sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Lista


Está chegando às locadoras um dos piores filmes que passaram pelas nossas telonas no ano passado: trata-se de A Lista e seu desnecessário subtítulo “Você Está Livre Hoje?”. O filme pode ser descrito como o infeliz encontro de dois atores talentosos – Ewan McGregor e Hugh Jackman – com um roteiro fantasioso que se transforma em um filme previsível e irritante, que só piora à medida que a trama avança. McGregor é Jonathan McQuarry, um contador extremamente carente e solitário. Seu isolamento do mundo é agravado pelo tipo de trabalho que faz: auditoria terceirizada em empresas, ou seja, está sempre “de passagem” pelos lugares. Sua rotina é alterada quando conhece Wyatt Bose, advogado de uma das empresas por ele auditadas. Wyatt é o oposto de Jonathan: carismático, descolado, sedutor. E, sabe-se lá porque, resolve ser amigo dele.

A tal lista do título é uma espécie de clube do sexo, onde ninguém sabe o nome de ninguém, apenas o número do celular. Para uma noite de prazer sem cobranças posteriores, basta ligar para algum dos sócios e fazer a pergunta do subtítulo. Em caso afirmativo, cabe a quem ligou escolher o hotel e pagar a conta. Simples assim. Jonathan tem acesso a esse mundo de executivos estressados que não têm tempo a perder com vida afetiva quando troca de celular por engano com Wyatt e resolve responder a um apelo feminino sem saber o que lhe espera. Mas seu ingresso nesse universo sensual também lhe traz problemas até então impensáveis para um pacato cidadão como ele.

A história, que já parece pouco convincente descrita assim, é ainda mais esquizofrênica do que sugere essa breve sinopse. E o que mais incomoda é perceber que o longa tem pretensões elevadas. Vendido como um “suspense psicológico sedutor”, a trama soa falsa e esquemática a cada mudança de hábito do protagonista, que evolui de um homem triste e retraído a destemido herói, ainda que siga tomando decisões estúpidas e se livrando de becos sem saída graças a uma sorte mediúnica. O diretor estreante Marcel Langenegger, egresso da publicidade, declarou no material de imprensa do filme que a primeira vez que leu o roteiro achou que este “era tão bom e inteligente que lembrava Hitchcock e seus jogos de manipulação.” Das duas uma: ou Langenegger desvirtuou totalmente o tal roteiro inteligente ou nunca assistiu a um filme de Hitchcock.

A idéia da rede de sexo anônimo, que é a única coisa em todo o roteiro que poderia render algo de interessante, é abandonada logo no primeiro terço do filme, servindo apenas de pretexto para aproximar os personagens de Ewan McGregor e Michelle Williams. E a trama se perde de vez tão logo as verdadeiras intenções do personagem de Hugh Jackman vêm à tona. E o que dizer das participações de Natasha Henstridge e Charlotte Rampling? As atrizes são jogadas no filme em pontas tão inexpressivas que o espectador chega a se enganar, achando que seus personagens terão alguma importância mais adiante.

Para resumir a ópera, podemos dizer que a história capenga e cheia de acontecimentos pseudo-eletrizantes se arrasta até uma resolução previsível e boba, ainda que os disparates finais nada mais sejam do que uma evolução natural de todos os equívocos cometidos até então.

Revendo O Cavaleiro das Trevas


A transposição de Batman para a telona teve altos e baixos ao longo das últimas duas décadas. Batman e Batman – O Retorno, dirigidos por Tim Burton, foram filmes satisfatórios de um modo geral, mas que falharam justamente onde não poderiam: na péssima escolha de Michael Keaton para interpretar o herói. Já os longas seguintes foram entregues ao pau-pra-toda-obra Joel Schumacher e foi aí que a franquia desandou de vez. Batman Eternamente e Batman & Robin são ruins de doer, a despeito de terem atores mais interessantes no papel (Val Kilmer e George Clooney, respectivamente). Passaram-se oito anos após o fracasso do quarto filme para que fosse feita uma nova tentativa. Batman Begins, realizado há quatro anos, resultou em um filme muito bom. O talentoso diretor e roteirista Christopher Nolan resolveu começar do zero – até mesmo para se desvincular de seus antecessores – e voltou às origens do personagem, criando uma excelente versão para os motivos que levam o milionário Bruce Wayne a se desdobrar no sorumbático guardião de Gotham City.

