terça-feira, 10 de agosto de 2010

Almas à Venda


O ator Paul Giamatti enfrenta uma grande crise existencial durante os ensaios de uma peça e sente dificuldade em separar os dramas do personagem de suas próprias angústias. Seu agente lhe sugere um novo procedimento no mercado, que consiste no armazenamento da alma. O cliente tem a alma extraída, guardada em local seguro e, desse modo, está livre para viver uma existência mais leve. Mas tudo se complica quando traficantes russos se apoderam da alma de Paul e a contrabandeiam para que a esposa do chefe do tráfico, uma atriz sem talento, possa se dar bem em uma novela.

Ao contrário do que vinha sendo comentado à boca pequena, este filme não é exatamente o “Quero Ser John Malkovich do Paul Giamatti”. O argumento guarda enorme semelhança com o universo do roteirista Charlie Kaufman sim, mas, na verdade, trata-se de uma cópia descarada de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Uma cópia bem inferior, que fique bem claro. Embora a diretora Sophie Barthes tenha se apropriado da ideia central, apenas trocando de produto – a alma em vez das memórias –, esqueceu-se de copiar também a poesia, o lirismo e, principalmente, a viagem filosófica. O resultado é um filme raso, que tem lá seus bons momentos como comédia, mas nunca vai além disso. Na maior parte do tempo, é apenas superficial e pueril. Isso sem falar nas incongruências da trama, como, por exemplo, o cara querer se livrar da própria alma por ser soturna demais e depois alugar uma alma alheia, e justo de uma poetisa russa. Eu não consigo imaginar opção mais depressiva para alguém angustiado.

Paul Giamatti, claro, confere certa graça ao papel, principalmente porque o ator dá a impressão de estar satirizando a si mesmo e também alguns de seus trabalhos anteriores. Também é interessante a participação de David Strathairn como o charlatão extrator de almas, ou seja, o papel equivalente ao de Tom Wilkinson em Brilho Eterno... E o filme só não é de todo ruim justamente por causa desses dois bons atores, especialmente quando estão juntos em cena.

O filme, que no original se chama Cold Souls, apareceu na programação do Festival do Rio 2009 como Tráfico de Almas, depois passou no evento como Eu, Ela e Minha Alma (título que está além de qualquer explicação lógica) e agora foi rebatizado como Almas à Venda. Melhor assim.

Vincere


Ida Dalser conhece Benito Mussolini quando este ainda é apenas um jornalista e militante socialista. Apaixonada pelo homem e encantada por suas idéias, ela vende tudo que possui para contribuir com a fundação do jornal Il Popolo d’Italia e, consequentemente, com a criação do Partido Fascista. Ele a pede em casamento e ela engravida, mas termina por descobrir que Mussolini tem outra esposa oficial. Abandonada e inconformada, Ida acaba sendo escondida em um hospício para que não faça mais escândalos que comprometam a imagem do Duce. Exibido em competição do Festival de Cannes do ano passado.

Como é possível que um filme que conta uma história verídica tão explosiva tenha chegado a um resultado final tão sem graça? Ainda mais considerando que à frente da produção estava Marco Bellocchio, que já havia feito bonito em outro filme de cores políticas (Bom Dia, Noite, premiado no Festival de Veneza e no European Film Awards em 2003).

Vincere segue o caminho fácil do novelão das lágrimas abundantes, do coração partido, e tudo isso da forma mais melodramática possível. Desde os demorados e constantes closes na expressão de mártir de Giovanna Mezzogiorno até a trilha sonora de ares operísticos, a tendência geral do roteiro é dar mais espaço ao sofrimento da mulher abandonada do que ao alto grau de corrupção de um governo que permitiu que um escândalo de tal magnitude fosse totalmente abafado. Apesar do mérito óbvio de divulgar para o mundo essa história pouco conhecida, Vincere, como obra cinematográfica, é decepcionante.

