domingo, 15 de fevereiro de 2009

Quem Quer Ser um Milionário?


Assim como fazem os concursos de miss, o Oscar deveria ter uma categoria simpatia. Dentre os cinco indicados, geralmente há aquele filme apaixonante, do qual todo mundo gosta, mas que não é considerado “sério” o bastante para ser coroado o melhor filme. No ano passado, esse concorrente foi Juno; no anterior, Pequena Miss Sunshine. Este ano, Danny Boyle conseguiu rechear o produto empolgante com um conteúdo mais profundo e transformou o tal filme simpático em um vencedor absoluto. Pois não tenham dúvidas: Quem Quer Ser um Milionário? vai ganhar essa parada e, com todo mérito, sair da festa cheio de prêmios – incluindo melhor filme e melhor direção.

A abertura do filme nos mostra Jamal Malik, o cão favelado do título original, a apenas uma pergunta do prêmio máximo do programa Quem Quer Ser um Milionário? (aqui no Brasil, o infame Show do Milhão). Uma pergunta surge na tela, essa direcionada ao espectador: como Jamal chegou até ali? a) trapaceando; b) sorte; c) ele é um gênio; ou d) é o destino.

A partir desse questionamento, o filme casa com maestria o momento presente – em que Jamal tem que provar às autoridades que não está trapaceando – com uma série de flashbacks de momentos-chave de sua vida que mostram os caminhos e motivos que o levaram até aquela situação. Criado numa favela, órfão desde pequeno, perseguido por aliciadores de menores, aos tropeços com um irmão que sempre demonstrou péssimo caráter, Jamal nunca teve tempo de sentir pena de si mesmo. Sua única chance sempre foi cair e levantar, não desistir nunca, enfim, o cara é um verdadeiro sobrevivente. Então, como o caro leitor já deve ter percebido, o filme não é sobre suas façanhas no programa de TV, que serve mais como um fio condutor na trama. Sem contar que existe um motivo oculto para sua presença ali, que não tem nada a ver com a possibilidade de ficar rico.

O estreante Dev Patel, que antes desse filme tinha feito apenas alguns episódios de uma série de TV, é quem interpreta Jamal Malik em sua fase adulta. O personagem é interpretado por dois outros atores quando criança e, embora ambas as versões infantis sejam uma graça, é o Jamal adulto que sustenta a história. E que simpatia e carisma Patel esbanja na tela, entregando um personagem que encanta pela determinação e também pela doçura com que enfrenta os reveses. Aliás, todo o elenco, formado por atores indianos desconhecidos para nós, transmite verdade a cada cena. Embora não se possa salientar uma única interpretação de destaque, o elenco como um todo é de uma harmonia rara.


Associada à interessantíssima história, uma trilha sonora esperta e empolgante sublinha com precisão cada cena de impacto. Assim como a montagem precisa e a fotografia perfeita ajudam a emoldurar um cenário que, embora chamativo e exótico, nunca se torna mais interessante do que a trama em si. Não que a Índia não esteja toda na tela, com todas as suas belezas e mazelas. Mas tanto o esplendor do Taj Mahal como a desolação das favelas surgem a serviço da história que está sendo contada e não como um ensaio fotográfico da National Geographic.

O filme também marca a volta por cima do cineasta Danny Boyle, que realizou dois filmaços – Cova Rasa e Trainspotting, que revelaram Ewan McGregor – logo que migrou da TV para o cinema, em 1995, e depois disso nunca fez mais nada digno de nota, oscilando entre o apenas razoável e o constrangedor mesmo. Neste filme, que é puro coração, Boyle se redime de qualquer pecado anterior e se impõe como realizador de um filme terno e feliz. Não no sentido dos personagens não sofrerem e sim no sentido do longa celebrar a vida e o amor, de acreditar na superação de barreiras aparentemente intransponíveis. E nada disso ocorre na tela de modo pseudo-edificante ou careta, mas sim como uma reação espontânea, orgânica. E depois de duas horas, quando chegarem os créditos finais, você, espectador, estará com a alma lavada. Podendo sentir vontade de rir, chorar ou aplaudir. Ou tudo ao mesmo tempo, vivenciando uma bela e verdadeira catarse. Não se espante. É isso que cinema de verdade causa na gente.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Operação Valquíria


Operação Valquíria conta a história dos homens que arquitetaram um intrincado plano para assassinar Hitler e tomar o poder das mãos da SS, deste modo podendo negociar com os aliados e pôr fim à guerra. A trama se inicia quando o coronel alemão Claus von Stauffenberg, ferido em combate, retorna da África para Berlim. De volta ao centro do poder, ele se junta a um grupo de militares de alta patente descontentes com os rumos que a guerra tomou. É o coronel Claus quem descobre a Operação Valquíria, plano secreto que aciona o exército reserva de Hitler em caso de golpe político, e tem a idéia de usar o plano de Hitler contra ele mesmo, manipulando as forças militares de modo que pensem estar defendendo o governo estabelecido. Mas o sucesso do plano depende de um ponto muito importante: é preciso assassinar o ditador antes de tomar o poder.

Como ensina a História, o plano deu errado. E não foi o único, já que antes dele outras pessoas tentaram o mesmo. E fracassaram. Mas o filme não é exatamente sobre Hitler e sim sobre as pessoas que fizeram resistência a ele dentro de seu próprio governo e pagaram caro por sua ousadia. Vale ressaltar que o grupo não era norteado por nenhuma espécie de heroísmo desinteressado, já que a tentativa desesperada de remover o ditador do poder só foi posta em prática em 1944, ou seja, quando já estava evidente que a Alemanha perderia a guerra. O outrora amado führer agora era um empecilho para terminar com uma contenda que já estava perdida. Então, podemos dizer que Stauffenberg e cia. eram apenas homens inteligentes que estavam cansados de lutar por uma causa perdida.

