segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Noite Francesa em Hollywood

A simpática trupe de O Artista, com direito a mascote e tudo

Numa cerimônia em que tudo correu mais ou menos dentro da previsibilidade e do favoritismo, a HPFA – Hollywood Foreign Press Association – entregou na noite de ontem seus Golden Globes. A premiação seguiu a tendência de pulverizar estatuetas, mas, ainda assim, O Artista, do alto de seus três prêmios, prova que tem cacife para seguir firme e forte rumo ao Oscar, mesmo tratando-se de um filme francês em preto-e-branco e sem diálogos (sinal de maturidade da meca do cinema). Também o iraniano A Separação praticamente carimba seu passaporte para o Oscar com mais essa vitória.

Categorias onde se pode prever boa briga até a reta final? Praticamente todas as principais: melhor atriz, ator, filme e direção, até mesmo por conta do afunilamento do Oscar, que não faz divisão em gênero como o Globo de Ouro. O caminho inverso acontece na categoria roteiro, que no Oscar se subdivide em original e adaptado. Alguma dúvida de que o prêmio para roteiro original já tem as digitais de Woody Allen impressas nele?

Confiram abaixo todos os ganhadores!

Cinema:

Melhor Filme (Drama) – Os Descendentes
Melhor Filme (Comédia ou Musical) – O Artista
Melhor Ator (Drama) – George Clooney (Os Descendentes)
Melhor Atriz (Drama) – Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Melhor Ator (Comédia ou Musical) – Jean Dujardin (O Artista)
Melhor Atriz (Comédia ou Musical) – Michelle Williams (Sete Dias com Marylin)
Melhor Ator Coadjuvante – Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Melhor Atriz Coadjuvante – Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Melhor Diretor – Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret)
Melhor Roteiro – Woody Allen (Meia-Noite em Paris)
Melhor Canção Original – Masterpiece (W.E.)
Melhor Trilha Sonora – O Artista
Melhor Filme de Animação – As Aventuras de Tintim
Melhor Filme Estrangeiro – A Separação

TV:

Melhor Série de TV (Drama) – Homeland
Melhor Série de TV (Comédia ou Musical) – Modern Family
Melhor Minissérie ou Filme Feito para a TV – Downton Abbey
Melhor Ator em Série de TV (Drama) – Kelsey Grammer (Boss)
Melhor Atriz em Série de TV (Drama) – Claire Danes (Homeland)
Melhor Ator em Série de TV (Comédia ou Musical) – Matt LeBlanc (Episodes)
Melhor Atriz em Série de TV (Comédia ou Musical) – Laura Dern (Enlightened)
Melhor Ator em Minissérie ou Filme para a TV – Idris Elba (Luther)
Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para a TV – Kate Winslet (Mildred Pierce)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Filme para a TV – Peter Dinklage (Game of Thrones)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Filme para a TV – Jessica Lange (American Horror Story)

sábado, 14 de janeiro de 2012

A Cripta de Poe


Ontem, em plena sexta-feira 13 – a data não poderia ter sido mais apropriada – estreou o fascinante espetáculo A Cripta de Poe, nascida de uma fértil parceria entre duas companhias teatrais, a brasileira Companhia Nova de Teatro e a italiana Cia. Teatro del Contagio. Tomando como sugestiva locação o Castelinho do Flamengo e suas escadarias, salões e recantos, o grupo monta uma dramaturgia inspirada não somente nos contos, mas em toda a atmosfera lúgubre reinante na literatura de Edgar Allan Poe.

OK, eu sei que a minha opinião é meio suspeita. Eu amo Poe. Claro que uma pessoa que tem um corvo e a palavra nevermore tatuados no braço não poderia deixar de curtir essa peça. Mas creiam-me: o espetáculo é capaz de fascinar qualquer espectador que se deixe levar pelo caldeirão de sensações proposto pelos encenadores. Com o auxílio de projeções, fumaça, iluminação tétrica, portas batendo, sons estridentes, muito pancake no rosto e preto nos figurinos, o elenco, durante pouco mais de uma hora, nos conduz a uma febril viagem pelo mundo de pesadelos e delírios do grande escritor americano. Sim, é uma peça itinerante; e esse é um dos grandes baratos: não saber o que nos espera a cada novo patamar ou salão.

