Os astros Benicio Del Toro e Rodrigo Santoro conversaram com a imprensa hoje a respeito de Che, longa de Steven Soderbergh que fecha a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme, que estava sendo aguardado para o Festival do Rio e acabou não dando as caras por aqui, tem mais de quatro horas de duração e só deve chegar aos cinemas brasileiros em 2009, dividido em duas partes. A primeira enfoca o papel de Che na Revolução Cubana; a segunda, sua trajetória na Bolívia, para onde foi com o intuito de fomentar uma grande revolução e acabou assassinado. Benicio Del Toro já está sendo apontado como forte candidato ao Oscar de melhor ator do próximo ano. Já Rodrigo Santoro interpreta Raúl Castro, irmão de Fidel e atual presidente cubano. Contém todas as críticas, matérias e entrevistas publicadas no extinto site Artes & Subversão, em atividade de 2008 a 2015
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Che em São Paulo
Os astros Benicio Del Toro e Rodrigo Santoro conversaram com a imprensa hoje a respeito de Che, longa de Steven Soderbergh que fecha a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme, que estava sendo aguardado para o Festival do Rio e acabou não dando as caras por aqui, tem mais de quatro horas de duração e só deve chegar aos cinemas brasileiros em 2009, dividido em duas partes. A primeira enfoca o papel de Che na Revolução Cubana; a segunda, sua trajetória na Bolívia, para onde foi com o intuito de fomentar uma grande revolução e acabou assassinado. Benicio Del Toro já está sendo apontado como forte candidato ao Oscar de melhor ator do próximo ano. Já Rodrigo Santoro interpreta Raúl Castro, irmão de Fidel e atual presidente cubano. quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Conversas com Almodóvar
O livro, escrito a partir de entrevistas que o cineasta espanhol concedeu ao crítico de cinema Frédéric Strauss ao longo de uma década, traz em sua contracapa uma advertência pra lá de verdadeira: “Depois de ler Conversas com Almodóvar, o leitor terá vontade de rever os filmes aqui comentados”. É a mais pura verdade, ler Almodóvar falando sobre seus filmes é simplesmente apaixonante e o desejo de rever seus filmes sob sua ótica vem num impulso imediato. Depois de ler o livro, me peguei curiosa para dar uma nova conferida até mesmo nos longas que não são meus preferidos, justamente por ter ficado com uma nova impressão deles através da percepção plena de significados mostrada pelo autor.Mas Almodóvar vai além de dissecar os dezesseis longa-metragens que realizou em vinte e seis anos: o cineasta discorre sobre sua vida, família, iniciação na sétima arte, influências e até relacionamento com os atores. Ficamos sabendo, por exemplo, detalhes sobre as dificuldades de Gael García Bernal para atuar travestido de mulher em Má Educação e também sobre o deterioramento da longa parceria entre Almodóvar e sua musa Carmen Maura. Outro aspecto interessante é o fato de Almodóvar não possuir uma educação formal na área de cinema e, a despeito disso, conhecer tão profundamente cada etapa da realização de um filme, da elaboração do roteiro a detalhes minúsculos a respeito da cenografia ou do figurino.
Mais do que tudo, o leitor sente em cada declaração a paixão e sinceridade com que Almodóvar vivencia sua arte, nunca colocando as conveniências comerciais acima de sua visão artística privilegiada. Leitura obrigatória para qualquer um que se considere amante não apenas do cinema, mas de qualquer expressão artística.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Zodíaco
Por mais que a imaginação humana seja capaz de inventar perversões, não existe história de horror mais impressionante do que a realidade. O serial killer conhecido como o Zodíaco aterrorizou São Francisco por décadas, sem que nunca se tenha chegado a uma conclusão satisfatória sobre sua identidade. Um mistério tão intrigante quanto o de Jack, o Estripador e que perdurou por muito mais tempo, já que o assassino zombou da polícia e da imprensa por anos a fio. O mais desconcertante no Zodíaco é que, ao contrário da maioria dos serial killers, ele não seguia um padrão rígido. Seus assassinatos não eram ritualisticamente repetidos nos mínimos detalhes. Ele parecia estar mais interessado em confundir as autoridades e provar a própria esperteza de que propriamente em seguir padrões. Por isso, o número de vítimas nunca será conhecido com exatidão.Tudo começa em 1969, quando três jornais recebem três diferentes cartas, cada uma contendo parte de uma mensagem cifrada. O autor, que se auto-intitula “O Zodíaco”, fornece detalhes só conhecidos pela polícia sobre o assassinato de três pessoas e a tentativa de homicídio de uma quarta e exige que as cartas sejam publicadas, do contrário mais pessoas morreriam. Mesmo tendo seu desejo atendido, as mortes e as cartas se multiplicam, deixando cidadãos em pânico e autoridades desnorteadas. David Toschi, detetive responsável pelo caso, vira celebridade, assim como o repórter Paul Avery. Mas é Robert Graysmith, um tímido cartunista que trabalha no mesmo jornal que Avery, quem chega mais perto de solucionar o caso. Recentemente, li o livro de Graysmith que relata minunciosamente a cronologia dos assassinatos, bem como o rumo das investigações policiais e suas próprias pesquisas para o livro. A leitura por vezes pode ser pesada por seu excesso de detalhamento, mas sem dúvida é um trabalho intrigante e completíssimo. Zodíaco, o livro, também me fez reavaliar o filme homônimo realizado em 2007.
