segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

10+ e 10-


Em um ano tão diversificado, foi difícil fazer uma lista de 10+ e 10-...

Alguns eleitos podem não ser ponto pacífico dentre os cinéfilos, mas os filmes que me encantaram e me decepcionaram nesse ano que passou foram definitivamente os seguintes:

10+

1 – O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos)
2 – A Origem (Inception)
3 – Ilha do Medo (Shutter Island)
4 – Educação (An Education)
5 – Harry Potter e as Relíquias da Morte (Harry Potter and the Deathly Hallows)
6 – Machete (idem)
7 – Amor sem Escalas (Up in the Air)
8 – Sede de Sangue (Bakjwi)
9 – Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works)
10 – Antes Que o Mundo Acabe (idem)

10-

1 – A Caixa (The Box)
2 – O Último Mestre do Ar (The Last Airbender)
3 – Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones)
4 – 400 Contra 1 (idem)
5 – Lembranças (Remember Me)
6 – A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street)
7 – Criação (Creation)
8 – Almas à Venda (Cold Souls)
9 – O Pecado de Hadewijch (Hadewijch)
10 – Sex and the City 2 (idem)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Globo de Ouro 2011


E saiu hoje a lista de indicados ao Globo de Ouro 2011, sempre considerado uma boa prévia para o Oscar – embora nem sempre a fama se justifique. No segmento cinematográfico, alguns candidatos esperados como A Rede Social, A Origem e O Discurso do Rei dividem as apostas com outros que até então não estavam sendo tão cotados, como Cisne Negro e O Turista. Sobre esse último, causa ainda mais estranheza vê-lo classificado na categoria comédia ou musical, já que tudo indica tratar-se de um thriller de aventura. Mais uma daquelas saias-justas causadas pela classificação reducionista do prêmio em apenas duas categorias.

Dentre os atores, Johnny Depp disputa um Globo consigo mesmo, o que quase nunca é bom, já que a indicação dupla acaba gerando uma divisão de votos e prejudicando o candidato. Vale lembrar que no ano passado Kate Winslet levou os dois prêmios a que concorria, mas em categorias distintas (atriz e atriz coadjuvante).

Embora não se possa ainda comentar a performance em si pelos seus filmes não terem estreado, é sempre bom ver atores da competência de Jake Gyllenhaal, Natalie Portman, Paul Giamatti e Helena Bonham Carter sendo reconhecidos. Das atuações já vistas, são justíssimas indicações para os meninos de A Rede Social, Jesse Eisenberg e Andrew Garfield, e para as fabulosas Annette Bening e Julianne Moore de Minhas Mães e Meu Pai. O que parece fora do tom? Halle Berry, que nunca convenceu (nem mesmo quando de fato ganhou um Oscar), e o sempre superestimado Jeremy Renner (o que o povo de Hollywood vê nesse cara?).

Duas categorias que parecem ter um favorito são filme de animação (Toy Story 3) e filme estrangeiro (Biutiful é o único que vem causando bafafá). No mais, é fazer as apostas e esperar pelos vencedores, que serão divulgados no dia 16 de janeiro de 2011. Confiram abaixo todos os indicados em cinema:

Helena Bonham Carter e Colin Firth em O Discurso do Rei
Filme - Drama
Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social

Filme – Comédia ou Musical
Alice no País das Maravilhas
Burlesque
Minhas Mães e Meu Pai
Red – Aposentados e Perigosos
O Turista

Ator - Drama
Jesse Eisenberg (A Rede Social)
Colin Firth (O Discurso do Rei)
James Franco (127 Horas)
Ryan Gosling (Blue Valentine)
Mark Wahlberg (O Vencedor)

Natalie Portman como a bailarina de Cisne Negro
Atriz - Drama
Halle Berry (Frankie e Alice)
Nicole Kidman (Rabbit Hole)
Jennifer Lawrence (Inverno da Alma)
Natalie Portman (Cisne Negro)
Michelle Wiliams (Blue Valentine)

