segunda-feira, 28 de abril de 2008

Os Indomáveis


O mercado de DVD está cada vez mais rápido em seus lançamentos. Menos de três meses após sua passagem pelos cinemas, está chegando às locadoras Os Indomáveis. Ao contrário de Onde os Fracos Não Têm Vez – que reinventa o western usando seus elementos numa trama contemporânea –, Os Indomáveis trilha um caminho contrário: é um western clássico, que segue à risca todas as regras do mais americano dos gêneros. Pistoleiros habilidosos em conflito, um homem bom e corajoso explorado pelos donos da terra, ladrões de trem espertíssimos, xerifes nem tanto, códigos de honra e, é claro, seqüências inverossímeis porém espetaculares.

A história é centrada no embate de vontades entre o fazendeiro Dan Evans e o notório assaltante Ben Wade. Capturado graças a seu incontrolável impulso de Don Juan, Wade não pretende ficar muito tempo nas garras da justiça e sabe que logo seu bando virá libertá-lo. Afundado em dívidas e fracasso, Evans vê no dinheiro oferecido para fazer parte da escolta que porá Wade no tal trem das 3:10 do título original a oportunidade de virar o jogo a seu favor e, de quebra, provar seu valor ao filho adolescente.

Os Indomáveis não é um filme que se propõe a inovar, mas que realiza com eficiência tudo que esperamos de um longa do gênero, dando ao espectador a gostosa sensação de estar voltando às matinês de sua infância. O longa, aliás, é a refilmagem de Galante e Sanguinário (também 3:10 to Yuma no original), filme de 1957 que trazia Glenn Ford no papel de Ben Wade.

Porém há um grande diferencial deste para os filmes de antigamente: o melhor duelo do longa não está na rapidez dos revólveres e sim no jogo de cena impecável entre Russell Crowe e Christian Bale. Crowe está interpretando, e muito bem, seu tipo favorito: o do homem rude porém charmoso, machão até debaixo d’água. Ao contrário da impressão que ele passa em O Gângster (a de estar pouco à vontade no papel), aqui Crowe mostra que nasceu para esse tipo de personagem. Com Christian Bale a história é um pouquinho diferente: versátil em qualquer tipo de papel, Bale não se deixa intimidar pelo personagem menos glamouroso; pelo contrário, transforma seu Dan Evans no herói humano - nobre, porém cheio de falhas - com o qual nos identificamos. Impressionante seu olhar cansado e, ao mesmo tempo, determinado.

Outra coisa que chama a atenção é a ainda curta porém diversificada filmografia do diretor James Mangold. Num período de dez anos, o cara dirigiu - e com competência - coisas totalmente antagônicas, como o policial Cop Land, o drama Garota, Interrompida, a comédia romântica Kate & Leopold, o thriller Identidade e a biografia Johnny & June, além do piloto do seriado televisivo Men in Trees. E, agora, um western. É de tirar o chapéu.

A carreira de Os Indomáveis na telona foi um pouco prejudicada pelo fato do filme ter estreado aqui em fevereiro; ou seja, em meio aos principais candidatos ao Oscar – ao qual concorreu nas categorias som e trilha sonora -, mas o cinéfilo que prestigiar na telinha esse filme novo com jeitão antigo dificilmente se decepcionará. Ainda mais se for numa tarde de domingo e não esquecer a pipoca.

domingo, 27 de abril de 2008

Fôlego


O coreano Kim Ki-Duk tem um estilo bem particular. Seus personagens são sempre pessoas comuns que, motivadas por sentimentos avassaladores, se lançam em atitudes nada convencionais. Foi assim como o belo Casa Vazia e o confuso Time. Fôlego, seu novo trabalho, talvez seja o mais bem-resolvido dos três, por ter a poesia do primeiro e a ousadia estética do segundo. O filme é de um lirismo e criatividade que encantam, mesmo nas passagens em que a história poderia soar incoerente. É um filme para absorver com o espírito, já que decompô-lo com o intelecto poderia fazer com que a trama soasse inverossímil.

