quarta-feira, 8 de junho de 2011

Namorados Para Sempre


É preciso tomar muito cuidado com certos títulos de filmes em português. Mais do que não corresponder ao original, assim desvirtuando as intenções de quem o realizou, alguns chegam ao extremo de passar uma mensagem diametralmente oposta sobre o que se está por assistir. Um exemplo? O espectador que estiver a fim de curtir um romancezinho a dois neste Dia dos Namorados e se deixar levar pela promessa de singeleza contida em um título como Namorados para Sempre (tradução mais do que infiel para Blue Valentine) pode se sentir bem lesado ao final da sessão, visto que o excepcional filme de Derek Cianfrance não tem nada de leve e nem de fofinho. Pelo contrário, é um dos mais pungentes e doloridos retratos do esfacelamento de uma história de amor.

Através de um roteiro corajoso e isento de concessões, o filme narra dois momentos distintos na vida do casal Cyndi e Dean: o início do relacionamento, quando ambos mergulham em uma paixão avassaladora, capaz de superar os mais complicados obstáculos; e o momento atual, quando já estão juntos há alguns anos, tem uma filha pequena e lutam para manter de pé um casamento que parece agonizar e caminhar para o inevitável precipício. A montagem, que intercala esses dois recortes da relação, faz com que o espectador se envolva profundamente e se compadeça mesmo durante as cenas felizes, justamente por ter conhecimento de que aquela harmonia está fadada a ruir em um futuro não tão distante assim.

Alguns acusarão o argumento de prosaico, banal. Mas talvez o grande diferencial do filme seja justamente esse senso de familiaridade. O filme não se apóia em traições, problemas insuperáveis, grandes motivos para justificar a decadência amorosa. Não se pode identificar uma única razão, é o cotidiano, é a rotina, são as pequenas decepções que se infiltram sem que se perceba, minando a confiança, o carinho, o companheirismo. Quando se dá conta, Cyndi não suporta mais ser tocada pelo marido e se exaspera com defeitos que Dean já possuía quando se conheceram, mas que agora ganham uma dimensão mítica. Em um primeiro momento, o espectador tenderá a simpatizar mais com Dean; afinal de contas, ele demonstra ainda amar a mulher e é constantemente repelido por ela com rispidez. Mas esse não é um filme de mocinhos e vilões e logo passamos a ver também a ótica de Cyndi, cansada da miopia do marido em relação aos problemas, decepcionada com sua falta de ambição, farta de ser a única adulta no relacionamento.


Michelle Williams (indicada ao Oscar por este papel) e Ryan Gosling estão nada menos do que soberbos em seus papéis. Os atores passaram um mês inteiro se familiarizando um com o outro antes das filmagens, técnica que parece ter dado ótimo resultado. Michelle e Ryan passam uma atmosfera de total intimidade de casal quando se amam e – o mais difícil – também quando se desentendem. Ponto também para o excelente trabalho de caracterização, que consegue refletir no rosto dos protagonistas não somente os anos passados, mas também a carga de desesperança, cansaço e desilusão sofrida por cada um.

Chama a atenção que um filme tão visceral como esse venha de um cineasta com uma carreira quase exclusivamente voltada para o documentário. Por outro lado, pode ser que seja justamente a experiência com a vida real de Cianfrance que tenha permitido que o resultado final desta obra de ficção soe tão devastadoramente verdadeiro. Impossível não sentir um nó na garganta ao ouvir a marcante frase “como podemos confiar nos sentimentos se eles simplesmente desaparecem?”. Até o último fotograma, Blue Valentine se mantém humano, realista, sóbrio e, por isso mesmo, assustadoramente próximo de todos nós.

Sexta nos cinemas.

domingo, 5 de junho de 2011

Os Austríacos

Os austríacos provavelmente são as pessoas mais sérias do mundo. Coisa rara ver algum que não seja carrancudo, mesmo dentre aqueles que lidam com atividades turísticas. Não é que sejam antipáticos ou pedantes; pelo contrário, são pessoas educadíssimas e gentis, mas eles simplesmente desconhecem o que é um sorriso. Seja a qual for a situação, eles parecem inabaláveis em suas boas maneiras. Um exemplo: a expressão com a qual o garçom traz o cardápio é exatamente a mesma com a qual ele agradece a gorjeta.