Depois de ter lavado a honra do homem-morcego, era um caminho natural que Nolan continuasse à frente do filme seguinte. Mas o grande desafio quando se realiza uma seqüência que tem um ótimo antecessor vai além de manter o nível de qualidade: é preciso não apenas estar à altura do filme anterior, mas também apresentar algum diferencial em relação a ele. Batman – O Cavaleiro das Trevas alcançou esse feito através das madeixas esverdeadas e da maquiagem borrada do exuberante vilão que se autodenomina o Coringa.

Existe uma corrente de cinéfilos que vê a premiação póstuma de Heath Ledger como uma espécie de condescendência da Academia. Claro que não se pode negar que existe o fator emocional quando um ator talentoso, promissor, jovem e bonito morre logo depois de terminar de filmar um papel que certamente estava destinado a imortalizá-lo definitivamente. É triste e chocante, sim. Agora daí a achar que o Oscar é alguma forma de compensação vai uma grande diferença. Heath Ledger ganharia esse Oscar de qualquer maneira, porque seu mérito como o mais célebre dos inimigos do homem-morcego é indiscutível e insuperável. Nenhum outro personagem foi tão citado, imitado e reverenciado no ano passado.

A trama de O Cavaleiro das Trevas se inicia mostrando os efeitos colaterais de uma cidade que agora tem um defensor: se, por um lado, os pequenos bandidos de Gotham City temem o homem-morcego, por outro os grandes cartéis criminosos reagem à altura ao ter seus interesses atacados. Sem contar que a figura misteriosa de Batman é vista com desconfiança e preconceito, sendo considerado por muitos um justiceiro que age à margem da lei. Bruce anseia pelo dia em que não será mais necessário para a cidade e poderá ter uma vida normal ao lado da amada Rachel Dawes, mas logo compreende que não será tão fácil assim abandonar a persona que criou. Para cada bandido posto na cadeia com a ajuda do comissário Gordon, novos malfeitores aparecem. Sua grande esperança de aposentar a armadura preta surge na carismática figura do novo promotor, Harvey Dent, um homem determinado e incorruptível. Bruce acredita que se Gotham tiver um herói com rosto e identidade, estará livre do fardo que impôs a si mesmo.

Mas um novo elemento vem desequilibrar a luta entre as forças do bem e do mal: ele, o Coringa. Debochado, imprevisível e muito inteligente, o anárquico bandido só segue suas próprias regras. Batman, Gordon e Harvey terão pela frente um desafio que pode lhes custar mais do que suas vidas: é a integridade e sanidade de cada um que está em jogo. Afinal de contas, como manter regras e princípios diante de alguém que não tem limites? Como diz Batman numa cena, o maior prazer que um agente do caos como o Coringa poderia ter seria destruir o melhor deles. Revoltar o justo, corromper o honesto, aliciar o bom.


A performance de Heath Ledger é absolutamente fascinante, ao criar um Coringa diferente de tudo que já foi visto antes. Seguindo uma abordagem bem diversa da loucura cômica eternizada por Jack Nicholson no Batman de Tim Burton, o Coringa de Ledger tem um estilo mais humano e, por isso mesmo, mais aterrador. Ele é, em essência, um anarquista, mas que sabe muito bem o que está fazendo. O mais curioso é que a maldade deliberada e o senso de humor perverso do personagem não conseguem impedir que o espectador se renda a seu charme doentio. É impossível desgrudar os olhos dele durante todo o tempo em que está em cena. Então o tal Oscar póstumo é algo que o espectador de Batman pensa – e endossa entusiasticamente – logo nos primeiros minutos. Dentre tantos momentos memoráveis, destaco o papo faustiano com Harvey Dent no hospital e também o bordão que caiu na boca do povo: why so serious? (“por que está tão sério?”, numa referência debochada à sua própria boca de palhaço).

Embora seja a estrela de Ledger a mais resplandecente, seria até injustiça não comentar o quanto é incrível o restante do elenco. Christian Bale continua sendo o melhor Batman de todos os tempos, ótimo vestido de homem-morcego e melhor ainda posando de playboy inconseqüente na sua faceta Bruce Wayne. Aaron Eckhart desempenha com perfeição a transição de Harvey Dent de paladino da esperança a vilão amargurado. A expressiva Maggie Gyllenhaal assume o papel de Rachel Dawes no lugar de Katie Holmes, que era justamente o único elo fraco no elenco do filme anterior. E a trinca formada por Gary Oldman, Michael Caine e Morgan Freeman... Bom, esses caras dispensam apresentações. Tê-los no elenco de qualquer filme é um luxo absoluto.