Yeon é uma imaginativa e sensível escultora que se sente anestesiada por sua vida aparentemente perfeita. Embora cercada de conforto e beleza, seus dias se resumem a cuidar da casa e da filha. Seu marido é infiel e a trata com tanta indiferença que não consegue perceber nem sua mudança de comportamento ao descobrir a traição. Quando vê no noticiário a história de Jin, um condenado à morte que tentou o suicídio repetidas vezes, Yeon, seguindo um impulso incontrolável, decide visitá-lo. A partir dessa iniciativa, os dois principiam um estranho e cada vez mais sólido relacionamento.

O encontro da jovem desiludida com o assassino e a força do sentimento desesperado que nasce entre esses dois condenados é de uma beleza comovente. O modo como Yeon se empenha em tornar os últimos dias de Jin um resumo de tudo que ela poderia lhe oferecer se a vida os tivesse reunido em condições mais favoráveis é algo que traz a salvação dela também, pois encontrou alguém que aprecia e precisa da sua imaginação que até então estava estagnada.

Yeon transforma a penitenciária e os poucos minutos de visitação num universo mágico, a ponto de recriar as estações do ano e suas sensações. Aquele espaço é apenas deles e ninguém pode penetrá-lo: nem as autoridades, nem o marido relapso, nem as leis da sociedade e muito menos a sentença de morte que irá separá-los definitivamente. É um relacionamento onde ambos vivem o momento, já que estão cientes de não haver futuro. E, quando se perde toda esperança, cada instante de realização conta.

Outro personagem muito interessante e que tem um papel fundamental para que a trama se desenvolva é o funcionário do presídio que deixa que Yeon visite Jin. Quando ela se apresenta como uma antiga namorada, ele sabe que a moça está mentindo. Mas sua curiosidade e – quem sabe? – seu tédio com o trabalho permitem que toda a trama aconteça. Sem contar que controlar os poucos momentos daquelas duas pessoas lhe dá uma inebriante sensação de poder. No final das contas, ele não é muito diferente das pessoas que acompanham avidamente a vida alheia através dos reality shows e se sentem importantes ao votar nos chamados “paredões”.

Fôlego, que fez parte da seleção oficial do Festival de Cannes 2007, é um filme cheio de simbolismo e delicadeza, marcado por uma comunicação mais sensorial do que verbal entre os dois personagens centrais. Também o título é bastante apropriado, já que a respiração está sempre em destaque: ofegante, prazerosa, assustada, enfim, como um termômetro do estado espírito de seus protagonistas. Curiosamente, o filme foi exibido no último Festival do Rio como “Sem Fôlego”. É. Até que também faz sentido, já que o fôlego - ou a falta dele - é assunto para uma das mais belas cenas que ocorrem entre o inusitado casal.

sábado, 26 de abril de 2008

Patrick Dempsey, a Nova Fênix da TV

Embora hoje em dia acumule os predicados de astro da conceituada série Grey’s Anatomy e mais novo queridinho das mulheres, o quarentão Patrick Dempsey teve uma trajetória longa e acidentada até chegar a esse confortável ponto em sua carreira. Talvez muita gente não se lembre, mas no final dos anos 80 Dempsey era figurinha fácil em comédias adolescentes. Na mais infame delas, Loverboy - Garoto de Programa, nosso caro amigo era entregador de pizzas e amante ocasional. Pois é. Assim era a nada respeitável carreira de Dempsey no cinema. E olha que esse foi o ponto alto dela.

Nascido em Lewiston, no estado do Maine, Dempsey começou no teatro e logo migrou para a telona. Após alguns papéis de pouca expressão, sua grande chance surgiu em 1987, quando estrelou a comédia adolescente Namorada de Aluguel. O ator tinha 21 anos e, apesar de não ter o biotipo de ídolo teen - era um garoto narigudo e bem esquisito -, caiu no gosto das meninas. Dois anos depois, protagonizou o tal Loverboy. Elas continuaram adorando. Vai entender.