Eles são tão confiantes em seu modelo de educação e civilidade que o metrô deles não tem sequer uma catraca (ao contrário do londrino, onde tem catraca para entrar e para sair). Você mesmo compra seu bilhete, escolhe por quantos dias e ninguém te pergunta mais nada. E não foi um acaso fortuito, já que eu andei bastante de metrô durante três dias inteiros sem que ninguém me pedisse para ver o bilhete uma vez sequer.


A língua deles é o alemão, mas você se vira bem por lá (ao menos em Viena) se souber inglês. Também não é raro encontrar alguns falantes de italiano, inclusive muitos cardápios vem escritos em alemão, inglês e italiano. Também facilita o fato deles sempre colocarem uma foto do prato. Sobre comida e bebida, falaremos mais adiante, por enquanto deixo registrado o momento da primeira cerva bebida em domínios austríacos – que foi uma cerveja alemã, a Beck’s.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dias Vienenses


Como alguns podem ter notado (ou não), eu não postei nada no blog durante o mês de maio. Isso porque passei esse mês em uma imersão completa na língua italiana e na minha cidade preferida em todo o mundo: a estonteante, histórica e mítica Firenze – Florença, aqui para nós. Aliás, uma coisa que eu nunca entendi direito é essa coisa de traduzir o nome de algumas cidades estrangeiras. Como foi que Firenze virou Florença? Mas digressiono, voltemos ao que interessa.

Minha vida andava sem direção, com trabalhos que não iam bem e amores que iam piores ainda. Desde o ano passado, pensava em fazer esse curso e passar um mês estudando italiano na Itália. Não apenas para aprimorar o conhecimento do idioma, mas também para me afastar daqui, olhar tudo por um novo ângulo, me reciclar. Foi assim que, no dia 30 de abril de 2011, eu embarquei com duas malas e um caminhão de expectativas rumo a Firenze.

Como eu tinha o mês livre, tive a ideia de aproveitar que já estava na Europa e fazer, ainda, um pouquinho de turismo. Para onde seguir? Olhando o mapa da Itália e da Europa, comecei a pesquisar quais cidades poderiam ser alcançadas de trem a partir da Toscana. Primeiro, cogitei Munique; mas não queria ir à Alemanha e conhecer apenas uma cidade. Meus planos para o país eram mais abrangentes e eu tinha poucos dias sobrando. Acabei optando por Viena, capital da Áustria. Confesso que a lembrança do romântico Antes do Amanhecer teve um peso considerável na minha escolha. Quem sabe também eu encontraria um belo e misterioso estranho no trem? Não foi o que aconteceu, mas valeu a intenção.

Minhas quatro semanas fiorentinas renderam, e como. Cultura, diversão, amores, de tudo um pouco. Aliás, de tudo muito. Mas por enquanto não posso falar sobre elas aqui, já que pretendo explorar o assunto em um projeto literário – claro que, se o livro não vingar, daqui a um tempo terei que falar sobre isso aqui no blog mesmo. Mas torçam por mim, eu acho que mereço um espacinho nas prateleiras das livrarias.

Quanto aos meus dias vienenses... A respeito desses vamos falar aqui e agora. Na noite do dia 27 de maio de 2011, deixei Firenze rumo a Viena no Euronight das 21h50. Aguardem o próximo post!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A Garota da Capa Vermelha


Eu confesso: tenho um pé atrás com Catherine Hardwicke. Depois de trabalhar por quase duas décadas como desenhista de produção, Catherine debutou na direção em 2003 com o deplorável Aos Treze, seguido pelo apenas razoável Os Reis de Dogtown e o primeiro longa da série Crepúsculo. Não é uma filmografia que inspira muita confiança, não é mesmo? Sem contar sua atitude de “cineasta entendida em jovens” quando, na verdade, é justamente a sua visão estereotipada do universo adolescente o ponto fraco de seus filmes.