Ator – Comédia ou Musical
Johnny Depp (O Turista)
Johnny Depp (Alice no País das Maravilhas)
Paul Giamatti (Barney's Version)
Jake Gyllenhaal (O Amor e Outras Drogas)
Kevin Spacey (Casino Jack)


Johnny Depp e Angelina Jolie em O Turista

Atriz – Comédia ou Musical
Annette Bening (Minhas Mães e Meu Pai)
Anne Hathaway (O Amor e Outras Drogas)
Angelina Jolie (O Turista)
Julianne Moore (Minhas Mães e Meu Pai)
Emma Stone (A Mentira)

Ator Coadjuvante
Christian Bale (O Vencedor)
Michael Douglas (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme)
Andrew Garfield (A Rede Social)
Jeremy Renner (Atração Perigosa)
Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)

Atriz Coadjuvante
Amy Adams (O Vencedor)
Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei)
Mila Kunis (Cisne Negro)
Melissa Leo (O Vencedor)
Jacki Weaver (Animal Kingdom)

Diretor
Darren Aronofsky (Cisne Negro)
David Fincher (A Rede Social)
Tom Hooper (O Discurso do Rei)
Christopher Nolan (A Origem)
David O. Russell (O Vencedor)

A Rede Social, considerado um dos favoritos
Roteiro
127 Horas
A Origem
Minhas Mães e Meu Pai
O Discurso do Rei
A Rede Social

Longa de Animação
Meu Malvado Favorito
Como Treinar seu Dragão
O Mágico
Enrolados
Toy Story 3
Canção Original
Burlesque (Bound to You)
Burlesque (You Haven't Seen The Last of Me)
Country Strong (Coming Home)
As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada (There's A Place For Us)
Enrolados (I See the Light)

Trilha Sonora
127 Horas
Alice no País das Maravilhas
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social

Filme em Língua Estrangeira
Biutiful (México)
Io sono L’Amore (Itália)
O Concerto (França)
Kray (Rússia)
Hævnen (Dinamarca)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Machete


Machete é quase uma lenda dentre os cinéfilos desde que seu falso trailer (o filme ainda não existia na época) foi veiculado há três anos junto com Planeta Terror, a metade de Robert Rodriguez no projeto Grindhouse. O personagem-título é um policial mexicano que é traído pelos companheiros corruptos e tem a esposa assassinada diante dos seus olhos. A partir desse prólogo, o filme avança um pouco no tempo e vemos que, depois de cair em desgraça na sua terra natal, Machete agora é um imigrante ilegal nos Estados Unidos e vive de pequenos bicos. A opinião pública está cada vez mais contra a imigração, graças à militância ferrenha de políticos extremistas como o senador John McLaughlin, interpretado por Robert DeNiro. O que Machete não sabe – mas está prestes a descobrir – é que os mesmos marginais que assassinaram sua esposa mantêm estreitas relações com iminentes cidadãos americanos.

Certamente muitas pessoas acusarão Robert Rodriguez de fazer uma colagem de seu próprio cinema, com referências bem claras a seus longas anteriores e ainda ao trabalho de outros diretores, em especial ao do seu chapa Tarantino. Sim, é verdade, mas isso não desmerece em nada a eficácia com que o cineasta orquestra essa colcha de retalhos exagerada, absurda e incrivelmente genial. Com uma incrível cara-de-pau, Rodriguez enche seu protagonista de frases muito clichês, sem o mínimo constrangimento em reverenciar o cinema de sangue e porrada dos anos 80 (a participação do cara de totem Steven Seagal é o exemplo máximo disso). Pérolas como “Machete não manda mensagem de texto” ou “por que ser um homem, quando se pode ser uma lenda?” saem com a maior naturalidade da boca de Danny Trejo, sujeito brutamontes e feio que seduz todas as gatas do filme com sua macheza sem precedentes. Momento mais bizarro? Inúmeros, mas destaco a cena em que Machete descobre uma utilidade prática para o fato de o intestino humano ter vinte metros de comprimento.

