sexta-feira, 18 de abril de 2008

Quebrando a Banca



Ben Campbell é o melhor aluno do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e acaba de ser aceito na faculdade de medicina de Harvard. O único empecilho para que ele realize seu sonho é o fato dele não ter dinheiro para custear a faculdade. Ben candidata-se a uma bolsa integral que escolhe apenas um aluno por ano e, independente de sua genialidade em matemática, sabe que será difícil obtê-la, já que não tem a experiência de vida requerida. O marasmo de sua vida é sacudido por Micky Rosa, um professor de matemática que o recruta para ingressar num grupo secreto de alunos brilhantes. O objetivo? Desvendar os segredos do blackjack e, munidos de identidades falsas, ir a Las Vegas arrancar verdadeiras fortunas dos cassinos. Segundo Micky, o blackjack é o único jogo de azar onde é possível vencer a banca através da lógica. Para isso, eles utilizam um sistema de contagem de cartas e, trabalhando em equipe, conseguem saber o momento exato de apostar alto. O título original, 21, faz referência não apenas ao nome popular do blackjack, mas também à idade que o protagonista acaba de completar.

OK. Vamos esquecer o fato de que dificilmente um grupo de jovens prodígios da matemática seria formado por uma garotada tão descolada e arrumadinha. Os gênios tecnológicos costumam se parecer mais com Bill Gates do que com o gatinho Jim Sturgess. Mas tudo bem. Um pouco de incentivo visual nunca fez mal ao cinema, muito pelo contrário. O que força a barra mesmo é o modo como os jovens, além de utilizar seus talentos estatísticos, ainda se transformam em excelentes atores, já que cada um deles desempenha personagens novos a cada noitada. Então o professor Rosa, além de saber reconhecer gênios, também tem um infalível olho clínico para talento dramático.

O filme tem um quê de Onze Homens e um Segredo e suas seqüências. É claro que, ao contrário da turma de George Clooney, a rapaziada de Quebrando a Banca não está exatamente cometendo um crime. Não existe nenhuma lei que diga que não se pode contar as cartas. Só que isso não faz lá muita diferença se os truculentos leões de chácara desconfiarem do sujeito e o arrastarem para uma sala nos porões do cassino. O mais incrível de tudo é que o filme – adaptação do livro Bringing Down the House, de Ben Mezrich – se diz baseado numa história real.

O britânico Jim Sturgess, revelado no musical Across the Universe, mostra que tem cacife para fazer carreira internacional. É bonito, carismático, bom ator e, como pudemos ver em seu filme anterior, canta muito bem. Uma pena que em Quebrando a Banca ele seja prejudicado por ter como par romântico a apática Kate Bosworth (de Superman – O Retorno). Em papéis coadjuvantes, o filme ganha o reforço dos sempre eficientes Kevin Spacey (um dos produtores do longa) como o professor picareta e Laurence Fishburne como o chefe de segurança disposto a tudo para manter o emprego.

Apesar de suas extrapolações, Quebrando a Banca é bom divertimento. Não é um filme originalíssimo, já que o espectador consegue adivinhar quase tudo que vai acontecer antes que seja mostrado na tela. Tampouco o currículo do diretor Robert Luketic é dos mais animadores: seus  filmes principais são Legalmente Loura e A Sogra. Mas até que o moço se saiu melhor nesse novo trabalho e conseguiu realizar um filme vibrante e bem interpretado. Ou seja: diversão ligeira para aqueles dias em que você quer ver algo interessante na telona, porém não está querendo gastar demais os neurônios.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Crônica de uma Fuga


As ditaduras impostas à América Latina deixaram feridas que tão cedo não cicatrizarão. Podemos dizer que tudo relacionado aos anos de chumbo simboliza para nós, sul-americanos, um trauma em muitos pontos comparável ao que o holocausto causou no povo judeu. Uma violência despropositada e revoltante que nunca conseguiremos esquecer. Mais um filme com alto teor político está disponível em DVD: Crônica de uma Fuga, baseado numa história real ocorrida em 1977 na Argentina.

Claudio Tamburrini, goleiro de um time da segunda divisão, é seqüestrado por agentes da ditadura militar e mantido em cativeiro numa velha mansão abandonada, onde funciona uma prisão clandestina. Ali, o apolítico Claudio é torturado e interrogado e não pode fazer nada para minimizar seu suplício, já que nunca teve nenhum envolvimento político. Mas logo ele descobre que sua captura foi mais do que um infeliz engano: um conhecido seu, militante de um grupo da luta armada, decidiu entregá-lo como isca falsa e, assim, ganhar tempo para que seus verdadeiros companheiros escapassem.