Na década de noventa, o fôlego de sua carreira parecia esgotado. Em 1991, tentou uma virada de rumo com o filme de gângsters Mobsters - Império do Crime. Não deu certo. Tentou, então, uma volta às origens na comédia romântica Com Mérito, embora há muito tivesse deixado de ser adolescente. Depois disso, ficou limitado a papéis irrelevantes em filmes como Epidemia, Pânico 3 e O Clube do Imperador. O caro leitor não se lembra dele nesses filmes? Não era mesmo para lembrar. Enfim, a coisa mais expressiva que o ator fez nos últimos anos foi servir de escada para Reese Witherspoon em Doce Lar (2002). Parecia que o resto de sua carreira estava destinada ao limbo quando o destino voltou a sorrir para Dempsey. Sua boa sorte tinha nome, sobrenome e profissão: Dr. Derek Shepherd.

Em Grey’s Anatomy, série-sensação do momento, Dempsey voltou à posição de astro e, de quebra, ainda se tornou um dos homens mais desejados de Hollywood. Assim como havia acontecido anteriormente com Kiefer Sutherland em 24 Horas e Sarah Jessica Parker em Sex & the City, Grey’s Anatomy representou uma segunda chance para uma carreira que parecia enterrada ou, no mínimo, fadada à mediocridade. E o inesperado destaque na TV ainda serviu para levá-lo de volta ao cinema – só em 2007, ele atuou em Escritores da Liberdade e Encantada.

Grey’s Anatomy enfoca os conflitos de cinco médicos recém-formados. Internos do Hospital Seattle Grace, Meredith, Cristina, Izzie, George e Alex tentam conciliar os altos e baixos de suas vidas pessoais com o estresse e o clima de competitividade do ambiente de trabalho. Nesse cenário, o Dr. Derek Shepherd, personagem de Dempsey, é um cirurgião competente e muito sedutor que tenta administrar sua evidente atração por Meredith. A série está em sua quarta temporada e pode ser vista no Canal Sony toda segunda-feira, às 22h, com reprises na terça (2h e 15h) e domingo (12h e 21h).

Subversão, Caos e Sabonete: O Clube da Luta


Eu confesso. Tirei o nome do blog do cartaz de Clube da Luta, um filme que, quanto mais eu revejo, mais eu aprecio. Não é que tenha desgostado na primeira vez, mas foi tanto estardalhaço por conta do maluco paulista que entrou num cinema e abriu fogo contra os espectadores que isso acabou prejudicando uma análise mais objetiva do filme em si. Acho que certos filmes simplesmente envelhecem melhor do que outros. Enquanto alguns que você adora ao assistir perdem o encanto já na segunda conferida, outros se tornam cada vez mais fascinantes.

Clube da Luta, que eu considero o melhor filme de David Fincher, é uma das produções mais originais e subversivas de todos os tempos. Não apenas na trama, mas também em seu formato externo. O personagem Tyler, que tem o hábito de inserir imagens pornográficas em filmes "família", faz suas inserções também no filme como se fosse uma pessoa real. E o que dizer da hilária advertência assinada por Tyler que aparece na tela logo após a lengalenga padrão do uso permitido do DVD?

Para quem não viu ou não se lembra, a história defende a tese de que a sociedade consumista leva as pessoas ao entorpecimento dos sentidos e, num estágio mais avançado, à loucura. Edward Norton interpreta um sujeito que vive para "ter coisas". Seu passatempo preferido é fazer compras por telefone, adquirindo bens inúteis como quem toma drogas.

"Eu folheava os catálogos e me perguntava ‘que tipo de porcelana me define como pessoa'?".

A insônia o atormenta e ele não sabe a razão de sua infelicidade constante. Até que passa a freqüentar grupos de auto-ajuda para moribundos e/ou desenganados e descobre que cercar-se de pessoas realmente infelizes lhe restitui a paz de espírito. Talvez passasse o resto da vida nesse novo vício se não conhecesse, numa viagem de trabalho, Tyler Durden. Descolado, sexy, rebelde, enfim, tudo que ele gostaria de ser. Tyler lhe apresenta um novo prazer: lutar. Simples assim. Dois homens quebrando a cara um do outro. Não demora para surgir o Clube da Luta, uma instituição cuja primeira regra é "você não fala sobre ele".

