segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Aperitivo

Penélope Cruz, Scarlett Johansson e Javier Bardem estrelam novo longa de Woody Allen

Como uma pequena amostra do que vem por aí, a equipe do Festival do Rio já divulga alguns títulos que devem fazer a alegria do cinéfilo. Tem os novos filmes de Woody Allen, irmãos Coen, Jonathan Demme, Isabel Coixet, Francis Ford Coppola, além de cineastas latinos de peso como Lucrecia Martel e Pablo Trapero. No quesito expectativa, tem a estréia na direção do cultuado roteirista Charlie Kaufman. Confiram abaixo alguns títulos mais conhecidos:

Desierto Adentro, de Rodrigo Plá
El Nido Vacio, de Daniel Burman
Elegy, de Isabel Coixet
Filth and Wisdom, de Madonna
La Leonera, de Pablo Trapero
La Mujer Sin Cabeza, de Lucrecia Martel
Les Amours d'Astrée et de Céladon, de Eric Rohmer
Plus Tard, Tu Comprendras..., de Amos Gitaï
Queime Depois de Ler (Burn After Reading), de Joel e Ethan Coen
Rachel Getting Married, de Jonathan Demme
RocknRolla, de Guy Ritchie
Synecdoche, New York, de Charlie Kaufman
Última Parada: 174, de Bruno Barreto (filme de abertura)
Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen
Youth without Youth, de Francis Ford Coppola

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira


Eu sei que José Saramago é um autor aclamado, com fãs pelo mundo inteiro. Tampouco ignoro o fato de que o escritor português tem um Nobel de Literatura na sua estante. Respeitado pela crítica e mais ainda pelos intelectuais, não raro a obra de Saramago é adjetivada de genial. Talvez seja. Mas eu não me identifico com ela. No caso de Ensaio Sobre a Cegueira, me incomoda sobretudo a grande alegoria sobre “cegueira para enxergar de verdade” que é o tema central da obra. Para mim, soa bíblico demais. Posto isso, não é preciso dizer que não fiquei muito empolgada quando soube que Fernando Meirelles resolvera filmar esse livro. Está estabelecida a saia-justa: como analisar objetivamente um filme que parte de uma história da qual você não gosta?

A trama (rodada em São Paulo) é situada em uma cidade indefinida que é vitimada por uma inexplicável epidemia de cegueira. Com a diferença de que, ao invés de escuridão, os infectados vêem tudo branco. O governo tenta deter a doença por meio do isolamento, trancafiando os afetados. O que pouco adianta, já que a cegueira continua se alastrando. A situação-limite reduz os cidadãos a feras lutando pela sobrevivência e logo surgem oportunistas e ditadores querendo tirar proveito do pânico alheio. Em meio ao caos e destruição, a esposa de um oftalmologista é a única imune à estranha moléstia.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que Meirelles expressa a competência habitual neste seu novo trabalho. Depois de radiografar a escalada do tráfico numa favela e os crimes de um império farmacêutico contra os miseráveis na África, o cineasta agora volta seus dotes criativos para o desmoronar de toda uma sociedade dita civilizada. Sua visão de uma cidade mergulhada no caos é assustadoramente real, sem o distanciamento sci-fi que costuma estar associado a esse tipo de narrativa. Aquela cidade sem nome poderia estar em qualquer ponto do planeta, assim como aquele homem que pára o carro na cena de abertura e exclama “estou cego” poderia ser qualquer pessoa. Poderia ser você. A direção de arte perfeita nos põe frente a frente com uma visão de São Paulo entregue a um nível de primitivismo totalmente desconhecido, porém facilmente imaginável. E descobrir que o vazio nas ruas pode ser muito mais opressivo do que o trânsito, a fumaça e as buzinas é bastante perturbador.

O diretor de fotografia César Charlone (assim como Fernando, indicado ao Oscar por Cidade de Deus) usa sua experiência e talento para criar um visual saturado, esbranquiçado, asséptico, que contrasta com as condições de abandono a que são submetidos os cativos e também com a crescente violência que leva aquelas pessoas a um reinado de barbárie. A brancura, ao invés das trevas. Só que o terror inspirado é o mesmo.