Os filmes que enfocam as mazelas de uma ditadura militar geralmente são focados no antagonismo entre os heróis da resistência e os agentes da repressão. Já Crônica de uma Fuga conta a história de uma pessoa comum que é presa por um capricho do destino. Claudio não quer ser durão: ele nada confessa simplesmente porque não tem o que dizer. Uma situação tão irônica quanto perversa. Filmes como esse são um tapa na cara dos apolíticos, por provarem que a truculência de um regime totalitário pode atingir qualquer um e não apenas aqueles com algum envolvimento ideológico - este argumento lembra bastante o excelente Pra Frente, Brasil, de Roberto Farias.

O filme é tenso e claustrofóbico. Mostra com realismo não apenas a tortura física, mas a degradação psicológica a que os prisioneiros são submetidos. Encarcerados como animais, privados de condições básicas de higiene e saúde, enfim, despojados de tudo que os tornaria seres humanos. É nesse cenário dantesco que acompanhamos a gradativa desesperança que toma conta de Claudio. A princípio otimista, por achar que é uma questão de tempo acreditarem na sua inocência, ele vai aos poucos entendendo que a verdade nem sempre prevalece. Mas o que não mata fortalece e a constatação de que está num beco sem saída obriga Claudio a deixar a covardia de lado para buscar um meio de sobreviver.

Um dos pontos mais interessantes é a abordagem de personagens: ainda há uma certa divisão entre os bons e os maus, mas sem satanizar ou endeusar em excesso nenhum dos lados. Um personagem fora dos limites da humanidade é pouco verdadeiro e o filme sabiamente evita esse tipo de maniqueísmo. Outro trunfo é contar com o ótimo Rodrigo de la Serna no papel de Claudio. Para quem não está ligando o nome à pessoa, trata-se do ator que interpretou Alberto Granado em Diários de Motocicleta - uma figura tão carismática que quase fez sombra ao Che Guevara de Gael García Bernal. Aqui, num tipo totalmente diferente do anterior, Rodrigo prova que é mais do que um sujeito simpático. É um ator de primeira linha.

Selecionado para a competição do Festival de Cannes 2006, Crônica de uma Fuga é um filme que pertence àquela classe das obras necessárias. Para que as pessoas nunca se esqueçam. Para que tempos como aqueles não voltem nunca mais.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Estômago


Estômago parte de um pressuposto ancestral, o de que na vida há os que devoram e os que são devorados. Raimundo Nonato é mais um nordestino morto de fome que desembarca sem eira nem beira em Sampa. Quase por acaso, vai parar numa cozinha de boteco. Explorado, vivendo em regime de semi-escravidão, descobre que tem a "mão boa" para cozinhar. Logo consegue uma oportunidade melhor e começa a ascender lentamente. Raimundo também se apaixona por Íria, uma prostituta de apetite voraz, e os dois estabelecem uma espécie de permuta: ele lhe fornece comida e ela, sexo. Mas existe no filme uma trama paralela, que mostra nosso protagonista numa penitenciária. Mais calejado, ele já sabe que seu talento culinário lhe dá um poder incrível sobre os demais. Com falsa humildade e agarrando os poderosos do submundo pelo estômago, também na cadeia ele começa sua escalada ao poder. O que o pacato Nonato teria feito para ser preso? Isso o espectador só descobrirá ao final dessa intrigante fábula amoral.

O filme teve sua estréia mundial no Festival do Rio 2007, de onde saiu vencedor de quatro prêmios: Melhor Filme pelo júri popular, Melhor Diretor, Melhor Ator para João Miguel e o Prêmio Especial do Júri. Foi, ainda, o melhor filme no Festival de Punta Del Este, onde João Miguel também recebeu uma menção especial. Uma trajetória vitoriosa – e mais do que merecida – para esse primeiro longa de ficção do curta-metragista, publicitário e artista plástico Marcos Jorge. O filme é inspirado no conto "Presos pelo Estômago", de Lusa Silvestre, que assina, junto com Marcos Jorge, o argumento do filme.

É impossível assistir a Estômago e não se lembrar de O Cheiro do Ralo, não apenas pela originalidade da trama mas também pelo dinamismo e ousadia narrativa. A história mantém sempre um pé no humor e outro no drama social, com doses homeopáticas de bizarrice. Com um roteiro enxuto, vibrante, cheio de diálogos ligeiros e um ritmo impecável, o filme arrebata o espectador com a mesma rapidez que os pratos de Raimundo Nonato fazem sua fama. A trajetória de Nonato e a falta de julgamento moral que a acompanha é outro ponto de destaque. A princípio um coitadinho, ele logo usa sua esperteza e raciocínio rápido – ainda que tortuoso – para desenvolver seus eficazes métodos de sobrevivência. Isso é exemplificado com muito bom humor na cena em que ele reproduz os adjetivos nada sutis de Íria sobre suas coxinhas minutos após ter ouvido as palavras dela.