Em cena, os brasileiros Matheus Prestes, Rosa Freitas e Carina Casuscelli se juntam aos italianos Omero Affede e Carmen Chimienti para interpretar a dramaturgia criada a partir de fragmentos retirados dos contos/poemas O Espectro, Ligéia, O Retrato Oval, Berenice e William Wilson, além, é claro, da obra-maior de Poe, O Corvo. Numa boa sacada, as projeções dos textos feitas nas paredes auxiliam o público a compreender as falas ditas pelos atores italianos. Vale dizer que ambos são tão claros e expressivos que a legendagem nem me parece tão necessária, mas, de todo modo, é uma solução prática e eficiente para a platéia brasileira.

O melhor de tudo? Trata-se de um espetáculo gratuito. Dá uma alegria danada ver um espaço tão bacana e geralmente tão mal-aproveitado como o Castelinho do Flamengo sendo ocupado por um espetáculo desse nível. A Prefeitura do Rio e a Secretaria de Cultura realmente deveriam incentivar mais propostas assim. A temporada de A Cripta de Poe vai até 5 de fevereiro, com apresentações às sextas e sábados às 21h e domingos às 20h. A classificação etária é de 14 anos. A noite de estreia acabou sendo um pouco tumultuada pelo fato da peça comportar em média 15 espectadores e a produção, numa atitude bastante simpática, ter feito um esforço para atender aos 27 presentes. Claro que isso acabou prejudicando um pouco a logística do espaço cênico, então creio que das próximas vezes o público deve ficar restrito a 15 espectadores mesmo. Minha dica é: deem uma passada por lá cedo, uma hora antes, deixem o nome na lista e retornem depois. No mais, é só abrir a mente e a alma para essa experiência rumo aos recantos mais arrepiantes da existência humana. Bons pesadelos para todos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Artista e A Separação ganham mais prêmios

O Artista

Foram divulgados ontem os vencedores da 17ª edição do Critics Choice Movie Awards. O longa francês O Artista continua firmando-se como favorito às principais premiações do ano, tendo abiscoitado quatro prêmios, incluindo melhor filme e direção. O drama Histórias Cruzadas também marca presença, graças à força de seu elenco, tendo levado a melhor nas categorias melhor atriz, atriz coadjuvante e elenco. Outro que deixa mais uma vez sua marca é Woody Allen, com o roteiro do encantador Meia-Noite em Paris. Mas nenhum filme tem demonstrado ser uma unanimidade tão maciça quanto A Separação na categoria filme estrangeiro. O longa iraniano não perdeu uma sequer e vai ser uma grande decepção se ele não levar o Oscar e o Globo de Ouro, que, aliás, anuncia seus ganhadores neste domingo. Enquanto isso, confiram os vencedores Critics Choice Movie Awards:

Melhor Filme – O Artista
Melhor Ator – George Clooney (Os Descendentes)
Melhor Atriz – Viola Davis (Histórias Cruzadas)
Melhor Ator Coadjuvante – Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Melhor Atriz Coadjuvante – Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Melhor Ator-Revelação – Thomas Horn (Extremely Loud & Incredibly Close)
Melhor Elenco – Histórias Cruzadas
Melhor Diretor – Michel Hazanavicius (O Artista)
Melhor Roteiro Original – Meia-Noite em Paris
Melhor Roteiro Adaptado – O Homem Que Mudou o Jogo
Melhor Fotografia – A Árvore da Vida
Melhor Direção de Arte – Hugo
Melhor Edição – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Melhor Figurino – O Artista
Melhor Maquiagem – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2
Melhores Efeitos Visuais – Planeta dos Macacos – A Origem
Melhor Som – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2
Melhor Filme de Animação – Rango
Melhor Filme de Ação – Drive
Melhor Comédia – Missão Madrinha de Casamento
Melhor Filme Estrangeiro – A Separação
Melhor Documentário – George Harrison: Living in the Material World
Melhor Canção – Life’s a Happy Song (The Muppets)
Melhor Trilha Sonora – O Artista