Se tudo se resumisse a risos, sangue e metalinguagem, já teríamos um bom filme. Mas Machete vai além, usando a fita de pancadaria para criar uma crônica subversiva do fascismo que repousa sob a fachada da terra da liberdade propagandeada pelos americanos. Rodriguez ridiculariza a extrema-direita e sua incoerência em odiar os “cucarachos”, mas não conseguir viver sem a força de trabalho deles. Também mostra os conservadores todos como pervertidos, sendo todos os mocinhos do filme interpretados por atores de origem hispânica. E o legal é que o filme trabalha bem nesses dois níveis de compreensão, porque o espectador que não estiver nem aí para esse tipo de problema e quiser ir ao cinema apenas para se divertir, tampouco sairá decepcionado, porque o filme é bastante dinâmico e engraçado.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Megamente


Com a aposentadoria do ogro Shrek, eis que a Dreamworks dá ao público um novo anti-herói esquisito para amar: um alienígena azul, cabeçudo e com sérios problemas de ortografia. Com a iminente destruição de seu planeta, o bebê Megamente é posto numa cápsula espacial, tendo como únicas companhias sua chupeta e um servo – um peixe dentuço chamado simplesmente de Criado. Desde pequeno, Megamente é azarado. Sua nave aterrissa numa penitenciária e ele é adotado pelos detentos, que o educam pelos parâmetros do Mal. Destino oposto ao de outro bebê vindo do espaço que, ao cair numa mansão e receber tudo do bom e do melhor, torna-se o super-herói Metroman. A simbiose entre os dois alienígenas e sua crescente rivalidade é subitamente interrompida quando Megamente, quase sem querer, consegue aniquilar o desafeto e descobre o tédio de não ter mais um opositor. De que adianta ser o manda-chuva sem um inimigo para desafiar?

A partir dessa premissa simples, o filme desenvolve uma trama bastante interessante e divertida. O protagonista é especialmente bem delineado: sob sua capa espalhafatosa de gênio do mal, risadas estridentes e planos mirabolantes, podemos notar os traumas e inseguranças de um personagem que não tem, de fato, uma verdadeira inclinação para a vilania. O que leva à velha discussão sobre o homem ser ou não um produto do seu meio. Não que Megamente seja um cartoon-cabeça; pelo contrário, o ritmo ágil, o roteiro bem azeitado e as ótimas gags visuais não deixam muito espaço para o psicologismo.

O visual colorido e os bons efeitos em 3D certamente farão a festa dos pequenos, enquanto os diálogos debochados e a trilha sonora pop – com direito a Michael Jackson e Guns’n’Roses – entreterão os mais velhos. Assim como ocorria na série Shrek, o filme ainda traz uma série de referências divertidas para o público adulto, desde citações cinematográficas (a de Kill Bill é hilária) até uma tremenda zoação com o presidente americano (o slogan de Megamente ao tomar a cidade é “no, you can’t”). Outra coisa na qual vale a pena ficar de olho é o personagem que imita a voz e os trejeitos de Marlon Brando – ou melhor, de Don Corleone. Impagável.


Fora isso, o carisma enorme do sujeitinho cabeçudo, o charme moderno da mocinha de cabelos curtos e a fidelidade comovente do servo criam uma trinca de personagens apaixonantes, que fazem com que o espectador torça desesperadamente para que aquela princesa consiga descobrir um príncipe escondido dentro daquele sapo azul.

Um programa bacana para toda a família. Sexta nos cinemas.

O Garoto de Liverpool


Como o título já sugere, O Garoto de Liverpool é um filme que biografa um John Lennon anterior aos Beatles. A história acompanha um trecho da adolescência do fundador da banda de rock mais famosa do mundo e é muito mais focada nos conflitos pessoais e familiares de John do que em sua faceta artística. Embora o filme mostre em pinceladas esparsas a influência que o rock teve na formação de sua personalidade e seus primeiros contatos com Paul McCartney e George Harrison, ambos integrantes de sua primeira banda (The Quarrymen), o roteiro está obviamente mais interessado em trazer à baila os fatos mais significativos sobre a infância e adolescência de Lennon, essenciais para que se compreenda melhor a figura multifacetada, transgressora e polêmica que ele viria a ser no futuro.