Interpretado com perfeição e carisma infinito pelo baiano João Miguel – um grande ícone do cinema nacional no momento – o personagem representa uma espécie de Macunaíma moderno, o anti-herói, o bom selvagem que não será submisso para sempre. Dividindo a cena com ele, a curitibana Fabiula Nascimento, em sua estréia no cinema, representa uma mulher meio felliniana, voraz, assustadora em seus apetites. Complementam o elenco afinadíssimo o sempre eficiente Babu Santana como o poderoso chefão do xadrez e as figuraças Carlo Briani e Zeca Cenovicz como os patrões que disputam o talento gastronômico de Raimundo Nonato. E Paulo Miklos, o eterno "invasor", também fez uma divertida participação como o temido Etecétera.

Estômago é um banquete de humores, sabores, tipos. Uma história engraçada, cativante e com um desfecho surpreendente. Surpreendente e plausível, adjetivos que raramente andam juntos. Desde já, um dos melhores filmes do ano.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Batismo de Sangue


Já está disponível em DVD um filme simplesmente obrigatório: Batismo de Sangue, produção baseada no livro de memórias homônimo de Frei Betto - o livro, que já se encontra na 18ª edição, ganhou o Prêmio Jabuti em 1985.

Em São Paulo, no final dos anos 60, um grupo de frades dominicanos passa a apoiar a luta contra a ditadura. Movidos por seus ideais pacifistas, os freis Betto, Fernando, Ivo e Tito logo se tornam visados pela polícia por conta de seus contatos com o guerrilheiro Carlos Marighella, líder da ALN (Ação Libertadora Nacional). Uma vez presos, Tito é o que sofre as mais terríveis humilhações e torturas. Algum tempo depois, contra sua vontade, ele é mandado para o exílio juntamente com outros presos negociados em troca do embaixador suíço Giovani Bucher. Mas seu calvário não termina com a libertação, já que mesmo longe do Brasil Tito tem pesadelos constantes com seus carrascos. No auge do desespero e desorientação, comete suicídio.

Frei Tito de Alencar Lima tornou-se um símbolo de resistência e luta pelos Direitos Humanos quando seu impressionante relato dos porões da ditadura foi contrabandeado para fora da cadeia e posteriormente publicado na revista Look. Há muitos anos que o cineasta Helvécio Ratton - diretor de O Menino Maluquinho (1995) e do premiado Uma Onda no Ar (2002) - tem interesse em contar essa história: "Esta tragédia sempre me impressionou. Como um jovem de apenas 28 anos de idade pôde ser tão afetado pela violência a ponto de não conseguir recompor a própria vida mesmo depois de se ver livre de seus algozes", comentou o cineasta.

A desconstrução por que passa frei Tito é tão comovente justamente por ser ele um personagem tão otimista e sensível. Há uma ingenuidade romântica em sua obstinação em defender os oprimidos que contrasta de modo brutal com o rapaz arrasado psicologicamente após três dias de tortura ininterrupta. O resultado é que vemos diante de nós a destruição não apenas de um ideal mas também de um ser humano. O filme impressiona pela crueza das cenas de tortura, embora a selvageria das imagens nunca seja gratuita e sim uma necessidade de ilustrar o terror que aquelas pessoas vivenciaram.

O elenco é muito bem escolhido, com destaque especial para Caio Blat como Tito e Cássio Gabus Mendes como Fleury. Blat, sempre relegado a segundo plano na grande mídia, apresenta uma atuação impecável. Sua composição de Tito é sensível e delicada, o que só torna mais chocante sua descida ao inferno. Já a performance de Gabus Mendes parece anunciar uma mudança de rumo em sua carreira. Sempre estereotipado como bom moço, o ator se transforma radicalmente para personificar a verdadeira encarnação do mal. Também não se pode deixar de destacar o talento e carisma de Léo Quintão e Odilon Esteves (freis Fernando e Ivo, respectivamente), estreantes na sétima arte. Um belo batismo para ambos. E para quem não está ligando o nome à pessoa, Odilon pôde ser visto há pouco na TV como a Cíntia da minissérie Queridos Amigos.

Batismo de Sangue joga luz sobre mais um vergonhoso capítulo da história recente do país. Assim como ocorre em outras produções recentes, como Zuzu Angel, o longa evidencia o grau de histeria a que chegou a mão pesada do totalitarismo e faz parte de um rol de filmes que deveriam ser vistos hoje e sempre para lembrar aos desavisados que ninguém nem nada está imune à barbárie quando se vive num regime de terror. A reação desproporcional que sofriam os dissidentes, mesmo os que praticavam uma resistência pacífica como foi o caso dos dominicanos, é simplesmente grotesca. E o temível delegado Fleury não foi um caso isolado. Pelo contrário, não passa de um símbolo dos requintes de sadismo a que chegavam os agentes da repressão - abomináveis executores a serviço de uma sociedade que absolvia e legitimava suas ações.

sábado, 12 de abril de 2008

Um Beijo Roubado


Neste primeiro filme americano do cineasta Wong Kar Wai – dos cultuados Amor à Flor da Pele e 2046 –, a primeira coisa que chama atenção na ficha técnica é o nome da cantora Norah Jones à frente de um elenco de peso: Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz, David Strathairn. OK. A atuação de Norah não chega a ser o desastre que muitos vêm alardeando, mas é fato que ela não está no mesmo nível de seus colegas de set. O que fica especialmente evidente nas seqüências que divide com a brilhante Natalie Portman. Fica o mistério. Por que o diretor teria apostado nela para ser o fio condutor de seu filme?