sábado, 7 de agosto de 2010

A Origem


O trailer de A Origem faz com que o espectador imediatamente se lembre de dois outros filmes: Matrix e Vanilla Sky. E para quem já acha que estas duas referências são filmes-cabeça, um aviso: o bagulho aqui é muito mais doido. No bom sentido. Afinal de contas, um longa que deixa o espectador fissurado para revê-lo tão logo deixa a sala de projeção merece respeito. Em tempos onde a redundância impera nas telas, é um privilégio ser desafiado dessa forma. Algumas pessoas estão alardeando por aí que o roteiro de A Origem é complicado demais, incompreensível, etc. Mas eu realmente não considero que seja este o caso. A trama é bem amarrada e os conceitos são todos bem expostos, talvez apenas haja excesso de novidade e, consequentemente, certa dificuldade em processar tudo a contento em uma primeira conferida. Mas tudo isso só torna ainda mais instigante e radical a experiência de assistir ao novo filme de Christopher Nolan.

Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, um talentoso ladrão especializado em extração, ou seja, arrancar ideias diretamente do subconsciente das pessoas. Agindo quando a pessoa adormece e, portanto, fica com a mente em estado vulnerável, Cobb e sua equipe induzem a vítima a penetrar em um sonho arquitetado por eles, desta forma compartilhando seus segredos sem perceber. Mesmo sendo um gênio no mundo da espionagem corporativa, Cobb tem que amargar o exílio e a dor de não poder rever as filhas. Até que um poderoso empresário lhe acena com a promessa de limpar seu nome em troca de um último e arriscado trabalho. Só que, para isso, ele terá que conseguir o impossível: ao invés de roubar, deverá implantar uma ideia no cérebro do herdeiro de uma companhia rival.


É evidente que a primeira coisa a chamar atenção no filme é seu visual único e deslumbrante. Como não ficar boquiaberto já na incrível sequência de abertura? Ou na cena em que as ruas de Paris viram um origami gigante? Fotografia, edição, trilha sonora e efeitos visuais são tão impecáveis que falar sobre eles chega a ser dispensável. O filme é um desbunde visual, e pronto. Mas o que o torna de fato sedutor, em conjunto com esse encantamento estético, é seu intrincado quebra-cabeça metafísico, que sobrepõe camadas de sonho e realidade em níveis tão absurdamente próximos que o espectador quase pode vivenciar a sensação de atordoamento dos personagens. Também é interessante o modo como são difusos os códigos éticos e morais, assim como a redefinição da noção de “mocinhos” e “bandidos” neste filme.

O elenco liderado por Leonardo DiCaprio é perfeito e simplesmente irretocável. DiCaprio felizmente abandonou de vez qualquer resquício da tal maldição Titanic e deixa claro que 2010 é seu ano, considerando sua incrível atuação em Ilha do Medo e agora neste filme. No estelar elenco coadjuvante, destacam-se os sempre eficientes Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe e Cillian Murphy, além da intensidade dramática de Marion Cotillard como Mal, personagem que ganha vida no mundo dos sonhos. Em contraponto a ela está a sensata Ariadne de Ellen Page, e não deve ser por acaso que a personagem foi batizada com o nome da heroína grega que ajuda Teseu a não se perder no labirinto de Creta. O filme ainda se dá ao luxo de ter Michael Caine fazendo uma pontinha, só para dar uma idéia do elenco dream team.


Capitaneando um projeto de estimação que vem desenvolvendo há cerca de dez anos, Christopher Nolan pode dar vazão a toda sua inventividade neste longa dirigido e também roteirizado por ele. E é sempre bom lembrar que Nolan não tem um único trabalho ruim em sua filmografia. OK, O Grande Truque e Insônia não chegam a ser filmes tão brilhantes como os demais, mas certamente são produções interessantes e que tem o mérito adicional de ajudar a fechar o panorama completo das ideias que movem a criativa mente do cineasta. Subconsciente, poder da sugestão, limites da realidade, ilusionismo, recantos obscuros da mente. É como se toda a filmografia do diretor convergisse para este momento, dando a impressão de estarmos diante de sua obra-prima.

