quinta-feira, 3 de abril de 2008

Awake - A Vida por um Fio


Existe um fenômeno raro, porém comprovado, onde um paciente sedado com anestesia geral não perde a consciência. Permanece acordado e vê tudo que está acontecendo, mas não pode se manifestar porque fica totalmente paralisado. Uma tortura comparável a ser enterrado vivo. Awake – A Vida por um Fio explica esse intrigante fenômeno logo em suas primeiras imagens, levando o espectador a crer ser esse o foco de sua história.

A seguir, somos apresentados a Clayton Beresford. Jovem executivo de sucesso, rico, inteligente, apaixonado pela namorada. Mas sua vida está longe de ser perfeita. Não bastasse o receio de contar à mãe dominadora que tem um relacionamento com a secretária desta, Clayton ainda tem problemas cardíacos extremamente sérios. Está na fila de transplante, correndo contra o tempo. Mas, como já entrega a sinopse do filme, aparece um doador e nosso caro amigo passa pelo tal fenômeno de estar acordado e incapaz de comunicar sua condição aos médicos que o cercam.

O mais bizarro nesse filme é que, no final das contas, o fato do protagonista estar paralisado na mesa de cirurgia nem faz muita diferença para o rumo que a história toma. Não, a trama absolutamente não é sobre o tal fenômeno. A história gira em torno de outra coisa e, a princípio, parece que a consciência de Clayton vai ser fundamental para o desfecho. Mas não é. Os acontecimentos se desdobram e se resolvem à revelia dele.

E ainda tem mais um agravante no que já não é bom, que é ter Jessica Alba e Hayden Christensen nos papéis principais. Fica difícil encontrar uma dupla mais apática e sem graça do que essa. Quem já o achava um horror na pele de Anakin Skywalker vai descobrir que ver o ator de expressão única sem um sabre-de-luz em punho pode ser ainda mais desagradável. E Jessica Alba continua atuando do modo que sabe, ou seja, fazendo beicinho e falando num tom de voz sussurrado todas as vezes que quer passar sensualidade. Lena Olin e Terrence Howard estão bem em papéis secundários, mas o estrago feito pela dupla central e pelo roteiro pseudo-hitchcockiano tornam o desastre inevitável.

Ainda bem que Awake só tem 84 minutos. Resta desejar ao diretor estreante Joby Harold melhor sorte em seu próximo projeto.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Gota d’água Reestréia no Rio


"Você é viagem sem volta, Joana." A frase, que Jasão diz a Joana durante uma das inúmeras discussões que o ex-casal tem ao longo de Gota d’água, resume com perfeição o caminho perigoso no qual se lançou a protagonista. Joana é uma mulher de temperamento forte, que ama e odeia até o limite da loucura. Com Joana não tem mais ou menos. Com Joana é matar ou morrer. Ou as duas coisas. Gota d’água - texto de Chico Buarque e Paulo Pontes que atualiza a tragédia grega Medéia - é uma das peças mais importantes da dramaturgia nacional. Eu confesso que Medéia está longe de ser um dos meus clássicos preferidos, talvez porque tenha uma certa dificuldade em me comover com uma mulher que mata os próprios filhos e foge num carro de fogo. Mas aí também vai uma implicância minha com o recurso Deus Ex Machina, ou seja, acontecimento exterior à trama que surge para solucionar um impasse.

A genialidade de Gota d’água está justamente em humanizar sua protagonista. No lugar da feiticeira altiva e calculista, temos uma mulher comum enlouquecida pela dor. Humilhada pelo homem que ama e acossada por um aproveitador da miséria alheia, Joana vive dilemas que podemos entender nos dias de hoje. No lugar da vilã que foge triunfante sobre os cadáveres dos filhos, uma mulher destruída em comunhão com os inocentes. Mas, apesar de sua indiscutível importância, montar a peça não é tarefa para qualquer um. Se apresentada na íntegra, constitui um espetáculo longo, pesado e que ainda termina com três mortes.

Eis que reestréia hoje no Teatro Carlos Gomes uma bem-sucedida e apaixonante versão de Gota d'água. Para dar maior fluência ao espetáculo, foram acrescentadas algumas músicas que não constavam da montagem original, como Partido Alto - usada na cena de abertura. O primeiro ato começa com tom mais leve e carrega no humor, mesmo em instantes de conflito. Um exemplo disso é a cena entre Jasão e Creonte e a canção que fala da correlação entre sentar e mandar. A peça só começa a ganhar contornos mais sombrios com a aparição de Joana, o que acontece apenas na segunda metade do primeiro ato. A partir daí, a trama vai crescendo em tensão gradualmente. O destaque desta primeira parte é a cena final, com a discussão que se repete enquanto o resto do elenco faz coro para O que Será? (À Flor da Pele) e que culmina com Joana jurando vingança sob imagens de santos e orixás. Desafio qualquer espectador a não se arrepiar enquanto as cortinas se fecham. E boa parte desta magia deve-se à atuação visceral de Izabella Bicalho, que, mesmo jovem demais para o papel, tem uma força dramática incrível e um olhar eletrizante que intimida e comove ao mesmo tempo.