O filme é dirigido com capricho, fotografado com arrojo, bem interpretado (a surpresa é o geralmente fraco Mark Ruffalo) e, a despeito de todas as suas qualidades técnicas, não consegue empolgar. Por quê? Volto ao tema inicial. O que incomoda não é nem o fato da tal epidemia não ter motivo para ocorrer, já que a humanidade enfrentou pragas desconhecidas de todos os tipos desde que o mundo é mundo. OK, eu também sei que a cegueira que assola as pessoas é uma metáfora do quanto a humanidade está cega para o que realmente importa, e as pessoas precisam passar por aquela provação para “enxergarem de verdade”. É bíblico, muito bíblico. E moralista também (sensação reforçada ainda mais pelo desfecho). E qual seria o sentido da mulher que enxerga? A personagem não é descrita como alguém essencialmente especial. Ela simplesmente é imune, e pronto. A escolhida. Mas, enfim, nada disso é culpa do filme propriamente dito. Fernando Meirelles é um grande diretor e fez um bom trabalho, embora esteja aquém dos resultados obtidos com uma obra-prima como Cidade de Deus ou um trabalho forte e coerente como O Jardineiro Fiel.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Delírios


Quase um ano depois de ser exibido no Festival do Rio, chega às telas Delírios (estréia nesta sexta). O protagonista é Les Galantine, um paparazzo de segunda categoria que uma noite acolhe em seu apartamento o sem-teto Toby. Les o emprega como seu assistente e, embora não pague ao rapaz um salário, lhe dá casa e comida, além de começar a desenvolver uma forte afeição por ele. Toby sonha ser ator e, num incrível lance de sorte, consegue se aproximar da estrela pop Kharma. É quando começam os conflitos entre Toby e Les e as cobranças deste, que se sente usado.

O filme até que começa bem, enfocando o modo inusitado como começa a amizade entre Les e Toby e a rapidez espantosa com que eles passam de conhecidos a companheiros inseparáveis, justamente por serem ambos dois rejeitados. Parecia que vinha pela frente uma história sensível e realista. Inexplicavelmente, em sua segunda metade o longa começa a atirar para todas as direções. Bastidores das celebridades, romance água com açúcar, desvios para uma obsessão criminosa, além de insinuações muito tímidas de um interesse homossexual por parte de Les. Todos temas interessantíssimos de serem explorados. O problema é que nada disso é abordado de fato, diretamente. O filme ameaça, ameaça… e não cumpre nada. Salvam-se algumas (poucas) tiradas cômicas, especialmente nas falas do personagem de Steve Buscemi. Buscemi é bom ator, mas não faz milagre.

Apesar de seus incontáveis tropeços, Delírios foi vencedor dos prêmios de direção e roteiro no Festival de San Sebastian 2006. O Festival de San Sebastian precisa rever urgentemente seus parâmetros, porque é assustador que um filme como esse tenha faturado dois prêmios importantes.

Catorze Filmes na Disputa


Catorze filmes brasileiros se candidataram para ser o representante do Brasil no próximo Oscar e, assim, brigar por uma das cinco vagas da categoria Filme Estrangeiro. Os longas agora serão avaliados por uma comissão e o Ministério da Cultura deve anunciar o escolhido no dia 16 de setembro.

Os inscritos são:

A Casa de Alice, de Chico Teixera
A Via Láctea, de Lina Chamie
Chega de Saudade, de Laís Bodanski
Era Uma Vez, de Breno Silveira
Estômago, de Marcos Jorge
Meu Nome não é Johnny, de Mauro Lima
Mutum, de Sandra Kogut
Nossa Vida Não Cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro
Olho de Boi, de Hermano Penna
Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
O Passado, de Hector Babenco
Os Desafinados, de Walter Lima Júnior
O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli
Última Parada 174, de Bruno Barreto