A Origem é filme para ver mais de uma vez, e para gerar acaloradas discussões na mesa do bar depois. Também é, desde já, sério candidato ao posto de filme do ano.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Salt


Faz tempo que a chamada Guerra Fria esfriou de vez, tirando dos russos o posto de inimigos número 1 do Tio Sam. Afinal de contas, quem ainda se lembra das paranóias acerca do “perigo vermelho” depois que o Oriente Médio e seus ataques suicidas trouxeram uma nova e mais terrível forma de pesadelo para o mundo capitalista? Salt pareceria um filme datado – e até saudosista – não fosse pela intrigante coincidência de, às vésperas de seu lançamento, ter estourado aquele escândalo sobre espiões russos infiltrados até hoje nos Estados Unidos. É a arte imitando a vida e rendendo ainda mais visibilidade ao novo filme de Angelina Jolie.

Angelina é Evelyn Salt, uma agente de campo da CIA que se encontra prestes a pedir transferência para um posto administrativo para levar uma vida mais sossegada ao lado do marido quando um desertor russo complica sua vida. Oleg Orlov, ex-agente da KGB, afirma ter feito parte de uma divisão que treinaria agentes secretos desde crianças para que estes posteriormente tomassem o lugar de cidadãos americanos e vivessem infiltrados por anos, ou até mesmo décadas, aguardando pacientemente suas missões. Segundo ele, Evelyn Salt seria, na verdade, uma espiã russa designada para o assassinato iminente de uma importante figura pública. Salt não paga para ver e resolve fugir, até que possa provar sua inocência. Mas seria ela realmente inocente ou apenas uma criminosa desmascarada tentando manter o disfarce?

Salt é um típico filme de Angelina Jolie, pelo menos desta versão da atriz que mergulha cada vez mais no universo dos filmes de ação. Desde que encarnou a aventureira Lara Croft em Tomb Raider, Angelina parece ter se apaixonado perdidamente por este perfil de personagem forte, atlética, que encara qualquer parada. Não é que a atriz não faça bem o tipo; pelo contrário, sua presença dá bastante credibilidade, já que a moça faz a maioria das cenas sem ajuda de dublês. O problema é que os filmes em si acabam sendo todos muito parecidos. É difícil distinguir esta Evelyn Salt da Lara Croft (inclusive há uma cena que lembra aquela de Lara correndo de moto pela Muralha da China) ou da assassina profissional de O Procurado, ou da Sra. Smith.

A direção correta Phillip Noyce investe na adrenalina e ação ininterrupta, em uma eficaz camuflagem da pouca consistência da trama. O longa é exagerado até dizer chega não somente na quebra de todas as leis da física, mas também nas reviravoltas rocambolescas da trama e no excesso de pistas falsas. Noyce, aliás, tem know-how com o gênero – também são dele Perigo Real e Imediato e Jogos Patrióticos – e já havia trabalhado antes com Angelina Jolie em O Colecionador de Ossos. No mais, é Angelina fazendo o que gosta e desfilando bela e letal pela tela. Seja em versão loura ou morena, a personagem é perseguida e muito bem coadjuvada pelos competentes Liev Schreiber e Chiwetel Ejiofor.


Resumindo: Salt é mais do mesmo, mas pelo menos é um filme honesto. Seu trailer resume exatamente o que o filme é. Quem é fã de fitas de ação ou de Angelina Jolie provavelmente sairá do cinema satisfeito.

Estreia nesta sexta-feira.

Uma Noite em 67


Foi em uma noite de outubro de 1967 que aconteceu em um teatro paulista, com transmissão ao vivo para todo o Brasil, a final do 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Diante de uma plateia indomável, que aplaudia e vaiava com igual disposição, alguns jovens promissores da época – hoje monstros sagrados da música brasileira – competiam entre si. Canções que se tornariam verdadeiros hinos no futuro naquela noite eram apresentadas ao público pela primeira vez.