O segundo ato já começa com elevadíssima carga dramática e daí até o desenlace o espectador não consegue mais relaxar na cadeira diante da tragédia anunciada. Mas a grande vantagem de se trabalhar com um enredo cujo final a platéia já conhece é justamente essa: a tensão se impõe por si própria, paira no ar. A cada passo, a cada desatenção – como diz a música-título –, Joana se aproxima mais desse precipício que no final das contas vai engolir a todos.

A montagem de João Fonseca (o melhor diretor em atividade no Rio) é certamente um dos melhores espetáculos que estrearam por aqui ano passado e continua sua carreira vitoriosa em 2008, depois de ter obtido duas indicações ao Prêmio Shell: melhor música e melhor ator para o Creonte cheio de nuances de Thelmo Fernandes. A cenografia é básica e funcional, deixando o grande foco e responsabilidade no trabalho dos atores. Que, diga-se de passagem, realizam seu trabalho com perfeição absoluta. Não há um único ator inadequado no elenco inteiro. Mas Izabella e Thelmo acabam se sobressaindo pela força de seus personagens antagônicos e pela segurança que demonstram em cena, inclusive na parte musical. Não deixem de conferir. Eu assisti três vezes.

Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Direção: João Fonseca. Elenco: Izabella Bicalho, Thelmo Fernandes, Lucci Ferreira, Kelzy Ecard, Luca de Castro, Karen Coelho. Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, S/N), quinta às 19h, sextas e sábados às 20h e domingos às 18h. 150 minutos. Ingressos a 20,00 (qui), 25,00 (sex e dom) e 30,00 (sab).

XXY


Quando Alex nasceu com órgãos de ambos os sexos, seus pais resolveram ignorar os conselhos médicos para corrigir a ambigüidade. Para criar a filha num ambiente mais livre de pressões, a família sai de Buenos Aires e migra para um pequeno vilarejo no Uruguai. Só que, aos 15 anos, Alex está descobrindo o corpo e seus próprios caminhos biológicos. A crise se torna mais grave quando a família recebe um casal de amigos e o filho adolescente destes. Prêmio da Crítica no Festival de Cannes 2007.

Bom filme. Enfoca com naturalidade o modo com a família reage perante o problema, sem fazer sensacionalismo do fato da filha ser hermafrodita. Alex é uma menina andrógina, sem sombra de dúvida, mas não muito diferente de várias jovens que vemos por aí. Sua ambigüidade sexual se manifesta em pequenos detalhes e gestos e os conflitos familiares tampouco são muito diversos dos de qualquer família. O pai aceita bem a filha "diferente", enquanto a mãe tem uma tendência maior a querer "normalizá-la". Também é muito curioso o modo como a menina, até então excessivamente protegida do mundo, descobre sua sexualidade e os vários desdobramentos que daí podem surgir.

O argentino Ricardo Darín, quase sempre garantia de bom filme, se destaca como o pai. Também é muito intensa a presença de Inés Efron como Alex. Dúbia, intensa, confusa, enfim, a jovem atriz defende seu papel com incrível riqueza emocional. O mesmo não se pode dizer do inexpressivo Martín Piroyansky como Alvaro. Está certo que seu personagem é um nerd, mas o rapaz precisava passar o filme inteiro com aquela expressão única de bobo alegre?

No final das contas, XXY é um filme sobre identidade. Todos nascemos com uma imagem pré-estabelecida de homens ou mulheres, embora ela possa ser alterada ao longo de nossas vidas. Mas e quando há dois caminhos a escolher, ambos em igual proporção? E se, na infância, a escolha for equivocada? Dá o que pensar.

O filme foi o representante argentino para o último Oscar de filme estrangeiro. Não obteve indicação, mas há que parabenizar nuestros hermanitos pela escolha ousada.

Tropa de Elite, o Original


Depois de ser um tremendo sucesso nos camelôs meses antes de sua estréia nos cinemas e botar a maior lenha na fogueira do debate sobre a pirataria, Tropa de Elite finalmente está disponível em DVD. Original, é claro. Agora o cinéfilo pode levar para casa o filme mais polêmico do ano passado sem crises de consciência.

A cena de abertura já evidencia que estamos diante de um filme poderoso: o espectador é jogado dentro de um animado baile funk no morro, mas só até a câmera se distanciar e focar num grupo de PM’s que, na maior intimidade com os meliantes, adentra na favela. Em off, a voz rouca de Wagner Moura explica com fina ironia como funciona a convivência entre os poderes paralelos e oficiais nesta cidade maravilhosa. A cena, que parecia introdutória, é quebrada por seqüências de extremo impacto que não entendemos naquele momento. Mas entenderemos no decorrer do filme; aliás, entenderemos muito mais do que gostaríamos.