A Separação

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

La Nochevieja


O Ano-Novo madrileno é nas ruas, ou melhor, na praça. A Puerta del Sol, enorme praça onde desembocam algumas das principais ruas do centro da cidade, vira uma festa bastante animada e colorida no dia 31 de dezembro ou, como eles chamam, la nochevieja. Assim como é tradição em Veneza usar as máscaras de carnaval no réveillon, em Madrid o barato é usar perucas coloridas. Essas de náilon mesmo, estilo Casas Turuna, quanto maior e mais exótica, melhor. E não é onda só de garotão ou turista, é tradição local. Podemos ver vários senhores de idade com moicanos bicolores ou senhorinhas exibindo um tremendo black power. Também não faltam os que vão além e se fantasiam, se exibem, usam óculos loucos, chapéus com chifre de touro, é um verdadeiro carnaval.

Outra tradição diz que à meia-noite se deve ter à mão doze uvas verdes e comer uma a cada badalada do relógio da prefeitura que anuncia o novo ano que se aproxima. OK, eu estava munida da simpática latinha com as “doze uvas da sorte” que achei no supermercado. Claro que a praça estava cheia de ambulantes vendendo saquinhos contendo doze uvas e garrafas de Cava (o tradicional espumante espanhol), mas eu estava mais do que preparada com minha latinha numa mão e a garrafinha one way de Cava na outra. O grande problema foi conseguir ouvir as badaladas: é tanta zoeira que, quando dei por mim, o letreiro de “Feliz 2012” já havia se acendido e eu ainda tinha metade das uvas na mão. Mas acho que valeu pela intenção.

A noite madrilena é animada, começa altas horas, então o cidadão em geral vai para a Puerta del Sol, faz uma baguncinha básica e depois parte dali para outro evento. O importante é marcar ponto. Vi diversos cartazes de festas e ceias fechadas que começariam a partir de uma da manhã, sem hora para terminar. Chama atenção a organização nas ruas, com a polícia bem presente – com uma atitude eficiente, porém não-repressora – e o esquema montado para fazer fluir a massa humana, fechando algumas ruas e concentrando a passagem em outras. Tumultuado, sim; perigoso, de modo nenhum. Na praça reuniam-se grandes grupos, muito animados, inclusive uma turma de brasileiros, mas nenhum excesso ou princípio de confusão. Exemplar. Outra coisa que é bastante interessante é a liberdade expressada por casais de todas as orientações sexuais, cada qual na sua. Enfim, ninguém parece muito incomodado com a vida alheia e cada um curte sua nochevieja como prefere. Grande lição de cortesia e civilidade. 






quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

¡Hola, Madrid!


Depois de cinco dias de sonho em Barça, era hora de partir rumo à capital da Espanha, cidade dos grandes museus, residências dos reis, cenário de tantos filmes de Almodóvar. Uma curiosidade em relação a Barcelona é que, mesmo Madrid sendo bem maior, seu centro histórico é bastante compacto, ou seja, se você buscar um hotel bem localizado pode conhecer os principais pontos turísticos a pé mesmo, o que é impossível em Barcelona, que tem suas atrações mais espalhadas. E a localização do meu hotel não poderia ser melhor, na Calle de Atocha, equidistante dos dois principais museus, o do Prado e o Reina Sofía, e a cerca de 10 ou 15 minutos de caminhada tanto do Palácio Real como da Puerta Del Sol, praça que é o grande polo comercial e social da cidade.

Chegando a Madrid, choca um pouco a diferença no trato com as pessoas. Depois de alguns dias acostumada com a simpatia e relaxamento dos catalães, o madrileno parece ríspido, estressado e grosseiro. E também um pouco ineficiente em termos de serviços (levam horas para te atender, as lojas sempre tem filas lentas, etc.). Mas é a vida, e o viajante tem que saber se adaptar às circunstâncias, já que de nada adianta ficar chorando sobre a Catalunha perdida, então era hora de começar a curtir a cidade e valorizar o que ela tem de melhor: seus museus.