Agora, em conjunto com uma duvidosa jogada de marketing, Hardwicke chega a seu projeto mais ambicioso: uma versão livre e (supostamente) adulta de Chapeuzinho Vermelho. A jogada de marketing em questão diz respeito ao lançamento de um livro, escrito a partir do roteiro do filme e (pasmem!) lançado sem conter o desfecho do mesmo. Ou seja: para saber como acaba a história, o leitor tem que ver o filme ou baixar o final do livro em separado através de um link que será disponibilizado somente depois da estreia do filme. Como é que é? O incauto que comprou a versão em papel simplesmente ficará com um livro incompleto na estante? Como alguém pode considerar isso uma boa ideia?

Mas vamos ao enredo: em um pequeno vilarejo em meio a uma floresta, os moradores vivem aterrorizados por um monstro terrível e tentam aplacar sua fúria sacrificando animais regularmente. Em meio ao clima de medo e proibições, a bela Valerie cresce apaixonada pelo lenhador Peter. Quando seus pais a prometem em casamento ao rico Henry, ela e Peter planejam fugir, mas tem seus planos arruinados quando o monstro rompe o pacto e assassina a irmã mais velha de Valerie. Revoltados, os moradores caçam um enorme lobo e acreditam ter solucionado o problema. É quando chega ao vilarejo o padre Solomon, célebre caçador de criaturas do mal, e lhes revela que não se trata de um lobo comum e sim de um lobisomem, que retorna à forma humana durante o dia, podendo ser qualquer um deles. O pânico toma conta do vilarejo, ao mesmo tempo em que Valerie começa a perceber que tem uma estranha ligação com a fera.

É muito difícil assistir a esse filme e não lembrar de A Vila, de M. Night Shyamalan. Para o bem e para o mal, os dois filmes tem grande semelhança visual e estilística. É bem verdade que a direção de arte de A Garota da Capa Vermelha é mais caprichada, mas toda a concepção de um vilarejo afastado da civilização e aterrorizado por uma criatura feroz e misteriosa é igualzinha. Por outro lado, o filme de Shyamalan tem um conceito mais adulto e coeso – mesmo não sendo nenhuma obra-prima – enquanto o de Hardwicke parece indeciso entre a fábula e o romance adolescente, não alcançando bons resultados em nenhum dos dois aspectos.


Amanda Seyfried já provou ser uma atriz competente e versátil, mas neste filme é bastante prejudicada pela falta de química com seus dois pretendentes e não consegue transparecer a sexualidade reprimida que deveria estar associada à sua personagem. Aliás, todas as tentativas do filme de explorar o erotismo implícito no mito de Chapeuzinho Vermelho são canhestras. Um exemplo é a cena em que Valerie dança com outra moça diante do olhar dos rapazes do vilarejo: embora seja óbvio que a intenção da diretora era fazer uma cena sensual, a tomada é feita de modo tão forçado e esquemático que não transmite nenhum apelo sexual.

Resta o mistério sobre a identidade do lobisomem. A explicação é até convincente, mas o espectador acaba frustrado porque certamente esperava mais deste filme do que um mero “quem é o culpado?”. Sem contar o desperdício de atores interessantes como Gary Oldman e Virginia Madsen em papéis bidimensionais. Vale lembrar que o cinema já fez ao menos duas releituras mais interessantes de Chapeuzinho Vermelho: nos anos 80, Neil Jordan nos brindou com o denso e perturbador A Companhia dos Lobos; e mais recentemente, a animação Deu a Louca na Chapeuzinho também subverteu os cânones da fábula de modo bastante divertido e original. Já este A Garota da Capa Vermelha, embora visualmente impressionante, não acrescenta nada em termos de conteúdo. Mas é claro que deve se converter em estrondoso sucesso dentre o público adolescente.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Pânico 4


Hello, Sidney. Ghostface está de volta. Com ele, uma das séries de terror mais bem-sucedidas e referenciais dos anos 90, Pânico. A franquia – cujo primeiro filme data de 1996 e o terceiro, de 2000 – revitalizou o estilo ao introduzir como nenhuma outra antes a metalinguagem em sua trama. Os assassinos e suas vítimas são sempre aficionados por filmes de terror e, portanto, aptos a discutirem o que pode e deve ser feito para sobreviver a uma produção do gênero. O fato do assassino por trás da máscara mudar a cada episódio também diz algo sobre o ponto de vista da série: adolescentes podem ser sádicos e até mesmo se transformarem em assassinos em série sem precisarem de um motivo tão forte assim para justificar tamanha violência.

