direção de arte e as locações bacanérrimas. OK, o longa não inova muito em termos de estrutura narrativa e é bastante convencional como cinema, mas todo esse tradicionalismo não chega a ser um defeito quando é realizado com competência. E isso é inquestionável no trabalho de Andrucha Waddington que, com esse filme, prova que está pronto para encarar a direção de qualquer produção em qualquer parte do mundo.

Uma curiosidade: Lope chegou a ser considerado para representar a Espanha no Oscar, mas acabou preterido por También la Lluvia, de Iciar Bollaín.

Lope (idem), de Andrucha Waddington. ESP / BRA, 2010. 106 minutos. Mostra Panorama do Cinema Mundial

Nota: 8,0

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

The Killer Inside Me


Interessantíssimo thriller salpicado de humor negro dirigido por Michael Winterbottom, cineasta mais conhecido por filmes de cunho político, como O Caminho para Guantanamo e O Preço da Coragem. Casey Affleck (estupendo no papel) é Lou Ford, xerife assistente em uma cidadezinha do Texas. Visto por todos como um rapaz educado e certinho, Lou esconde por trás dessa fachada respeitável um temperamento doentio e violento. Mas até quando ele conseguirá esconder da população esse seu lado pervertido?

Baseado no romance homônimo de Jim Thompson, The Killer Inside Me é uma metralhadora giratória de surpresas. Desde a primeira e inesperada manifestação do lado criminoso de Lou, o espectador é surpreendido cada vez mais pelo crescendo de loucura e insanidade do personagem. Claro que ficaria muito difícil embarcar nessa viagem tão pouco verossímil se não fosse a interpretação explosiva de Casey Affleck, convincente tanto na fachada de bom-moço como nas manifestações homicidas, e melhor ainda nos momentos de deboche e sarcasmo diante das autoridades. Apenas o desfecho deixa um pouco a desejar e parece “pobre” em comparação ao restante do filme, mas nada que chegue a apagar da memória o prazer mórbido de se divertir com esse original e bizarro filme. Vale a pena.

The Killer Inside Me (idem), de Michael Winterbottom. UK / EUA, 2010. 120 minutos. Mostra Panorama do Cinema Mundial

Nota: 8,5

O Pecado de Hadewijch


Céline é uma estudante de teologia tão obcecada em sua busca espiritual que as freiras do convento onde estuda acham por bem mandá-la de volta ao mundo, já que seu radicalismo as assusta. Logo no início do filme, a madre superiora lhe adverte: “para nós, você é uma caricatura de religiosa”. A personagem não poderia estar mais certa, já que a menina se mostrará cada vez mais surtada em algo que ela considera amor cristão. Descobrimos que Céline é uma garota rica, cujo pai é ministro e lhe causa desprezo, e que não tem outro interesse que não seja religião, mas de uma maneira radical e autodestrutiva. Nem mesmo o afeto de Yassine, jovem mulçumano da periferia, lhe desviará dessa rota perigosa, já que ela deixa claro para o rapaz que não quer namorar e pretende ter Cristo como seu único amor.

Não bastasse a personagem central ser extremamente irritante em seu fanatismo, o filme ainda é desinteressante e de um ritmo muito arrastado. Depois de uns quinze minutos, eu tinha vontade de sair correndo cada vez que via a personagem com seus ombros caídos e cara de mártir. Algumas cenas parecem totalmente isoladas de outras, faltando uma melhor conexão entre as passagens da história. Um exemplo disso é o personagem que aparece chegando ao presídio logo no início da trama e depois desaparece o filme inteiro para só retornar quase no desfecho e de uma maneira muito súbita, como se jogado de pára-quedas no meio do conflito. Também as ações de Céline com o irmão de Yassine são vagas, o desenvolvimento de todos os personagens deixa a desejar, enfim, o que poderia render de realmente interessante, que é a discussão dos limites entre fé e fanatismo, acaba se perdendo em uma trama que carece de foco e clareza. Provavelmente vai ter um monte de gente encontrando metáforas geniais no filme. Eu achei aborrecido, confuso e pretensioso.

O Pecado de Hadewijch (Hadewijch), de Bruno Dumont. França, 2009. 105 minutos. Mostras Panorama / A Humanidade de Acordo com Bruno Dumont

Nota: 3,0

Festival do Rio 2010 - Os Premiados


Embora só termine de fato amanhã, o Festival do Rio já anunciou seus premiados na noite de ontem. O júri oficial da mostra competitiva - presidido por Gustavo Dahl, Bruna Lombardi, Jorge Sanchez e Leonardo Monteiro de Barros – elegeu os seguintes vencedores:

Melhor Longa de Ficção- VIPs, de Toniko Melo (SP)
Melhor Longa Documentário - Diário de uma busca, de Flávia Castro (RS)
Melhor Curta - Vento, de Marcio Salem (SP)
Melhor Direção - Charly Braun, por Além da Estrada
Melhor Ator - Wagner Moura, por VIPs
Melhor Atriz - Karine Teles, por Riscado
Melhor Atriz Coadjuvante - Gisele Fróes, por VIPs
Melhor Ator Coadjuvante - Jorge D'Elia, por VIPs
Melhor Roteiro – Marcelo Laffitte - Elvis e Madona
Melhor Montagem - Vania Debs, por Boca do Lixo
Melhor Fotografia - Adrian Tejido, por Boca do Lixo
Prêmio Especial do júri - Curta metragem Geral, de Anna Azevedo

Pelo Voto Popular:

Melhor longa de ficção - Senhor do Labirinto, de Geraldo Motta e Gisella de Mello
Melhor longa documentário - Positivas, de Susanna Lira
Melhor curta-metragem – Um outro ensaio, de Natara Ney

E ainda:

Melhor Filme da Mostra Novos Rumos – Paranã-puca, onde o mar se arrebenta, de Jura Capela
Melhor filme latinoamericano pelo júri Fipresci - Diário de uma busca, de Flávia Castro