Interessantíssima vitrine de uma loja de souvenirs do Paseo del Prado

O Museo del Prado dispensa apresentações, é o grande museu da Espanha e um dos maiores do mundo. Seu acervo tem obras de gênios como Goya, Velásquez, El Greco, Hieronymus Bosch (conhecido por lá como El Bosco), Rubens, Tintoretto, Caravaggio, Tiziano e tantos outros. O grande quadro, aquele que todos se acotovelam para ver e é o símbolo do museu, é As Meninas, de Diego Velásquez. Emocionante ver essa incrível obra, talvez uma das primeiras a se utilizar da metalinguagem (o próprio Velásquez se retrata na pintura diante do cavalete). Outra obra que merece atenção especial é o festival de picardias de O Jardim das Delícias, de Bosch, e também a sala no andar térreo que contém as chamadas “pinturas negras” de Goya, série de catorze quadros que o artista pintou originalmente nas paredes de sua casa e que representam sua fase mais enigmática e nebulosa. Os ingressos para o Prado custam 12€, mas valem cada centavo. Se você tiver disponibilidade, é melhor passar um dia antes e comprar para o dia seguinte para evitar filas.


O Museo Reina Sofía, a poucas quadras dali, é igualmente importante. A diferença está no foco: enquanto o do Prado é mais centrado na arte clássica, o Reina Sofía se concentra mais em artistas do século XX, como Picasso, Dalí e Miró, além de incontáveis fotografias de Man Ray. É lá, ainda, que se encontra o célebre Guernica, mural idealizado por Picasso em 1937 para uma exposição em Paris e que representa o repúdio do artista à Guerra Civil Espanhola, ao retratar em preto e branco o bombardeio sofrido pela cidade de Guernica por aviões alemães, em apoio ao ditador espanhol Franco. Sobre o mural, Picasso teria dito que “o quadro não foi feito para decorar casas e sim como uma arma de ataque e defesa contra o inimigo”. Obrigatório. Curiosamente, o museu permite que se tirem fotografias sem uso de flash em algumas salas – obviamente, a tumultuada sala onde está exposto Guernica não se inclui nessa concessão. Mas diversas obras de Dalí estão abertas às lentes dos visitantes, como se pode ver nas fotos abaixo. Outro mimo simpático é a salinha que passa para o público o polêmico curta de Dalí e Buñuel feito em 1929, O Cão Andaluz. E o melhor sobre o Reina Sofía é que ele é bem mais econômico do que o imponente Prado: ingressos a 6€.


Caso esteja com tempo e disposição, existem, ainda, outros museus importantes na região, omo o Thyssen-Bornemisza e outra unidade do Caixa Forum (ambos no Paseo del Prado), mas realmente o Prado e o Reina Sofía são aqueles que não se pode deixar de visitar em hipótese nenhuma. 

El Rostro del Gran Masturbador, Salvador Dalí, 1929

El Enigma de Hitler, Salvador Dalí, 1939

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Precisamos Falar sobre o Kevin


O filme, baseado no romance de Lionel Shriver We Need to Talk About Kevin parte de um argumento bem polêmico ao retratar uma mãe que tem uma relação de medo e desconfiança com o filho. Eva é uma profissional bem-sucedida e tem um casamento feliz com o marido, Franklin. Só que tudo muda com o nascimento do filho, Kevin, que se mostra uma criança manipuladora e maldosa desde muito pequeno, direcionando seu desprezo para a mãe ao mesmo tempo em que se mostra dócil e carinhoso na frente do pai. O filme foi exibido em competição no Festival de Cannes do ano passado.