Com poucos minutos de projeção, ainda no prólogo descrito acima, Tropa de Elite já diz ao que veio. E quando o título do filme - acompanhado da sinistra marca do BOPE - salta na tela, o espectador já está conquistado. É impossível desgrudar os olhos da tela um segundo sequer.

Tropa de Elite foi concebido originalmente como um documentário. Em 2002, quando José Padilha finalizava Ônibus 174, percebeu que havia ali um rico material a ser explorado. Ao contrário do que se pensava a princípio, Padilha afirma que seu filme não é uma adaptação do livro "Elite da Tropa", que o ex-capitão do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) Rodrigo Pimentel escreveu em parceria com o sociólogo Luis Eduardo Soares. Mas é óbvio que o relatado ali está longe de ser ficcional. Pimentel, aliás, colaborou no roteiro.

O longa gira basicamente em torno de três personagens: um capitão do BOPE que está cansado daquela vida mas, para deixar o posto, precisa de um substituto; e dois aspirantes a oficiais da PM que tentam, ainda que por meios tortuosos, manter algum nível de honestidade. Em algum momento, a vida desses personagens se cruzará.

O roteiro de Rodrigo Pimentel, Bráulio Mantovani e José Padilha é exemplar. Vibrante, cheio de impacto e salpicado por um humor corrosivo. E engana-se quem pensa que apenas a polícia está na mira da metralhadora giratória das críticas. Nenhum segmento da sociedade é poupado, incluindo aí universitários politizados e líderes comunitários. O que Tropa de Elite deixa bem claro é que a polícia é um antro de corrupção e violência sim, mas que ninguém tem muita moral para atirar pedras. Afinal é conveniente para a sociedade como um todo ter quem faça o "serviço sujo". O excelente roteiro é valorizado pela edição precisa do fera Daniel Rezende, que faz com que o espectador se sinta dentro das situações mostradas.

Também não se pode deixar de ressaltar o excelente elenco. Wagner Moura dispensa apresentações. Wagner Moura é o cara. Sua atuação vai muito além dos bordões famosos de seu personagem, como "pede pra sair" e "você é um fanfarrão". Outros grandes destaques são o sempre eficiente Caio Junqueira e o estreante André Ramiro como os policiais ainda não corrompidos. Detalhe: André Ramiro trabalhava como bilheteiro em um cinema e saiu direto da portaria para dentro das telas. Também é interessante o trabalho de Milhem Cortaz, que constrói seu personagem de modo bastante dúbio: um policial corrupto, mas gente boa. Regendo tantos talentos individuais, está o maestro José Padilha em seu segundo filme – o primeiro de "ficção".

Mas o melhor de tudo é que Tropa de Elite é um filme redondo. Não há uma cena sequer que seja dispensável. Quando o assisti pela primeira vez (numa sessão para a imprensa durante o último Festival do Rio), cheguei a temer por uma eventual decadência da narrativa no desfecho. Afinal, quanto melhor o filme maior a dificuldade em encerrá-lo de modo satisfatório. E eis que o milagre aconteceu: uma cena excelente, conclusiva... e o filme acaba! Sem explicações adicionais e desnecessárias. No ponto exato. Se tivesse que descrever Tropa de Elite em apenas uma palavra, a palavra seria: perfeito.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Devorando Shakespeare

A editora Objetiva iniciou em 2005 uma coleção muito legal, intitulada Devorando Shakespeare. Nela, autores nacionais recriam num contexto contemporâneo comédias do bardo imortal. A coleção tem três volumes até agora: Trabalhos de Amor Perdidos, por Jorge Furtado; A Décima Segunda Noite, por Luis Fernando Verissimo; e Sonho de Uma Noite de Verão, por Adriana Falcão.

Trabalhos de Amor Perdidos, no original, conta a história de um rei que convoca três amigos nobres para que, juntos, se dediquem a cultivar o espírito e o conhecimento. Os tolos estabelecem que passarão três anos estudando, longe das festas e das mulheres. Mas a chegada de uma princesa e suas belas damas de companhia ao reino faz com que eles se arrependam imediatamente de seu juramento, dando início a uma série de mal-entendidos, disfarces, identidades trocadas, etc. O cineasta Jorge Furtado, com seu humor peculiar e sua habilidade de ser erudito de forma divertida, transforma os nobres em estudantes beneficiados por uma bolsa de estudos de uma fundação americana. Um deles é Robin, um ator brasileiro desempregado que, na companhia do americano Duck e do canadense Gavil, se mete em versões contemporâneas das trapalhadas dos nobres medievais.