Fazendo a ressalva de que, dentre os catorze, há um longa que ainda não foi exibido no Brasil (Última Parada 174), gostaria de emitir duas opiniões sobre os concorrentes. A primeira é que considero Estômago o melhor dos treze filmes que assisti. Disparado. A segunda é que, levando em conta o caráter de regionalismo e "tempero" brasileiro que compõe grande parte do humor do filme de Marcos Jorge, acho que ele não seria um candidato que cairia facilmente no gosto dos americanos, mesmo sendo o melhor filme. E aí talvez fosse mais inteligente eleger um longa como Meu Nome Não é Johnny - que, diga-se de passagem, também é um ótimo filme.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sombras de Goya


Chega esta semana às locadoras Sombras de Goya, filme que passou meio despercebido quando esteve em circuito no final do ano passado. Provavelmente porque não foi uma decisão das mais sábias colocar um longa tão sombrio nos cinemas em meio às festas de fim de ano. Fazer o quê? Nessa época do ano, mais do que em qualquer outra, as pessoas querem acreditar que o mundo é um lugar feliz.

O filme retrata um período de cerca de quinze anos do início do século XIX, desde o radicalismo da Inquisição espanhola até a conquista do país pelas tropas de Napoleão e a posterior invasão britânica. Em meio às turbulências políticas e religiosas, o genial pintor Francisco de Goya serve de fio condutor da história. Primeiro quando uma de suas musas, a jovem Inés, é presa e torturada sob uma falsa acusação de heresia. Posteriormente o rígido Frei Lorenzo, também retratado pelo pintor, passa de algoz a perseguido. E Goya, observador atento de seu tempo, retrata em suas gravuras e quadros os horrores da guerra, a brutalidade da Inquisição e, principalmente, os fantasmas que o atormentam.

Um belo filme, ainda que salpicado de deficiências. Dois defeitos se sobressaem: em primeiro lugar, o título induz a um erro. A trama não é centrada na biografia e trajetória de Goya, ele é apenas uma espécie de narrador (ou testemunha) dos fatos. O segundo – e mais grave – é o fato do roteiro, ao tentar abranger um período repleto de reviravoltas políticas, acabar expondo-as na tela com uma rapidez que desnorteia o espectador e quebra bastante a narrativa. Como se os personagens fossem deixados de lado por um tempo para situar os inúmeros acontecimentos sociais e políticos.

Mas tais falhas não chegam a desmerecer o filme, dirigido com competência por Milos Forman e belamente interpretado pelo elenco – com destaque para Javier Bardem. Sombras de Goya também merece aplausos por familiarizar a platéia com algumas das grandes obras da época. Não apenas as de Goya, mas também as de outros pintores importantes como O Jardim das Delícias, de Bosch, e As Meninas, de Velasquéz. Sem contar que uma das melhores seqüências do filme mostra passo-a-passo o processo de confecção de uma gravura. Fascinante.

domingo, 7 de setembro de 2008

Mais Filmes no Festival

Madonna com Eugene Hutz, protagonista de Filth and Wisdom

Segundo informações publicadas no Globo On Line, começam a ser anunciadas as primeiras atrações internacionais do Festival do Rio deste ano. Uma das novidades é a presença da diva Madonna em duas produções: antes de pisar o palco do Maracanã em dezembro, a loura dá o ar da graça como diretora em Filth and Wisdom e produtora no documentário I Am Because We Are. Outra novidade bastante aguardada é The Burning Plan, que marca a estréia na direção de Guillermo Arriaga, roteirista de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. O longa segue o estilo de roteiro-mosaico já consagrado por Arriaga nos filmes de Alejandro González Iñárritu. Também virão para o evento quatro longas que foram sensação no Sundance Festival. São eles: Mermaid, The Wackness, Sleep Dealer e Ballast. Outro título que deve chamar atenção é They Killed Sister Dorothy, documentário realizado pelo americano Daniel Junge sobre o assassinato da missionária Dorothy Stang. Já a cinematografia homenageada do ano será a britânica, trazendo grande número de filmes ingleses e uma retrospectiva de Derek Jarman, cineasta polêmico falecido em 1994.