Batman – O Cavaleiro das Trevas foi o grande filme de 2008. E ainda teve a característica marcante de ter sido a despedida deste belo e talentoso ator (Heath deixou um filme incompleto, The Imaginarium of Doctor Parnassus, mas o Coringa foi seu último papel finalizado). O filme ganhou outro Oscar além do de Ledger, o de edição de som. Acho uma pena que a Academia tenha preferido indicar a melhor filme um candidato morno como Frost/Nixon e perdido essa chance rara de indicar um longa que casou tão bem popularidade e qualidade.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Segurando as Pontas


Imaginem um típico filme de ação americano, daqueles com tiroteios, correria e perseguição de carros. Imaginaram? Agora imaginem uma trama dessas protagonizada por dois maconheiros chapadões. Como assim? Este é o mote do divertidíssimo Segurando as Pontas.

Dale Denton trabalha entregando intimações judiciais e, graças à sua flexibilidade de horário, pode levar a vida dos seus sonhos. Entre uma intimação e outra, faz paradas estratégicas na escola da namorada adolescente e no apê de Saul, seu fornecedor de drogas preferencial. Numa dessas visitas, Dale é apresentado ao pineapple express do título original, droga de altíssima qualidade da qual Saul se orgulha de ter exclusividade na cidade. Logo depois, ao tentar entregar uma intimação, Dale testemunha uma policial e um chefão local assassinarem um traficante rival. Ele fica apavorado e foge, mas deixa cair a bituca que estava fumando. Claro que sendo Saul o único fornecedor daquela iguaria rara, em dois tempos ambos – doidões e jurados de morte – têm que empreender uma fuga desesperada.

Só o prólogo do longa, que mostra militares fazendo experiências sigilosas com a cannabis em uma base secreta, já faz o filme valer a pena. Mas isso é apenas o aperitivo de um filme extremamente anárquico, politicamente incorreto e, sobretudo, muito engraçado. As cenas de ação desenfreada somadas a diálogos intencionalmente piegas fazem com que o longa também seja uma irreverente paródia dos filmes de macho – os chamados buddies movies. O roteiro também faz referência às histórias com duplas de policiais, onde um é sempre mais certinho e outro mais destemido – vide a série Máquina Mortífera. Claro que falar em maconheiro certinho parece uma contradição de termos, mas o gordinho e desengonçado Seth Rogen é o que existe mais próximo de herói no filme, enquanto James Franco é um viajandão carente e afetuoso que não tem nem noção do perigo que corre. Franco está simplesmente sensacional neste papel, numa desconstrução total do seu habitual papel de bonitinho sem sal. O ator teve uma indicação ao Globo de Ouro por esse papel, o que é uma enorme façanha, considerando o caráter outsider do filme. Uma das coisas que ficamos sabendo nos extras do DVD é que originalmente os atores interpretariam os papéis inversos, mas preferiram quebrar os padrões e colocar o bonitão no papel mais lesado. Os extras, aliás, são bem legais e trazem cenas excluídas e/ou extendidas, making of e entrevistas com a equipe.

Segurando as Pontas foi exibido no Festival do Rio do ano passado e recentemente apareceu direto nas prateleiras de DVD. Também é um dos poucos casos em que um título totalmente alienígena funciona melhor do que o original. Então, esqueçam suas opiniões contra ou a favor da descriminalização da maconha – nem preciso dizer que posição o filme expressa –, suspendam o preconceito com o tema e divirtam-se. O filme vale pelas suas qualidades como a excelente comédia que é. O debate sério sobre o assunto a gente deixa para o contexto apropriado.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Força Policial


Força Policial leva ao extremo o conhecido corporativismo dos policiais americanos perante seus colegas de profissão. Ray Tierney pertence a uma família dedicada ao velho lema de servir e proteger. Seu pai, Francis, é um veterano influente; seu irmão mais velho, Francis Jr., é chefe do departamento, onde também serve seu cunhado Jimmy Egan. Quando o que é reportado como uma batida para prender um traficante termina em um banho de sangue onde quatro policiais são mortos, Ray, por insistência de seu pai, deixa o trabalho burocrático que desempenhava desde que foi ferido em serviço e assume o comando da investigação. Não demora para que ele esbarre em um escândalo de corrupção que atinge todo o departamento e envolve sua família até a medula, levando-o a um impasse entre fazer o que é certo ou proteger as pessoas que ama.