Elizabeth, personagem de Norah, conhece o sensível Jeremy em meio a uma grande desilusão: ele é o dono do bar onde ela vai repetidamente procurar o namorado que a trocou por outra. O tempo passa e ela continua a freqüentar o local, motivada pelas longas conversas com o novo amigo e a torta de blueberry que só ela parece apreciar. Mas sua dor ainda é profunda e, após uma noite de bebedeira, ela nunca mais retorna. Jeremy fica sabendo através de postais que Elizabeth partiu de Nova Iorque sem destino certo, numa tentativa de encontrar respostas que acalmem seu coração.

Elizabeth, em suas andanças, testemunha o que o amor pode causar nas pessoas. Casos prosaicos, como o policial que se afunda em uísque todas as noites para esquecer que ainda ama a ex-mulher e a jogadora de pôquer profissional que assume todos os riscos no jogo e nenhum quando se trata de resolver suas mágoas pendentes.

Um Beijo Roubado é bastante diferente dos trabalhos anteriores de Kar Wai. E eu gostei tanto do filme justamente pelo motivo que está levando os fãs mais radicais do cineasta a criticá-lo: por ele apresentar uma proposta completamente diversa do que se esperava. No lugar do clima pesado de melodrama oriental, pleno de cores saturadas e ambientes sufocantes, temos uma atmosfera mais leve e cenários mais "normais". O que não quer dizer que este seja um filme menos denso sentimentalmente. Pelo contrário, a estética mais naturalista, com um quê de road movie e poeira que lembra o estilo Wim Wenders, faz com que as angústias dos personagens se sobreponham ao fetiche estético.

O porquê de Kar Wai ter escolhido Norah Jones como protagonista continua um mistério insolúvel, mas podemos dizer que o resto do elenco compensa qualquer deficiência da protagonista. David Strathairn e Rachel Weisz estão arrasadores em cena como o ex-casal que carrega um caminhão de ressentimentos contra a outra parte. Natalie Portman, cada vez mais madura artisticamente, incorpora um personagem bem diferente que tudo que ela costuma fazer e reina absoluta em todas as suas cenas. E Jude Law parece ter finalmente se lembrado de que, além de um homem belíssimo, também é bom ator. Vamos torcer para que ele não torne a se esquecer disso em seus próximos filmes.

A viagem de Elizabeth para longe da cidade que lhe causou tanta mágoa acaba sendo uma fuga para longe de sua melhor possibilidade de recomeço também. E ela acaba descobrindo que não é com a distância geográfica se que remenda um coração partido. Talvez porque se depare com pessoas mais destruídas sentimentalmente do que ela própria. Ou pode ser que as melhores coisas – assim como a tal torta de blueberry do título original – estejam o tempo todo debaixo do nosso nariz, mas precisemos do distanciamento para enxergá-las.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Não Sobre o Amor


Amantes do teatro, comemorai! Está em cartaz no CCBB do Rio um novo espetáculo da Sutil Companhia de Teatro. Fundada há 15 anos pelo diretor Felipe Hirsch e pelo ator Guilherme Weber (visto recentemente na telinha como o Benny de Queridos Amigos), a companhia curitibana tem no currículo maravilhas como A Vida é Cheia de Som e Fúria (2000) e Avenida Dropsie (2005) e coleciona em torno de uma centena de prêmios teatrais. Não é sempre que temos a oportunidade de ver um trabalho deles aqui no Rio.

Não Sobre o Amor é inspirada em Letters not About Love, livro que reúne a correspondência trocada entre os escritores russos Victor Shklovsky e Elsa Triolet – representada no espetáculo sob o codinome Alya. Também são utilizados trechos da correspondência entre a também escritora Lilia Brik (irmã de Elsa) e o poeta Vladimir Maiakovski, seu amante. O título se refere a uma proibição de Elsa: Victor, que está exilado na Alemanha, pode lhe escrever, desde que não fale de amor.

Entre cartas verídicas e fictícias, é construída a bela dramaturgia desta peça de câmara. O espaço cênico ajuda a criar a atmosfera de cumplicidade e intimidade com a platéia. Ao entrar no pequeno Teatro III do CCBB, o público se depara com um cenário surrealista e levemente claustrofóbico: uma representação de um quarto com os móveis dispostos pelas paredes: uma cama com mesinha de cabeceira, uma máquina de escrever sobre uma escrivaninha, uma porta, um aquecedor enferrujado. Tudo meio franciscano, um quarto que mais parece uma cela de prisão. Sentado num canto, está Leonardo Medeiros. Quieto, cabisbaixo, olhar parado. Toca o terceiro sinal e a porta se fecha, encerrando também o espectador no claustro. Sem uma palavra, ele se levanta e se deita na cama presa à parede. Uma prateleira quase invisível sob seu corpo cria a ilusão perfeita de que o ator está suspenso no ar, como num sonho. Ou pesadelo.