Com o mote “nova década, novas regras”, a história traz a mocinha Sidney Prescott de volta a Woodsboro. Sidney agora é autora de um livro de auto-ajuda e retorna à cidade natal, dez anos depois, não apenas para promover o lançamento, mas também com o intuito de confrontar seus fantasmas do passado. O Xerife Dewey e a repórter Gale Weathers agora estão casados – curiosamente, seus intérpretes começaram a namorar durante o longa de 1996 e se separaram recentemente – e o livro escrito por Gale sobre os crimes mostrados no primeiro Pânico gerou nada menos que sete filmes infames, a franquia Stab.

Sucesso entre os adolescentes locais, os filmes dentro do filme tornaram Sidney alvo de uma indesejada fama: a de ser uma espécie de anjo da morte, ao redor de quem todos morrem. E não é só: o retorno de Sidney a Woodsboro também desencadeia o surgimento de um novo esfaqueador mascarado, o que a coloca, juntamente com sua prima Jill e sua tia Kate, na mira do assassino.


Pânico 4 aposta mais ainda que seus predecessores na mistura de sustos com comédia, dando o tom que seguirá ao longo de quase duas horas já na divertida sequência de abertura. O tempo todo, o roteiro pega no pé dos filmes dentro do filme, ou seja, a série Stab. Ou seria melhor dizer Pânico 3? E não é só: os remakes e as sequências também são devidamente achincalhados (seria uma alfinetada de Craven na refilmagem sem sal de seu sucesso A Hora do Pesadelo?). Mais do que nunca a linha divisória entre este filme em particular e suas referências internas e externas é difusa, tornando tudo sempre mais divertido para quem curte a franquia ou, no mínimo, é um apreciador dos filmes de terror de um modo geral.

Talvez o segredo do sucesso tenha sido reunir mais uma vez o diretor Wes Craven e o roteirista Kevin Williamson (mesmo tendo deixado o projeto, ele ainda é creditado como o principal roteirista), imbatíveis em tirar sarro de personagens, subverter cenas e até mesmo repetir detalhes dos filmes anteriores dentro de outros contextos. Outro ponto bastante interessante é a análise feita dos fenômenos da nova década, como a explosão das mídias sociais, a necessidade dos jovens de estarem conectados o tempo todo e o culto às celebridades instantâneas.


Se o primeiro longa tornou célebre a fala “filmes não criam psicopatas, apenas os tornam mais criativos”, este quarto capítulo tem pelo menos uma fala inesquecível: Don’t fuck with the original. Mas para descobrir quando, por quem e por que a frase é dita... Bom, aí vocês terão que assistir ao filme.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Rio


A animação Rio começou a ser comentada muitas semanas antes de seu lançamento por conta de ter sido a Cidade Maravilhosa escolhida para sediar a primeira coletiva de imprensa e pré-estreia do filme, com direito à presença de astros badalados do momento como Jesse Eisenberg e Anne Hathaway. As exigências de cadastramento foram muitas, as recusas idem, muita gente reclamou do tratamento dado aos jornalistas nacionais em favor dos internacionais, mas não se pode negar que o evento ganhou destaque em todos os veículos ligados à área cultural. Como badalação, Rio foi um sucesso. Mas e o filme, está à altura de tanto frisson?

Em primeiro lugar, causa espanto que um filme dirigido por um brasileiro (Carlos Saldanha, de A Era do Gelo) reforce com tamanha intensidade todos os mais batidos clichês sobre a cidade e seus habitantes. Ou será que Saldanha mora há tanto tempo nos States que já virou gringo? Não vou nem falar de absurdos geográficos como os personagens saírem da Marquês de Sapucaí e caírem no meio da selva, mas sim de uma visão demasiadamente exótica e falsa do Rio de Janeiro, resumindo toda uma metrópole a samba, carnaval e bandidagem. Chega a causar vergonha alheia a cena em que turistas incautos são roubados no Cristo Redentor por uma gangue de macaquinhos. Estaria tudo bem se a pegada do filme fosse irônica, mas o tom é de “homenagem”. E ainda teve gente que se ofendeu com o tal episódio dos Simpsons no Rio – essa sim uma animação de características cáusticas, que não livra a cara de ninguém.

