terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Novos Tempos?


Neste 20 de janeiro em que os cariocas comemoram o feriado de São Sebastião com chuva, Barack Obama faz história ao ser empossado como o primeiro negro no cargo mais importante do mundo: a presidência dos Estados Unidos. Eleito com um discurso onde a palavra-chave era mudança, vamos torcer para que a diferença de Obama em relação a seus antecessores vá além da cor de sua pele e signifique mudanças mais profundas. Porque, queiramos ou não, tudo que acontece por lá se reflete no mundo inteiro. Que diminua a sede imperialista, a xenofobia e o preconceito sob qualquer forma. Que se encerre de vez esse capítulo da malsucedida intervenção no Iraque. E, sobretudo, que os americanos comecem a olhar para trás e aprender com os erros do passado. Isso seria benéfico para todos.

Boa sorte, Obama!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button


O cineasta David Fincher escreveu seu nome na sétima arte através de dois projetos bastante originais e polêmicos, Se7en e O Clube da Luta. Também dirigiu Alien 3, O Quarto do Pânico e, mais recentemente, Zodíaco. Se fosse preciso adjetivar toda a filmografia de Fincher com uma única palavra, certamente esta palavra seria “violenta”. O que só torna ainda mais admirável o fato dele realizar com extrema competência um filme totalmente diferente de tudo que havia feito anteriormente: o belo, delicado e apaixonante O Curioso Caso de Benjamin Button.

O filme, como diz o título, conta a história de um homem marcado por uma estranha anomalia: Benjamin Button envelhece ao contrário. Embora sua idade e maturidade avancem, seu corpo rejuvenesce ao invés de envelhecer. Benjamin nasce com todas as características de uma pessoa idosa: rugas na pele, artrite nos ossos, etc. Seu pai o abandona, assustado com sua aparência repulsiva e desorientado pela morte da esposa. Benjamin é criado por Queenie e Tizzy, um casal que dirige um lar para idosos. A princípio, eles acreditam que o esquisito bebê terá pouco tempo de vida. Só depois de alguns anos, começam a perceber que ele está crescendo e ficando menos frágil.

Uma criança com a aparência de um homem idoso, posteriormente um adolescente com aparência de meia-idade; Benjamin só encontra o equilíbrio e a realização do amor na metade de sua vida. Mas o tempo não para e ele sabe que aquele momento perfeito tem os dias contados, pois sua amada Daisy envelhecerá normalmente enquanto ele continuará a rejuvenescer. Como manter esse amor, se a diferença entre eles se aprofundará um pouco mais a cada dia?

O roteiro, baseado no conto homônimo de F. Scott Fitzgerald, foi escrito por Eric Roth, que venceu o Oscar em 1994 por Forrest Gump e foi indicado duas outras vezes (em 2000 por O Informante e 2006 por Munique). Embora tenha quase três horas de duração, em nenhum momento o longa é cansativo. A narrativa é tão redonda e bem estruturada que o espectador acompanha com atenção cada uma das fases da vida desse homem extraordinário e das pessoas que ele conhece ao longo do caminho, numa odisséia que se inicia em 1918 e atravessa o século XX. Outro destaque é o bom humor com que a trama é entremeada. Reparem na historinha bizarra do cara que foi atingido por raios sete vezes.

A parte técnica do filme é igualmente brilhante, com destaque para a maquiagem e os efeitos visuais que fazem Brad Pitt e Cate Blanchett parecer mais jovens ou mais velhos do que realmente são, conforme a fase em que se encontram seus personagens. Também a fotografia e direção de arte caprichadíssimas proporcionam momentos de puro deleite visual, cenas que dizem tudo através da poesia das imagens.


Mas nada disso faria de Benjamin Button o grande filme que é se não fosse o trabalho apaixonado de Brad Pitt e Cate Blanchett como Benjamin e Daisy. Talvez o nível de sensibilidade e minimalismo da interpretação de Pitt nem possa ser devidamente apreciado por conta do virtuosismo da caracterização, que chama para si muito da atenção do espectador. Mas trata-se da melhor interpretação de toda a carreira dele.