O Festival do Rio vai de 26 de setembro a 9 de outubro e, durante esse período, o Artes & Subversão se dedicará exclusivamente a notícias, críticas e análises sobre o evento.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Linha de Passe


Linha de Passe vem sendo gestado por seus diretores, Walter Salles e Daniela Thomas, desde 2002, antes de Salles rodar Diários de Motocicleta. A história acompanha cerca de seis meses na vida de uma família formada por uma mãe solteira e seus quatro filhos que vive na periferia de São Paulo. Dênis, o irmão mais velho, trabalha como motoboy e já é pai, o que faz com que seu dinheiro seja sempre escasso; Dinho é frentista em um posto de gasolina e se esforça bravamente para ser bom e se comportar de acordo com sua religião evangélica; Dario sonha tornar-se jogador de futebol profissional, mas vê suas oportunidades rarearem ao completar 18 anos; e Reginaldo é obcecado com a idéia de conhecer o pai, tendo como única pista o fato dele ser motorista de ônibus. Cleuza, a mãe, tem 42 anos, está grávida do quinto filho e trabalha como empregada doméstica num bairro de luxo muito longe de onde mora.

Uma das qualidades mais evidentes da filmografia de Walter Salles é o modo como ele consegue extrair pungência da simplicidade, sem depender de um conflito poderoso, fora do normal, para fazer com que o espectador se emocione com suas histórias. E Linha de Passe é um filme que comove justamente através das pequenas dores e alegrias cotidianas de pessoas absolutamente comuns. À primeira vista, nenhum daqueles garotos parece especial. E não são mesmo. Mesmo Dario, o único dos filhos caracterizado por ter algum talento específico, não chega a ser um prodígio no futebol. Ele é bom sim, mas como muitos outros garotos de sua idade. E o que ele transmite é que o futebol seria mais um meio de sobrevivência do que propriamente uma paixão. Afinal de contas, a dureza da vida de sua mãe e seus irmãos mais velhos é o maior de todos os exemplos.

Aos poucos, o espectador se envolve com cada bola na trave que cruza a vida daquelas cinco pessoas. Se comove ao ver Dênis, um rapaz essencialmente bom, ser tentado a obter dinheiro fácil e, desse modo, evitar as cobranças diárias e o olhar de censura da mãe de seu filho. Se angustia ao acompanhar a obsessão do pequeno Reginaldo, que busca a figura paterna ausente a todo custo. Se incomoda com o fanatismo de Dinho, que parece ser o único escudo que o mantém afastado de uma vida desregrada. Não entende como aquela mãe tão trabalhadora cai na besteira de arrumar um quinto filho sem pai. Mas a essa altura você, espectador, não quer mais julgar aquelas pessoas. Porque já gosta delas. Se preocupa. Quer que elas encontrem um caminho para vir à tona.


A paulista Sandra Corveloni, integrante do Grupo Tapa, foi premiada no Festival de Cannes como melhor atriz por este papel que é sua estréia no cinema. Mas a atuação de Sandra talvez não fosse tão intensa se ela não estivesse cercada de quatro talentosíssimos jovens atores. Vinícius de Oliveira, o Josué de Central do Brasil, cresceu e apareceu e neste filme interpreta Dario. Contracenam com ele os estudantes de artes dramáticas João Baldasserini (Dênis) e José Geraldo Rodrigues (Dinho) e a grande revelação Kaique de Jesus Santos, o Reginaldo. O garoto, que até então não tinha atuado nem em peça de escola, demonstra uma segurança e espontaneidade de fazer inveja a muito veterano. Destaque para a cena em que ele faz birra com Dario para dizer a data de um teste. Hilário.

Com todo o envolvimento que sentimos ao assistir ao filme, o desfecho que não é exatamente um desfecho deixa uma certa desorientação no ar. Em especial no que diz respeito à trajetória do personagem Dinho, que sofre uma reviravolta que parece ficar perdida depois. Também Cleuza deixa a trama de um modo aquém do esperado. Em compensação, a trajetória de Dênis é a mais emocionante de todas, culminando numa belíssima e intensa seqüência em que o rapaz mostra toda sua desesperança e tristeza perante uma vida que não está lhe dando muitas opções. Já Dario segue um caminho até previsível (o que é apropriado, sendo ele um personagem passivo por natureza) enquanto Reginaldo dá vazão a toda sua rebeldia contida num momento de pura poesia. Talvez a intenção dos diretores tenha sido exatamente essa: deixar algumas trajetórias mais definidas do que outras, assim como alguns personagens são mais ativos na trama do que outros. Deixando as especulações de lado, o certo é que Linha de Passe é um ótimo filme.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Festival do Rio divulga concorrentes