Com uma história dessas e um nome como David Fincher na direção, a expectativa a respeito do filme era das maiores. Afinal de contas, à frente do projeto estava o cara que revitalizou o gênero com o cultuadíssimo Seven – Os Sete Crimes Capitais e ainda dirigiu o surpreendente e polêmico Clube da Luta. Este foi o terceiro filme feito sobre o Zodíaco: os anteriores foram The Zodiac Killer, de 1971 (o filme deve ser muito ruim, já que o diretor Tom Hanson encerrou a carreira por aí) e O Zodíaco, de 2005. Sem contar Perseguidor Implacável (primeiro dos filmes de Dirty Harry), também de 1971, que mostra Clint Eastwood caçando um serial killer que ataca em São Francisco chamado Scorpio.
A idéia inicial para a nova versão era criar uma ficção em cima dos fatos relatados por Robert Graysmith no livro. Mas quando o roteirista James Vanderbilt e o produtor Bradley Fischer, dois apaixonados pela história, conseguiram os direitos do livro, acabaram optando por uma adaptação fiel. O que criou um problema de ordem dramatúrgica, já que, como a identidade do Zodíaco nunca foi confirmada e o principal suspeito nem chegou a ser preso, não existe exatamente um desfecho para a trama.

O filme é muito bom até a metade, quando o ritmo fica arrastado e o espectador tem a impressão de que pouca coisa está acontecendo na tela. Perto do final, ganha fôlego novamente. Não é que o longa tenha um grande defeito, é mais uma falha em segurar a atenção do espectador – como Seven faz ao longo de toda a projeção. O que nos leva à questão que seria, no final das contas, a grande deficiência do filme: Zodíaco tem 158 minutos. Nada contra filmes longos, desde que tal duração seja justificada. Não é. Daí a sensação de quebra no ritmo narrativo. O que é uma pena, porque fora isso o filme tem todos os elementos certos: uma história interessantíssima, um clima de suspense bem estabelecido e trilha sonora caprichada. Sem contar o elenco de primeira, encabeçado pelos ótimos Jake Gyllenhaal (Robert Graysmith) e Robert Downey Jr. (Paul Avery). Rodado com câmeras digitais de alta definição e com um orçamento de US$ 85 milhões, era para ser o thriller do ano. Não foi isso tudo, mas o saldo final ainda pende para o positivo. Vale reservar um tempinho (ou melhor, um tempão) para conferir a produção.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Espelhos do Medo

Os espelhos sempre tiveram uma simbologia sombria no cinema e na literatura. Portais para outras dimensões, janelas para a alma, duplicidade, morte, enfim, encontro com o mundo oculto. Na magia, são considerados portais de mão dupla, ou seja, assim como servem para deixar aquele que os utiliza penetrar em outros ambientes também permitem que forças desconhecidas fluam para fora dele. Numa rápida pesquisa internética em busca da simbologia dos espelhos, encontrei uma infinidade de rituais envolvendo seu uso. Em comum, a mesma advertência: é fundamental que a passagem seja “fechada” ritualisticamente depois.