O Curioso Caso de Benjamin Button é a intrigante jornada de um homem impossibilitado de criar raízes. Um homem condenado a uma existência que sempre o distanciará de todas as pessoas que amar. Mas o filme não tem nenhum tom de amargura. Benjamin sabe que não vai viver feliz para sempre, mas será feliz enquanto for possível. E sua história emociona porque envolve o espectador. Não há um grande momento dramático, uma revelação bombástica, uma cena chocante, uma grande virada. O filme é um somatório de delicadeza, lirismo e beleza. É luar, chuva, beijo na boca, sorriso. É um gato se espreguiçando ao sol. É cinema com “C” maiúsculo. Que coisa boa e revigorante já no comecinho de 2009 assistir a um filme desse nível. Desde já, um dos melhores do ano!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

As Testemunhas


Ambientado na Paris de 1984, As Testemunhas faz um painel da onda de histeria e preconceito que varreu o mundo nos anos 80 com a descoberta da AIDS. Adrien é um médico homossexual de meia-idade com uma queda por parceiros bem mais jovens. Uma noite, passeando por um local de “pegação”, conhece Manu. Embora o rapaz deixe claro desde o princípio que não tem atração por Adrien, os dois acabam se tornando amigos – o que não impede que Adrien fique cada vez mais apaixonado por ele. Um dia ambos visitam um casal de amigos de Adrien: Sarah, escritora de livros infantis com pouquíssima paciência para o filho recém-nascido, e Mehdi, um policial durão. Mehdi e Manu logo iniciam um romance proibido, que sofre um baque quando Manu começa a apresentar sintomas de uma moléstia desconhecida.

As Testemunhas é um filme estranho. Seu lado mais interessante é como o retrato de uma época, a perda da inocência das pessoas que pensavam ser livres e, de repente, se viram aterrorizadas por sua própria e duramente conseguida liberdade sexual. Por outro lado, o longa tem um tom de denúncia e alerta que não faz muito sentido hoje em dia, quando as informações sobre o vírus da AIDS e sua prevenção são fartas e abundantes.

Também não ajuda o fato de todos os personagens serem egoístas e sem carisma, cada qual encarcerado no seu mundinho particular sem dar nenhuma atenção às necessidades de mais ninguém. Estamos falando de uma mãe que deixa o filho recém-nascido se esgoelando no berço e bota um walkman para não escutar seu choro; de um sedutor que se aproveita do afeto de um homem com quem não tem a mínima intenção de se envolver; de um cara de meia-idade que vive atrás de rapazinhos recém-saídos da adolescência; de um machão cheio de pose que arruma um romance secreto justo com o objeto de afeto de um amigo.

Somado ao fato de não ter uma condução das mais interessantes, resta ainda o problema da falta de ritmo do filme. As cenas alongadas e os diálogos desnecessários incomodam ainda mais na meia hora final, quando temos a sensação de que tudo já foi dito e o diretor está “enrolando” o espectador. Noves fora, resta um filme irregular. Algumas qualidades, vários defeitos.

Estréia nesta sexta.

174 fora do Oscar


O filme Última Parada 174, de Bruno Barreto, está definitivamente excluído da disputa pelo Oscar 2009 de melhor filme estrangeiro. Foi divulgada ontem a pré-lista, contendo os nove filmes que ainda brigam pelas cinco vagas que serão anunciadas no dia 22 deste mês. A entrega dos Oscars ocorre exatamente um mês depois, em 22 de fevereiro.

Que a não-indicação do filme sirva de alerta ao nosso Ministério da Cultura: os votantes desta categoria têm rejeitado sistematicamente filmes com temáticas que envolvem drogas, miséria e violência nos últimos anos. Inclusive o italiano Gomorra (um dos favoritos até então), que também ficou a ver navios.