Desde A Profecia não se via nas telas uma criança tão diabólica. Na primeira metade do filme, o espectador certamente não conseguirá desviar os olhos de Jasper Newell, intérprete de Kevin na fase infantil. E o mais assustador é que, neste caso, o personagem não tem nenhuma influência maligna do além. Trata-se apenas de um menino sonso e desagradável, brilhantemente interpretado por um ator de 7 ou 8 anos. A forma como ele se mostra de um jeito para a mãe e de outro totalmente diverso para o pai, lançando olhares do mais puro cinismo pelas costas deste, é impressionante, uma verdadeira campanha anticoncepcional. E é justamente esse o ponto alto do filme, o dilema dessa mãe que tem dificuldades em amar o seu filho – e com toda razão, já que ele é detestável.

Quando chegamos à fase do Kevin adolescente, o filme começa a perder um pouco de sua força inicial. E não é por falta de empenho dos ótimos Tilda Swinton e John C. Reilly, nem mesmo do bom Erza Miller – que faz Kevin aos 15 anos –, mas sim pelo fato do filme mudar de rumo e, infelizmente, arrastar para o lugar-comum uma trama que até então se mostrava mais inovadora e pungente. OK, eu estou ciente de que o filme é baseado em um livro e, portanto, a adaptação não deixa muita escapatória, mas ter essa consciência não impede o sentimento de decepção do espectador ao perceber que o filme se encaminha para abordar um assunto batidérrimo, que vem sendo mostrado no cinema à exaustão na última década. Ainda assim, merece uma conferida. 

Cavalo de Guerra


Alguns temas são muito caros a Steven Spielberg, eu diria até recorrentes: a inocência perdida, a crença em um ideal mesmo contra todas as possibilidades, as mazelas da guerra e o poder do mito e da fábula. Seu novo longa, Cavalo de Guerra, reúne todas essas vertentes em um filme só, o que equivale a dizer que o cineasta deveria estar bem à vontade em seu terreno cinematográfico. Como explicar então a frustrante constatação de que um filme tão bonito e tão com “a cara” de seu diretor não consiga decolar? E olha que quem vos escreve aqui é uma pessoa que chora vendo filmes como Marley & Eu e que se emociona com quase qualquer coisa envolvendo animais.

O filme conta a história do relacionamento entre o jovem Albert e seu cavalo Joey ao longo da Primeira Guerra Mundial e como eles permanecem emocionalmente unidos apesar da distância, o que não impede que o cavalinho siga encantando pessoas pelo caminho e influenciando (sempre para melhor) suas vidas. A trama se inicia na Inglaterra rural, quando o pai de Albert compra Joey em um leilão por um preço muito acima do que ele valeria. O rapaz se dispõe a fazer com que o pequeno cavalo – inadequado para o trabalho no campo – se adapte às necessidades da família, treinando-o com incansável carinho e teimosia. Mas a guerra estoura, vem os tempos difíceis e a família é obrigada a vender Joey para não perder a fazenda. É quando o cavalo inicia sua jornada épica, primeiro pelas mãos de um oficial britânico, depois capturado pelo exército alemão, e por aí em diante, seguindo por diferentes localidades e tocando a vida de muitas pessoas.

A fotografia deslumbrante do polonês Janusz Kaminski certamente é a grande carta na manga de Spielberg para criar a atmosfera épica pretendida, com suas nuances ricas e tons belíssimos. Mas cinema é muito mais do que imagem em movimento, e infelizmente Spielberg pesa demais a mão no melodrama e na manipulação dos sentimentos do espectador, alcançando um resultado contrário ao pretendido. Cavalo de Guerra acaba ficando no meio do caminho: passa batido pelos dramas reais de guerra, ao focar mais sua história no animal do que nas pessoas e, ao mesmo tempo, tampouco satisfaz em sua porção fábula. Soa pouco verossímil, até mesmo considerando o filme como uma fantasia, que Joey seja tão indestrutível e inabalável e que cative tão imediatamente tantas pessoas de características tão opostas. Ao contrário do que acontece no excelente Seabiscuit – impossível falar de um filme que envolve cavalos sem lembrar deste –, onde uma nação inteira se apaixonou pelo cavalo como símbolo da reconstrução do país, em Cavalo de Guerra a paixão de tantos humanos por Joey soa meio súbita e forçada.