Um dos focos principais da trama é a relação conflituosa de John com suas duas mães, Julia e Mimi: a primeira é a mãe biológica, que o abandonou aos cinco anos; a segunda, a tia austera que o criou como filho desde então. O relacionamento entre os três é bastante tenso, com o protagonista sempre oscilando entre o afeto explosivo e instável da mãe e a fortaleza fria da tia, e ciente de que cada uma o ama a seu modo – e, no caso de Julia, percebe-se até mesmo uma atmosfera meio incestuosa. Somando-se o drama familiar à pouca paciência de John com a vida acadêmica e com as regras sociais de um modo geral, o personagem é um misto de fúria, carência e rebeldia muito bem interpretado pelo jovem Aaron Johnson. Johnson divide a cena em pé de igualdade com a diva Kristin Scott Thomas e arrasa ao contracenar com os demais colegas de cena, impressionando não apenas pelas nuances dramáticas que dá ao personagem, mas também pelo modo como incorpora o espírito inquieto e debochado do ex-Beatle.

Pena que nem só de acertos seja feito o filme. Debutando na direção de longas, Sam Taylor-Wood exagera um pouco na manipulação de sentimentos e na dicotomia dos opostos. Julia é exageradamente desnorteada, enquanto Mimi exibe uma frieza glacial de grande dama inglesa que chega a ser engraçada, tornando a relação entre as duas personagens um tanto maniqueísta, a despeito das belas interpretações de Kristin Scott Thomas e Anne-Marie Duff. Outra caracterização discutível é a de Paul McCartney, interpretado com pouco empenho por Thomas Brodie-Sangster (o garotinho de Simplesmente Amor). Quando o primeiro encontro entre Paul e John ganha a tela, o espectador já entendeu há muito tempo que aquele é um filme sobre Lennon; portanto, não havia a mínima necessidade de mostrar seu principal parceiro musical de modo tão apático e desinteressante.


Mas, a despeito de sua evidente inexperiência em alguns aspectos, o saldo para Taylor-Wood é positivo. Seu grande acerto foi fazer de O Garoto de Liverpool um filme leve, simpático e despretensioso. Não um filme solene sobre um futuro mito, mas apenas a história de mais um garoto rebelde e com grandes sonhos na cabeça. Mesmo porque a resposta à emblemática pergunta “qual é mesmo o nome da nova banda?”, feita nos minutos finais do longa, já faz parte da História.

Sexta nos cinemas.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1


Pela primeira vez, os personagens centrais da saga Harry Potter não se encontram no Expresso de Hogwarts rumo à escola e à aura protetora emanada por Alvo Dumbledore. Voldemort finalmente consegue instaurar seu reinado de terror no mundo bruxo e, como diz a frase publicitária do longa, nenhum lugar é seguro. De seguro mesmo, só a alta qualidade que o cineasta David Yates vem imprimindo à série desde que assumiu sua direção há três anos, em Harry Potter e a Ordem da Fênix. A versão para a telona do universo mágico criado por J.K. Rowling se iniciou em 2001, com o simpático e ainda bastante infantil Harry Potter e a Pedra Filosofal e foi acompanhada por espectadores de todas as idades por nada menos do que uma década, sendo que grande parte deles cresceram junto com os protagonistas (e atores) e amadureceram junto com a história.

Neste princípio do fim, Voldemort e seus Comensais da Morte tomam o Ministério da Magia e alastram o pânico não apenas pelo mundo bruxo, mas pelo dos trouxas também. Logo no início do filme, vemos Hermione usar um feitiço para se “apagar” da mente e da vida de seus pais, desta forma protegendo-os do que está por vir. Harry, Rony e Hermione sabem que a jornada será solitária de agora em diante e que a única esperança de salvação seria encontrar as horcruxes (artefatos malignos que contém fragmentos da alma de Voldemort). Duas já foram destruídas, mas ainda restam outras quatro. Enquanto elas existirem, o lorde das trevas continuará invencível. Mas quais seriam esses artefatos e onde estariam? E, encontrando-os, como destruí-los? E como três adolescentes poderiam dar conta de tamanha responsabilidade sozinhos, já que não podem mais se arriscar a procurar a ajuda de ninguém? São questões como essas que porão à prova a amizade entre o trio, criando sequências de profundo desalento e transformando-os irreversivelmente em adultos.