O Festival vencido por Edu Lobo com Ponteio teve, ainda, Gilberto Gil e os Mutantes em segundo lugar (Domingo no Parque), Chico Buarque e MPB-4 em terceiro (Roda Viva), Caetano Veloso em quarto (Alegria, Alegria) e Roberto Carlos em quinto (com o samba Maria, Carnaval e Cinzas). Realmente foi uma noite ímpar, marcada não apenas por inovações musicais como a polêmica introdução da guitarra elétrica na MPB, mas também por acontecimentos folclóricos como a reação explosiva de Sérgio Ricardo que, ao ser impedido de cantar por monumentais vaias, quebrou seu violão e atirou-o sobre a plateia – episódio que depois foi jocosamente apelidado de “violada no auditório”.

O documentário Uma Noite em 67 contrapõe com muita vibração e bom humor estas imagens históricas a depoimentos atuais dos principais personagens: Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Edu Lobo e Sérgio Ricardo, além de testemunhas privilegiadas como Sérgio Cabral (um dos jurados) e Nelson Motta (um dos jornalistas que cobria o evento). “É naquele momento que o Tropicalismo explode, a MPB racha, Caetano e Gil se tornam ídolos instantâneos, e se confrontam as diversas correntes musicais e políticas da época”, assim resumiu Motta.


Os diretores Renato Terra e Ricardo Calil, que pretendiam inicialmente fazer um panorama geral sobre a chamada era dos festivais, foram extremamente felizes na decisão de focar o filme apenas nesta emblemática edição de 1967, o que permite uma visão mais íntima e detalhada não apenas do evento, mas também do momento de ruptura e contradições que vivia a música brasileira, ainda em busca de um senso de identidade. Eram tempos românticos, nos quais ainda se acreditava numa certa pureza musical em contraponto ao “imperialismo ianque”. É impossível não sorrir diante do mea culpa constrangido dos artistas que participaram de uma passeata contra a guitarra elétrica, por exemplo. O espectador também tem a oportunidade de saber em primeira mão detalhes nunca antes divulgados, como, por exemplo, o estado emocional em que se encontrava Gilberto Gil ao defender sua música.

Contando com imagens de arquivo fantásticas e depoimentos atuais inspirados, ternos e divertidos dos principais envolvidos, Uma Noite em 67 encanta e diverte, relembrando uma época explosiva, durante a qual fazer música colocava as escolhas políticas e musicais em igual nível de importância. Simples e delicioso. Sexta nos cinemas.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Bem Amado


O Bem Amado talvez seja um dos textos teatrais brasileiros cujo enredo é mais conhecido. Escrito por Dias Gomes em 1962, a peça foi adaptada pelo próprio autor como telenovela onze anos depois e conta a história de Odorico Paraguaçu, prefeito da fictícia Sucupira, que se elege sob a promessa de construir o primeiro cemitério da cidade. Para realizar sua obra, encontra dificuldades que vão desde a oposição de seus inimigos políticos até a falta de verba para tão faraônico empreendimento. Passando por cima de tudo e todos, Odorico conclui a obra e logo se defronta com mais um bizarro problema: a falta de um morto para inaugurá-la. Contando com a ajuda de seu secretário Dirceu Borboleta e suas fiéis correligionárias, as irmãs Cajazeiras — Doroteia, Dulcineia e Judiceia, a Juju –, Odorico começa a tomar medidas desesperadas, como importar moribundos e até trazer de volta à cidade o “fazedor de defuntos” Zeca Diabo, assassino do prefeito anterior.

Além de ter sido a primeira novela em cores da televisão brasileira, O Bem Amado fez tanto sucesso que ainda gerou um seriado que esteve no ar entre 1980 e 1984. Em ambos os casos, Odorico Paraguaçu e Zeca Diabo foram interpretados por Paulo Gracindo e Lima Duarte e representam imagens até hoje muito fortes no imaginário popular. Nesta versão para o cinema, cabe a Marco Nanini a complicada tarefa de dar vida a Odorico Paraguaçu. Nanini acertadamente evita imitar seu antecessor e cria um Odorico mais contido, mais baseado nos políticos do interior, apostando em um humor menos explícito. Algumas de suas célebres tiradas, como “vim de branco para ser mais claro” estão de fato no filme, mas o roteiro economiza um pouco nos famosos neologismos e frases de efeito que celebrizaram o personagem, tornando-o menos cara-de-pau e mais próximo da realidade. O mesmo se pode dizer do introvertido Zeca Diabo de José Wilker, de longe a interpretação mais surpreendente. Por outro lado, causa estranheza que as irmãs Cajazeiras, de beatas sejam promovidas a peruas exageradérrimas. Drica Moraes tem a composição mais equilibrada, compensando o exagero visual com uma interpretação um pouco mais sóbria.