Se fosse apenas isso, já seria original. Mas a trama não fica por aí. Um clube como esse está fadado a reunir pessoas que estão no limite de sua paciência e, portanto, ansiosas para detonar as instituições. Rebeldia, sede de liberdade ou puro terrorismo? No desfecho, quando a verdade sobre os personagens é revelada, fica claro que a trama não é uma apologia do terrorismo. Mas, ainda assim, resta em nossas mentes a incômoda certeza de que a sociedade moderna produz seus próprios monstros. Como diz o personagem sem nome de Ed Norton ao patrão numa cena "um maluco pode sair por aí com uma arma semi-automática atirando nos colegas de trabalho. Pode ser alguém que você conhece há anos."

Edward Norton, aliás, é a alma do filme. Apesar de sua ainda curta filmografia, iniciada em 1996, Norton é um dos atores mais versáteis e geniais de sua geração. Não foi à toa que já em seu primeiro filme, As Duas Faces de um Crime, ele foi indicado ao Oscar de melhor coadjuvante. Ed já foi skinhead (A Outra História Americana, que lhe rendeu a segunda indicação), policial federal (Dragão Vermelho), padre (Tenha Fé, sua estréia na direção), nerd apaixonado (Todos Dizem Eu Te Amo), ladrão (A Cartada Final e Uma Saída de Mestre) e até um rei medieval (Cruzada). Recentemente, filmou Hulk 2 numa favela aqui no Rio. Em Clube da Luta, ele tem uma de suas melhores e menos elogiadas performances. Também Helena Bonham Carter arrasa como a sexy e auto-destrutiva Marla Singer, personagem responsável por uma das mais curiosas falas do longa:

"A camisinha é o sapatinho de cristal da nossa geração. Você veste, dança com um estranho a noite inteira e depois joga fora. A camisinha, não o estranho."

Creio que Clube da Luta foi um filme bastante injustiçado. Muitas pessoas que o assistiram se detiveram na questão da porradaria e o consideram um similar das fitas do Van Damme. E o filme definitivamente não é sobre um grupo de caras sem camisa se batendo (embora essas cenas também sejam interessantes). É sobre várias coisas, mas não sobre isso. É sobre subversão, caos e sabonete. E muito mais.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Penélope de Volta


Outro dia, revendo o ótimo Volver, de Pedro Almodóvar, ficou ainda mais evidente para mim o quanto Penélope Cruz é outra em sua terra natal. Por algum motivo, a atriz espanhola não consegue interpretar em inglês. A primeira vez que vi Penélope foi numa pequena participação em Carne Trêmula; a segunda, foi novamente num filme de Almodóvar: Tudo Sobre Minha Mãe. Desta vez com maior destaque, me pareceu uma boa atriz. Mas aí a moça migrou para Hollywood, virou símbolo sexual, namorou Tom Cruise e, aparentemente, mandou a carreira para o ralo.

Dava pena de ver suas tentativas de virar estrela internacional naufragarem espetacularmente. Porque ela realmente se esforçava! Mas mesmo quando escolhia roteiros razoáveis, como Vanilla Sky, sua interpretação era artificial e forçada. E o que dizer de produções como Capitão Corelli, Sahara e Bandidas? E não nos esqueçamos da sua maior trapalhada: o inacreditável Sabor da Paixão, onde interpretava uma cozinheira baiana (!) que vira sucesso na TV americana com suas receitas tropicais e ainda vive um romance estranhíssimo com o Murilo Benício atacando de malandro do Pelourinho.

Foi então que, a exemplo do título do filme, Penélope resolveu volver às suas origens. De volta à Espanha e sendo dirigida pelo cineasta que a havia descoberto, a atriz dá um verdadeiro show de interpretação em Volver. Com uma caracterização mais madura e realista, renasce para o espectador uma nova Penélope Cruz. Mais forte, mais intensa e bem mais bonita do que a Barbie na qual estava se transformando. Inesquecível a cena em que a atriz canta o bolerão que dá título ao filme. A grande ironia nisso tudo é o fato desse retorno à Espanha ter lhe proporcionado o que certamente não conseguiria se tivesse insistido apenas numa carreira americana: uma indicação ao Oscar.