A decisão de dividir esta última aventura em dois filmes, motivada ou não por razões financeiras, traz como saldo positivo a possibilidade de uma história mais encorpada e coesa, sem os cortes radicais que marcaram as adaptações anteriores. Como Rowling é pródiga em adicionar à trama central uma enorme quantidade de subtramas e personagens secundários, a cada filme ficava mais azeda a discussão sobre o que foi deixado de fora. Discussão essa que certamente será bem menos acirrada em relação a este longa. Claro que o filme é intensamente referencial aos anteriores, mas a essa altura da história não dá mais para ficar pensando em um espectador ocasional e muito menos julgar o longa por seus méritos puramente cinematográficos. Não que tais méritos não existam: eles estão na tela, e em abundância, mas o que mais impressiona neste sétimo filme é sua extrema adequação em termos de adaptação.

A parceria entre o diretor Yates, que comanda a franquia pela terceira vez, e Steve Kloves, roteirista de todos os filmes da série – com exceção de Harry Potter e a Ordem da Fênix – resulta em um filme maduro e bem estruturado, e que se equilibra com louvor entre injetar tensão ou criar uma atmosfera melancólica, conforme a necessidade do momento. O português Eduardo Serra, fotógrafo do belo Moça com Brinco de Pérola, assina a arrojada e sombria fotografia, enquanto o cultuado Alexandre Desplat se encarrega da trilha sonora. Somando-se esses talentos ao sempre eficientíssimo time de efeitos visuais, o produto final é perfeito em todos os aspectos técnicos. Sem contar que pela primeira vez um dos filmes da série traz uma sequência em animação – muito bem encaixada, por sinal. Outra característica marcante da série é a constante aquisição de grandes atores britânicos a cada longa. Neste capítulo, somam-se ao já consagrado elenco que conta com feras como Alan Rickman, Ralph Fiennes e Helena Bonham Carter os nomes de Rhys Ifans, John Hurt e Bill Nighy. Já o trio central formado por Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint demonstra amadurecimento artístico e entrega boas interpretações em cenas dramáticas, com destaque especial para Grint.


Desde que a obra de Rowling começou a ser adaptada para o cinema, os filmes vem seguindo uma evolução constante, o que faz com que o mais recente seja sempre mais emocionante e bem-resolvido que o anterior. E Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 não decepciona; pelo contrário, apenas eleva ainda mais o nível das expectativas para sua segunda parte, quando finalmente se encerrará a saga do menino bruxo. Afinal de contas, quando um filme deixa o espectador tão grudado na tela que duas horas e meia parecem quinze minutos, podemos considerar que os objetivos foram atingidos. Sem contar que a cena que encerra esta primeira parte não poderia ser melhor. Esperemos agora que a metade final, que tem estreia prevista para 15 de julho de 2011, esteja à altura deste seu bravo predecessor.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

United States of Tara


Como não tenho TV a cabo, muitas vezes tardo um pouco para me inteirar das novidades em termos de séries. Por isso a demora em conhecer a ótima United States of Tara. Criada por Diablo Cody – a oscarizada roteirista de Juno –, a trama é centrada em Tara Gregson, uma mulher casada e mãe de dois adolescentes que sofre de TDI (transtorno dissociativo de identidade), ou seja, tem múltipla personalidade. A série inicia quando Tara e o marido Max resolvem que ela precisa dar um tempo na medicação e se autoconhecer, o que tem como efeito colateral deixar afluir seus outros “alters”: Alice, dona de casa eficiente e ultraconservadora; T., adolescente rebelde de 16 anos; e Buck, um veterano do Vietnã machão.