Rodada na cidade de Marechal Deodoro, em Alagoas, a trama é mantida no início dos anos 60 e é narrada em off pelo jornalista Neco Pedreira. Principal opositor de Odorico no original, o Neco do filme ganha ares de herói romântico e idealista graças à criação de um personagem extra: Wladimir, o esquerdista dono do jornal A Trombeta (na peça, o dono é o próprio Neco). Dessa forma, muitos enfrentamentos passam a ser entre Odorico e Wladimir. Atualizações são sempre bem-vindas e até mesmo necessárias quando se trata de um produto tão conhecido, mas neste caso em especial, a criação de Wladimir enfraquece bastante a importância de Neco como personagem, tornando-o apenas o pretendente da filha do Odorico. Também reforçar a toda hora a correlação entre Sucupira e o Brasil como um todo parece um pouco exageradamente didático, conclusão que poderia ficar a cargo do espectador sem que fosse preciso a toda hora “lembrar” que se trata de uma sátira da política brasileira.

Posto isso, O Bem Amado é um filme divertido e bem realizado e que conta com um elenco estelar de grandes comediantes. Como espetáculo de entretenimento, cumpre sua função à perfeição. O único problema é que vindo de um diretor com a habitual excelência artística de Guel Arraes, a gente sempre espera mais, fica mais exigente. Olhando por esse ângulo e relembrando trabalhos irretocáveis como O Auto da Compadecida, Lisbela e o Prisioneiro e, mais recentemente, Romance, é inevitável que este O Bem Amado deixe uma incômoda sensação de que o filme poderia ter sido mais. O que, claro, não tira seus méritos nem impede que se dê boas risadas com ele.

Sexta nos cinemas.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Shrek Para Sempre


Manter o bom nível de uma franquia de sucesso por nada menos que quatro filmes não é tarefa para qualquer um. Poucos filmes chegam a seu terceiro episódio com fôlego e energia para mais. Para provar que é sempre prematuro decretar que uma série não tem mais o que mostrar, este Shrek Para Sempre volta renovado em seu capítulo final. Após o fraquinho Shrek Terceiro, o ogro verde ressurge nas telas em crise existencial em uma nova e criativa aventura que contempla universos paralelos e seus desdobramentos metafísicos.

Shrek está com a vida mansa. Casado, pai de três filhos, celebridade local. Antes temido, agora atração turística. Enfadado com a rotina, relembra com saudosismo dos seus dias de monstro solitário. Era a chance que o maligno Rumpelstiltskin (referência a um duende malvado de um conto dos irmãos Grimm) esperava. O vilão ludibria Shrek com um pacto mágico onde ele teria um dia inteiro só para ele e, em troca, teria que dar um dia de seu passado para o bruxo. É quando o ogro acorda em uma versão alternativa da história e descobre que não existe de fato, já que Rumpelstiltskin se apropriou justamente do dia de seu nascimento. Sem nunca tê-lo conhecido, Fiona teve que fugir sozinha da torre do dragão e se tornou uma guerreira, o Burro ganha a vida puxando carruagens de bruxas e o Gato de Botas é um animal domesticado com sérios problemas de obesidade. Para que tudo volte ao normal e ele não desapareça ao fim daquele dia, Shrek deve fazer com que Fiona se apaixone por ele e o beije, assim quebrando o contrato mágico.