Não se trata de um filme policial, pelo menos não dentro dos parâmetros do que consideramos um exemplar do gênero. O estilo está mais para drama, com pitadas de filme-denúncia. Embora não seja nenhuma novidade o fato da polícia nova-iorquina ser um antro de violência e corrupção, não são todos os filmes que colocam o fato de modo tão institucionalizado como faz esse longa. Corrupção generalizada costuma ser mostrada em Gotham City, não em Nova Iorque. A tendência da maioria dos filmes, no estilo “não vamos ofender ninguém”, é colocar o problema como obra de um indivíduo, um vilão que é a exceção à regra. Não é o que acontece em Força Policial, que mostra a instituição como um mar de lama onde os policiais, como indivíduos, são no mínimo coniventes com a situação.

No meio de tudo isso, Ray, personagem de Edward Norton, é o cara honesto por instinto. Mesmo assim, como vemos no decorrer do filme, ele nem sempre foi um santo dentro de suas funções. Pressionado por colegas e – o que é pior – pela própria família, Ray tampouco é uma pessoa de passado totalmente incorruptível. Mas, ao contrário de seu cunhado Jimmy, ele não quer continuar se afundando cada vez mais nessa espiral de maus hábitos porque, como é revelado mais adiante, sua vida profissional já lhe deu muito mais perdas do que ganhos.

O filme, que obteve em sua maioria críticas negativas no exterior, não é esse desastre todo. Pelo contrário, coloca várias questões relevantes e segura bem o clima de tensão ao longo de mais de duas horas de projeção. E o mérito é todinho de Edward Norton, cujo personagem norteia a trama e dá dimensões morais ao dilema entre ser leal à família ou a si próprio. O ator, um dos mais competentes da atualidade, olha o espectador no olho e o traz para dentro de suas dúvidas, inseguranças e, finalmente, determinação. Não se pode dizer o mesmo de Colin Farrell que, após conseguir boas atuações em O Sonho de Cassandra e Na Mira do Chefe, retorna ao seu estilo habitual e se apresenta de forma superficial e preguiçosa. Assim como a direção sem personalidade de Gavin O'Connor, que derrapa especialmente em sua meia hora final e mergulha em clichês desnecessários como, por exemplo, o ataque de macheza entre Ray e Jimmy no bar vazio.

Apesar de suas limitações, Força Policial é um drama que merece uma conferida. Primeiro, pela similaridade com várias situações que conhecemos e tememos; segundo, por mais uma oportunidade de ver o trabalho fantástico de Edward Norton. Norton à frente de um elenco é sempre garantia de qualidade interpretativa – e isso já vale o ingresso. Estréia nesta sexta.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Oscar 2009 – Os Vencedores

(o simpaticíssimo elenco de Quem Quer Ser um Milionário? na festa pós-Oscar)

Resultados previsíveis, porém nem por isso menos justos. Assim foi a premiação do 81º Oscar, na noite de ontem. O favoritaço Quem Quer Ser um Milionário? levou oito estatuetas, contrariando a tendência dos últimos anos de dividir a premiação. Não se via uma premiação tão maciça assim desde 2004, quando Peter Jackson e sua trupe promoveram um verdadeiro arrastão e O Senhor dos Anéis conquistou onze Oscars. Vale lembrar que Quem Quer Ser um Milionário? na verdade só perdeu uma de suas dez indicações (edição de som, para Batman), já que na categoria canção original o filme tinha indicação dupla e, portanto, concorria contra ele mesmo. Já o campeão de indicações, O Curioso Caso de Benjamin Button, teve que se contentar com três prêmios considerados “menores” (direção de arte, efeitos visuais e, claro, maquiagem) ao invés dos treze a que concorria. Batman e Milk levaram dois prêmios cada, enquanto Frost/Nixon saiu de mãos abanando e O Leitor foi salvo do zero a zero pelo reconhecimento à extraordinária Kate Winslet.