Confiram a lista de pré-indicados deste ano:

The Baader Meinhof Complex (Alemanha)
Revanche (Áustria)
The Necessities of Life (Canadá)
The Class (França)
Waltz with Bashir (Israel)
Departures (Japão)
Tear This Heart Out (México)
Everlasting Moments (Suécia)
3 Monkeys (Turquia)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Danny Boyle e Kate Winslet rumo ao Oscar

Numa noite de poucas surpresas, a 66ª edição do Globo de Ouro consagrou a sempre injustiçada Kate Winslet e também o novo filme de Danny Boyle, Slumdog Millionaire. A talentosa Kate, depois de cinco derrotas em anos anteriores, levou as duas estatuetas a que concorria: melhor atriz em drama por Revolutionary Road e melhor atriz coadjuvante por The Reader. Confesso que cheguei a ficar triste quando a atriz levou o prêmio de coadjuvante, já que vitória numa categoria costuma ser derrota certa na outra. Mas que nada! Já o filme de Danny Boyle (na foto à esquerda, com dois atores do filme) foi o grande vencedor da noite, com quatro estatuetas: melhor filme/drama, direção, roteiro e trilha sonora. O longa, rodado na Índia, narra a história de Jamal Malik, um jovem órfão que faz de tudo para participar da versão local do programa Who Wants To Be a Millionaire? (o Show do Milhão).

O momento de emoção foi a esperada premiação póstuma de Heath Ledger como melhor ator coadjuvante por Batman – O Cavaleiro das Trevas (aliás, a única indicação que o filme obteve). Já cientes do favoritismo do ator, os organizadores da festa prepararam uma cena de Ledger como o Coringa para exibir após o anúncio de sua vitória. Christopher Nolan, diretor do longa, recebeu o troféu com as seguintes palavras: “Todos nós que trabalhamos com Heath em The Dark Knight aceitamos isto como um sentimento de tristeza, mas incrivelmente orgulhosos”.

A grande surpresa da noite foi a vitória de Sally Hawkins como melhor atriz em musical ou comédia por Simplesmente Feliz, desbancando a favoritíssima Meryl Streep no musical Mamma Mia! – além de Emma Thompson, Frances McDormand e Rebecca Hall. Sally estava tão surpresa que mal conseguiu fazer um agradecimento.

Nas categorias televisivas, os grandes vencedores foram a sitcom 30 Rock (melhor série, ator para Alec Baldwin e atriz para Tina Fey) e a minissérie John Adams (melhor filme para TV, ator para Paul Giamatti e atriz para Laura Linney). Já o prêmio Cecil B. De Mille, reconhecimento à carreira como um todo, foi entregue a Steven Spielberg pelas mãos do amigo Martin Scorsese. Vale lembrar que a homenagem estava prevista para o ano passado, mas foi adiada depois que a greve dos roteiristas causou o cancelamento da festa. E haveria algo de político na premiação da animação israelense Waltz with Bashir – filme de técnica bacana, porém chatíssimo – como melhor filme estrangeiro?

Os filmes O Curioso Caso de Benjamin Button, Frost/Nixon e Dúvida, que lideravam as indicações (cinco para cada), saíram de mãos abanando. Pelo menos no caso de Benjamin Button, o único que já assisti, é uma pena que isso tenha acontecido. Vamos ver como ele se sai no Oscar, onde deve faturar pelo menos os prêmios de fotografia e direção de arte, que não existem no Globo de Ouro.

Confiram abaixo os vencedores nas categorias de cinema:

Filme (drama) - Slumdog Millionaire
Atriz (drama) - Kate Winslet (Revolutionary Road)
Ator (drama) - Mickey Rourke (The Wrestler)
Filme (musical/comédia) - Vicky Cristina Barcelona
Atriz (musical/comédia) - Sally Hawkins (Simplesmente Feliz)
Ator (musical/comédia) - Colin Farrell (Na Mira do Chefe)
Filme de Animação - Wall-E
Filme em Língua Estrangeira - Waltz With Bashir (Israel)
Atriz Coadjuvante - Kate Winslet (The Reader)
Ator Coadjuvante - Heath Ledger (Batman - O Cavaleiro das Trevas)
Diretor - Danny Boyle (Slumdog Millionaire)
Roteiro - Simon Beaufoy (Slumdog Millionaire)
Trilha Sonora - A. R. Rahman (Slumdog Millionaire)
Canção Original - The Wrestler (The Wrestler)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sem Pornografia no título


Eis que o povo das traduções estapafúrdias ataca novamente. O novo filme do irreverente Kevin Smith, Zack and Miri Make a Porno (Zack e Miri Fazem um Filme Pornô), aqui no Brasil se chamará... Pagando Bem, Que Mal Tem? (!!!) Sem comentários...