No começo do filme, vemos um filhote de arara azul ser tirado da selva e contrabandeado para fora do país. Por acidente, a ararinha vai parar na porta de uma menina tímida do Minnesota, Estados Unidos, e os dois se tornam melhores amigos. Blu é tão domesticado que não apenas fica solto pela casa, como ajuda sua dona Linda em tarefas domésticas. Em compensação, nunca aprendeu a voar. Anos depois, um cientista brasileiro descobre o pássaro raro e convence Linda a levá-la para o Brasil para que possa acasalar com a única arara fêmea restante e, dessa forma, salvar a espécie. Chegando aqui, o casal de araras é sequestrado por traficantes de animais silvestres. Ou seja, nada mudou desde a infância de Blu.

Muitos irão desculpar o amontoado de bobagens que é o roteiro dizendo que Rio é um filme voltado para o público infantil, mas eu realmente não acho que isso seja uma justificativa válida. A sétima arte todos os anos nos brinda com animações maravilhosas que, mesmo focadas nos pequenos, sabem conquistar o coração de espectadores de todas as idades com tramas originais e bem estruturadas. Só para ficar em dois exemplos recentes, no ano passado tivemos Toy Story 3 e Como Treinar Seu Dragão. Animações fofas sim, mas amparadas por roteiros inteligentes e instigantes. Já em Rio, o espectador tem a nítida impressão de que a história foi escrita de modo a poder mostrar o máximo possível de imagens de festa, favela e floresta, utilizando-se das mais toscas justificativas. Um exemplo é quando os personagens atravessam o Sambódromo porque as ruas estão fechadas para o carnaval e o único modo de passar seria por dentro do desfile. Peraí, como assim?


Posto isso, é preciso reconhecer que Saldanha e sua equipe se saem bem na criação e animação dos seus personagens, em especial a ararinha nerd Blu. O filme é todo lindinho, colorido, bem concebido visualmente e repleto de bichinhos simpáticos (ainda que muitos lembrem personagens e situações já vistas anteriormente em filmes da Disney). O problema é que um filme – mesmo um para crianças – não se sustenta apenas no visual e, ao ver Rio, foi impossível não lembrar de um cupcake. Lindo, enfeitado, uma obra de arte. Mas, depois que você degusta, chega à conclusão de que o sabor não era lá grande coisa.

A partir desta sexta nos cinemas brasileiros (e do dia 15 nos do resto do mundo).

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Retrato de Dorian Gray


A repaginação do mito de Fausto criado por Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray vem fascinando e aterrorizando leitores desde 1890. Nele, o jovem e belo Dorian Gray deixa-se seduzir pela efervescente Londres vitoriana e, principalmente, pela celebração do prazer proposta pelo bon-vivant Henry Wotton. Obcecado pela própria beleza, Dorian fica tão extasiado ao ver-se retratado pelo artista Basil Hallward que afirma levianamente que daria sua alma em troca de poder ter para sempre aquela aparência. Seu funesto desejo se concretiza e, conforme os anos passam, Dorian continua com suas belas feições inalteradas, enquanto o quadro começa a apresentar cada vez mais evidentes sinais de degradação, numa analogia para a sua decadência moral e espiritual.

Oliver Parker, cineasta de filmes bacanas como Othelo e O Marido Ideal, derrapa feio ao transformar o impressionante conto moral de Oscar Wilde em terrorzinho barato, com direito a portas rangendo e sons estridentes na trilha sonora. Mas seria precipitado jogar a culpa apenas nos ombros do cineasta, mesmo porque provavelmente não foi dele a decisão mercadológica de limar a complexidade dos personagens em prol de sustinhos bobos e sangue esguichando gratuitamente na tela. Seria o filme resultado de uma tentativa de criar um produto pop, a exemplo do que foi feito recentemente (com muito mais competência, que fique bem claro) por Guy Ritchie com outro ícone da literatura inglesa em Sherlock Holmes?