Espelhos do Medo bebe na fonte de toda essa mitologia e traz Kiefer “Jack Bauer” Sutherland no papel de Ben Carson, ex-policial afastado de seu cargo após um acidente em que feriu um colega. A depressão e os problemas com bebida foram o passo seguinte, afastando-o da esposa e dos filhos e obrigando-o a passar um tempo indeterminado na casa da irmã. Louco para recomeçar a vida, Ben aceita um emprego como vigia noturno de um sinistro e enorme prédio. Outrora uma chique loja de departamentos, a construção foi devastada por um incêndio cinco anos antes. Em suas rondas noturnas, Ben começa a ser atormentado por visões horripilantes nos grandes espelhos que cobrem as paredes da loja e que parecem ser as únicas coisas intactas no lugar. Realidade ou fruto de uma mente perturbada?
O filme tem a seu favor a ótima locação. Apesar da trama ser ambientada em Nova Iorque, todas as cenas internas foram rodadas em Bucareste, na Romênia, e o impressionante prédio em que se passa boa parte da trama é, na verdade, uma estrutura encomendada pelo ditador Nikolae Ceausescu para abrigar a Academia de Ciências, mas que foi deixada inacabada após sua morte em 1989.
Espelhos do Medo parte de uma boa história e tem um ótimo cenário, mas, infelizmente, se rende às facilidades de ser um filme de terror comercial. O argumento realmente criativo é desperdiçado de modo a transformar uma história que poderia se converter em algo no estilo O Iluminado ou Os Outros em mais um filme de terror movido a sustos fáceis e trilha sonora óbvia. Isso quando não apela para cenas que seriam mais adequadas para qualquer um dos intermináveis jogos mortais. Um exemplo disso é a cena da irmã de Ben na banheira (o espectador realmente poderia ter ficado sem essa). O roteiro ainda deixa pontos importantes inexplicados, como, por exemplo, o porquê do vigia diurno não ser afetado pelos espelhos. Ele demonstra estar a par do que acontece, mas segue trabalhando ali na boa. Por quê?
Também é meio esquisito o fato do herói não ter pudores em mandar um inocente para o sacrifício quando se trata de salvar sua família. OK. Talvez a maioria das pessoas fizesse o mesmo, mas pegou mal. Principalmente porque o protagonista nos é apresentado como um policial bom-caráter e cheio de crises de consciência. Aliás, todo o desfecho peca pelo exagero e pelas soluções equivocadas, incluindo aí a famosa “pegadinha final” - que pode até ter se tornado uma assinatura do gênero, mas já está cansando.
Apesar disso, o filme não é dos piores. Faço essas ressalvas justamente por ser uma fita de terror bem razoável. Então é decepcionante imaginar o que o filme poderia ser, seu potencial perdido. Mas o que assusta mesmo é saber que o próximo projeto do diretor e roteirista Alexandre Aja é um longa intitulado Piranha 3D. Depois dos espelhos, as piranhas. E em 3D. Que medo.
domingo, 19 de outubro de 2008
Fatal

Nesta belíssima e triste história de amor, Ben Kingsley interpreta David Kepesh, um conceituado professor universitário e crítico cultural. Inteligente e sofisticado, ele tem uma visão cínica dos relacionamentos e coleciona belas mulheres sem se comprometer com nenhuma. David deixou a esposa há muitas décadas, o que faz com que hoje em dia seu relacionamento com o filho seja marcado por acusações e amargura de ambas as partes. Mas essa até certo ponto confortável insatisfação muda quando o sexagenário intelectual conhece Consuela Castillo, uma estudante cubana de 24 anos interpretada por Penélope Cruz (a atriz tem 10 anos a mais, mas tudo bem). No começo, seria apenas mais um casinho como muitos outros. Mas o caçador se torna presa de sua caça e logo David fica dependente de Consuela e obcecado em antecipar o momento em que ela o trocará por um homem mais jovem.
Baseado em O Animal Agonizante, de Philip Roth, Fatal é dirigido pela espanhola Isabel Coixet, realizadora dos ótimos A Vida Secreta das Palavras e Minha Vida Sem Mim. Pela primeira vez, a cineasta dirige um filme que não roteirizou – função desta vez entregue a Nicholas Meyer, que anteriormente escreveu Revelações, também adaptado da obra de Philip Roth. A parceria foi tão bem-sucedida que é difícil perceber uma mudança de tom em relação aos longas anteriores de Isabel. Continuam presentes alguns elementos já identificados com a filmografia da diretora: amores doloridos, personagens unidos pela solidão, ameaça de morte pairando no ar, incomunicabilidade, desesperança... Mas tudo isso é demonstrado na trama de um modo muito sensível e delicado, distante do tom niilista que costuma acompanhar outras histórias desse mesmo estilo.