O longa, que conta a história de dois amigos de longa data que resolvem fazer um filme pornô para resolver seus problemas financeiros, estréia no dia 16 de janeiro.

O Dia Em Que a Terra Parou


Desde 1938, quando Orson Welles leu no rádio uma versão dramatizada de A Guerra dos Mundos e causou uma tremenda confusão entre seus conterrâneos – o povo acreditou que estava de fato ocorrendo uma invasão alienígena –, o medo do desconhecido se instaurou de modo irreversível no imaginário dos americanos. Inúmeros filmes foram feitos explorando esse tipo de paranóia, em especial na década de 50. Só que o temor dos homenzinhos do espaço pouco a pouco foi cedendo lugar nos corações e mentes americanos a outras ameaças mais próximas. Considerando a evidente datação do tema, parece meio fora de propósito refilmar o clássico da ficção científica O Dia Em Que a Terra Parou.

Também vale lembrar que na época em que foi produzido o original (1951), a mensagem conciliatória do longa servia como uma luva para reforçar os argumentos dos que se posicionavam contra a Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia – impasse que mal havia começado. Nesta nova versão, a trama é essencialmente a mesma, acrescida apenas de uma melhor tecnologia em efeitos especiais. O extraterrestre Klaatu chega à Terra trazendo um alerta contra a destruição do planeta, mas suas intenções são mal-interpretadas pelos militares e governantes que o capturam. A única pessoa disposta a ouvir o que ele tem a dizer é a cientista Helen Benson, que o ajuda a escapar e se torna uma fugitiva também. E ela ainda terá que persuadir o alienígena de que a Terra e os humanos podem evoluir e merecem uma segunda chance.

Podemos definir O Dia Em Que a Terra Parou como um filme morno: sem grandes defeitos, mas igualmente desprovido de grandes qualidades. Um longa ao qual você assiste sem problemas, mas que não fará nenhuma diferença para sua cultura cinematográfica. Mesmo porque o original de 1951 está aí para servir de comparação, então não há muito sentido refilmar a trama sem ao menos tentar esboçar um olhar original sobre ela. Mas, infelizmente, a indústria hollywoodiana a cada dia que passa fica mais preguiçosa. É impressionante como os americanos gostam de refilmar as mesmas histórias de modo exatamente igual. Claro que existem bons remakes, como Os Infiltrados, mas são louváveis exceções. Mas também, o que sobraria da meca do cinema sem as adaptações de HQ's e remakes? Talvez uma meia dúzia de cineastas que têm estilo próprio.

Sobre o elenco, pode-se perguntar o mesmo a respeito de Keanu Reeves: o que seria dele sem os blockbusters? O ator é do tipo que nunca muda, nem de aparência nem de expressão facial. Então devem ter pensado que colocá-lo no papel de um ser vindo de outra galáxia seria uma boa opção. O problema é que, embora seja de outro planeta, Klaatu não é um robô. Se ele pode se comover com a afeição humana, como acontece ao presenciar um diálogo entre Helen e o enteado, deveria poder esboçar alguma reação. E Reeves mantém-se com a mesma cara de paisagem em todas as cenas, como se fosse um andróide. Jennifer Connelly faz o que pode, mas a coitada acaba contracenando sozinha. Tampouco ajuda sua personagem ser uma cópia de outro trabalho seu, a Dra. Ross do primeiro Hulk – de novo, fazendo as vezes da bela que compreende a fera. A curiosidade fica por conta de ver já crescidinho o Jaden Smith, filho de Will Smith dentro e fora das telas em À Procura da Felicidade.

Resumindo, o filme é como diz aquela música do Lulu Santos: “não vou dizer que foi ruim, mas também não foi tão bom assim”.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Troca


Clint Eastwood possui dois merecidos Oscars de melhor diretor, por Os Imperdoáveis (1993) e Menina de Ouro (2005). E só não tem três porque seu excelente Sobre Meninos e Lobos bateu de frente com Peter Jackson justamente no ano em que o neozelandês levou onze estatuetas para coroar seu tour de force O Senhor dos Anéis. Em plena atividade aos 78 anos, Clint é uma figura admirável em todos os aspectos. Mas até mesmo Dirty Harry pode se equivocar, como demonstra este A Troca.