Ao longo da peça, o personagem utiliza seu amor como veículo para discorrer sobre todas as coisas que o fazem sofrer: o exílio, a solidão e sua dificuldade de adaptação no país alienígena. Entre lembranças reais e acontecimentos que tomam forma apenas em sua mente, Victor não consegue se livrar de sua obsessão por Alya. Ele não pode falar sobre amor e, ainda assim, tudo que diz parece tão impregnado deste sentimento que a interdição soa totalmente inútil. Confesso que não sabia nada sobre Shklovsky antes de assistir ao espetáculo. Descobri que o escritor, também teórico e crítico literário, criou em sua literatura o conceito de desfamiliarização, técnica similar ao estranhamento brechtniano, que consiste em retirar um elemento de determinado contexto e fazer com que ele seja percebido justamente a partir de sua ausência.

Elsa – ou melhor, Alya – aparece como uma representação do não-ter. Mais do que um amor não correspondido, ela representa a dor do irrealizável. Enquanto Victor se mostra em cena pleno de fragilidade, ela aparece sempre fria, distanciada e até mesmo desdenhosa de todo o sofrimento que causa. O texto – cujas passagens mais significativas são sublinhadas em projeções na parede – é de uma poesia e beleza cruel e nos faz pensar: será que um grande amor só é grande se tivermos que amargar sua não-correspondência? Como diz o personagem "É fácil ser cruel. Basta não amar". Talvez uma idéia complementar a esta seja "É fácil amar. Basta ser rejeitado".

A trilha sonora que permeia todo o espetáculo é nostálgica e triste, dando uma noção exata não apenas da melancolia do exílio, mas da alma russa em geral. O já citado cenário de Daniela Thomas, colaboradora constante nos trabalhos de Hirsch, é fascinante justamente por sua criatividade vir do despojamento e da sintonia perfeita com os efeitos de iluminação. Complementando, as imagens projetadas se revelam fundamentais para que o espectador tenha uma dimensão do quanto a lembrança de Alya era constante na mente de Victor.

Leonardo Medeiros, que já trabalhou com a companhia no grandioso Avenida Dropsie, carrega a grande carga dramática da peça, enquanto cabe à expressiva Arieta Corrêa personificar a mulher enigmática e inacessível – quase um fantasma. Não é exagero nenhum dizer que Leonardo é um dos melhores atores da última década – se alguém tiver dúvidas quanto a isso, basta dar uma olhada em Cabra-Cega ou Não por Acaso – e isso fica ainda mais claro quando temos a oportunidade de vê-lo ao vivo. Sua interpretação é minimalista e, ao mesmo tempo, tão cheia de humanidade que traz esse personagem para muito próximo de cada um de nós. Seus questionamentos, dores e abandono se universalizam e nos remetem às nossas próprias carências. Sobre o amor. Ou não sobre ele. Tanto faz. No final, acaba sendo tudo uma coisa só.

Não Sobre o Amor. Direção de Felipe Hirsch. Com Leonardo Medeiros e Arieta Corrêa. CCBB – Teatro III (quarta a sexta e domingo, às 19h, sábado, às 18h e 20h). 90 minutos. Ingressos a R$ 10,00. Até 4 de maio.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Traduttore, Traditore

O Retorno "de" Jedi: uma letrinha que muda todo o sentido de um título

Tradutor, traidor. A máxima italiana define bem o calvário que é traduzir uma obra de um idioma para outro. Por vezes, é preciso recriar toda uma imagem, já que expressões consagradas numa língua resultam incompreensíveis se vertidas ao pé da letra para outra. E com o cinema não é diferente: alguns títulos de filmes precisam ser repensados para se adequarem a seu novo público-alvo. Existem os intraduzíveis, como Pulp Fiction. Como traduzir de forma eficiente algo como "literatura policialesca de encadernação vagabunda"? Aliás, outro exemplo que Tarantino nos dá é Kill Bill. A sonoridade só funciona em inglês mesmo – existe, inclusive, uma piada que diz que em Portugal o filme se chama "Matem o Bill". Maldade, pura maldade.

Sofia Coppola fez um filme que enfocava bem as dificuldades de transposição de culturas, no caso entre a japonesa e a americana. Mas o próprio filme de Sofia, que originalmente se chamava Lost in Translation (perdido na tradução) foi vítima do conflito que procurava retratar e aqui virou... Encontros e Desencontros.

Mas não é de hoje que grandes filmes são prejudicados por títulos estranhos. Muita gente nem ficou sabendo que o filme de Pedro Almodóvar, Tudo Sobre Minha Mãe era uma homenagem ao clássico de 1950, All About Eve (Tudo sobre Eva). A referência não era clara simplesmente porque aqui no Brasil All About Eve sempre se chamou A Malvada. Além de cometer a heresia de deixar óbvio o caráter de Eva antes mesmo de vermos o filme, é um modo muito simplório de definir a ardilosa alpinista social. "Malvada" soa como bruxa de filme da Disney.