É uma pena que o título em português não tenha a mesma significância do original (Elegy). Segundo a Enciclopédia Britânica, por elegia entende-se um gênero poético surgido na Grécia do século VII a.C. e que se caracteriza não pela forma, mas pela temática: a tristeza dos amores interrompidos pela infidelidade ou morte. Nada poderia estar mais próximo do estado de espírito desses personagens do que a elegia, seja real ou mental. Porque o filme não deixa dúvidas de que é o próprio David que coloca em movimento a roda de acontecimentos que faz com que o seu romance com Consuela se encaminhe para um desfecho tão tumultuado. Incapaz de aceitar a verdade simples de que aquela mulher jovem e bonita realmente gosta dele, David mina um relacionamento que poderia ser saudável com seu ciúme sem propósito e medo irracional de se comprometer com alguém depois de tanto tempo.
Ben Kingsley está comovente no papel, mostrando para o espectador de forma sutil e muito convincente o quanto aquele homem finge uma superioridade e sarcasmo que não sente de verdade todos os dias de sua vida. E a bela Penélope Cruz prova neste filme que pode atuar bem em inglês sim (ao contrário do que mostram todas as suas tentativas anteriores) se for conduzida por uma direção sensível e acertada. Já o elenco coadjuvante é abrilhantado pelas participações de luxo de gente como Dennis Hopper, Patricia Clarkson e Peter Sarsgaard.
Um filme triste, lindo e perturbador. Imperdível.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Fay Grim

Mais um filme mostrado no Festival do Rio do ano passado que chega tardiamente às telonas, Fay Grim tem sua trama centrada numa dona-de-casa que tem sua vidinha suburbana virada pelo avesso quando descobre que seu ex-marido Henry Fool, um simples lixeiro do Queens foragido da polícia há anos, é, na verdade, um espião que foi eliminado por saber demais. Um agente da CIA convence Fay a ir a Paris recuperar os diários de Henry, que conteriam valiosas informações cifradas. Mas Fay percebe que, no mundo da espionagem internacional, nada é o que parece e ninguém é confiável. Continuação de As Confissões de Henry Fool (1998).
A princípio, o longa é uma divertida farsa que brinca com o estilo 007. Com seus personagens intencionalmente caricatos e uma trama rocambolesca, lembra em alguns momentos o divertido Beijos e Tiros – também uma paródia, mas esse ao film noir. O roteiro inteligente e sarcástico de Fay Grim evolui muito bem até a metade do filme quando, inexplicavelmente, a história perde o tom de sátira que era seu maior charme e o filme assume um tom mais melodramático. Não chega invalidar suas qualidades, mas essa pequena decaída quebra o ritmo narrativo e isso certamente frustrará um pouco o espectador. O que é uma pena. Se tivesse conseguido sustentar a linguagem inicial até o fim, seria um filme excelente.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
No Covil de Allan Sieber

O gaúcho Allan Sieber é um dos mais importantes cartunistas e animadores da atualidade. Autor de tirinhas de sucesso como Preto no Branco e Vida de Estagiário (publicada na Folha de São Paulo), Allan é um dos sócios do estúdio Toscographics e já dirigiu um total de sete curtas, incluindo o premiado e polêmico Deus é Pai. Entre uma lata e outra de cerveja, o bem-humorado o cartunista me recebeu para um papo no seu estúdio em Copacabana.
Em que momento da tua vida você optou por uma carreira nesta área?
Eu gostava de desenhar quando moleque, acho que toda criança gosta, só que os desenhistas continuam. Eu gostava de tiras de jornal, chegava a recortar e colecionava em um caderno, fazia tipo um pequeno álbum. Meu pai também gostava de quadrinhos, então na minha casa sempre tinha muitos gibis. No colégio, eu desenhava os meus amigos, sacaneando eles, coisa de moleque. E segui desenhando, até que aos dezoito anos eu comecei a ser pago pra isso. O primeiro trabalho foi para um jornal de Canoas (cidade próxima a Porto Alegre), e daí não parei mais.
Você mora no Rio há dez anos. O que ocasionou essa mudança?