O roteiro foi escrito a partir de um caso real, documentado pela prefeitura de Los Angeles. Em um sábado de 1928 como outro qualquer, Christine Collins, mãe solteira e independente, se despede do filho de nove anos, Walter, e sai para trabalhar. Ao retornar, constata que o filho havia desaparecido sem deixar nenhum vestígio. Cinco meses depois, a polícia lhe dá a boa notícia de que Walter foi encontrado vivo e longe dali. Um menino é trazido e Christine tem um grande choque ao ver que não o reconhece como seu filho. Pressionada pelos policiais e atordoada pela imensa quantidade de jornalistas e fotógrafos, ela acaba duvidando de seus próprios instintos e leva a criança para casa. Logo constata que aquele realmente não é seu filho, mas a polícia se recusa a admitir que errou e passa a tratar Christine como louca.

Angelina Jolie tem performance exagerada, cheia de caras, bocas e gritos de leoa ferida. Não chega a ser uma interpretação ruim, apenas meio over – daí indicá-la ao Globo de Ouro já acho um exagero. Aliás, todo o filme tem uma atmosfera de exagero e grandiloquência que não é muito comum na filmografia recente de Clint Eastwood. O figurino riquíssimo de Angelina, por exemplo, parece excessivo para uma mãe de família batalhadora. Sempre com boca e olhos bem delineados, esbanjando charme até quando leva choque elétrico, a caracterização de atriz exala uma sofisticação desnecessária e até mesmo falsa.


As cenas se alongam, especialmente na segunda metade, e a trama troca de foco várias vezes, indecisa entre seguir a busca incansável da mãe coragem por seu filho ou denunciar a arbitrariedade e corrupção das autoridades. E tudo fica ainda mais difuso depois que entra em cena uma variante a respeito de um fazendeiro psicopata e seu sobrinho. Como se não bastasse, o roteiro vai se embaralhando e deixando uma série de detalhes mal-explicados ao longo do caminho. É tanta perfumaria e tão pouca coerência que o espectador certamente se perguntará o quanto o roteiro foi fiel aos fatos que lhe serviram de base.

Agora nos resta esperar por Gran Torino, o outro filme de Clint Eastwood feito em 2008, e torcer para que o diretor tenha tropeçado apenas neste aqui. Gran Torino estréia somente em fevereiro; A Troca, nesta sexta-feira.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Globo de Ouro e as Novidades

Entro 2009 com mais uma novidade: em breve estarei colaborando também com o projeto Cinefilia, que congrega um site e mais uma revista virtual. Ambos devem ser lançados até semana que vem, mas deixo aqui como uma prévia a matéria escrita a quatro mãos com o colega Pedro Henrique a respeito dos atores que concorrem ao Globo de Ouro. O motivo do texto ter ficado de fora da edição inaugural é óbvio: a premiação ocorre já no próximo domingo, ou seja, antes do lançamento do Cinefilia. Segue nossa matéria:

Globo de Ouro – Atores Indicados

Por Erika Liporaci e Pedro Henrique

Melhor Atriz (drama)
Anne Hathaway (O Casamento de Rachel)
Angelina Jolie (A Troca)
Meryl Streep (Doubt)
Kristin Scott Thomas (I've Loved You So Long)
Kate Winslet (Revolutionary Road)

Estamos falando aqui de cinco trabalhos ainda não vistos em telas brasileiras. Apenas O Casamento de Rachel passou no Festival do Rio, e a opinião de alguns colegas exaltava a boa atuação de Anne Hathaway – o que essa indicação só veio confirmar. Mas Anne tem pela frente uma concorrência extremamente pesada e não deve conseguir levar o prêmio. Idem para a inglesa Kristin Scott Thomas que, com sua presença discreta e elegante, dificilmente terá cacife para vencer Angelina Jolie e Kate Winslet, as duas concorrentes de fato ao prêmio. Kate tem a seu favor o altíssimo índice de indicações não-convertidas em prêmios. Ao Globo de Ouro, já foram sete (duas só esse ano); ao Oscar, nada menos que cinco (três como atriz principal e duas como coadjuvante). Também lhe favorece o fato de ser uma atriz mais conceituada que sua rival, cuja sensualidade muitas vezes ofusca o talento. Já Angelina conta com o fator estrelato e a simpatia que vem angariando fora das telas graças a seu envolvimento com causas sociais. Também existe uma pré-disposição favorável a atrizes que, como ela, fazem uma guinada dos filmes comerciais para trabalhos mais elevados artisticamente, proeza que a atriz havia tentado anteriormente com O Preço da Coragem e repete agora sob a batuta de Clint Eastwood. Por fim, a diva Meryl Streep seria uma ameaça às duas belas se não estivesse concorrendo também na categoria melhor atriz em musical/comédia por Mamma Mia!, filme no qual arrasa e deve sair vitoriosa.