Penélope Cruz já rodou quatro filmes depois de Volver. The Good Night (filme pequeno, que chegou aqui direto em DVD), Manolete (produção espanhola) e Elegy (filme americano da espanhola Isabel Coixet) já estão finalizados. Vicky Cristina Barcelona (novo do Woody Allen, filmado na Espanha) deve estrear ainda esse ano. Além destes, Penélope também estará em Los Abrazos Rotos (novo trabalho de Almodóvar) e Nine (um musical inspirado no 8 ½ do Fellini), filmes que ainda se encontram em pré-produção. Agora, é aguardar para conferir. Mas, pelo pedigree de seus novos projetos, parece que a bela finalmente entendeu que o estrelato é conseqüência de uma boa carreira e não a razão dela.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Grandes Cenas

Scarlett O’Hara, depois de muito esnobar Rhett Butler, entende que o ama. Mas é tarde demais. Ela corre atrás dele e pergunta o que vai ser dela, se ele a deixar. Butler - ou melhor, Clark Gable - dispara o petardo: "Francamente, minha querida, eu não ligo a mínima". Osgood, milionário mulherengo, não mede esforços para fazer de Daphne sua enésima esposa. Mas Daphne é Jerry que, após muitas trapalhadas, arranca o disfarce e mostra ao insistente conquistador porque não pode se casar com ele. Sereno, Osgood sentencia: "Ninguém é perfeito". Rick e Ilsa vão se separar mais uma vez e provavelmente nunca voltarão a se ver. Na neblina do aeroporto, ele tenta convencê-la de que o amor deles não tem futuro com a marcante: "Se você não entrar naquele avião, se arrependerá. Talvez não hoje, nem amanhã, mas logo e pelo resto da sua vida."

As cenas citadas acima são, respectivamente, de E o Vento Levou, Quanto Mais Quente Melhor e Casablanca. Qual a correlação entre elas? São cenas inesquecíveis, que já têm lugar cativo no imaginário coletivo e há muito extrapolaram os limites do filme de origem. A famosa seqüência de Gene Kelly sapateando sob a chuva, embora seja uma das mais empolgantes de todos os tempos, nem faz lá muita diferença para a trama de Cantando na Chuva. Mas é adorada por pessoas que nunca viram o filme e não têm a mínima idéia de seu enredo. Que, diga-se de passagem, é uma verdadeira aula sobre a história da sétima arte, já que detalha todo o processo da transição do cinema mudo para o falado.

O cinema atual também produz todos os dias seqüências memoráveis, embora seja necessário o crivo do tempo para determinar o que vai entrar para a posteridade. Mas existem alguns exemplos recentes que já se tornaram clássicos indiscutíveis. Destaco três – bem diferentes entre si – que já entraram para a história da sétima arte:


Em Cidade de Deus, o personagem Buscapé entende o significado exato do ditado "se ficar o bicho pega, se correr o bicho come" no instante em que, armado apenas com sua máquina fotográfica, fica exatamente no meio da batalha iminente entre o bando de Zé Pequeno e a polícia. A câmera faz um giro completo e vertiginoso, numa das tomadas mais famosas (e copiadas) dos últimos anos.


I see dead people. A força da confissão sussurrada do pequeno Haley Joel Osment em O Sexto Sentido é tão poderosa que a frase chega a dispensar a tradução "eu vejo gente morta", sendo prontamente entendida até por quem não fala uma palavra de inglês. Apavorado, exalando fragilidade sob um cobertor, o menino revela o que já sabíamos mas, ainda assim, não queríamos ouvir. O espectador ainda está sob impacto da fala anterior quando vem seu complemento. Com que freqüência isso acontece? All the time (o tempo todo).


Pulp Fiction é um filme repleto de cenas célebres. Mas nenhuma supera John Travolta e Uma Thurman dançando um estranhíssimo twist (ou seja lá o que for aquilo) numa ainda mais estranha lanchonete. Ele, meio balofo e desconjuntado, começa tímido e depois se solta pra valer ao som de You Never Can Tell. Ela, super feminina de terno, esbanja graça e elegância. O gesto do casal de fazer um V com os dedos médio e indicador e passá-los na frente dos olhos é copiado em pistas de dança até hoje.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

1408


Stephen King é um excelente contador de histórias. Seu grande mérito é não depender de cenários lúgubres ou circunstâncias extraordinárias para criar uma boa e envolvente história de horror. E talvez suas tramas sejam tão arrepiantes justamente por serem ambientadas em cenários cotidianos. Mas King também é um dos escritores mais injustiçados pela sétima arte. Apesar da absurda quantidade de adaptações de seus contos e romances, são poucas as que fazem jus ao original. Ironicamente, as melhores transposições vieram daqueles que não têm nada a ver com horror, como foi o caso de Um Sonho de Liberdade, Conta Comigo e À Espera de um Milagre.