Noite de Reis, a peça, narra a história de Viola, donzela que durante um naufrágio perde-se de seu irmão gêmeo Sebastião e vai parar numa ilha desconhecida, governada pelo Duque Orsino. Viola se disfarça de homem e vai trabalhar para o duque, por quem se apaixona. Mas ele está apaixonado pela Condessa Olívia, que logo se apaixona pelo simpático rapaz que leva os recados de Orsino, ou seja, a própria Viola. Está armada a confusão, tendo como tema a troca de identidade – uma constante shakesperiana. Já na história de Verissimo, que batizou seu livro com a tradução literal do original, Orsino é um cabeleireiro italiano que tem um salão em Paris e adora tudo que vem do Brasil. Viola vira Violeta, brasileira que pretende morar clandestinamente na França e cujo irmão gêmeo fica retido na alfândega. Sozinha e desesperada, tem o telefone de um contato que promete lhe arrumar um emprego na salão de Orsino. Só tem um problema... ele só contrata homens! O resto vocês já podem imaginar. O grande diferencial é o fato de todas essas peripécias serem narradas por Henri, um papagaio metido a intelectual.

A lírica Sonho de Uma Noite de Verão narra os desencontros amorosos de dois pares: Hérmia, que é prometida a Demétrio mas ama Lisandro; Lisandro, que a ama mas não tem a aprovação de seu pai; Demétrio, que abandonou Helena em prol de Hérmia; e Helena, que ainda ama Demétrio loucamente. Interferindo na sorte dos amantes e criando ainda mais confusão, o ciumento rei dos elfos, Oberon, e sua geniosa consorte Titânia, rainha das fadas. Adriana Falcão transformou Titânia, Oberon e seu séquito em moradores do Olimpo que, seguindo ordens de Hera, descem à Terra numa comitiva que tem como objetivo investigar a existência dos seres humanos, depois que uma pesquisa de opinião revelou que 52% dos espíritos acham que os mortais não existem. Eles têm exatamente quatro dias para cumprir sua pesquisa. Animados, se lançam na Terra e caem em Salvador, em meio à loucura do carnaval baiano. É claro que o leitor que conhecer as obras originais vai se divertir em dobro, mas as tramas não são excludentes. Basta saber apreciar uma história bem-humorada e inteligente.

Sicko – SOS Saúde


O provocador Michael Moore está de volta. Depois de investigar a fascinação dos americanos por armas de fogo em Tiros em Columbine e cutucar o governo Bush em Fahrenheit 11 de Setembro, o mais polêmico dos documentaristas agora coloca na berlinda o precário sistema de saúde de seu país. A partir de depoimentos de pessoas que tiveram suas vidas arrasadas pelo perverso esquema dos planos de saúde (não existe saúde pública nos EUA), Moore expõe as vísceras de um sistema pautado pelo lucro a qualquer preço. E, pior, com a benevolência do governo. Uma vez traçado o painel da caríssima saúde privada americana, o cineasta faz um levantamento de como funcionam as coisas em países onde o sistema de saúde é estatal e, portanto, gratuito. Moore visita Canadá (aliás, seu país comparativo por excelência), Inglaterra, França e até mesmo Cuba.

Michael Moore sempre dividiu opiniões. Os que se identificam com o seu estilo cara-de-pau costumam gostar de todos os seus filmes. Já os que o consideram um farsante geralmente detestam sua obra por completo. É claro que Moore é tendencioso em seus documentários e está longe de ser um observador imparcial do que denuncia, mas, por outro lado, é preciso considerar os objetos de suas denúncias. Indústria bélica, governo Bush, sistema de saúde... Ou seja, inegáveis escroques. E Moore faz esses caras de palhaços, torce suas declarações, os persegue com suas perguntas indiscretas. E se ele se excede aqui ou ali... Bom, é muito divertido quando isso acontece.

SOS Saúde está longe de ser muito barulho por nada. Podemos dizer que o sistema americano de saúde consegue ser tão ruim – ou pior – que o brasileiro. Funcionários orientados a buscar brechas para lesar o associado, a ponto de uma empresa ter um bônus oficial para o examinador que negar mais solicitações. Pessoas endividadas porque tiveram o azar de ficar doentes. Pessoas mortas antes que a burocracia se resolva. E até mesmo um hospital com um inventivo método de expulsão de pacientes que não têm como pagar pela internação. Um circo de horrores. Apelativo? Não. Revoltante.

Depois de enumerar as canalhices das empresas americanas, o filme fica ainda mais pungente quando compara tais perversões com a eficiência humanitária de países onde o governo arca com esses custos. Os canadenses, ali do lado, com seus hospitais totalmente gratuitos, têm verdadeiro pavor de ir aos Estados Unidos e precisar de atendimento médico. Franceses e ingleses idem. Mas a comparação mais irônica e provocante é feita com os demonizados cubanos. Uma das imagens mais impactantes é a da mulher americana que chora de indignação quando descobre que o remédio pelo qual paga religiosamente U$ 120 em seu país custa o equivalente a cinco centavos em qualquer farmácia cubana.