Erika Liporaci
Quem eu acho que vence: Kate Winslet
Quem eu gostaria que vencesse: Kate Winslet
Quem não vence de jeito nenhum: Kristin Scott Thomas

Pedro Henrique
Quem eu acho que vence: Kate Winslet
Quem eu gostaria que vencesse: Angelina Jolie
Quem não vence de jeito nenhum: Kristin Scott Thomas


Melhor Ator (drama)
Leonardo DiCaprio (Revolutionary Road)
Frank Langella (Frost/Nixon)
Sean Penn (Milk)
Brad Pitt (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Mickey Rourke (The Wrestler)

Terá chegado a vez de Leonardo DiCaprio? O rapaz, que era uma promessa no início de carreira, quase naufragou junto com o Titanic. Levou quase uma década para retomar o prestígio perdido, mas atualmente está em sua melhor fase. Foi ótimo em Diamante de Sangue, arrasou em Os Infiltrados e agora reencontra Kate Winslet sob a direção de Sam Mendes. Pode ser sua chance. Brad Pitt, o outro bonitão que luta para provar seu valor, concorre por um filme de David Fincher – o que é sempre um bom sinal. Mas pelas imagens mostradas até agora, o apelo maior de seu personagem parece ser a caracterização (Pitt começa o filme velhinho e vai rejuvenescendo). Sean Penn é sempre competente, mas tem contra si o fato de ter ganho um Oscar há pouco tempo (por Sobre Meninos e Lobos, há quatro anos). Mickey Rourke, apesar de bom ator, andava tão decadente que a mera indicação já é motivo de comemoração. Já o veterano Frank Langella parece ser a ameaça mais perigosa a DiCaprio. Grande ator que costumamos ver em papéis coadjuvantes, talvez tenha nesta indicação uma oportunidade única de ser premiado. E os votantes costumam se comover com esse tipo de reconhecimento.

Erika Liporaci
Quem eu acho que vence: Leonardo DiCaprio ou Frank Langella
Quem eu gostaria que vencesse: Leonardo DiCaprio
Quem não vence de jeito nenhum: todos têm chance

Pedro Henrique
Quem eu acho que vence: Mickey Rourke
Quem eu gostaria que vencesse: Mickey Rourke
Quem não vence de jeito nenhum: Leonardo DiCaprio

Melhor Atriz (musical/comédia)
Rebecca Hall (Vicky Cristina Barcelona)
Sally Hawkins (Simplesmente Feliz)
Frances McDormand (Queime Depois de Ler)
Meryl Streep (Mamma Mia!)
Emma Thompson (Last Chance Harvey)

Woody nos trouxe, com seu engraçadíssimo Vicky Cristina Barcelona, uma atriz que se mostrou competente do primeiro ao último minuto da metragem. Rebecca Hall, que já aparecera em O Grande Truque, de Chistopher Nolan, entrou de cara no espírito do filme e entregou uma atuação segura e promissora. Apesar disso, dificilmente será páreo para Meryl Streep, assim como Sally Hawkins, que apareceu bem em O Sonho de Cassandra, mas que dificilmente terá seu trabalho em Simplesmente Feliz premiado aqui. Aliás, Meryl entra como favorita na briga pela estatueta por seu trabalho em Mamma Mia!, filme que só respira graças ao seu talento. Surpresa agradável seria ver a sempre competente senhorita Coen, Frances McDormand, levar o caneco, pois ela está hilária no mais recente filme dos irmãos Coen. Emma Thompson, que conta com um currículo bastante interessante e já tem um Globo em casa, pode surpreender.