Daniel Oliveira em cena de A Festa da Menina Morta, estreia na direção de Matheus Nachtergaele

O Festival do Rio, que este ano acontecerá entre os dias 25 de setembro e 9 de outubro, já divulgou os filmes selecionados para sua mostra competitiva, a famosa e disputada Première Brasil. São oito longas na categoria ficção - com destaque para as estréias de Selton Mello e Matheus Nachtergaele na direção - e dez na categoria documentários. Confiram abaixo os selecionados:

Ficção:

A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele
Apenas o Fim, de Matheus Souza
Feliz Natal, de Selton Mello
Juventude, de Domingos Oliveira
Rinha, de Marcelo Galvão
Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte
Verônica, de Maurício Farias
Vingança, de Paulo Pons

Documentários:

Cantoras do Rádio, de Gil Baroni e Marcos Avellar
Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado, de Joel Zito Araújo
Contratempo, de Malu Mader e Mini Kerti
Estrada Real da Cachaça, de Pedro Urano
Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal, de Marco Abujamra
Loki - Arnaldo Baptista, de Paulo Fontenelle
Morrinho - Deus Sabe Tudo Mas Não é X9, de Fábio Gavião e Markão Oliveira
Palavra (En)Cantada, de Helena Solberg
Sentidos à Flor da Pele, de Evaldo Mocarzel
Titãs - A Vida Até Parece uma Festa, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves

Os Desafinados


Após uma inexplicável defasagem de três anos, chega aos cinemas Os Desafinados, novo longa de Walter Lima Jr. O cineasta andava meio sumido desde A Ostra e o Vento (1997), tendo feito nesse hiato de tempo alguns trabalhos esparsos para a TV. Mas a espera acabou tendo seu charme, já que fez com que Os Desafinados estreasse justo neste ano em que comemoramos os cinqüenta anos da bossa nova.

O título do filme se refere ao nome da banda formada por quatro amigos que, sonhando tocar no Carnegie Hall, se aventuram a tentar a sorte em Nova Iorque. Joaquim (Rodrigo Santoro) deixa a esposa grávida no Brasil; Davi (Angelo Paes Leme) é seu melhor amigo e parceiro em uma canção vendida para um produtor americano; Paulo Cesar (André Moraes) é filho de um militar que não vê com bons olhos suas aspirações artísticas; e Geraldo está cansado de seu trabalho no aeroporto. O quinto elemento da trupe é Dico (Selton Mello), um aspirante a cineasta louco para curtir a cidade e, de quebra, filmar os amigos com a câmera que pretende comprar. Uma vez na América, os rapazes buscam uma oportunidade ao mesmo tempo em que Joaquim se apaixona por Glória, uma cantora brasileira que se junta ao grupo.

Os Desafinados tem duas metades bem distintas: na primeira, tudo é sonho e poesia. Música, inocência, esperança e, sobretudo, leveza. Como não acreditar que tudo na vida vai dar certo ao som melodioso da bossa nova e tendo cenários como o Central Park embalando um lindo romance? Neste primeiro segmento, mesmo quando surgem problemas, eles parecem diminutos diante do otimismo reinante. E o personagem Joaquim é o maior exemplo disso, já que o rapaz parece apagar da sua mente o fato de que deixou uma esposa grávida no Brasil. Como se o romance com Glória estivesse acontecendo com outra pessoa, distinta do sujeito responsável que ele era no Brasil.

Depois de algum tempo, a saudade e problemas com a imigração trazem os desafinados de volta para casa. E o contraste não poderia ser mais brutal, já que os amigos voltam para um país que acaba de cair nas garras da ditadura. A partir desse momento, o filme muda radicalmente de tom. Acabam as tardes musicais e os romances inconseqüentes, é hora de encarar os problemas de frente. O novo clima é destacado principalmente através de Dico, que, a essa altura, se tornou um visionário a la Glauber Rocha. Também Joaquim não pode mais viver na terra do nunca, tendo agora Glória e sua esposa Luiza tão próximas uma da outra.