Além da denúncia aos interesses corporativos e da omissão – ou corrupção – governamental, SOS Saúde também é uma sátira corrosiva. Michael Moore tem um talento especial para mesclar suas denúncias com um humor anárquico e uma edição de imagens genial. Simplesmente imperdível.

Ponto de Vista


Quando assisti pela primeira vez ao trailer de Ponto de Vista, o filme não me atraiu muito. Pode parecer preconceito (e talvez seja), mas a primeira idéia que tive quando vi aqueles maneirismos de câmera foi a mesma que tenho dos trabalhos recentes de Tony Scott: um primor de estilo e pirotecnia porém deficiente de conteúdo. Ou seja, temi por mais um blockbuster repleto de explosões barulhentíssimas para desviar o foco do fato de não ter um bom roteiro. Mas aí o longa estreou nos States fazendo grande estardalhaço e polpudas bilheterias. OK. Talvez Ponto de Vista e eu tivéssemos tido um mau começo, apenas isso.

O princípio parecia desfazer a má impressão inicial. Um súbito atentado logo nos primeiros minutos deixa personagens e espectadores igualmente atônitos. A trama é a seguinte: o presidente dos Estados Unidos está na Espanha para participar de uma conferência com líderes do mundo inteiro sobre o combate ao terrorismo. Uma multidão imensa cerca o local: turistas, manifestantes, repórteres. E tão logo sobe ao púlpito, antes mesmo de abrir a boca, o homem mais poderoso do planeta é baleado.

A partir desse acontecimento, o filme retorna no tempo para mostrar o ponto de vista de oito pessoas diferentes. Dentre elas, temos: uma chefe de reportagem que viu tudo através de diversas câmeras; um agente do serviço secreto que está retornando ao serviço depois de ter sido baleado para proteger o mesmo presidente; um turista americano que está na Europa para repensar o casamento e filmou coisas suspeitas com sua câmera de mão; e até mesmo o próprio presidente atingido. A partir da junção da perspectiva individual das oito testemunhas é que se deve chegar a uma versão definitiva do que ocorreu.

O argumento é bom, de fato. E os primeiros pontos de vista são realmente os melhores, especialmente o segmento que mostra a verdade sobre o atentado – vinda do próprio baleado. Só que, lá pela metade do filme, ninguém agüenta mais toda hora ver o relógio voltando para as 11h59 daquele dia, principalmente pelo fato dos blocos estarem ficando cada vez menos interessantes. O que faz com que o filme comece a apelar para tiroteios e intermináveis perseguições, seja a pé ou de carros. Sem brincadeira, tem uma seqüência de perseguição de carros que deve durar uns quinze minutos. E tome derrapagem, colisão e capotagem. Só isso, minuto após minuto. É insuportável, o espectador só não corre o risco de dormir porque a zoeira nos tímpanos não deixa.

Mas esse não é o único problema do filme. Ponto de Vista vai se afundando numa montanha de clichês conforme o filme avança e o que parecia apontar para uma crítica ao jogo do poder se limita ao velho maniqueísmo que opõe democratas ianques a terroristas impiedosos. Os personagens se apresentam de acordo com os velhos estereótipos: os terroristas são realmente fanáticos que não respeitam nada; os americanos tentam ser pacíficos até serem "obrigados" a retaliar; existe sempre um agente do serviço secreto infalível para desvendar as mais intrincadas conspirações; etc. E os personagens que não são óbvios carecem de conteúdo ou maiores explicações, como é o caso do segurança do prefeito. Até que ponto aquele homem é inocente? Taí um personagem sobre o qual queremos saber alguma coisa, mas sua história simplesmente é deixada ao acaso.

O que mais chama atenção, no final das contas, é ver atores talentosos desperdiçados em papéis obtusos. Como é possível que Forest Whitaker, vencedor do Oscar do ano passado pelo seu incrível trabalho em O Último Rei da Escócia, concorde em interpretar um idiota aparvalhado que acha que está fazendo grande coisa apenas porque filmou um vulto numa janela? É de chorar de rir a cena em que ele entrega a criança perdida para uma policial de verdade e diz "agora eu tenho que ir ajudar a polícia". E o que dizer do clássico telefonema para a mulher do tipo "agora que vi a desgraça alheia, percebi que te amo"? Sem contar que as motivações do personagem - que diz estar na Europa dando um tempo no casamento - são rasas e mal-explicadas. Também temos no elenco o espanhol Eduardo Noriega, astro de filmes como O Que Você Faria?, Plata Quemada e Abre los Ojos (o Vanilla Sky original), que aparece aqui como o segurança que se envolveu com quem não devia. Mas esses dois ainda têm um fiapo de história, por mais insatisfatório que seja, enquanto a chefe de reportagem interpretada por Sigourney Weaver simplesmente não existe como personagem.