O roteiro do estreante Toby Finlay tampouco ajuda, criando personagens e desdobramentos não somente inexistentes no livro como também desnecessários. Mas esse nem é o maior dos problemas do longa, porque nada poderia ser mais danoso ao filme do que a total incompetência do bonitinho Ben Barnes em interpretar o personagem-título. Barnes, mais conhecido como o Príncipe Caspian dos filmes As Crônicas de Nárnia, é um total desastre como Dorian Gray e alterna sua interpretação entre a total cara de paisagem e as caretas melodramáticas das quais se vale para tentar expressar o horror de Dorian Gray com sua terrível maldição. E, com isso, o que deveria ser trágico acaba soando cômico.


Sorte do filme – e de nós, espectadores – é ter Colin Firth no papel de Henry Wotton, o responsável por incutir o gosto pelo hedonismo na cabecinha fraca de Dorian Gray. Não apenas Wotton é detentor das melhores falas do filme como Colin, com seu charme incontestável, também reveste seu personagem de um cinismo divertido e eleva o nível de cada cena na qual aparece. Enfim, com uma abordagem equivocada do roteiro, uma direção sem personalidade e um péssimo ator como protagonista, podemos dizer que o único sustentáculo que resta ao filme tem nome e sobrenome: Colin Firth. Bendito seja ele.

Amanhã nos cinemas, para os que ousarem.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Não Me Abandone Jamais


A clonagem, desde seus primeiros experimentos, vem levantando polêmicas. Em sua maioria, por restrições de ordem religiosa. Estaria o homem querendo tomar o lugar de Deus? Confesso que tais opiniões sempre arrancaram de mim um sorriso irônico, por considerar seus emitentes ingênuos e/ou retrógrados. Claro que a clonagem é um avanço, um benefício capaz de curar pessoas e salvar vidas. Mas e se tal avanço da medicina fosse levado a extremos cruéis, reproduzindo em série seres humanos para serem utilizados como uma grande loja de departamentos? É com essa perspectiva sombria que flerta a trama de Não Me Abandone Jamais.

Kathy, Tommy e Ruth foram educados no tradicional internato de Hailsham, situado numa propriedade campestre afastada do restante da civilização. Criados sob severas regras e ouvindo histórias ameaçadoras sobre crianças que teriam encontrado um terrível destino ao se aventurar fora dos limites da escola, os três cresceriam na mais absoluta inocência não fosse a atitude destemperada de uma professora, que revela aos alunos o indefectível destino reservado a todos. Como clones criados para suprir transplantes em seres humanos, eles devem começar a doar seus órgãos vitais assim que atingirem a idade adulta e estão, portanto, fadados a perecer dentro de um curto período de tempo.

Mesmo diante de tão chocante revelação, os personagens não se revoltam ou experimentam rancor. Talvez porque seja difícil para aquelas crianças dimensionar exatamente a que estão condenadas. O futuro parece irreal em perspectiva de sentimentos muito mais palpáveis, como, por exemplo, a descoberta do primeiro amor e da sexualidade. Kathy se apaixona por Tommy, que parece corresponder, mas depois cede aos encantos de Ruth. Permanecendo unidos, apesar dos desencontros amorosos, os três se tornam adultos e, a exemplo do andróide de Blade Runner, o valor da vida só lhes chega em toda sua plenitude conforme se aproxima o momento de deixá-la para trás.


Baseado em romance Kazuo Ishiguro, o mesmo autor de Vestígios do Dia, o longa faz uma filosófica investigação sobre o que, afinal de contas, tornaria alguém um ser humano. A trama lembra em alguns aspectos a história de Isaac Asimov, O Homem Bicentenário (também já transformada em filme). A grande e dolorosa diferença é que, enquanto o robô Andrew tinha diante de si uma existência longa e ilimitada por conta da sua condição de andróide, os personagens de Não Me Abandone Jamais tem sobre suas cabeças uma ameaça oposta: a brevidade de suas vidas.

O que torna a história ainda mais triste e chocante é sua ambientação. Ao invés de ser baseada em um futuro asséptico e distante, a trama parte de uma realidade paralela na qual os avanços da medicina teriam dado um enorme salto por volta dos anos 60, o que faria com que o que ocorre aconteça não em um suposto futuro e sim na nossa sociedade contemporânea, tornando cada espectador um cúmplice daquela situação. Ou como diz um dos personagens, ao ter seus limites éticos questionados “mas se perguntássemos às pessoas se elas querem voltar aos tempos do câncer de pulmão, elas diriam que não”.