O maior trunfo de Os Desafinados é o excelente rendimento de todo o elenco, com destaque especial para a atuação luminosa de Rodrigo Santoro. Não só pelo fato de ter aprendido em tempo recorde a “enganar” no piano, gaita e violão – além de ser uma graça cantando –, mas pela emoção que passa atuando mesmo. Cláudia Abreu faz boa parceria com ele, mesmo tendo sido dublada pela cantora Branca Lima (filha do diretor) nas canções – o que, dizem, deixou a atriz chateada. Selton Mello empresta seu carisma habitual a um personagem que é responsável por grande parte do humor do longa com suas tiradas rápidas e debochadas, enquanto Angelo Paes Leme prova o quanto vem amadurecendo artisticamente nos últimos anos. Jair de Oliveira e André Moraes seguram bem a onda de atuar ao lado de atores bem mais experiente. Do time veterano, há que destacar como Arthur Kohl (o Dico do presente) conseguiu reproduzir com perfeição todo o gestual e modo de falar de Selton Mello. Impressionante.

O filme, como um todo, é bastante agradável e mantém o interesse do espectador, embora o ritmo caia um pouco lá pela metade (antes do retorno ao Brasil) e algumas passagens pareçam forçadas, como, por exemplo, o surgimento de um determinado personagem na última cena do filme. Mas nada que chegue a comprometer o resultado final.

sábado, 30 de agosto de 2008

O Nevoeiro


Fãs de Stephen King e dos filmes de terror em geral, alegrai-vos! Acaba de chegar ao circuito um dos melhores filmes do gênero feito nos últimos anos. O Nevoeiro foi escrito a partir de um conto publicado originalmente na coletânea Tripulação de Esqueletos, lançada em 1985, e é dirigido por Frank Darabont. Darabont, que dirigiu os ótimos Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre, certamente é o cara que até hoje melhor transpôs a obra do escritor para a telona, embora suas incursões anteriores não tivessem nada a ver com as famosas histórias de horror de King. Com O Nevoeiro, o diretor prova que é igualmente competente com o material sobrenatural de Stephen King.

David Drayton (interpretado pelo charmoso Thomas Jane) é um ilustrador de posters de cinema que vive em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos com a esposa e o filho pequeno, Billy. Após um forte vendaval que derruba árvores e danifica o sistema de comunicações, David vai com Billy e um vizinho até o supermercado buscar mantimentos. Enquanto estão no estabelecimento, a cidade é tomada por um estranho nevoeiro e eles ficam isolados junto com outros moradores dentro do supermercado. O terror se instala quando as pessoas descobrem que o nevoeiro abriga várias criaturas monstruosas. Mais incontrolável do que os monstros escondidos na névoa serão os conflitos gerados pela convivência forçada entre essas pessoas, quando submetidas ao pânico e confinamento.

O mais intenso na história não tem nada a ver com as assustadoras criaturas que cercam as pessoas dentro do supermercado e sim com as reações que os seres humanos têm quando confrontados com a luta pela sobrevivência. É sempre chocante constatar o quanto é frágil o verniz de civilização que cobre a sociedade. Como diz um personagem a certa altura, as pessoas são loucas por natureza. Basta tirá-las de ordem estabelecida. Também chama a atenção a personagem de Marcia Gay Harden (a melhor atriz em cena), uma fanática religiosa que se aproveita do terror do desconhecido para cooptar seguidores e proclamar-se mensageira de Deus.

Trata-se de um excelente filme de horror, calcado muito mais no que a situação causa às pessoas do que nos monstros propriamente ditos. O retorno a uma espécie de lei da selva revela preconceitos, expõe fragilidades e endurece corações, embora também cause aproximação entre os que são realmente solidários. Da crescente tensão até o final amargo, a névoa que encobre a razão e torna todos prisioneiros de seus próprios medos é, com certeza, uma grande metáfora de diversos momentos, sejam políticos ou sociais, vividos pela humanidade. E o desfecho perturbador e isento de concessões eleva ainda mais o nível de um filme que já se apresentava surpreendentemente bom, tornando-o um verdadeiro tratado sobre a natureza humana.