Como já anunciado em seu próprio cartaz, este Shrek Para Sempre é o capítulo final da saga do monstrengo mais gente boa da sétima arte. Recebido com injusta má-vontade pela crítica norte-americana, o filme é um final à altura para a bem-sucedida franquia e coroa com dignidade a acertada decisão de por fim à série – afinal de contas, ninguém quer que personagens tão bacanas sejam sugados à exaustão e se tornem pastiches de si mesmos. A trama com toques de ficção científica é outro acerto, já que permite possibilidades bem interessantes, como conhecer outra versão dos personagens em um mundo não afetado por Shrek. Destaque para a hilária versão obesa do Gato de Botas. Podemos até dizer que o filme tem pegada filosófica, o que não impede que o roteiro tire sarro de si mesmo. Um exemplo disso é quando Rumpelstiltskin diz a Shrek que o fato dele estar ali sem nunca ter nascido é o que se chama de paradoxo científico. Muito bom. Talvez algumas coisas não sejam captadas pelos pequenos, mas tudo bem. Eu, particularmente, sempre achei Shrek muito mais direcionado ao público adulto mesmo.

A versão mostrada para a imprensa foi a dublada, que é correta, com interpretação especialmente eficaz para Shrek e Fiona. A voz de Eddie Murphy como o Burro sempre faz falta (é, de longe, o melhor trabalho já feito pelo comediante americano) e também não pega muito bem ouvir o Gato de Botas falando português, já que o tempero latino é o grande charme do personagem – lembrando que no original há um espanhol legítimo, Antonio Banderas, por trás do personagem. Mas as cópias dubladas são decisões mercadológicas que pouco tem a ver com o filme em si. Qualquer que seja o idioma, Shrek Para Sempre é ótima diversão para toda a família, mantendo o bom nível de citações e piadas, mas tampouco esquecendo as boas doses de romance e ternura mostrados nos dois primeiros filmes. Valeu, Dreamworks!

Amanhã nos cinemas.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Cartas para Julieta


Cartas para Julieta, que estreou de maneira oportuna às vésperas do dia dos namorados tupiniquim, tem tudo para fazer a alegria não somente dos casaizinhos apaixonados, mas também dos românticos em geral e ainda dos apreciadores das incontestáveis belezas da Itália. Como toda comédia romântica, é claro que o filme já começa prometendo um indefectível e redentor final feliz. Mas o que realmente importa nesses casos é que toda a previsibilidade do roteiro é recheada com uma história fofinha, um elenco simpático e todo o charme extra das paisagens italianas.

A trama inicia em Nova Iorque, onde Sophie trabalha para uma revista como checadora de fatos e sonha dar seu upgrade para escritora. No que deveria ser uma viagem romântica com o noivo para Verona, o rapaz – um chef obcecado com seu restaurante prestes a ser inaugurado – passa os dias mais interessado em obter fornecedores incríveis do que em estar com sua Sophie. Logo começam a fazer programas em separado – ele visita vinícolas, queijarias, etc. – enquanto ela vai conhecer os atrativos da cidade.

Existe em Verona a “casa de Julieta”, uma reprodução da mansão dos Capuleto descrita por Shakespeare, e em seu jardim há um muro onde mulheres de todas as idades e nacionalidades deixam bilhetes para Julieta, desabafando suas mágoas ou pedindo conselhos. E a prefeitura tem funcionárias para recolhê-las e respondê-las – fato real. Remexendo no muro, Sophie encontra uma carta escondida. A remetente é Claire, uma inglesa que 50 anos antes foi a Verona e se apaixonou perdidamente por um italiano. Sophie responde à carta e Claire, hoje uma senhora viúva, vê nas suas palavras sonhadoras um sinal de que deve voltar à Itália para tirar a limpo o passado. Está estabelecida a base para que o filme se transforme num road movie divertido, levando-nos a deslumbrantes recantos da Toscana. Somando isso à beleza da própria Verona, o longa vira um prato cheio para os italomaníacos.


Não deixa de ser curioso que a grande força do filme esteja nas duas mulheres e não em um casal. A bonitinha Amanda Seyfried faz de Sophie uma jovem moderna e ativa, mas cheia de romantismo. Uma personagem com a qual é difícil não simpatizar. Já a personagem Claire cabe à grande Vanessa Redgrave, que a interpreta com tanta delicadeza e beleza que ilumina a tela a cada aparição. Comentou-se muito o fato de Vanessa aparecer em cena ao natural, quase sem maquiagem – o que não a torna menos charmosa e encantadora. A química entre Amanda e Vanessa é muito legal, com uma cumplicidade impressionante. Pena que não se possa dizer o mesmo do australiano Christopher Egan, que interpreta o neto mal-humorado e cético de Claire, por quem Sophie está fadada a se interessar. Fica um pouco difícil crer que a moça o prefira ao charme latino de Gael García Bernal – o noivo Victor –, mesmo porque o longa resiste à tentação de pintar Victor como um canalha.