É claro que o filme é pontuado de belos e tocantes momentos, como, por exemplo, a cena em que uma breve bandeira branca se interpõe entre os exércitos inimigos para que dois soldados ajudem Joey a se desvencilhar de uma cerca de arame farpado. O grande problema está no tom grandiloquente, nos delírios estilísticos, na trilha sonora opressivamente épica, nas muitas cenas alongadas além do necessário, enfim, no exagero generalizado. Com uma boa enxugada, o longa poderia ser bem interessante e suas (não poucas) qualidades não se perderiam em meio a tanta imensidão. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Director's Guild Awards anuncia seus indicados

A partir da esquerda: Alexander Payne, Martin Scorsese, Michel Hazanavicius, David Fincher e Woody Allen


Saíram hoje as indicações ao Director’s Guild Awards, a esperada premiação do sindicato dos diretores de Hollywood. Os concorrentes são Michel Hazanavicius (de O Artista, que promete ser a grande sensação desta temporada), Alexander Payne (Os Descendentes), Woody Allen (Meia-Noite em Paris), Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret) e David Fincher (Os Homens Que Não Amavam as Mulheres). A premiação deixa de fora alguns diretores cotados, como Steven Spielberg e Terrence Malick, apontando uma tendência a favor dos filmes mais singelos contra as produções mais grandiloquentes. Vamos ver se a tendência segue igual para o Oscar.

Hasta Luego, Barça

Pelas ruas do Bairro Gótico

Então vamos a mais alguns pontos a destacar sobre Barcelona, ainda que eu esteja ciente de que mesmo um livro inteiro não é capaz de dar a medida exata de conhecer ao vivo uma cidade, ainda mais se tratando de uma tão vibrante e especial. Outra região muito interessante de ser explorada é o chamado Bairro Gótico, que concentra a parte mais antiga da cidade, apresentando, até hoje, diversos vestígios da era medieval – como, por exemplo, pedaços da antiga muralha romana. Com suas vielas de pedra, construções imponentes e arquitetura gótica, vale muito a pena dar uma conferida na região. É lá que fica também o Museu Picasso, o qual infelizmente acabei não conhecendo pelo fato de ter visitado o bairro no dia 26 de dezembro e desconhecer que era feriado religioso na cidade. E na Espanha, ao contrário de outros países, os museus e comércio em geral não funcionam nos feriados. A exceção são os cafés e restaurantes e algumas lojas de souvernirs, mesmo assim restringindo-se às mais próximas dos grandes focos turísticos. Outro ponto sobre o qual não poderei opinar é a vista interna da catedral Sagrada Família. Mesmo tendo me hospedado a cerca de 100 metros dela, as filas quilométricas e o preço salgado (10€, demais para uma igreja, mesmo sendo uma do Gaudí) desanimam um pouco, ainda mais quem tem poucos dias e muito para ver.

Uma das muitas construções medievais do Bairro Gótico 

Por outro lado, indo de metrô até a estação Espanya, pode-se apreciar uma vista magnífica, conhecer o incrível MNAC – Museu Nacional d’Art de Catalunya – e, ainda, o prestigiado centro cultural Caixa Fórum (o CCBB de lá, cheio de ótimas exposições gratuitas). O MNAC é um grande museu centrado em arte barroca, gótica e romântica. Estão expostas obras de Fra Angelico, El Greco e Goya, dentre outros mestres. Vale uma visita tanto pelo acervo como pela localização privilegiada, em meio a uma bela região arborizada. Ao sair do metrô, é só pegar a Avinguda de la Reina Maria Cristina e já se pode vislumbrar lá no alto o impressionante edifício do museu. A meio caminho da subida (bem equipada com várias escadas rolantes) encontra-se a Fonte Montjuic, cercada de barraquinhas, atividades culturais e muito movimento. Essa fonte protagoniza periodicamente um espetáculo que parece ser bárbaro, com luzes coloridas que dão a ilusão das águas dançarem ao som da música. Como minha estadia na cidade não coincidiu com a programação de lá, infelizmente também não pude conferir essa atração.