Eu vim em 1999 para abrir um estúdio de animação aqui. Eu tinha acabado de fazer o Deus é Pai, que teve uma certa repercussão, e foram aparecendo outros trabalhos. Aí na época eu e minha mulher resolvemos nos mudar de Porto Alegre para o Rio porque achávamos que o mercado era maior aqui e seria mais fácil para viabilizar nossos curtas.
Tuas tirinhas, pelo caráter autobiográfico, são muito associadas ao estilo do Robert Crumb. Você realmente tem essa influência? E que outras, além dessa?
Sem dúvida, o Crumb é um modelo para qualquer cartunista. Embora ele não tenha inventado o quadrinho autobiográfico, ele se embrenhou bastante nisso do autor ser o personagem das suas histórias. Sem ser o herói, eventualmente se colocando até numa posição meio escrota. Conheci esse tipo de quadrinho através do Crumb e depois dele comecei a ler outros caras que fazem isso, em geral americanos. Mas influências eu tenho várias: Crumb, Angeli, Jaguar, Millôr, o Reinaldo.
E fora do universo das histórias em quadrinhos?
Eu sempre gostei muito de cinema e leitura. Em cinema, caras meio óbvios, como Scorsese, Jim Jarmusch, Takeshi Kitano... E o Sergio Leone que, para mim, é o maior cineasta de todos os tempos.
Engraçado que você não citou o primeiro cara que eu lembro quando leio o Preto no Branco, que é o Woody Allen.
Adoro Woody Allen, sem dúvida está nos meus preferidos. E o cara tem uma média de um filme por ano, né?
E tem aquela coisa do humor auto-depreciativo...
Exatamente, mas isso é uma coisa que os humoristas judeus têm muito, de ficar se sacaneando, tirando um sarro deles como pessoa, como judeu, da mãe, enfim, coisas da comunidade. Mas o que eu gosto do Woody Allen é que volta e meia ele se aventura fora do terreno do humor, faz uns filmes super sérios e densos. Enfim, é um gênio.
Exatamente, mas isso é uma coisa que os humoristas judeus têm muito, de ficar se sacaneando, tirando um sarro deles como pessoa, como judeu, da mãe, enfim, coisas da comunidade. Mas o que eu gosto do Woody Allen é que volta e meia ele se aventura fora do terreno do humor, faz uns filmes super sérios e densos. Enfim, é um gênio.
Deus é Pai, teu primeiro filme, foi premiado no Festival de Gramado e também no Anima Mundi. Conta pra gente como foi o processo de realização desse filme.
É engraçado, porque esse filme foi feito num computador bem tosco que eu tinha na época. Na verdade, eu não entendo muito de computador, mesmo usando o dia inteiro. Mas, então, eu queria fazer um curta. Eu trabalhei muito tempo com o Otto Guerra, de 1993 a 1997, e tinha aprendido o processo de como se faz um desenho animado. Se bem que eu fiz um desenho animado que não é exatamente animado, é um desenho desanimado. E aí eu tentei contrabalançar fazendo uma montagem mais esperta, de plano e contra-plano, mas se você reparar os personagens quase não se mexem.
E por que você pensou logo em Deus e Jesus como protagonistas?
Na verdade, é uma situação clássica de pai e filho às turras. Só que elevada à milésima potência, com Jesus e Deus, que teoricamente convivem há milhões de anos.
O filme passou antes das sessões do longa Dogma, do Kevin Smith. Como você conseguiu essa distribuição?
Isso daí foi muita sorte. Quando o filme passou lá em Gramado uma pessoa da Lumière, que era a distribuidora do Dogma aqui no Brasil, assistiu ao filme e achou por bem usar o Deus é Pai como complemento da sessão do Dogma (comédia também de temática religiosa). Não foram em todas, mas em grande parte das sessões passou o curta antes e eu achei do caralho um curta passar no cinema numa sessão normal, sem ser em festival.
Como surgiu isso do Paulo César Pereio se tornar um mentor?
Eu conheci o Pereio quando fiz o curta Os Idiotas Mesmo, que era sobre publicitários. Quando eu escrevi o roteiro, eu pensei numa situação em que precisasse de um cara conhecido, para fazer uma locução classuda, de macho, para o produto. Logo pensei no Pereio, mas não sabia se ele ia topar, tinha vários boatos de que ele era louco...