O assunto da família disfuncional certamente se esgotaria logo na primeira temporada (e a série acaba de encerrar sua segunda) não fossem as boas subtramas secundárias e o excelente elenco. Toni Collette está sensacional no papel-título, conseguindo alcançar estados bastante diferenciados para cada personalidade e, ao mesmo tempo, mantendo uma certa unidade, como se a verdadeira Tara sempre estivesse subjacente. Não foi à toa que a atriz ganhou um Emmy em 2009 e o Globo de Ouro e o SAG deste ano. O sempre simpático John Corbertt interpreta Max, o maridão que ama a esposa acima de todas as suas loucuras e a boa química entre os atores e a sinceridade com que seus personagens são mostrados fazem com que o público se apaixone pelo casal. No elenco coadjuvante, destaca-se Rosemarie DeWitt como Charmaine, a irmã que sempre viveu à sombra de Tara e suas complicações.

Para quem ainda não conhece, fica a dica.

Toni Collette como suas múltiplas personagens. Da esquerda para a direita, Tara, T., Buck e Alice.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sentimento de Culpa


A diretora e roteirista Nicole Holofcener tem uma visão bastante sarcástica dos relacionamentos pessoais e das contradições básicas do ser humano. Egressa da televisão, tendo dirigido alguns capítulos do seriado Sex and the City, o primeiro longa de Nicole a dar as caras por aqui, há três anos, foi Amigas com Dinheiro, uma peculiar história sobre três mulheres casadas e aparentemente bem-sucedidas que mal disfarçavam a inveja da amiga solteira afundada em dívidas.

Em Sentimento de Culpa, como o título em português já escancara, a cineasta volta suas lentes para a culpa. Kate e Alex tem uma loja de móveis antigos e abastecem seu estoque graças a pessoas que perderam seus familiares e querem se desfazer de seus pertences, na maioria das vezes sem terem a mínima noção de que aquelas “velharias” são artigos raros. Para aplacar seu incômodo em estar lucrando com a desgraça alheia, Kate não consegue negar esmola a nenhum desabrigado e inscreve-se em trabalhos voluntários, mas não quer comprar um jeans caro para a filha adolescente e cheia de problemas de auto-estima. Kate e Alex também se sentem mal por terem comprado o apartamento vizinho, onde mora a nonagenária Andra, e agora estarem ansiosos para que ela morra e eles possam finalmente dar início à tão sonhada reforma.

Lidando com personagens essencialmente bons, mas cheios de ambiguidades morais, o roteiro constrói um mosaico bem sincero e divertido da culpa burguesa de uma classe média que anseia desesperadamente dar vazão aos seus instintos consumistas e, ao mesmo tempo, tentar conviver com a própria consciência. E o impulso de contribuição social é gerado pelo já citado sentimento de culpa e não por um desejo genuíno de ajudar ao próximo – Kate, aliás, lembra a personagem de Goldie Hawn em Todos Dizem Eu Te Amo. Mas não é apenas a culpa que está na berlinda, também tem vez no longa outras atitudes dúbias e essencialmente humanas, como, por exemplo, a garota bonita e descolada que não consegue aceitar o fato de ter sido trocada por alguém que ela considera de aparência pior do que a sua e passa a perseguir a rival.


Catherine Keener, que já havia trabalhado com Nicole Holofcener com Amigas com Dinheiro, está cada vez mais madura como atriz e dá muitas nuances a Kate, personagem que poderia facilmente cair na caricatura, se interpretado de modo menos habilidoso. Também chamam a atenção Amanda Peet e Rebecca Hall como as netas de Andra, irmãs de personalidades totalmente opostas. Enquanto a Mary de Amanda não suporta a avó, mas é incrivelmente parecida com ela em suas rabugices e obsessões recorrentes, a doce Rebecca vive para ser legal com os outros. E não podemos deixar de destacar as igualmente ótimas Sarah Steele, que interpreta a adolescente Abby, e Ann Guilbert, a nonagenária rabugenta.