1408 é adaptado de um conto de mesmo título que, por sua vez, foi inspirado numa reportagem sobre um quarto mal-assombrado num hotel da Califórnia. O enredo guarda diversas semelhanças com uma das obras mais famosas de Stephen King, O Iluminado. Mais uma vez, o horror em sua forma absoluta emanando de um local prosaico, luxuoso até. Só que, em vez do imenso Hotel Overlook, agora tudo se concentra num quarto. Conhecendo o humor peculiar de Stephen King, isso pode até ser algum tipo de piada - hotel inteiro para um romance, apenas um quarto para um conto.

Mike Enslin escreve sobre lugares mal-assombrados, embora ele próprio não acredite em fantasmas. Debochado a ponto de dar cotações em caveirinhas segundo o grau de "assustabilidade" de um local, Mike nunca encontrou evidências reais em nenhum dos locais visitados. Até o dia em que decide ir ao Dolphin Hotel e passar uma noite no supostamente amaldiçoado quarto 1408. O gerente do estabelecimento interditou o quarto há anos e faz de tudo para fazê-lo mudar de idéia, mas Mike está ciente de seus direitos de consumidor e exige ocupar o quarto.

Seguindo um tema recorrente do autor, a força maléfica que comanda o local é como um organismo vivo. O interessante paradoxo da história é o fato do 1408 não ser nocivo por algo feito por humanos - um assassinato, uma morte trágica -, como ocorre na maioria dos longas de terror. Ao contrário, é o Mal, em sua essência, que transforma as pessoas. Esse aspecto é muito original, ao menos para quem aprecia histórias de terror e está cansado de menininhas de cabelos escorridos. A atmosfera no hotel leva a um permanente estado de tensão e antecipação da próxima cena, já que o filme aposta naquele tipo de suspense que vem do fato do espectador já ter uma idéia do que vai acontecer (alguma dúvida de que Mike vai comer o pão que o diabo amassou dentro do 1408?), enquanto o protagonista permanece na ignorância. Pior ainda, no descrédito.

O maior acerto de 1408 é ter em cena o tempo inteiro o eficiente John Cusack. Cusack é daqueles atores que conferem credibilidade a um filme, com aquele jeito familiar, como se fosse o seu melhor amigo dizendo "ei, cara, sou eu quem está contando essa história". E você, espectador, acredita nele. Até certa altura, descontados alguns cacoetes do gênero, o filme se desenvolve bem. A maior decepção ocorre no momento em que o roteiro cai num dos truques mais preguiçosos sempre que um autor não sabe como explicar o inexplicável. Fiquei furiosa. Mas aí olhei para o relógio e percebi que ainda faltava um bocado de filme. Ufa! Aquilo que estava ocorrendo não era conclusivo. O que vem depois dá uma recuperada e pode até ser engenhoso, mas, acabada a projeção, a impressão que fica é a de que 1408 é uma história esticada além do necessário. O que faz sentido se considerarmos que o roteiro foi escrito tendo um pequeno conto como base.

domingo, 20 de abril de 2008

A Maldição de Seinfeld


Até hoje muita gente tenta explicar o sucesso estrondoso de Seinfeld. Exibida originalmente entre 1989 e 1998, a série foi a grande responsável pela popularização das sitcoms no Brasil. Criada por Larry David e Jerry Seinfeld - que interpretava a si próprio - e ironicamente descrita como uma "série sobre nada", Seinfeld conquistou pela empatia que o espectador sente de imediato por seus quatro personagens absolutamente comuns em situações cotidianas. Jerry, George, Elaine e Kramer não têm nada de nobre ou especial: colocam seus próprios interesses em primeiro lugar, tropeçam na vida amorosa a três por quatro e costumam se comportar da pior maneira possível quando acham que ninguém está olhando. De repente, situações prosaicas como perder o carro no estacionamento, ter um encontro amoroso frustrante ou cometer uma gafe imperdoável ganham as telas. É impossível para o espectador assistir a Seinfeld sem que isso remeta a alguma situação vivida por ele próprio.