Mais ou menos o que rola no filme.
Isso. Ele morava em Brasília, mas por acaso eu conhecia o sobrinho dele e aí entramos em contato com o Pereio, mandamos o roteiro e ele gravou lá num estúdio. Aí logo depois ele voltou a morar aqui no Rio e nós ficamos amigos. Tinha uma idéia até de fazer um documentário sobre ele, mas nunca entrou grana pra gente terminar, uma vergonha.
De vez em quando, alguns personagens das tirinhas têm a cara dele. É intencional?
É que eu desenho tanto ele que volta e meia eu me pego desenhando um personagem para alguma tira que sai, como um carimbo, aquele personagem que eu convencionei achar que é ele.
É que eu desenho tanto ele que volta e meia eu me pego desenhando um personagem para alguma tira que sai, como um carimbo, aquele personagem que eu convencionei achar que é ele.
Não só teu trabalho é para adultos como você também costuma ironizar as animações tradicionais. Você acha que no Brasil ainda tem esse conceito antigo de que animação é para criança e tem que ser bonitinha?
Tem ainda, sem dúvida. É o mesmo problema dos quadrinhos, o pessoal acha que super-herói e Turma da Mônica é a mesma coisa. Complicado, porque não é assim há milhões de anos, acho que desde o filme dos Beatles (Yellow Submarine). Mas ainda tem esse conceito de que animação é para criança, por mais que tenha Os Simpsons, O Rei do Pedaço, enfim, uma infinidade de séries para adultos. Os canais de TV ainda são muito reticentes quanto a investir numa série de animação para adultos. Sem contar que tem gente que acha que Os Simpsons é para criança só porque eles são amarelos e o traço é bem cartoon, bem caricato. Às vezes esses desenhos passam de manhã, em programa da Xuxa. Eu vejo isso e fico imaginando quem faz essas grades de horários. Acho até bom que as crianças vejam... só que elas não vão entender.
Você fez as animações para o filme O Homem que Copiava, do Jorge Furtado. Você acha que esse tipo de parceria faz com que teu trabalho seja mais conhecido por essas pessoas que têm preconceito com animação?
O Jorge é uma pessoa super antenada, que gosta de quadrinhos e animação. E eu acho muito interessante isso, inserir animação em filmes de imagem real. O Tarantino também fez isso no Kill Bill.
O que você pensa sobre a Disney e a Pixar?
Na verdade, eu vejo muito pouco porque não tenho paciência. O Monstros S.A. eu até acho interessante esteticamente. O que acontece é que geralmente eu acho a animação em 3D uma coisa meio de mau gosto, tudo muito brilhoso... Não me agrada. Claro que os filmes da Pixar fogem um pouco disso porque, como tem muita grana envolvida, não fica muito tosco. Mas eu tenho um certo preconceito com 3D, não tenho muito saco.
Na verdade, eu vejo muito pouco porque não tenho paciência. O Monstros S.A. eu até acho interessante esteticamente. O que acontece é que geralmente eu acho a animação em 3D uma coisa meio de mau gosto, tudo muito brilhoso... Não me agrada. Claro que os filmes da Pixar fogem um pouco disso porque, como tem muita grana envolvida, não fica muito tosco. Mas eu tenho um certo preconceito com 3D, não tenho muito saco.
Então você nem cogitaria trabalhar com animação em 3D?
Não. Eu acho muito mais interessante o trabalho feito à mão. Porque o que eu acho legal no desenho animado é justamente a falha, entendeu? A coisa humana mesmo, o que dá um pouquinho errado, uma tremida. Já o 3D é à prova disso, não dá margem ao erro humano, que é o que eu gosto no desenho. De estar desenhando com o pincel e salpicar muita tinta ou então estar meio seco e daí sai um traço meio esquisito que você não planejou, mas apareceu ali e faz sentido.
Não. Eu acho muito mais interessante o trabalho feito à mão. Porque o que eu acho legal no desenho animado é justamente a falha, entendeu? A coisa humana mesmo, o que dá um pouquinho errado, uma tremida. Já o 3D é à prova disso, não dá margem ao erro humano, que é o que eu gosto no desenho. De estar desenhando com o pincel e salpicar muita tinta ou então estar meio seco e daí sai um traço meio esquisito que você não planejou, mas apareceu ali e faz sentido.