Uma decisão inesperada, mas que me agradou, foi a não premiação do israelense Valsa com Bashir como melhor filme em língua estrangeira. Tive oportunidade de ver no último Festival do Rio essa animação enfadonha (embora bem executada) e, mesmo não tendo assistido aos outros indicados, fica o benefício da dúvida em prol do vencedor. Mais do que premiar um filme que não é grande coisa, um Oscar para Israel nesse momento teria uma conotação política no mínimo delicada para o início de um governo que se propõe a simbolizar uma nova era.

Por outro lado, apenas três anos depois de se acovardar e negar o merecido Oscar a Brokeback Mountain, a Academia sai do armário e premia Milk em duas categorias, melhor ator para Sean Penn e melhor roteiro original para o novato Dustin Lance Black. O jovem roteirista, que há anos persegue a realização desse projeto, fez um discurso emocionado em prol dos direitos dos homossexuais e terminou agradecendo à mãe por sempre tê-lo aceitado como tal. Sean Penn, ao receber seu prêmio, complementou dizendo que é um absurdo as pessoas ainda votarem contra a união gay.

Sobre a festa em si, embora tenha sido tão extensa quanto nos anos anteriores, deu uma impressão de mais fluência. Talvez Hugh Jackman como mestre-de-cerimônias tenha contribuído para essa sensação. O ator injetou mais leveza e informalidade à cerimônia, realizando com desenvoltura e simpatia suas funções. O Wolverine das telonas também teve chance de mostrar seus dotes de cantor e dançarino ao lado de Beyoncé num grande número ao estilo dos musicais clássicos da Broadway (o ator foi premiado com um Tony recentemente por seu papel em um musical, The Boy From Oz). Sem contar que o Oscar nunca teve um apresentador tão atraente antes. Que o moço volte ano que vem!

Outra novidade foi ter cinco atores ou atrizes ganhadores de Oscars passados para apresentar as categorias interpretativas. Cada um dos cinco padrinhos/madrinhas falava um pouco sobre um ator/atriz concorrente. Um formato simpático, especialmente para aqueles que não levam a estatueta. Lá pela metade da festa, o momento que todos aguardavam: o prêmio de melhor ator coadjuvante. E não poderia ser diferente. Heath Ledger, absoluto! Os pais e a irmã do ator vieram da Austrália para receber a honraria, enquanto os presentes aplaudiam de pé um dos prêmios mais merecidos e esperados.

Mais um Oscar, aliás, a ir para fora dos Estados Unidos. Os oito prêmios de Quem Quer Ser um Milionário? a essa hora já devem ter embarcado em seus aviões para a Inglaterra ou para a Índia, dependendo do profissional agraciado. Penélope Cruz leva um para a Espanha; Kate Winslet, outro para a Inglaterra. E até mesmo os Oscars de curta-metragem voaram para a Europa: o de de curta de animação, para a França; o de curta live action, para a Alemanha. Parece que dessa vez a globalização realmente invadiu Hollywood!

Confiram a relação completa de ganhadores:

Filme – Quem Quer Ser um Milionário?
Atriz – Kate Winslet (O Leitor)
Ator – Sean Penn (Milk)
Atriz Coadjuvante – Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)
Ator Coadjuvante – Heath Ledger (Batman – O Cavaleiro das Trevas)
Direção – Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário?)
Roteiro Original – Milk
Roteiro Adaptado – Quem Quer Ser um Milionário?
Direção de Arte – O Curioso Caso de Benjamin Button
Maquiagem – O Curioso Caso de Benjamin Button
Figurino – A Duquesa
Fotografia – Quem Quer Ser um Milionário?
Montagem – Quem Quer Ser um Milionário?
Trilha Sonora – Quem Quer Ser um Milionário?
Canção - Jai Ho (Quem Quer Ser um Milionário?)
Mixagem de Som – Quem Quer Ser um Milionário?
Edição de Som – Batman – O Cavaleiro das Trevas
Efeitos Visuais – O Curioso Caso de Benjamin Button
Filme em Língua Estrangeira – Departures (Japão)
Filme de Animação – Wall-E
Curta de Animação – La Maison en Petits Cubes
Curta-metragem (Live Action) – Spielzeugland (Toyland)
Documentário (Longa) – Man on Wire
Documentário (Curta) – Smile Pinki