Pete Travis, diretor de TV, faz sua estréia na telona com esse filme chamativo e barulhento, porém insosso em termos de trama. O espectador que quiser exercitar na ficção o tema de um presidente americano sendo baleado tem como melhor opção o provocador A Morte de George W. Bush. Um falso documentário que parte de um fato que não ocorreu, mas constrói uma realidade alternativa muito plausível.

O Malandro na Praça Outra Vez


Um baiano de nome alemão e gingado carioca tem deixado o público que lota o Teatro Carlos Gomes, de quinta a domingo, de queixo caído. A peça é A Ópera do Malandro e o rapaz que vem causando tamanho rebuliço é Alexandre Schumacher, protagonista do espetáculo. O ator, aos 29 anos, é o terceiro a incorporar o malandro Max Overseas. Seus antecessores foram Otávio Augusto (na 1ª montagem) e Edson Celulari (no cinema). Mas não se enganem com o fato do moço ainda ser pouco conhecido, pois ele tem uma carreira teatral muito bem sedimentada, que começou há cerca de 13 anos em Salvador. Falante e simpático, o ator concedeu esta entrevista exclusiva, em que fala sobre cinema, teatro, filosofia y otras cositas más.

Sentado num dos sofás do saguão do teatro, o ator relembra com carinho sua trajetória. Seu primeiro contato com o teatro foi através de um curso livre. “Na verdade, eu não tinha a menor noção do que era teatro. Vim de uma família onde nunca houve essa preocupação com a arte. Eu morava em Salvador, e um dia descobri no meu bairro um curso. Entrei e achei aquilo muito interessante”. A seguir, fez um profissionalizante de um ano na Universidade Federal da Bahia. Após participar de trabalhos importantes em Salvador, Schumacher resolveu fazer teste para a companhia de Antunes Filho, em São Paulo. Foi aprovado na concorrida seleção (700 pessoas para 16 vagas), e não parou mais. Fez três peças com Gabriel Vilella: Mary Stuart, onde contracenava com Renata Sorrah e Xuxa Lopes; Ventania, baseada na famosa obra dos anos 60 Hoje é Dia de Rock; e protagonizou o clássico de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina. Também consta do currículo de Alexandre, dentre outros trabalhos, o grande sucesso Os Cafajestes.

Morando no Rio desde 1997, Alexandre já perdeu qualquer vestígio do tão característico sotaque baiano. Brincalhão, diz que já se considera um “baioca” e que sempre tentou não ter sotaque algum: “Infelizmente, existe este preconceito. Se eu tivesse sotaque, não só baiano, mas do sul, de Minas, ou de qualquer lugar, já teria perdido muitos trabalhos. Clássicos, principalmente.”

O ator, que tinha quatro anos na época da primeira montagem da Ópera do Malandro, demonstra ter tido uma postura mais intuitiva para criar a versão século XXI do Max: “Não deu para me basear em nada. O filme, que eu gosto muito, vi há muitos anos. Eu não tinha muito material para buscar, a não ser o próprio texto, e comecei a investigar o que levava o Max a ser o que ele é (...) Eu descobri que o que move esse homem é o desejo. Então eu li alguma coisa do Deleuze, um filósofo francês que fala sobre desejo e sobre o quanto ele pode te impulsionar para a frente e o quanto pode até matar. É o que acontece com o Max. O Max é morto pelo excesso de desejo.”

Alexandre explica que também se inspirou no movimento de alguns animais para compor a estética do personagem. A graça felina com que o ator se move não é mero acaso: “É, ele tem essa energia felina. Ele é o leão protetor e o leão ferido, também, quando se sente abandonado pelas pessoas que, na cabeça dele, ele protegeu por tanto tempo. Eu não queria o Max um malandro estereotipado, isso todo mundo já viu e não ia levar a lugar nenhum. Malandro, para mim, é um cara que tem um jogo de cintura absurdo e consegue se sair de situações difíceis sem muito dano para ele.”

Quando perguntado sobre a sensualidade explícita de seu papel, o ator, embora não se sinta intimidado por Max, tem uma reação modesta. Diz que tem aprendido muito com o personagem e com a forma livre como ele vive: “Eu acho uma grande injustiça o que a gente faz com a gente. Suprimimos nossas vontades em função do outro, em função da sociedade e de padrões preestabelecidos. A gente vive em sociedade e tem que respeitar, mas há um limite. Eu acho que, quanto mais você suprime o seu desejo, menor você fica. Você fecha o seu campo de visão, você passa a viver com antolhos. E aí você não vive, sobrevive. E eu acho que é isso que faz o Max ser bonito e as mulheres gostarem dele. Eu queria muito que ele deixasse isso de herança para mim, porque, por mais que eu pense dessa maneira, uma coisa é teoria e outra coisa é prática. Espero que o tempo me ajude a respeitar cada vez mais os meus desejos. Mas sem magoar ninguém, é claro. Porque aí já foge do meu plano de vida completamente.”