Muitas vezes, basta uma única letrinha para desvirtuar todo o sentido. Uma tradução que entrará para a História como o erro mais simples e, ao mesmo tempo, mais crasso da sétima arte é O Retorno de Jedi. Como assim, "de"? Será possível que alguém tenha pensado que Jedi é um nome próprio, ao invés de um qualificativo? E olha que nem era preciso assistir ao filme para entender o espírito da coisa: o título original, The Return of the Jedi, deixa bem claro que trata-se de O Retorno do (cavaleiro) Jedi.

O complicado é que a maioria das traduções estapafúrdias que grassam por aí são motivadas mais por razões mercadológicas do que lingüísticas. Mesmo porque os títulos inadequados não costumam ser obra e graça dos tradutores e sim de executivos que provavelmente nem gostam de cinema. Tal conclusão, embora leviana, é a única a que se pode chegar quando analisamos alguns títulos, digamos, criativos que certos filmes recebem em terras tupiniquins. Tem o caso dos títulos que tentam pegar carona em produções anteriores. Nos anos oitenta, o sucesso estrondoso do filme de vampiros A Hora do Espanto (Fright Night, algo como noite de pavor), desencadeou o batismo de inúmeros filmes de terror com a palavra "hora" em seu título: A Hora do Pesadelo (na verdade, A Nightmare on Elm Street ou pesadelo na rua Elm), A Hora da Zona Morta (simplesmente The Dead Zone – a zona morta), e o mais gritante de todos: A Hora do Lobisomem, que se chamava Silver Bullet (bala de prata). Não deixa de ser irônico ressaltar que nem o filme que desencadeou tal frisson tinha "hora" em seu título original.

Outra categoria curiosa é a dos filmes que continuam com seu título original e ganham um subtítulo alienígena: Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento, Kinsey - Vamos Falar de Sexo, Hitch - O Conselheiro Amoroso, Sicko – SOS Saúde e o já citado Pulp Fiction - Tempo de Violência são apenas alguns poucos exemplos. Ou pior, quando o original em inglês é sonoro demais para ser desprezado e o subtítulo entra em cena tão-somente como uma tradução deste, caso de Closer – Perto Demais e Sin City – A Cidade do Pecado.

Para encerrar, vamos para dois exemplos recentes - e inexplicáveis, já que a tradução literal caberia perfeitamente. Um Amor de Tesouro, que não é lá essas coisas, talvez até soasse mais simpático com seu título original: Fool’s Gold (Ouro de Tolo). A Era da Inocência, que não tem nada a ver com o filme de Martin Scorsese, foi batizado por seu diretor com um título contrário ao que recebeu aqui: A Idade das Trevas (L'Âge des Ténèbres). Vai entender...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

2 Dias em Paris


Existem filmes que chegam devagarinho no circuito, sem fazer estardalhaço, e vão ficando. Geralmente com marketing zero, cativam seu público no boca-a-boca mesmo. Um exemplo recente é A Culpa é do Fidel, que estreou em dezembro do ano passado e continua se segurando no circuito até hoje. E o que dizer do fenômeno O Corte, que ainda continuava em salas esparsas quando chegou ao DVD? Um candidato que tem tudo para repetir essa trajetória cult é 2 Dias em Paris.

O americano Jack e a francesa Marion estão juntos há dois anos e se consideram um casal estável. Mas seu relacionamento será posto à prova quando, na volta de uma viagem à Itália, resolvem passar dois dias em Paris antes de retornar a Nova Iorque. É quando Jack é confrontado com um lado desconhecido de Marion: além da família assustadora e de hábitos bizarros e do fato dele não entender quase nada em francês, ainda há o duro teste de sobreviver ao encontro com incontáveis ex-namorados e um passado que até então ele ignorava.

Essa incursão da atriz Julie Delpy atrás das câmeras certamente remeterá o espectador a Cèline, sua personagem em Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol – vale lembrar que a atriz colaborou no roteiro deste último, assim como seu partner Ethan Hawke. Não faço essas comparações como uma crítica, muito pelo contrário. O longa de Julie tem identidade própria e, se considerarmos apenas o quesito humor, até supera Antes do Pôr-do-Sol. Mas é impossível não reconhecer o quanto o longa influenciou esse seu belo trabalho como cineasta, até mesmo pelo fato dela escolher, mais uma vez, uma história envolvendo um americano e uma francesa. E as diferenças entre eles, que aparentemente passavam despercebidas quando ambos se encontravam em solo americano, ganham uma nova dimensão na Cidade-Luz. Seria uma crítica velada da roteirista-diretora à baixa tolerância americana com os costumes alheios?