Durante sua última temporada, o seriado bateu o recorde de audiência da televisão americana. O divertidíssimo episódio final, quando os amigos são presos e têm como testemunhas de acusação todas as pessoas das quais eles tiraram sarro ao longo dos 173 episódios anteriores, foi visto por aproximadamente 30 milhões de telespectadores, o equivalente a 32% da audiência. Não é de se estranhar que, quando a série acabou, as emissoras tenham ficado desesperadas para encontrar algo que preenchesse esse vazio. Friends até chegou perto, mas não era a mesma coisa. Os seis amigos pareciam, digamos, certinhos demais para substituir a anarquia estabelecida por Jerry e Cia.

Mas o sucesso obtido com Seinfeld não pareceu gerar frutos para seu elenco. A começar pelo próprio Jerry Seinfeld, cujo realização mais significativa desde então foi escrever e dublar Bee Movie – A História de uma Abelha. Michael Richards, o Kramer, conseguiu espaço na mídia tão-somente por ter insultado dois rapazes negros na platéia de seu show de stand-up comedy. Cogitou-se que tal reação teria sido uma desesperada estratégia de marketing na linha "falem mal, mas falem de mim". Jason Alexander, o George Costanza - alter ego confesso de Larry David -, além de alguns papéis de pouca expressão em comédias como O Amor é Cego (2001), capitalizou o sucesso obtido em Seinfeld participando de outros seriados, como Friends e Monk. Também emprestou sua voz ao falso documentário Farce of the Penguins, uma gozação com o premiado A Marcha dos Pinguins.

Julia Louis-Dreyfus, a Elaine, tem conseguido vencer as adversidades. Após estrelar em 2002 a pouco vista Watching Ellie, Julia voltou com tudo em 2006 na divertidíssima The New Adventures of Old Christine. Criada por um dos roteiristas da bem-sucedida Will & Grace, a série enfoca as agruras de Christine Campbell, uma mulher divorciada e mãe atrapalhada que vira a "old" Christine quando seu ex-marido arruma uma simpática namorada com o mesmo nome que ela. Na verdade, o enredo da série não é o que há de mais atraente. O que vale mesmo é ver Julia em cena e relembrar aqueles mesmos trejeitos engaçados que são seu maior charme. A série começou meio desacreditada: tinha um nome comprido que parecia destinado a ser sua única piada e um elenco no qual apenas Julia era conhecida. Mas o programa ganhou novo fôlego quando Julia abiscoitou o Emmy 2006 - o segundo de sua carreira, mas o primeiro como protagonista - de melhor atriz. Uma vez quebrada a chamada "maldição de Seinfeld", tudo indica que a antiga Julia ainda tenha muitas novas aventuras pela frente. Depois de sobreviver à greve dos roteiristas, a terceira temporada de The New Adventures of Old Christine deve chegar aqui no Brasil, via Warner Channel, em maio.

Pecados Inocentes


Baseado numa história real, o filme narra a trajetória de Barbara Daly Baekeland. Ao se casar com o milionário Brooks Baekeland – um bon-vivant que nunca trabalhou e vive dos dividendos do avô que inventou a baquelita (uma espécie de plástico) –, Barbara se torna obcecada em ser aceita entre a alta sociedade e entra em crises cada vez mais constantes ao perceber que sua origem social inferior sempre a estigmatizará. Quando Brooks a abandona para viver com uma jovem espanhola, Barbara desenvolve uma ligação doentia com o filho único.

Ouvi falar de Pecados Inocentes pela primeira vez durante o último Festival do Rio. Na época, o filme ainda era conhecido por seu título original (Savage Grace) e cogitava-se que Julianne Moore estaria cotada ao Oscar por esse papel. Uma expectativa que, conforme já sabemos, não se concretizou. Ficou a curiosidade a respeito do filme. Qual não foi minha decepção ao finalmente assisti-lo.