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Mais Woody Allen


Mais um pouco da sinceridade desconcertante do cineasta:

- "É verdade que depois de alguns filmes eu parei de pensar em popularidade e no público, ou no que escreviam sobre os meus filmes, mas não por arrogância, nem algum sentimento de superioridade. Só porque essa parte do processo - a chamada gratificação - não estava me deixando feliz, nem satisfeito. As pessoas muitas vezes tomam erroneamente a minha timidez por indiferença, mas não é. Eu precisava de um centro espiritual e, sendo ateu, isso é difícil de encontrar. Então experimentei uma espécie de apatia em relação ao sucesso ou fracasso e, é triste dizer, em relação à vida em geral. Tanto o sucesso como o fracasso provaram não significar muito para mim do jeito que pensei que fossem significar quando comecei. Nenhum dos dois contribui muito para a solução dos verdadeiros problemas da vida."

(extraído de Conversas com Woody Allen, livro imperdível de Eric Lax)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Outros oscarizáveis



Os filmes O Visitante e Rio Congelado, que deram indicações a Richard Jenkins e Melissa Leo, já foram comentados aqui no blog por ocasião do Festival do Rio. Rio Congelado estreou hoje e O Visitante, apenas em 6 de março. Confiram:


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Frost/Nixon (ou “o quinto indicado”)


Adaptado pelo premiado roteirista Peter Morgan (A Rainha) partir de sua própria peça teatral, a trama é focada em uma célebre entrevista concedida por Richard Nixon ao apresentador britânico David Frost em 1977 – três anos após o escândalo Watergate, que culminou com sua renúncia da presidência dos Estados Unidos. Vale lembrar que Nixon vinha se mantendo em silêncio absoluto antes de resolver aceitar o convite de Frost. E não foi nada por acaso que a velha raposa escolheu justamente como entrevistador uma figura até então conhecida basicamente por comandar programas de entretenimento fúteis. Além do cachê oferecido por Frost ser superior ao oferecido por jornalistas mais conceituados, Nixon e seus assessores achavam que um playboy inexperiente em política não seria ameaça ao esperto ex-presidente, que poderia aproveitar a chance para limpar sua barra com os cidadãos e assim pavimentar sua volta ao poder.

Um dos maiores elogios que se vem ouvindo a respeito deste filme é o fato dele ser o melhor da carreira de Ron Howard, o que não quer dizer tanta coisa assim. Howard é um cineasta competente, mas que dificilmente seria considerado autoral. Se considerarmos que trata-se de um filme adaptado pelo próprio autor da peça que o inspirou e que a produção acertadamente manteve os mesmos atores que desempenharam os papéis principais no palco durantes dois anos, a pouca personalidade do diretor é mais um bônus do que um problema. Tudo que ele precisava fazer era não estragar o material que tinha em mãos.

Frank Langella e Michael Sheen estão ótimos em cena e são bastante ajudados pela montagem esperta, fundamental especialmente durante a parte central do filme, quando as entrevistas já estão rolando para valer. Cortando de entrevistado para entrevistador, e deles para a reação (aliviada ou desesperada) dos assessores de cada oponente, o filme faz com que até mesmo o espectador que não tem nenhuma vivência política compreenda de imediato quem está por cima do embate naquele momento. O conjunto de reações faz com que a trama flua sempre tensa e objetiva, independente do conhecimento político de quem assiste. Também é bacana o formato documental, que coloca os atores dando declarações para a câmera como se fossem as figuras reais.

Mas o mais interessante no longa não é exatamente o enfrentamento diante das câmeras e sim os motivos ocultos por trás dele: de um lado, alguém que precisa se firmar e conquistar o respeito que nunca teve; de outro, alguém que já teve o respeito de uma nação inteira e quer desesperadamente reconquistá-lo. Como observa Frost em um diálogo, apenas um deles pode ser vitorioso e isso significa o aniquilamento do outro. Não há fracasso honroso, não há meio-termo.