Tua animação é muito mais calcada no roteiro, nas idéias, do que no traço em si. Isso é uma opção estética, ideologia ou falta de verba mesmo?
Uma combinação de tudo isso, mas sem dúvida é uma opção estética. O princípio e o fim de tudo é um bom roteiro. Uma coisa que você vê constantemente em festivais, mesmo no Anima Mundi, são filmes muito bem executados mas que não são nada. Acaba sendo um filme sobre a arte da animação. Pode ser bonito, mas é quase um portfólio.
Você então é contra a animação pela animação, sem uma história a contar?
Sou. Eu acho muito chato. Eu quero contar uma história.
Quais são os teus próximos projetos?
Tenho alguns roteiros de longas, mas que dependem de captação de recursos. Tem um roteiro pronto de um filme de ficção chamado Manolo, que é sobre um ator de novela meio psicopata. Tem outro longa em captação, esse de animação, chamado De Mão em Mão, que é meio inspirado na história do Carlos Zéfiro. E tem um curta que eu fiz esse ano, chamado Animadores, que ainda está pelos festivais.
Para finalizar, tem uma declaração sobre você que eu li na Wikipédia e gostaria que você comentasse. A frase é a seguinte “normalmente, tem seu trabalho associado à heresia, crítica comportamental (sexual ou não) e escatologia”.
Não se pode confiar na Wikipédia (risos)... Mas tem a ver. Religião e sexo são dois assuntos aos quais eu dedico um certo tempo. Quando eu era moleque, eu era adventista fanático e perdi alguns anos da minha infância e pré-adolescência nessa religião. Aí volta e meia, isso aparece no meu trabalho.
Você batendo em Deus...
É, sempre aparece... Você tenta se livrar, mas não tem como isso ser apagado de você tão facilmente.
Pelos Meus Olhos
Filmes que retratam a violência doméstica são feitos aos montes. A grande maioria, telefilmes baratos que aqui no Brasil costumam passar nas noites de sábado no Telecine. A fórmula é invariável: a mulher submissa e/ou sem recursos para sobreviver por conta própria apanha até o limite das forças para, ao final, reagir e reencontrar sua dignidade. Pelos Meus Olhos começa um pouco diferente: a primeira cena já mostra Pilar arrumando uma mala às pressas e fugindo com o filho pequeno a tiracolo. Logo descobrimos que o motivo de seu pavor é o marido violento. A irmã é solidária e lhe dá abrigo, além de conseguir-lhe um emprego. O problema estaria resolvido e não teríamos um filme, não fosse o fato de Pilar ainda amar o homem que lhe bate. E reside justamente nessa contradição, de querer retornar mesmo sem necessidade, o diferencial que torna este filme melhor que seus similares.
A trama é ambientada em Toledo, cidade pequena e ainda bastante atada a uma moral tacanha. O que explica a relutância de Pilar em deixar sua vida antiga para trás e a pressão que ela sofre por parte da mãe – também ela outrora vítima do marido – para reconsiderar sua decisão. Aliás, a figura materna me parece em muitos aspectos mais castradora do que o próprio marido. Como se o fato de Pilar se libertar da tirania de Antonio ofendesse a mãe em seu orgulho, já que ela não fora capaz de fazer o mesmo. Então colocar a filha de volta no cárcere lhe daria um certo alívio, uma conformação de que a vida é igualmente sufocante para todas as mulheres.
A figura do marido agressor consegue o difícil feito de fugir dos clichês, ao retratar Antonio como um homem constantemente atormentado pela insegurança e cujo temperamento violento tem como principal motivo uma enorme falta de auto-estima. Isso fica bem claro na sequência em que o casal, tentando se reconciliar, vai passar o dia com a família dele e no modo como ele desconta em Pilar todas as frustrações causadas pelo irmão que o destrata. Antonio vai ao terapeuta e quer genuinamente ser um homem melhor, mas isso de nada adianta, já que suas neuroses o vencem e ele recai no erro de achar que só conseguirá manter a esposa ao seu lado através da coação e ameaça. Luis Tosar – de Inconscientes e Segunda-Feira ao Sol – tem um desempenho muito bom no papel, fazendo ótima transição entre os momentos de carinho e fúria de seu personagem. E vale destacar que tal mudança muitas vezes ocorre em questão de segundos.