O único problema de Sentimento de Culpa é que o filme é demasiado linear em sua abordagem. Ainda que tenha méritos indiscutíveis, como o de colocar em pauta questões importantes com leveza e bom humor, e seja muito bem amparado pelo ótimo elenco, ainda assim, ao final da projeção, o espectador pode ficar com a sensação de que ficou faltando no conjunto aquele “quê” a mais. E ficou mesmo. O filme promete muito, mas o resultado final acaba sendo apenas simpático. De todo modo, vale uma conferida.

Estreou hoje.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Atração Perigosa


Ben Affleck, quem diria, é uma caixinha de surpresas. Lá nos idos de 1998, entrou em Hollywood pela porta da frente, vencendo um Oscar em parceria com o amigo Matt Damon (melhor roteiro original, por Gênio Indomável). Só que, depois disso, as coisas foram saindo dos trilhos em sua carreira. Fez péssimas escolhas como ator (Armageddon e Pearl Harbor são apenas dois exemplos dentre tantos), não escrevia mais roteiros e ainda se meteu num romance escandaloso com Jennifer Lopez. E eis que, quando todo mundo achava que o sujeito estava acabado, ele se reinventa como diretor. E dos bons. Seu dèbut em longas foi há três anos, com o filmaço Medo da Verdade, um noir instigante baseado em Dennis Lehane e adaptado para a telona pelo próprio Affleck. Com este Atração Perigosa (lamentável título em português para The Town), Ben Affleck prova que o resultado obtido com seu longa anterior não foi mera sorte de principiante.

Baseado no livro Prince of Thieves, de Chuck Hogan, o filme abre com dados estatísticos sobre o fato de Charlestown, Boston, ser a capital de roubos a carros-fortes, profissão que, muitas vezes, passa de pai para filho na região. Affleck é Doug McRay, o “cérebro” de um pequeno bando de assaltantes, todos eles de descendência irlandesa e amigos de infância. Após um bem-sucedido assalto a um banco, o grupo começa a ficar apreensivo ao descobrir que Claire, a jovem gerente que havia sido feita de refém, mora na vizinhança. Doug toma para si a tarefa de sondar a moça. Oficialmente, por ser o mais sensato da gangue; na real, por estar atraído por ela desde o dia do assalto. Como o espectador já pode prever desde o primeiro olhar, Doug e Claire se envolverão, o que só reforçará a vontade dele de dar um basta na sucessão de golpes que é sua vida.

Antes de qualquer coisa, é preciso esclarecer que, como trama, o filme não apresenta absolutamente nada de novo. Segue quase uma cartilha do gênero, com elementos batidos como a figura do marginal que tenta mudar de vida, mas tem suas escolhas dificultadas pelo meio e pelas companhias; a pressão do melhor amigo criminoso a quem ele deve grandes favores; a mocinha que se apaixona sem conhecer sua vida pregressa; e, claro, o famoso apelo de realizar um “último trabalho” antes de parar. Mas, estranhamente, todos esses clichês são trabalhados com frescor graças à excelente direção de Ben Affleck, tanto no que diz respeito a obter o melhor de seu elenco como nas empolgantes cenas de ação. Adicionando-se a esta direção segura uma edição precisa e um roteiro bem azeitado, o resultado final é um filme que se destaca pela competência, usando a seu favor até mesmo as limitações de um ator como Jeremy Renner, que parece estar se especializando em tipos brutamontes e de pavio curto. E o próprio Affleck se sai bem no papel principal, embora quem roube a cena seja sempre Rebecca Hall.


Atração Perigosa não chega a estar no mesmo nível de Medo da Verdade, mas é um ótimo thriller de ação e um mais um degrau no caminho de Ben Affleck rumo a um novo e mais elevado patamar. Bom para ele. E para todos nós, que temos mais um talento promissor para ficar de olho.

Sexta-feira nos cinemas.

sábado, 9 de outubro de 2010

62 na disputa por um Oscar


Um total de 62 países inscreveram seus representantes na corrida por uma indicação ao Oscar 2011 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, ou seja, não falado em inglês. Muitos bons filmes vistos recentemente no Festival do Rio brigam por uma vaga, como é o caso do argentino Carancho, do chileno A Vida dos Peixes e do italiano A Primeira Coisa Bela.