De qualquer modo, Julie toma o cuidado de não transparecer o irritante ar superior da maioria dos franceses e faz essas críticas de modo realmente engraçado e, por vezes, até comovente. E também coloca em xeque vários hábitos pouco lisonjeiros dos franceses, como o desleixo com higiene e o temperamento exageradamente passional. No final das contas, acaba sendo mais uma questão de relacionamento íntimo do que propriamente choque entre culturas. Adam Goldberg, sua cara-metade na telona, faz de seu Jack uma figura simpática, com a qual nos identificamos. Talvez por não ter uma imagem excessivamente ianque, ou seja, também fugir do estereótipo esperado. Memorável a hilária seqüência em que ele sacaneia turistas americanos que procuravam o Museu do Louvre com a justificativa "essas pessoas votam no Partido Republicano!". Outro momento que merece destaque é a curta porém hilária participação de Daniel Brühl, assim como as discussões em família e o motivo de pai de Marion odiar Jim Morrison.

Uma curiosidade: Julie Delpy – que já dirigiu anteriormente dois curtas e um longa, todos inéditos por aqui – escalou os próprios pais como intérpretes dos pais de sua personagem. Vamos ficar de olho nos próximos passos dessa moça e torcer para que a qualidade demonstrada em 2 Dias em Paris se repita em novas produções.

sábado, 5 de abril de 2008

O Estranho Mundo de Tim Burton

Existem inúmeros grandes cineastas. Eu mesma tenho uma lista extensa: Pedro Almodóvar, Woody Allen, David Lynch, Billy Wilder, Roman Polanski... Todos grandes ícones, embora nenhum desperte mim a adoração irrestrita que sinto por Tim Burton. Obviamente existem realizadores mais importantes, mas cinema também é identificação e, nesse quesito, o californiano Timothy William Burton não tem concorrentes.

Nascido em 1958, Tim Burton gostava de desenhar desde criança e sempre foi fascinado pelos filmes clássicos de horror. Estudou numa escola de artes, graças a uma bolsa oferecida pela Disney, iniciando lá sua carreira como aprendiz de animação. Após participar da criação de alguns filmes (mas sem ter seu nome nos créditos), teve sua primeira oportunidade no curta Vincent. Nesse desenho de seis minutos em P&B, Burton presta uma homenagem a seu ídolo Vincent Price (que atua como narrador), além de já demonstrar tendência pela estética gótica que o tornaria famoso. Apesar do relativo sucesso, o jovem talento logo entendeu que o padrão Disney estava longe do tipo de filme que ele pretendia realizar.

Seu primeiro sucesso veio alguns anos depois, com a comédia de humor negro Os Fantasmas se Divertem. Foi, então, escolhido para dirigir a aguardada versão para o cinema de Batman. O resultado causou controvérsias e esteve longe de ser uma unanimidade, mas não se pode negar que o cineasta realizou um longa estiloso e marcante, assim como sua seqüência - não se pode dizer o mesmo dos filmes seguintes realizados pelo burocrático Joel Schumacher.

Em Edward Mãos de Tesoura, Tim Burton iniciou a parceria com um ator que também demonstra ter uma queda por produções pouco usuais: Johnny Depp. Funcionou tão bem que eles fizeram seis filmes juntos até agora: Ed Wood - que Burton considera seu projeto mais pessoa e eu considero o melhor filme da dupla - A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, A Fantástica Fábrica de Chocolate, A Noiva-Cadáver e Sweeney Todd. Durante as filmagens do remake de O Planeta dos Macacos, Burton iniciou outra bem-sucedida parceria, desta vez amorosa, com a atriz Helena Bonham Carter. Eles namoraram, casaram, tiveram um filho e seguem trabalhando juntos. Olhando o casal, percebe-se que foram feitos um para o outro. Helena, além de ótima atriz, é uma figura tão exótica quanto as criações de seu marido.

Alguns aspectos são constantes na obra de Tim Burton e já viraram uma assinatura do seu estilo: estética dark, direção de arte arrojada e um certo humor negro mesclado a temas infantis como Natal ou Halloween. O Estranho Mundo de Jack, por exemplo, faz uma bisonha mistura de ambos. OK, Burton não é creditado como diretor e sim como roteirista e produtor… Mas alguém realmente considera que esse filme foi dirigido por Henry Selick?

O trabalho mais recente de Burton, Sweeney Todd, passou pelas telas brasileiras neste começo de ano. Embora até então desconhecida por aqui, a lenda sobre um certo barbeiro que mataria seus clientes e os transformaria em recheio de tortas remonta ao final do século XIV, na forma de uma balada francesa que as mães usavam para amedrontar filhos desobedientes – uma versão medieval do bicho-papão. Só em 1846 Sweeney Todd aparece por escrito, como personagem de um folhetim chamado The String of Pearls e logo o sangrento personagem ganha os palcos (e posteriormente também as telas). Em 1973, Stephen Sondheim assiste, em Londres, à versão teatral mais famosa até então e imagina transformá-la num musical, ambição que realiza seis anos depois. E agora o barbeiro demoníaco de Fleet Street ganha definitivamente o mundo pelas ousadas mãos de Tim Burton.