Outro ponto interessante é a trajetória de Pilar, que descobre prazer em seu trabalho e independência à mesma medida que sua recém-adquirida desenvoltura cria novos pontos de atrito com o marido. De repente, ela quer mais dele: apenas deixar de agredi-la fisicamente não é mais suficiente. Isso fica evidente na cena em que ele a humilha e vemos, pela sua reação, que aquela agressão foi mais dolorida do que as vezes em que ele a espancou.
Realizado há cinco anos, o filme foi o vencedor de nada menos que sete prêmios Goya em 2004, incluindo melhor filme e direção. Pelos Meus Olhos realmente é um longa acima da média, mas não acho que seja para tanto. O roteiro derrapa em algumas passagens, como, por exemplo, na maioria das cenas que mostram Antonio com o terapeuta: as conversas soam explicativas demais, quase como se fizessem parte de um material didático para conscientizar maridos agressivos. O desfecho também segue o caminho da previsibilidade, com um tom de fábula moral meio novelesco. Mas, em termos gerais, é um filme cujas qualidades ultrapassam as deficiências. Vale o ingresso, sem dúvida.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Mandela – Luta pela Liberdade

Acabado o Festival do Rio, é hora de voltar a prestar atenção no circuito. Esse longa foi selecionado para a competição oficial do Festival de Berlim do ano passado e também exibido aqui no Rio no Festival de 2007. Foi quando o assisti. Para meu azar, logo no primeiro dia do evento. Eis que agora, um ano depois, alguém resolve retirar o filme do limbo para lançá-lo nos cinemas. O tipo de coisa que sempre me espanta, considerando a grande quantidade de produções infinitamente melhores que têm sido despejadas direto nas locadoras.
A história se passa na África do Sul do final dos anos sessenta e inicia quando James Gregory, um guarda penitenciário branco, recebe a missão de espionar o prisioneiro Nelson Mandela. Criado numa fazenda na mesma região do líder sul-africano, Gregory fala bem o dialeto Xhosa e é a pessoa indicada para ouvir e repassar informações trocadas entre Mandela e seus visitantes. Mas a convivência entre os dois acaba por criar laços de respeito mútuo e amizade.
Mesmo dentro do seu estilo convencional, o filme é uma bomba e não tem nada a dizer. A trama se limita a mostrar a convivência do tal carcereiro com Mandela e a inexplicada tomada de consciência do primeiro quanto à questão do apartheid, sem que haja nenhuma conversa relevante entre os dois que tenha ocasionado tal mudança de postura. O diretor Bille August causou sensação com Pelle, o Conquistador, filme que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro e deu uma indicação de melhor ator a Max Von Sydow. Mas isso foi há 20 anos e August nunca mais fez algo relevante.
Além de ser incrivelmente chato, o filme também é cheio de falhas técnicas. Os personagens envelhecem mais de vinte anos ao longo da história sem que haja nenhuma mudança significativa em termos de caracterização. Um bigode, um penteado diferente ou cabelos brancos que parecem algodão. Um horror. Também é mais um daqueles filmes com trilha sonora irritante, ou seja, repleto de sons pseudo-edificantes. O elenco apático também contribui para colocar o pobre espectador para roncar. Dennis Haysbert é bom, mas não tem muito o que fazer no filme. Joseph Fiennes está longe de ter o talento do mano Ralph. E Diane Kruger... Bom, essa daí é simplesmente uma das piores atrizes do momento. Ah, e a explicação para o título original (Goodbye Bafana) também é de doer.
A impressionante trajetória de Mandela, preso político por 27 anos e posteriormente presidente da república, certamente merece e deve ser mostrada no cinema. Mas ainda não foi dessa vez que isso aconteceu, mesmo porque o roteiro é focado na figura de James Gregory e não na do líder sul-africano. E, como não há nada de interessante na biografia de Gregory, a grande pergunta é: por quê? Imaginem se a moda pega e começam a fazer filmes sobre as vidinhas tediosas de qualquer um que tenha convivido com alguém importante.
Festival do Rio - Meus Preferidos
Leonardo Medeiros em cena de Feliz Natal
1 - Feliz Natal
2 - Queime Depois de Ler
3 - O Bom, o Mau, o Bizarro
4 - Choke
5 - Rebobine, Por Favor
6 - Última Parada 174
7 - Sereia
8 - Downloading Nancy
9 - Sujos e Sábios
10 - Sanguepazzo
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