Em um ano repleto de projetos inusitados e de temáticas diversificadas, Frost/Nixon seria, dentre os cinco candidatos, o mais importante do ponto de vista histórico. Mas, apesar de todas as suas indiscutíveis qualidades, Frost/Nixon é o que tem menor impacto como filme. Não provoca a mesma explosão de arrebatamento de Quem Quer Ser um Milionário?. Não comove pela poesia e beleza como Benjamin Button. E tampouco é ancorado por um elenco tão esplendorosamente inspirado como ocorre em relação a Sean Penn e cia. em Milk. Nem mesmo provoca a mesma reflexão que O Leitor, que seria o mais tradicional dos filmes aqui citados.

Claro que Frost/Nixon é um filme de alto nível e que mereceria estar dentre os candidatos ao Oscar de melhor filme, caso sua inclusão não tivesse deixado de fora pelo menos três filmes superiores a ele: Foi Apenas um Sonho, Gran Torino e Batman – O Cavaleiro das Trevas. Dito isso e sem querer ferir a sensibilidade de ninguém, faço uma avaliação muito pessoal das minhas preferências quanto aos cinco indicados deste ano:

Quem Quer Ser um Milionário? – 10
O Curioso Caso de Benjamin Button – 10
Milk – 9
O Leitor – 8,5
Frost/Nixon – 8

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Meu Caro Amigo

Dizem que toda mulher brasileira, independente de perfil, classe social ou credo, perde a compostura diante de Chico Buarque. É comum ver senhorinhas recatadas, com netinhos a tiracolo, enlouquecerem num show do ídolo, se esgoelando diante do estupefato marido. E isso tem menos a ver com os sedutores olhos verdes do compositor máximo do Brasil e mais com a euforia de se ver diante daquele gênio que cantou a alma feminina com um entendimento e propriedade nunca antes posto em palavras.

Para entender tudo que Chico significa para a alma tem que ter biografia. Tem que já ter derramado a sorte pelo chão e feito uma tremenda bagunça no coração. Norma, professora de História fanática por Chico Buarque, é mais que a protagonista do delicioso monólogo musical Meu Caro Amigo. Norma representa todas nós. Essa idéia, aparentemente tão simples, foi a grande sacada do espetáculo concebido inicialmente pela atriz Kelzy Ecard, posto em palavras pelo jovem e talentoso Felipe Barenco (não é Babenco, é com “r” mesmo) e dirigido com sensibilidade por Joana Lebreiro.

Partindo de Norma e fazendo um passeio pela História recente do país, a música de Chico pontua cada fase da vida da personagem. Desde a primeira vez que o viu, ainda menina, numa TV cheia de chuviscos cantando em um festival até a fase adulta, quando já havia se transformado “naquela professora que é doida pelo Chico Buarque”, Norma amadurece, se apaixona, vive conflitos, milita contra a ditadura, briga com o pai, se separa do grande amor. Em cada um desses momentos, a voz de Chico tem a coisa certa a lhe dizer. Como ela diz em determinada passagem, “ele sempre cantou a minha vida, embora tenha errado meu nome algumas vezes”.

Em um palco repleto de capas de discos de vinil e acompanhada apenas pelo piano do músico João Bittencourt, a simpaticíssima Kelzy Ecard domina a cena com sua voz doce e presença carismática, tirando ótimo partido tanto dos momentos bem-humorados como das cenas de maior intensidade dramática. E o mais legal é que, embora cante muito bem, Kelzy não faz isso com a impostação dos grandes musicais e sim de modo bastante intimista, atraindo a cumplicidade do espectador. A paixão evidente com que a atriz-cantora interpreta cada canção hipnotiza completamente a platéia que, enlevada, murmura cada letra baixinho, seja na versão descontraída de Quem Te Viu, Quem Te Vê (Kelzy, fazendo uma escova de microfone, arrancou um corinho bem afinado da platéia) ou na eletrizante interpretação do hino dos corações partidos, Eu Te Amo.

Uma curiosidade: a atriz esteve recentemente na montagem de um musical de autoria de Chico Buarque, o visceral Gota D'Água. Teria nascido nas coxias deste espetáculo a idéia de se reencontrar com Chico? Uma coisa é certa: embora não se saiba o quanto da própria Kelzy está em Norma, pelo menos uma paixão as duas têm em comum... Preciso dizer quem seria?

Meu Caro Amigo. Texto: Felipe Barenco. Direção: Joana Lebreiro. Com Kelzy Ecard. Centro Cultural dos Correios (Visconde de Itaboraí, 20, Centro). Quinta à domingo, 19h. Ingressos a 15,00. Até 5 de abril.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Quem Quer Ser um Milionário?