Confiram a lista completa:

Afeganistão: Black Tulip, de Sonia Nassery Cole
África do Sul: Life Above All, de Oliver Schmitz
Albânia: East, West, East: The Final Sprint, de Gjergj Xhuvani
Alemanha: When We Leave, de Feo Aladag
Argélia: Outside the Law, de Rachid Bouchareb
Áustria: La Pivellina, de Tizza Covi e Rainer Frimmel
Argentina: Carancho, de Pablo Trapero
Azerbaijão: The Precinct, de Ilgar Safat
Bangladesh: Third Person Singular Number, de Mostofa Sarwar Farooki
Bélgica: Illegal, de Olivier Masset-Depasse
Bosnia e Herzegovina: Cirkus Columbia, de Danis Tanovic
Brasil: Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto
Bulgária: Eastern Plays, de Kamen Kalev
Canadá: Incendies, de Denis Villeneuve
Cazaquistão: Strayed, de Akan Satayev
Chile: A Vida dos Peixes, de Matías Bize
China: Aftershock, de Feng Xiaogang
Colômbia: Crab Trap, de Oscar Ruíz Navia
Coreia do Sul: A Barefoot Dream, de Kim Tae-gyun
Costa Rica: Of Love and Other Demons, de Hilda Hidalgo
Croácia: The Blacks, de Goran Devic e Zvonimir Juric
Dinamarca: In a Better World, de Susanne Bier
Egito: Messages from the Sea, de Daoud Abdel Sayed
Eslováquia: The Border, de Jaroslav Vojtek
Eslovênia: 9:06, de Igor Sterk
Espanha: También la Lluvia, de Icíar Bollaín
Estônia: The Temptation of St. Tony, de Veiko Õunpuu
Filipinas: Noy, de Dondon Santos
Finlândia: Steam of Life, de Joonas Berghäll e Mika Hotakainen
França: Of Gods and Men, de Xavier Beauvois
Grécia: Dogtooth, de Yorgos Lanthimos
Holanda: Tirza, de Rudolf van den Berg
Hong Kong: Echoes of the Rainbow, de Alex Law
Hungria: Bibliothèque Pascal, de Szabolcs Hajdu
Islândia: Mamma Gógó, de Friðrik Þór Friðriksson
Índia: Peepli Live, de Anusha Rizvi
Indonésia: How Funny (This Country Is), de Deddy Mizwar
Irã: Farewell Baghdad, de Mehdi Naderi
Iraque: Son of Babylon, de Mohamed Al Daradji
Israel: The Human Resources Manager, de Eran Riklis
Itália: La Prima Cosa Bella, de Paolo Virzì
Japão: Confessions, de Tetsuya Nakashima
Letônia: Hong Kong Confidential, de Maris Martinsons
Macedônia: Mothers, de Milcho Manchevski
México: Biutiful, de Alejandro González Iñárritu
Nicarágua: La Yuma, de Florence Jaugey
Noruega: Angel, de Margreth Olin
Peru: Contracorriente, de Javier Fuentes-León
Polônia: All That I Love, de Jacek Borcuch
Porto Rico: Miente, de Rafi Mercado
Portugal: Morrer Como um Homem, de João Pedro Rodrigues
República Checa: Kawasaki‘s Rose, de Jan Hrebejk
Romêmia: If I Want to Whistle, I Whistle, de Florin Serban
Rússia: The Edge, de Alexei Uchitel
Sérvia: Solemn Promise, de Srdjan Karanovic
Suécia: Simple Simon, de Andreas Öhman
Suíça: La Petite Chambre, de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond
Taiwan: Monga, de Doze Niu
Tailândia: Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, de Apichatpong Weerasethakul
Turquia: Honey, de Semih Kaplanoglu
Uruguai: La Vida Útil, de Federico Veiroj
Venezuela: Hermano, de Marcel Rasquin