Apesar de sua beleza comovente, o filme tem alguns pontos fracos. Mesmo com a opção de focar mais na parte filosófica e sentimental, a porção científica que sustenta a trama merecia um pouco mais de atenção. Ninguém queria um tratado sobre clonagem, mas sente-se falta de um embasamento maior sobre as experiências que levaram à criação de todo um sistema de reprodução em massa de clones, assim como a repercussão política que isso causaria na sociedade. Todos estavam cientes disso ou apenas uma parcela representativa? Não ficamos sabendo. Outro aspecto que é apenas mencionado diz respeito às pessoas usadas como “molde”. Por que indigentes? O filme não precisava abordar nada disso, é claro, mas acaba frustrando o espectador pelo simples fato de tocar no assunto e depois não explicar mais nada.


Mas essas lacunas do roteiro não chegam a invalidar um filme tão interessante, que já merecia crédito só pela temática. E ainda mais tendo a maravilhosa Carey Mulligan à frente do elenco. A atriz sustenta toda a carga dramática da história, com sua personagem sensível e introspectiva. Andrew Garfield e Keira Knightley também dão conta do recado, mas nem de longe são tão intensos quanto Carey. O diretor Mark Romanek, o mesmo de Retratos de Uma Obsessão e com uma carreira mais voltada para os videoclipes, conduz a trama com segurança e sobriedade na medida certa. Resumindo, um bom filme que merece ser visto e, principalmente, discutido.

Sexo Sem Compromisso


Um casal que começa pelo sexo e tem que seguir o caminho inverso até o amor é tema que tem povoado algumas comédias românticas atuais, numa válida tentativa de injetar frescor em um gênero quase sempre engessado por sua previsibilidade. Some-se isso a dois jovens atores em voga, e podemos ter algo de interessante em meio aos estereótipos. No caso do recente Amor e Outras Drogas, Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway até deram algum charme ao longa, mas o resultado final ficou canhestro pela decisão equivocada de misturar romance com drama médico. Fica a lição: seriedade na hora errada pode atrapalhar. O veterano Ivan Reitman sabe disso e deixou as coisas simples neste Sexo Sem Compromisso, que chega aqui no Brasil na esteira do Oscar conquistado por sua protagonista, Natalie Portman.

Natalie é Emma, uma médica muito dedicada ao trabalho e pouco afeita a sentimentalismos. Ashton Kutcher é Adam, jovem que vive à sombra do pai famoso e que vem esbarrando em Emma ao longo dos últimos 15 anos sem conseguir uma boa aproximação com a moça. Tem sempre alguma coisa atrapalhando, seja o ambiente de uma festa de fraternidade ou uma namorada a tiracolo. A oportunidade de conhecer melhor Emma surge da maneira mais constrangedora: depois de tomar um porre fenomenal ao descobrir que sua ex-namorada está vivendo com seu pai, Adam acorda nu no sofá do apartamento que Emma divide com amigos.

Mas a independente Emma não quer saber de romance e, após uma transa-relâmpago, propõe que eles sejam parceiros de cama e se encontrem apenas para sexo, quando tiverem vontade. Adam, pressionado pelas circunstâncias, concorda, mas o espectador pode ver que aquela não é a praia dele. Numa clara inversão dos valores ainda arraigados na nossa sociedade, acompanharemos a partir deste ponto as tentativas românticas de Adam batendo de frente na parede de concreto que Emma construiu para si. Mas – e aqui entra o mérito da boa direção de Reitman e a sorte de ter uma atriz como Portman no papel – a personagem não age de forma arrogante ou masculina e sim com a praticidade de quem simplesmente não tem jeito nem tempo para ser de outra maneira. Emma não é ríspida ou sádica em relação a Adam, ela apenas vê o mundo de modo diferente.


Natalie Portman, obviamente, é o grande atrativo do filme. Mas até que Ashton Kutcher – geralmente expressivo como uma beterraba – demonstra um mínimo de carisma nesse longa. Talvez tenha sido bem-dirigido por Reitman, ou ajudado por Natalie, mas o fato é que, de um modo geral, o marido de Demi Moore não se sai mal dessa vez. Também vale destacar o bom elenco coadjuvante, com o sumido Kevin Kline como o pai egocêntrico de Adam e a ótima Lake Bell, engraçadíssima como uma produtora de TV sexy e cheia de cacoetes bizarros.