Assim como fazem os concursos de miss, o Oscar deveria ter uma categoria simpatia. Dentre os cinco indicados, geralmente há aquele filme apaixonante, do qual todo mundo gosta, mas que não é considerado “sério” o bastante para ser coroado o melhor filme. No ano passado, esse concorrente foi Juno; no anterior, Pequena Miss Sunshine. Este ano, Danny Boyle conseguiu rechear o produto empolgante com um conteúdo mais profundo e transformou o tal filme simpático em um vencedor absoluto. Pois não tenham dúvidas: Quem Quer Ser um Milionário? vai ganhar essa parada e, com todo mérito, sair da festa cheio de prêmios – incluindo melhor filme e melhor direção.

A abertura do filme nos mostra Jamal Malik, o cão favelado do título original, a apenas uma pergunta do prêmio máximo do programa Quem Quer Ser um Milionário? (aqui no Brasil, o infame Show do Milhão). Uma pergunta surge na tela, essa direcionada ao espectador: como Jamal chegou até ali? a) trapaceando; b) sorte; c) ele é um gênio; ou d) é o destino.

A partir desse questionamento, o filme casa com maestria o momento presente – em que Jamal tem que provar às autoridades que não está trapaceando – com uma série de flashbacks de momentos-chave de sua vida que mostram os caminhos e motivos que o levaram até aquela situação. Criado numa favela, órfão desde pequeno, perseguido por aliciadores de menores, aos tropeços com um irmão que sempre demonstrou péssimo caráter, Jamal nunca teve tempo de sentir pena de si mesmo. Sua única chance sempre foi cair e levantar, não desistir nunca, enfim, o cara é um verdadeiro sobrevivente. Então, como o caro leitor já deve ter percebido, o filme não é sobre suas façanhas no programa de TV, que serve mais como um fio condutor na trama. Sem contar que existe um motivo oculto para sua presença ali, que não tem nada a ver com a possibilidade de ficar rico.

O estreante Dev Patel, que antes desse filme tinha feito apenas alguns episódios de uma série de TV, é quem interpreta Jamal Malik em sua fase adulta. O personagem é interpretado por dois outros atores quando criança e, embora ambas as versões infantis sejam uma graça, é o Jamal adulto que sustenta a história. E que simpatia e carisma Patel esbanja na tela, entregando um personagem que encanta pela determinação e também pela doçura com que enfrenta os reveses. Aliás, todo o elenco, formado por atores indianos desconhecidos para nós, transmite verdade a cada cena. Embora não se possa salientar uma única interpretação de destaque, o elenco como um todo é de uma harmonia rara.


Associada à interessantíssima história, uma trilha sonora esperta e empolgante sublinha com precisão cada cena de impacto. Assim como a montagem precisa e a fotografia perfeita ajudam a emoldurar um cenário que, embora chamativo e exótico, nunca se torna mais interessante do que a trama em si. Não que a Índia não esteja toda na tela, com todas as suas belezas e mazelas. Mas tanto o esplendor do Taj Mahal como a desolação das favelas surgem a serviço da história que está sendo contada e não como um ensaio fotográfico da National Geographic.

O filme também marca a volta por cima do cineasta Danny Boyle, que realizou dois filmaços – Cova Rasa e Trainspotting, que revelaram Ewan McGregor – logo que migrou da TV para o cinema, em 1995, e depois disso nunca fez mais nada digno de nota, oscilando entre o apenas razoável e o constrangedor mesmo. Neste filme, que é puro coração, Boyle se redime de qualquer pecado anterior e se impõe como realizador de um filme terno e feliz. Não no sentido dos personagens não sofrerem e sim no sentido do longa celebrar a vida e o amor, de acreditar na superação de barreiras aparentemente intransponíveis. E nada disso ocorre na tela de modo pseudo-edificante ou careta, mas sim como uma reação espontânea, orgânica. E depois de duas horas, quando chegarem os créditos finais, você, espectador, estará com a alma lavada. Podendo sentir vontade de rir, chorar ou aplaudir. Ou tudo ao mesmo tempo, vivenciando uma bela e verdadeira catarse. Não se espante. É isso que cinema de verdade causa na gente.