Não bastasse interpretar um dos maiores personagens masculinos do teatro brasileiro, Alexandre também está expandindo sua carreira para uma área que ele considera sua nova paixão: o cinema. É com entusiasmo que ele fala sobre seu papel no filme Garrincha - Estrela Solitária: “Foi fantástico. Meu primeiro filme, e o Milton Alencar (diretor do longa) me deu um personagem lindo, que é o Nilton Santos. Acho que ele e a Elza Soares foram as pessoas mais importantes na vida do Garrincha. Eu não pude conhecer o Nilton, mas li muita coisa sobre ele e conversamos por telefone. Eu acabei construindo o personagem com puro afeto. Era um cara que tinha um amor incondicional pelo Garrincha, até mesmo por já estar nesse mundo do futebol há mais tempo.”

Finalmente, falamos sobre o dado que tanto impressiona: o ator foi escolhido para protagonizar a “Ópera” através de testes, tendo derrotado mais de 200 concorrentes. Peço que ele revele, deixando a modéstia de lado, o segredo de seu sucesso:

“Simplicidade. Eu cheguei à conclusão de que para você conseguir algo complexo, rebuscado, apurado, o melhor caminho é a simplicidade. Eu fui o mais simples que eu pude, porque a simplicidade está mais próxima da verdade. E, dentro da arte, o que as pessoas querem ver é só uma coisa: verdade. Talvez por isso o Charles e o Cláudio (Charles Möeller e Cláudio Botelho, diretores da peça) tenham me dado o Max. Evitei o maniqueísmo também. A minha idéia quando fiz o Max era humanizá-lo completamente. Transformar ele num homem como outro qualquer, com seu lado bacana e seu lado ruim. É óbvio que todo mundo tem um lado que predomina. No caso do Max, eu acho que é o lado positivo.”

É hora de encerrar a entrevista e dele se preparar para entrar em cena. As pessoas começam a chegar no teatro. Mais um dia de casa lotada, e deve ser assim até o fim da temporada. Fica a certeza de que ainda vamos ouvir falar muito do talentoso Alexandre Schumacher.

(entrevista feita originalmente em agosto de 2003)

segunda-feira, 31 de março de 2008

Sem Reservas


O cinema americano sempre adorou refilmagens. Alguns dos produtos mais célebres que Hollywood produziu tiveram até três versões diferentes, como é o caso de Duas Vidas (posteriormente, Tarde Demais para Esquecer e Love Affair – Segredos do Coração) e Ana e o Rei do Sião (depois, O Rei e Eu e Anna e o Rei). Mas a eterna febre por remakes vem ganhando uma feição inusitada nos últimos anos: agora os americanos andam se especializando em refazer filmes europeus lançados pouquíssimos anos antes. Ou seja: pegam um filme independente que fez sucesso no circuitinho dos cinemas de arte, mas não atingiu o grande público, e fazem um clone americano. Geralmente, igualzinho ao original. Aliás, isso tem acontecido não apenas com filmes europeus. O excelente longa argentino Nove Rainhas (2000) foi transmutado sem a menor cerimônia no fraquinho Criminal apenas quatro anos depois. Considerando essa preguiça intelectual, foi com uma certa má-vontade que fui assistir a Sem Reservas, primo ianque do alemão Simplesmente Martha (2001). Mas não é que dessa vez a receita não desandou?

A protagonista dessa nova versão é Kate Armstrong, a talentosa e estressada chef de um dos melhores restaurantes de Nova Iorque. Enquanto a carreira vai de vento em popa, a vida pessoal é inexistente. Seu temperamento obsessivo e controlador entra em choque quando o animado subchef Nick invade sua cozinha e logo conquista todos com seu jeito empolgado e descontraído. Ao mesmo tempo, Kate tem que lidar com a inesperada responsabilidade de criar Zoe, sua sobrinha de 9 anos.

A história é praticamente gêmea à do longa alemão, com direito inclusive a seqüências idênticas. Mas, de alguma forma, Sem Reservas consegue ser um filme mais simpático do que seu inspirador. Certamente isso se deve ao muito bem escolhido elenco. Aaron Eckhart (o canalha charmoso de Obrigado por Fumar) é infinitamente mais carismático e também melhor ator do que Sergio Castellito. Outro ponto negativo de Simplesmente Martha era a sem-gracice da menininha alemã, aqui substituída pela fofíssima Abigail Breslin – indicada ao Oscar do ano passado por Pequena Miss Sunshine. Até mesmo Catherine Zeta-Jones, que não é uma atriz que se pode chamar de "simpática", consegue criar identificação com a mulher moderna, consumida pela vida profissional, ao se mostrar levemente desarrumada e sem o seu habitual ar de grande dama na maioria das cenas. Sem contar que seu característico jeito mal-humorado casa perfeitamente com a personagem.