A despeito de tratar de temas espinhosos, Pecados Inocentes é um filme incrivelmente chato. No início, promete. A afetação de Julianne como a nova-rica que quer a todo custo conseguir seu lugar ao sol numa sociedade pouco disposta a ser receptiva é bastante interessante. Destaque para a cena em que ela obriga o filho a ler em francês diante de um intelectual parisiense e sua posterior explosão de fúria ao ser tratada com condescendência.

Mas o filme perde em dramaticidade e interesse a partir do momento que Barbara é abandonada pelo marido e se fecha em sua relação doentia com o filho. A partir daí, a narrativa fica repetitiva e com uma preocupação evidente em chocar o espectador. E Tony e Barbara passam o resto do filme dando voltas em torno de sua simbiose rodrigueana. E vamos combinar que nem a atuação de Julianne Moore é aquilo tudo que se esperava. A atriz se contenta em reproduzir um pastiche do que foi sua excelente performance em Longe do Paraíso, prejudicada pelo fato de estar contracenando com o fraquinho Eddie Redmayne.

O título em português, além de pegar carona no ótimo Pecados Íntimos, é totalmente inadequado, já que os pecados cometidos pelos personagens podem ser tudo... menos inocentes. Fica como curiosidade ver Belén Rueda – estrela de O Orfanato – numa pequena participação como uma socialite espanhola.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Uma Chamada Perdida


Muito já se discutiu sobre os prós e contras da tecnologia. Nos dias atuais, temos todo um arsenal de meios de comunicação ao alcance das mãos e, no entanto, nunca estivemos tão isolados. Talvez porque essas ferramentas acabem se tornando também meios de triagem. Atire a primeira pedra quem nunca parou ao lado da secretária eletrônica para conferir antes se queria falar com a pessoa do outro lado da linha. Os celulares, de meros aparelhos móveis, viraram universos portáteis, onde o sujeito acessa internet, tira fotos, ouve música, assiste a vídeos e de vez em quando até usa para sua função básica: falar.

"Uma chamada perdida" é uma frase que todo mundo de vez em quando vê no visor de seu aparelho. Certamente é uma boa idéia criar uma história de terror em cima de fato tão corriqueiro. No filme, uma estranha onda de mortes mal-explicadas parece estar ligada pelo acontecimento, já que todas as vítimas receberam uma misteriosa mensagem de voz alguns dias antes de morrer. O bizarro na situação é que as mensagens vinham com a data de alguns dias no futuro (como logo se descobre, a data e hora exata que a pessoa viria a morrer) e o dono do telefone ouvia sua própria voz dizendo algo apavorante e incompreensível.

Uma Chamada Perdida é uma refilmagem de Chakushin Ari (2003), dirigido por Takashi Miike. Desde que O Chamado foi um grande sucesso, os remakes de filmes de terror orientais não param mais. Alguns melhores, outros piores; mas todos muito parecidos. E este não é similar apenas pelo estilo, já que a própria estrutura da trama é incrivelmente parecida com a de O Chamado. Para isso, basta trocar o elemento transmissor das mortes em cadeia: sai a fita de VHS e entra o telefone celular. Pelo menos, tiveram o bom senso de não usar nenhuma garotinha de cabelos escorridos. Para aumentar a confusão na torre de babel, ainda temos um diretor francês em seu primeiro filme americano e algumas cenas que parecem ter sido recortadas de outros longas de horror adolescente (especialmente Premonição e Pânico).

Em meio ao elenco de atores desconhecidos, vagueia um Edward Burns mais canastrão do que nunca. Isso sem contar os clichês habituais, como a mocinha que, mesmo morrendo de medo, entra num buraco escuro e vai de encontro aos terrores que ela já sabe que a esperam ao invés de esperar o policial que está a caminho. Mas isso nem chegaria a ser um problema grave. O filme tampouco é malfeito: o roteiro faz algum sentido, as cenas são dirigidas com competência e os efeitos são satisfatórios. O que realmente enche a paciência do espectador é a falta de originalidade total e absoluta. Ou seja: é uma produção que só satisfaz quem nunca viu filme de terror antes.