Em sua versão para a telona - calcada no musical de Sondheim -, o assassino ganha ares de herói trágico. Assim como o Conde de Monte Cristo, Sweeney Todd era uma homem pacato até ter sua vida feliz destruída por uma condenação injusta. O motivo? O desejo de um juiz corrupto e poderoso por sua bela esposa. A história começa quando Todd, já transformado pelo desejo de vingança, retorna a Londres e trava amizade com a decadente Sra. Lovett que, esperançosa em conquistá-lo, se torna sua cúmplice. A trama de Sweeney Todd casa tão bem com o estilo de Tim Burton que chega a ser difícil conceber que não seja uma história original. Que o filme seria primoroso em termos visuais ninguém tinha dúvidas. Mas parecia estranho pensar na junção de tão tenebrosa trama com o gênero musical, geralmente associado à leveza e beleza. Afinal de contas, trata-se de um musical regado a litros e litros de sangue. Sweeney Todd é um filme sombrio, sinistro, mergulhado em sangue e humor negro, mas, ao mesmo tempo, com ares operísticos e um exagero estético que torna toda aquela carnificina meio falsa (no bom sentido). O resultado é uma jóia barroca que só poderia mesmo ser dirigida por Burton e protagonizada por Johnny Depp. Muito bem coadjuvado, é claro, pela ótima Helena Bonham Carter (não por acaso a senhora Burton). Ou seja: todo o projeto está entre amigos e não poderia estar em melhores mãos. E não nos esqueçamos de que o elenco ainda dá conta de cantar, e muito bem. Destaque também para as criativas letras, em especial a que fala sobre a qualidade (ou falta dela) das tortas da Sra. Lovett.

Sweeney Todd foi indicado a três Oscars: ator, figurino e direção de arte. Ganhou apenas o último e a Academia perdeu mais uma ótima oportunidade de fazer justiça ao incrível Johnny Depp, que, além de compor seu personagem com a genialidade habitual, ainda se revelou um intérprete interessantíssimo também na parte musical. Também foi uma grande injustiça o longa ter ficado de fora das categorias melhor filme e direção, ainda mais considerando a inclusão de um filme mediano como Conduta de Risco. E Helena Bonham Carter bem que poderia ter ficado com a vaga da Cate Blanchett, indicada por um repeteco do mesmo papel pelo qual já havia sido indicada em 1998 (Elizabeth). Mais um capítulo da longa história da má-vontade da Academia com Tim Burton.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Encantada


Uma novidade interessante nas locadoras é Encantada. O material publicitário do filme nos dá uma idéia totalmente equivocada do que ele realmente é. Em vez de mais um filme infanto-juvenil no estilo O Diário da Princesa, o esperto roteiro faz humor inteligente ao utilizar num novo contexto a doçura exagerada dos contos de fadas – a exemplo do também bom Deu a Louca na Chapeuzinho. O filme conta a história da princesa Giselle, que vive num mundo mágico, musical e perfeito. Mas no dia do seu casamento, a madrasta de seu amado príncipe Edward a empurra num poço amaldiçoado. Giselle vai parar nas caóticas ruas de Manhattan, sem compreender onde está nem quem são aquelas rudes e apressadas pessoas. É quando Robert, um advogado pragmático, cruza seu caminho e resolve ajudá-la, criando um divertido contraste entre um personagem de contos de fadas e um advogado dos dias de hoje.

Giselle, como diz Robert numa cena, parece saída de um cartão da Hallmark. Ela canta, rodopia, sorri, conversa com animaizinhos e fala sem parar no príncipe com quem deve se casar e ser feliz para sempre. Imaginem uma figura dessas no meio do Central Park. E imaginem o Príncipe Edward, um cara que chega a caráter e mete uma espada no teto de um ônibus em plena Broadway, mas desconhece o que é uma televisão. Pois é. Encantada também brinca com a estrutura desse tipo de filme. Um bom exemplo disso é quando Robert dá de cara com o príncipe Edward e se desespera "Ah, não, você também canta". Muito legal também o detalhe dos personagens serem desenhos no mundo encantado e pessoas quando passam para o lado de cá.

O elenco é carismático e bem escalado, com boa química no trio formado por Amy Adams, Patrick Dempsey e James Marsden. E não se pode deixar de ressaltar a incrível semelhança entre Timothy Spall e seu equivalente em desenho – o problema é que é difícil olhar para o ator e não lembrar do Rabicho da série Harry Potter. O filme exagera um pouco no final e algumas coisas parecem acontecer tão-somente para servir aos propósitos do roteiro, mas esses pequenos escorregões não chegam a comprometer o bom desenvolvimento da história. Também não deixa de ser surpreendente (e saudável) ver a própria Disney bancando um filme que tira um sarro do tipo de produção pela qual o estúdio ficou famoso. Vale conferir o longa, é uma grata surpresa.