A única coisa que se perdeu na transferência de cenário foi a piada do choque de culturas. No filme original, o personagem de Castellito atraía tanta atenção pelo fato de ser um escandaloso italiano no meio de contidos alemães. Mas a verdade é que isso não fez tanta falta no resultado final. O roteiro de Sem Reservas também foi sábio ao extirpar a subtrama envolvendo o pai da sobrinha da protagonista, já que esse desvio, além de desnecessário, conferia uma certa pieguice ao filme.

O diretor Scott Hicks, que é mais conhecido pelo conturbado Shine - Brilhante (1996), mostra aqui que sabe filmar com leveza também. E essa é a melhor palavra para definir o filme: leveza. Uma comédia romântica de receita bem parecida com tantas outras, mas que acaba agradando ao paladar por possuir os ingredientes certos. Recomenda-se consumir. Sem reservas.

Sangue no Pescoço do Gato


A Escola de Teatro Leonardo Alves (ETLA), no Catete, vem apresentando espetáculos de formatura que conquistam o público pela originalidade e ousadia. A peça atual é Sangue no Pescoço do Gato, um texto do cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder. Phoebe, um espírito, é enviada à Terra com a difícil missão de compreender a condição humana. Embora ela tenha aprendido as palavras, não entende o significado das mesmas. Uma vez em meio à diversidade de tipos e personalidades que compõem a espécie humana, Phoebe observa as pessoas e tenta aprender os sentimentos humanos através delas. Mas como um espírito inocente absorveria nossas contradições e incoerências?

Já os tipos "humanos" são arquétipos, máscaras que muitas pessoas usam para definir os outros ou até mesmo a si próprias. O policial tem uma exagerada masculinidade; o açougueiro visa o dinheiro para disfarçar as carências; o gigolô satisfaz os outros, mas só pensa em si próprio; as amantes entregam o corpo, mas não o coração; o soldado precisa de ordem e comandos para que sua vida tenha sentido; a mocinha não sabe exatamente o que fazer com a mulher que começa a surgir; o professor sabe tudo de literatura e nada de inteligência emocional; a modelo acha que sua vida só terá sentido enquanto for bela; e a viúva do soldado se acostumou demais a ser a esposa de alguém.

A direção é de Marcio Moreira que, além de professor de interpretação da escola, foi um dos criadores do espetáculo Expectantes, sucesso da Fundição Progresso no ano passado. A concepção da peça é pop, moderna. Logo de início, chama atenção o uso de um telão que alterna imagens dos personagens propriamente ditos – mostrando uma espécie de lado oculto de cada um – com outras dos atores se preparando, além de um pout-pourri de imagens da mídia que vão desde Osama Bin Laden a Hebe Camargo, passando por trechos do Hamlet de Laurence Olivier. Ou seja: aquela salada ali é o mundo, com tudo de bom e ruim que nele existe. É. Phoebe está em apuros, coitada.

O elenco demonstra uma segurança que nem sempre é comum em espetáculos de formatura e encara com coragem e atitude profissional as dificuldades de um texto fragmentado e provocador. Figura central do elenco no papel de Phoebe, a irretocável Lanna Jacomo chama atenção por sua incrível expressão corporal e facial. A atriz inclusive fica boa parte da peça sem falar e, mesmo assim, consegue ter a platéia na palma da mão. Muito bem estudado o modo como a personagem começa a peça meio "dura" – estilo bonequinho playmobil – e, conforme observa as pessoas, vai ganhando contornos mais maleáveis. O elenco é afinado em geral, com destaque especial para o desprendimento de Rafhael Garcez (que faz um strip-tease que anda dando o que falar), a energia de Marcelo José, a presença cênica de Silvana Medeiros e a veia cômica de Marcel Cavalcante.

O espetáculo tem mais uma apresentação neste sábado, dia 5, às 20h, com entrada franca. Mas essa não é a última chance de assistir à peça. Em breve haverá uma temporada na Fundição Progresso, em datas a serem definidas ainda. A ETLA fica na Rua Corrêa Dutra, 99, sobreloja.

Sangue no Pescoço do Gato, de Rainer Werner Fassbinder. Direção: Marcio Moreira, com assistência de Yuri Calandrino e Raphael Pinta. Trilha sonora: Katia Jorgensen. Produção: ETLA. Elenco: Esthevan Poubel, Karine Coelho, Lanna Jacomo, Luana Duccini, Lucas Abbondati, Marcel Cavalcante, Marcelo José, Marcia Borges, Rafhael Garcez, Roberta Moreira e Silvana Medeiros. 90 minutos.