Completando o elenco está o italiano Franco Nero como Lorenzo Bartollini, a paixão inesquecível de Claire. E é este casal em particular que dá nova dimensão à história, já que Franco e Vanessa foram casados na juventude, tiveram filhos, se separaram e há uns cinco anos resolveram voltar a se casar. Esse detalhe da arte imitando a vida torna Cartas para Julieta ainda mais bonitinho. Dirigido por Gary Winick – que fez o pavoroso Noivas em Guerra, mas também o divertido De Repente, 30 –, trata-se de um filme para curtir sem maiores pretensões, mas realizado com eficiência e muito charme. Ideal para ver a dois, com o namorado(a) ou até mesmo para tentar um approach com aquela pessoa especial.

sábado, 5 de junho de 2010

Príncipe da Pérsia


Assim como a enxurrada de adaptações oriundas das graphic novels, outro filão aparentemente interminável para o cinema hollywoodiano são as aventuras em carne e osso dos personagens de videogame. E foi-se o tempo em que eram apenas celebridades virtuais como Super Mario e Lara Croft. Hoje em dia o cidadão que não tem intimidade alguma com esse universo se perde. Eu confesso que desconhecia completamente que existia um game chamado Príncipe da Pérsia. Portanto, as opiniões abaixo se referem estritamente ao filme feito a partir dele.

Dastan é um garoto pobre adotado pelo sultão da Pérsia, criado como príncipe ao lado de seus dois outros filhos legítimos, com a única diferença de não ter direito ao trono. Adulto, torna-se um guerreiro destemido e, ao lado do tio e dos irmãos, se vê em meio ao delicado dilema de invadir ou não uma cidade sagrada acusada de fornecer armas aos inimigos dos persas (qualquer semelhança com uma invasão recente certamente não é coincidência). Dastan é contra, mas seu irmão mais velho, o príncipe herdeiro, é convencido pelo tio, conselheiro do rei ausente. Sempre leal à família, Dastan lidera o ataque e captura a princesa Tamina. Mas não tem tempo de colher os louros da vitória, já que é vítima de um complô. O rei é assassinado, Dastan é acusado do crime e logo descobre que tudo foi engendrado por causa de um artefato capaz de controlar o tempo.

Príncipe da Pérsia não nega suas origens de videogame. Cenas acrobáticas, peripécias juvenis e muito corre-corre realmente podem ser divertidos em um jogo. Em um filme, onde temos que assistir a tudo sem nenhuma interação, nem tanto. Pelo menos, não sem uma boa história embasando tudo isso. E esse é o grande problema do filme: limitar-se a copiar as regras de diversão de seu meio de origem e não ter o mínimo de ambição para transpor os limites do game em busca de atrativos cinematográficos. Certamente um longa bem ao estilo do cinema produzido por Jerry Bruckheimer, ainda que cause estranheza que um cineasta de prestígio como Mike Newell assine a direção.

Com uma história atravancada e cheia de incoerências, resta ao filme investir pesado em coreografias espantosas, cenários exóticos e muito deslumbre visual. Por vezes sentimos que não há sequer uma transição entre uma situação e outra. Vamos resumir da seguinte maneira: depois de Príncipe da Pérsia, o espectador pode até chegar a pensar que Fúria de Titãs é um filme profundo.