O MNAC - Museu Nacional d'Art de Catalunya

Barcelona vista do pátio do MNAC

Mais ou menos à altura da Fonte Montjuic tem a Avinguda Marquès de Comillas. No número 13 fica o excelente centro cultural Caixa Forum. Dentre cinco exposições diferentes, a que mais me chamou a atenção foi uma sobre os impressionistas franceses. Com a minha mentalidade desconfiada de brasileira, já estava prestes a achar que não poderia ser uma exposição tão importante assim pelo simples fato de ser gratuita. Qual não foi a minha surpresa ao adentrar no espaço e dar de cara com uma enxurrada de obras de Renoir, Monet, Manet, Degas e muito outros? Ou seja, só a nata da nata do impressionismo. A Caixa Forum não possui acervo permanente, mas sua programação é sempre variada e interessante.

Deixando a cultura um pouco de lado, não se pode ir a Barcelona e deixar de se perder pelas famosas Ramblas. As Ramblas, na verdade, se fundem em uma grande e larga avenida que inicia na Plaça Catalunya e termina na zona portuária, em frente à estátua de Cristóvão Colombo (foto). Muitas lojas, bares, teatros, barraquinhas e, principalmente, a expressão máxima do espírito catalão, com sua boemia e informalidade. Antes da viagem, havia lido em alguns lugares que ali seria também zona de prostituição. Bom, se é, não foi perceptível para mim. Ou talvez tenha a ver com a época do ano, inverno, proximidades do Natal, etc. Mas vale comentar que na Espanha as sex shops são verdadeiras sex shoppings: coloridas, amplas, com vitrines de paredes inteiras e localizadas em ruas principais, bem à mostra.

A já citada Plaça Catalunya pode ser considerada o ponto nervoso da cidade. A partir dela, se tem acesso às três mais importantes avenidas da cidade: as Ramblas, o Passeig de Gracía (avenida das lojas de grife e também dos edifícios do Gaudí mostrados no texto de 7 de janeiro) e a Gran Vía com seus muitos hotéis, lojas e restaurantes.

Foi pelas Ramblas, ainda, que eu tive oportunidade de assistir a um legítimo grupo de flamenco, o Gran Gala Flamenco. Vale lembrar que o espetáculo flamenco tradicional não é somente dança, mas sim um conjunto de canto, música, percussão e dança, tudo num estilo bem intimista que pode ser, guardadas as devidas proporções, comparado às nossas rodas de samba, já que alguns elementos do grupo se revezam nas funções. O diferencial deste visceral espetáculo, chamado Opera y Flamenco, que é um enorme sucesso na Europa desde 2004, foi o fato deles utilizarem trechos de óperas famosas – como Carmen e Turandot – em ritmo flamenco, juntando em uma apresentação só dois estilos tão diferentes, mas, ao mesmo tempo, igualmente passionais. Maravilhoso, sem palavras! Outra coisa que chama atenção em Barcelona é que, a despeito daquilo lá parecer sempre uma grande farra, tudo funciona com pontualidade britânica. Assim como o metrô entra na plataforma sempre segundos antes do esperado, os teatros começam seus espetáculos rigorosamente na hora. Sem avisos sonoros ou três sinais de lambuja. Apagam-se as luzes e pronto, azar de quem não chegou.

Esse é, então, o último texto sobre a encantadora Barcelona, cidade que conquista e nos deixa com vontade de visitá-la não somente uma vez, mas sempre que possível. Aguardem em breve as impressões sobre Madrid!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Gastronomia e Duplo Sentido