Erika Liporaci
Quem eu acho que vence: Meryl Streep
Quem eu gostaria que vencesse: Meryl Streep
Quem não vence de jeito nenhum: Rebecca Hall

Pedro Henrique
Quem eu acho que vence: Meryl Streep
Quem eu gostaria que vencesse: Frances McDormand
Quem não vence de jeito nenhum: Sally Hawkins


Melhor Ator (musical/comédia)
Javier Bardem (Vicky Cristina Barcelona)
Colin Farrell (Na Mira do Chefe)
James Franco (Segurando as Pontas)
Brendan Gleeson (Na Mira do Chefe)
Dustin Hoffman (Last Chance Harvey)

Tudo indica que esse prêmio consagrará o espanhol Javier Bardem. Colin Farrell está bem como o aprendiz de mafioso de Na Mira do Chefe, mas sua carreira é tão irregular que só esta indicação já é uma vitória. O mesmo se pode dizer do geralmente inexpressivo James Franco. Brendan Gleeson poderia surpreender. Dustin Hoffman é sempre um nome de peso, embora há muito tempo não apresente um trabalho no mesmo nível de antigamente. Posto isso, pode-se até dizer que dificilmente o prêmio sairá das mãos do ator espanhol, que levou a estatueta no ano passado pelo seu trabalho no filme dos irmãos Coen, Onde Os Fracos Não Têm Vez. Apesar dos bons trabalhos realizados pelos demais indicados, provavelmente nenhum deles terá poder de fogo para rivalizar com um dos atores que mais cresce ultimamente.

Erika Liporaci
Quem eu acho que vence: Javier Bardem
Quem eu gostaria que vencesse: Javier Bardem
Quem não vence de jeito nenhum: James Franco

Pedro Henrique
Quem eu acho que vence: Javier Bardem
Quem eu gostaria que vencesse: Javier Bardem
Quem não vence de jeito nenhum: James Franco


Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams (Doubt)
Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)
Viola Davis (Doubt)
Marisa Tomei (The Wrestler)
Kate Winslet (The Reader)

A exemplo do que ocorre com seu compatriota Javier Bardem, as indicações desta categoria parecem conspirar em favor de Penélope Cruz. A presença da atriz é tão forte em Vicky Cristina Barcelona que chega a ofuscar as moças do título. Depois de um começo promissor na Espanha e uma carreira hollywoodiana que começou mal, Penélope encontrou o ponto de equilíbrio em sua carreira internacional com Volver. Amy Adams, indicada ano passado por Encantada, continua esbarrando em concorrência pesada. Kate Winslet concorre também na categoria principal e, como uma vitória numa categoria indica derrota em outra, a atriz deve perder aqui e sair vencedora lá. Marisa Tomei, boa atriz que ganhou um Oscar no começo da carreira e nunca mais acertou o passo, pode estar no caminho para retomar o prestígio perdido. Viola Davis, atriz televisiva vista recentemente como a dona da pousada de Noites de Tormenta, tem que comemorar a indicação e só.

Erika Liporaci
Quem eu acho que vence: Penélope Cruz
Quem eu gostaria que vencesse: Marisa Tomei
Quem não vence de jeito nenhum: Viola Davis

Pedro Henrique
Quem eu acho que vence: Penélope Cruz
Quem eu gostaria que vencesse: Penélope Cruz
Quem não vence de jeito nenhum: Viola Davis

Melhor Ator Coadjuvante
Tom Cruise (Trovão Tropical)
Robert Downey Jr. (Trovão Tropical)
Ralph Fiennes (A Duquesa)
Philip Seymour Hoffman (Doubt)
Heath Ledger (Batman - O Cavaleiro das Trevas)

Alguém realmente acha que há a mais remota possibilidade de Heath Ledger não ganhar esse prêmio? E premiar a performance do saudoso ator não vai ser nenhuma condescendência, já que seu trabalho é, de longe, uma das grandes performances vistas no cinema de todos os tempos. Somando o merecimento natural ao apelo afetivo por sua morte prematura, Ledger é simplesmente imbatível. E a concorrência fraca também ajuda: tanto Tom Cruise como Robert Downey Jr. têm participações divertidas em Trovão Tropical, mas que dificilmente poderiam ser consideradas interpretações de peso (mais uma vez, a grande curiosidade é a caracterização); Ralph Fiennes apresenta atuação apenas correta em A Duquesa e tem suas chances anuladas pelo fato do filme não ser grande coisa; e Philip Seymour Hoffman, o único dos cinco ainda não visto por aqui, tem contra si a premiação recente por Capote. Considerando tudo isso, será realmente uma grande surpresa se o Coringa não sair da festa consagrado e pronto para arrasar também no Oscar. Por que tão sério?