Podia ser pior? Sim, podia. Sem o talento, carisma e simpatia desse ator maravilhoso chamado Jake Gyllenhaal a coisa ficaria realmente feia. Tendo Jake em cena praticamente em todos os fotogramas, o espectador tem a alternativa de se concentrar nele e dar um voto de confiança ao seu príncipe aventureiro.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Eu Te Amo, Phillip Morris


O Golpista do Ano (título que beira o constrangimento para I Love You, Phillip Morris) é um filme curioso. Como produto cinematográfico, é irregular e salpicado de pequenos defeitos narrativos, escorregadelas de ritmo e confusões de estilo, indeciso entre mergulhar na comédia ou narrar com maior sentimento a sui generis história de amor entre um estelionatário e seu companheiro de cela. No entanto, mesmo estando longe de ser uma produção perfeita, há algo no filme que conquista e comove, tornando impossível não simpatizar com ele.

Baseado no livro do jornalista Steve McVicker, Eu Te Amo Phillip Morris acompanha a inusitada (e verídica) trajetória de Steven Russell, pai de família cristão e conservador que leva uma vida de aparências até o dia em que sofre um grave acidente de trânsito e resolve que a vida é curta demais para ser passada dentro do armário. Steve se assume, arruma um bofe luxo (interpretado por Rodrigo Santoro) e tudo estaria perfeito não fosse um detalhe: a vida de jóias extravagantes e viagens fabulosas que ele tanto aprecia custa caro, muito caro. Para manter o padrão, Steve passa a aplicar os mais diversos golpes, desde forjar acidentes para receber indenizações indevidas até falsificar cartões de crédito. Capturado, vai para a prisão e lá apaixona-se perdidamente por outro detento – o Phillip Morris do título original.


Com uma história que lembra o delicioso Prenda-Me se For Capaz, o filme alterna comédia rasgada com romance. A mistura por vezes atravanca um pouco o ritmo da trama, já que o roteiro nem sempre consegue transitar com fluência entre esses dois aspectos. A atuação de Jim Carrey como Steve funciona às maravilhas no quesito comicidade (suas fugas e armações são impagáveis), mas resvala na caricatura em cenas que deveriam ser mais românticas. Já a composição de Ewan McGregor como Phillip Morris é bem mais delicada e precisa, sempre focada nos pequenos detalhes ao invés de cair na fórmula fácil dos trejeitos – e, cá entre nós, ele fica lindo de uniforme de presidiário. McGregor rouba a cena cada vez que aparece, provando mais uma vez sua versatilidade e competência. E Rodrigo Santoro, cada vez mais à vontade em sua carreira internacional, faz bonito em participação pequena porém fundamental para a trama.

O filme também se utiliza de Steve como um narrador não confiável de sua própria história. O recurso, que pode ser uma faca de dois gumes, aqui surpreende mais do que atrapalha. Um exemplo disso é o personagem de Rodrigo Santoro, que desaparece da trama sem explicações e deixa o espectador com a sensação de que tiraram ele de cena apenas para abrir espaço para a chegada de Phillip Morris, ou seja, uma tremenda falha no roteiro. Mais tarde, quando Steve esclarece aquela parte da história, os pedaços se encaixam e o personagem inclusive ganha maior importância na história.


Ameaçado de lançamento direto em DVD, I Love You, Phillip Morris finalmente chega às telonas brazucas mas não sem antes sofrer algumas distorções. A começar pelos cartazes e trailers, que tentam destacar a parte cômica do filme numa clara manobra para desviar a atenção da situação romântica. Não que o filme não tenha seus momentos pastelão, mas é evidente que fazer rir não é seu foco primordial. O longa, na verdade, é quase uma fábula sobre o que acontece quando uma pessoa sem limites encontra uma razão para ficar ainda mais desmedida. É sobre o patético e terno sentimento de estar loucamente apaixonado. Os estreantes na direção Glenn Ficarra e John Requa (roteiristas do bacaninha Como Cães e Gatos) começaram muito bem, demonstrando originalidade e ousadia já em seu primeiro filme.

Na vida real, Steven Russell escapou da prisão quatro vezes, sempre em uma sexta-feira 13. Recorrendo aos mais criativos estratagemas e disfarces, o cara chegou a extremos que ameaçaram sua vida para ficar perto do homem que amava. Chega a ser difícil para a ficção concorrer uma realidade dessas.

Sexta nos cinemas.