Barcelona é uma festa para todos os sentidos, e não poderia ser diferente com o paladar. Como se come bem naquela cidade! A imensa variedade de comidas, bebidas e sobremesas deliciosas fez qualquer um padecer do pecado da gula. Em termos de cervejas, é bobagem falar sobre cervejas famosas como as irlandesas Guiness e Murphy’s, já que essas são facilmente encontradas em qualquer outro país da União Européia. Em Barcelona, a diva se chama Estrella Damm, cerva local fabricada desde 1876 e que brilha na versão tradicional, escura (Bock Damm) e ainda na surpreendente Damm Lemon. Curiosamente, bastou chegar a Madrid para as cervejas Damm desaparecerem dos bares; ou seja, elas são mesmo um privilégio da região da Catalunha. Outra boa cerveja que é facilmente encontrada nas duas cidades é a holandesa Amstel. Os vinhos, a exemplo do que ocorre na Itália, também são sempre muito bons, mesmo quando pedimos o “da casa”, afinal de contas na Espanha todos os vinhos são espanhóis. E não nos esqueçamos da legítima sangria, que não tem absolutamente nada a ver com essa bebidinha cheia de maçã que se toma por aqui. Também os queijos – com menção honrosa para o manchego – se destacam pela variedade e excelência.

A sensualidade explícita do povo espanhol se traduz muito nos nomes jocosos encontrados na gastronomia, como tapas, pintxos (ou pintchos), pulgas, porras, chupitos e carajillos. Ok, a essa altura um glossário se faz necessário. Chupito é apenas o nome dado à dose de bebida (shot, em inglês) e carajillo é uma espécie de Irish Coffee. Grosso modo, não existe diferença entre tapas, pintxos e pulgas, que são alguns dos nomes dados aos petiscos. Alguns me disseram que a diferença estaria no tamanho dos acepipes, outros que tapas seriam frios e pintxos quentes, mas a verdade é que essas nomenclaturas são dadas de acordo com o gosto do comerciante. A principal característica das tapas (vamos chamá-las assim) é que são porções pequenas, de quatro unidades em média, então a ideia é pedir várias delas e dispor tudo na mesa como se fosse um rodízio de petiscos. Tem de tudo, camarões, chouriço, croquetes, presunto, frutos do mar, batatinhas, bacalhau e muitas outras coisas que constam nos cardápios e sobre as quais eu não cheguei a uma conclusão. Igualmente interessantes são as tostas, basicamente pedaços de pão torrado cobertos com presunto ou salmão e temperos (algo como um canapé grande). Já as porções grandes, como conhecemos aqui no Brasil, lá são chamadas rações.


A diferença entre churros e porras é mais clara. Está de fato no tamanho. Os churros são fininhos e geralmente vendidos em porções de três e as porras, bem maiores e vendidas individualmente. Os tradicionais são neutros (nem doces nem salgados) e não contém recheio. Ambos são popularíssimos no café da manhã, molhados no chocolate quente ou no café com leite. As versões recheadas ou cobertas com chocolate são encontradas em locais mais especializados, as churrerías (ou xurrerías, em catalão), enquanto as versões simples são servidas em qualquer padaria. Os doces catalães são fantásticos, com destaque para as muitas delícias com massa folhada, nozes, avelãs e também para o pestiños de anis, que são uns docinhos fritos recobertos de açúcar. Passada a primeira impressão de estranheza causada pelo gosto fortíssimo do anis, o docinho vira vício. Uma visita ao Mercado Boquería, localizado em meio à boemia das famosas Ramblas (falaremos sobre elas mais adiante), desperta os sentidos e encanta pelo colorido, como pode ser visto na foto abaixo.


Por último, mas nem por isso menos importante, o prato espanhol por excelência: a paella. Existem pelo menos dez tipos diferentes, nem todas com frutos do mar, como conhecemos por aqui. Algumas levam macarrão ao invés de arroz, muitas levam frango, é tarefa quase impossível escolher qual comer, já que todas elas são tradicionais.  Por fim, uma dica na hora de escolher seu bocadillo (sanduíche): jamón york é o presunto cozido, o comum daqui, enquanto o jamón ibérico é aquele delicioso presunto cru (ao estilo do presunto de Parma). E não pensem duas vezes antes de experimentar os ótimos sanduíches de bacon com queijo.

Prestes a conhecer as variedades do mercado La Boquería