Erika Liporaci
Quem eu acho que vence: Heath Ledger
Quem eu gostaria que vencesse: Heath Ledger
Quem não vence de jeito nenhum: Tom Cruise

Pedro Henrique
Quem eu acho que vence: Heath Ledger
Quem eu gostaria que vencesse: Heath Ledger
Quem não vence de jeito nenhum: Tom Cruise

sábado, 3 de janeiro de 2009

Deserto Feliz


Podemos dizer que Deserto Feliz é um début na direção para o pernambucano Paulo Caldas, já que embora tenha co-dirigido anteriormente Baile Perfumado (com Lírio Ferreira) e O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas (com Marcelo Luna), este é o primeiro longa-metragem que Caldas assina sozinho. Co-produção entre Brasil e Alemanha, o filme teve sua primeira exibição no Festival de Berlim de 2007 e, pouco depois, saiu de Gramado vencedor de seis prêmios: direção, fotografia, direção de arte, música, prêmio do júri popular e filme da crítica. E, como acontece cada vez mais com produções nacionais, teve que amargar mais de um ano engavetado antes de finalmente chegar ao circuito.

A trama é centrada em Jessica, uma adolescente que, cansada de ser abusada pelo padrasto sob a conivência da mãe, deixa a cidadezinha nordestina de Deserto Feliz e foge para Recife. Mas a vida na cidade grande também cobra seu preço e Jessica se estabelece na prostituição. Dividindo um conjugado com duas outras garotas, o pensamento reinante entre elas é o de que o melhor atalho para sair daquela vida é caindo nas graças de um “gringo”. Até que um dia o sonho personifica-se na figura de Mark, um turista alemão.

O grande diferencial do filme em relação a outros similares é sua opção pela poesia e delicadeza. Como tantas outras meninas, Jessica virou mulher antes de terminar de ser criança. O sexo foi sua primeira moeda de troca. Primeiro, forçada pelo padrasto; depois, como o meio de sobrevivência natural de quem perdeu a inocência da forma mais violenta possível. Mas, ao contrário do que se poderia esperar de um filme que lida com tal temática, Deserto Feliz deixa que a denúncia social se faça pelo contexto e não pelo que é exibido na tela. É um filme que evita a brutalidade explícita e mostra a violência de forma mais subtendida, quase metafórica. E nem por isso deixa de ser contundente.

O filme apresenta um ritmo deliberadamente lento e, embora esteja evidente que isso ocorra como uma intenção do diretor, em certos momentos esta opção narrativa torna a história pouco dinâmica. Algumas tomadas são tão contemplativas que acabam “tirando” o espectador da trama ao invés de conectá-lo. É claro que trata-se de um trabalho muito mais calcado em imagens do que em palavras (a protagonista, por exemplo, fala muito pouco), mas não era preciso exagerar na extensão de algumas cenas.

Felizmente, o elenco excepcional e lindamente dirigido faz com que o interesse seja mantido. A estreante Nash Laila (a cara da Natalie Portman), que antes desse filme só havia participado de duas peças de teatro, revelou-se um grande achado e leva toda a carga dramática do filme nas costas a despeito da juventude e pouca experiência. Também têm presença marcante o alemão Peter Ketnath (o mesmo de Cinema, Aspirinas e Urubus) e os expoentes atuais do cinema nacional João Miguel e Hermila Guedes, sem contar a luxuosa participação de Zezé Motta como a ex-prostituta que agora vive de alugar conjugados. Destaque para a cena em que sua personagem explica a Jessica como chegou a sua atual vida mansa.

O desfecho deixa no ar a dúvida sobre certos acontecimentos. Teriam de fato ocorrido ou representavam uma projeção desesperada da menina-mulher, uma versão de contos de fada adaptada para sua triste realidade? A conclusão fica a cargo do espectador, embora ambos os caminhos levem ao mesmo desenlace.