O roteiro de Elizabeth Meriwether tem diálogos leves e bem-escritos, com referências cinematográficas divertidas. Um exemplo é quando a colega médica de Emma diz a ela “vamos sair juntas, como em Sideways. Você é o Paul Giamatti. Eu transo”. O diretor Ivan Reitman, famoso nos anos 80/90 por comédias como Os Caça-Fantasmas e Irmãos Gêmeos, não andava em fase muito boa nesse terceiro milênio. O último longa dirigido por ele, há cinco anos, foi o pavoroso Minha Super Ex-Namorada. Com esse novo trabalho, o cineasta se redime e mostra que ainda tem fôlego para ser mais do que o pai de Jason Reitman.

Sexo sem Compromisso é filme para ser visto com o mesmo espírito de diversão descompromissada pregado por Emma. É isso, então, caro leitor: vá ao cinema sem esperar telefonemas no dia seguinte e sairá satisfeito.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Lope


(texto já postado na época do Festival do Rio, mas acrescido de algumas observações)

Há quem estranhe o fato desta coprodução entre Brasil e Espanha – e falada em espanhol – sobre o célebre dramaturgo Félix Lope de Vega ter sido entregue nas mãos de um brasileiro. Andrucha Waddington chegou ao filme através de um de seus roteiristas, que assistiu ao fabuloso Casa de Areia e, impressionado, pediu ao cineasta que lesse o roteiro de Lope. Andrucha se empolgou com o projeto e correu atrás de parceiros para realizá-lo. O resultado é um longa com surpreendente “sotaque” espanhol, não transparecendo nenhum cacoete de olhar estrangeiro sobre o tema.

A trama acompanha o início da carreira de Lope de Vega, sua dificuldade em conseguir que encenassem suas primeiras peças e também os primeiros dos muitos escândalos amorosos associados a seu nome. Na Madri no século XVI e recém-chegado da guerra, Lope entra no teatro pela porta dos fundos, como copista de uma das mais prestigiadas companhias teatrais. O todo-poderoso Velásquez reconhece que o subordinado é talentoso, mas reluta em dar-lhe uma chance porque o trabalho de Lope mistura tragédia com comédia e, portanto, vai contra os cânones teatrais da época.

Ao mesmo tempo em que realiza um filme bastante clássico, puro cinemão de época, Andrucha Waddington também conta a história de um espírito indomável e subversivo. Lope de Vega era, antes de tudo, um rebelde que se insurgiu não apenas contra a caretice teatral de seu tempo, mas também contra as hipocrisias sociais vigentes. E pagou um preço por isso. Justamente quando começava a ser reconhecido, o dramaturgo caiu em desgraça por conta de seus ímpetos passionais e foi acusado de diversos crimes de ordem moral.

Tecnicamente, Lope é perfeito. A fotografia de tons escuros é deslumbrante, chegando a lembrar o estilo das pinturas de Velásquez (o mestre da pintura, não o personagem do filme), e ajuda muito o espectador a entrar no clima da época retratada. Assim como a direção de arte e as locações bacanérrimas. OK, o longa não inova muito em termos de estrutura narrativa e é bastante convencional como cinema, mas todo esse tradicionalismo não chega a ser um defeito quando é realizado com competência. E isso é inquestionável no trabalho de Andrucha Waddington que, com esse filme, prova que está pronto para encarar a direção de qualquer produção em qualquer parte do mundo.


O argentino Alberto Amman está ótimo no papel de Lope de Vega. E dois brasileiros bem conhecidos integram o elenco coadjuvante: Sonia Braga e Selton Mello. Lope chegou a ser considerado para representar a Espanha no Oscar deste ano, mas acabou preterido por También la Lluvia. Aqui no Brasil, não dá para entender porque sua estreia foi adiada tantas vezes e agora o filme foi desperdiçado entrando em circuito às vésperas do carnaval. É o tipo de lançamento destinado aos tapa-buracos da programação, ou seja, aos filmes ruins, coisa que Lope definitivamente não é.