O filme de Bryan Singer faz grande esforço para revestir o protagonista de humanidade, inserindo preocupações com a família e uma ternura em relação aos filhos que parecem ser mais do próprio Tom Cruise do que do personagem. Mas tudo bem, isso não chega a ser um problema. Quem sabe o cara realmente não entrou numa tomada de consciência, ainda que tardia? Tom Cruise, achincalhado por alguns críticos, não faz feio no papel. Seus detratores certamente se basearam mais em seus próprios preconceitos contra o ator do que no que ele demonstra na tela. Sua interpretação é bastante convincente, embora esteja cercado de coadjuvantes de primeiríssimo nível, com destaque para Bill Nighy e Kenneth Branagh.

Operação Valquíria é mais um thriller de espionagem do que um filme de guerra, tanto que a única cena de batalha é logo no começo, quando Stauffenberg é atingido num bombardeio e perde um dos olhos. É uma produção esmerada, bem escrita e bem dirigida. O porquê dela nunca chegar a decolar completamente é um mistério insondável. Estaria o público cansado de filmes sobre o nazismo e a segunda guerra? Pode ser. Ou talvez o filme apenas não impressione tanto por estar estreando em meio aos candidatos ao Oscar que, diga-se de passagem, este ano estão nivelando a disputa por cima. A verdade é que, ao final da projeção, a sensação é a de ter assistido a um filme OK. Nada além disso. Um longa que não errou, mas tampouco causou emoção – a presença de Tom Cruise por aqui causou muito mais sensação do que o filme em si.

De todo modo, Operação Valquíria tem o mérito de contribuir para divulgar esse episódio pouco conhecido da História recente. Vale pela informação, ainda que num longa de ficção.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sexta-Feira 13


Um ano que tem já no começo não apenas uma, mas duas sextas-feiras 13 (hoje e 13 de março), não poderia ser mais propício para o retorno do psicopata de Crystal Lake. Os jovens campistas que se previnam, porque Jason Voorhees está de volta com sua máscara de hóquei e facão.

O enredo? O de sempre. Um grupo de jovens desavisados (caramba, depois de vinte anos eles ainda não aprenderam que ninguém volta vivo de Cristal Lake?) vai se jogar na toca do lobo. É claro que, dentre eles, há uma mocinha gente boa, o mauricinho arrogante, a garota fútil doida pra transar e os engraçadinhos de plantão que querem faturar mulher mas só conseguem ser trucidados pelo maluco do facão. Junta-se ao grupo Clay (o bonitinho Jared Padalecki, do seriado Supernatural), um rapaz que procura a irmã que desapareceu na região seis meses antes – situação mostrada no prólogo do filme.

Sabe quando você gosta de determinado cantor ou banda, mas não o suficiente para comprar todos os discos de carreira do sujeito? Geralmente, você compra um CD estilo “the best of”. É exatamente esse o espírito do novo Sexta-Feira 13. Embora o longa seja o décimo-segundo da franquia, o roteiro não segue a cronologia anterior – o que, diga-se de passagem, não faz a mínima diferença. O filme é uma coletânea de momentos-chave e releituras de situações vistas nos longas anteriores. Jason pulando do fundo do lago, uma cena com a mãe, uma mocinha que finge ser a mãe... e mortes variadas, de todos os jeitos. Também é mostrado o momento em que Jason troca o saco de estopa na cabeça pela máscara que é sua marca registrada (originalmente, a troca ocorreu no terceiro filme). Fora isso, a garotada continua fazendo tudo que não se deve fazer para sobreviver em um filme de terror: ficam de costas para as janelas, se escondem embaixo de pisos de tábuas e, claro, sempre vão para o meio do mato sozinhos ou em dupla. Jason só precisa esperar as oportunidades. Afinal de contas, o cara é psicopata, mas não é burro.

Então, é isso. Mais um Sexta-Feira 13. Quem viu os outros, pode se divertir com as referências. Quem não viu nenhum, pode ter uma idéia geral apenas com esse filme. Já quem não acha a mínima graça em ver gente sendo estraçalhada e se impressiona com sangue, é melhor passar longe.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Milk


Quando assisti ao longa O Curioso Caso de Benjamin Button, há algumas semanas, estava certa de ter encontrado meu candidato ao Oscar, tamanho meu deslumbramento com o filme-poesia de David Fincher. Certeza que acaba de ser seriamente abalada graças ao carisma de um homem: Sean Penn. Não que Milk seja um veículo para o ator demonstrar o imenso talento que todo o mundo já conhece. Longe disso. Milk tem qualidades próprias, inquestionáveis. Ainda assim, a figura apaixonante de Penn como o libertário Harvey Milk – primeiro americano assumidamente gay a ser eleito para um cargo público – entra desde já para a galeria das grandes interpretações da sétima arte e serve de plataforma para alavancar ainda mais um filme que já seria muito bom por natureza.

Desculpa, Mickey Rourke. Mas fica difícil cogitar outra pessoa para o Oscar depois de ver Sean Penn nesse papel. Ao contrário de Rourke, Penn desconstrói a imagem que costuma ser associada a ele e seus personagens usuais – truculento, machão, carrancudo, mafioso – para entregar uma performance suave e delicada, mas em nenhum momento óbvia. Como é gratificante ver um ator sumir completamente para fazer emergir o personagem. Penn apresenta um Harvey Milk obstinado e provocador, pero sin perder la ternura. E para nós, brasileiros, que não conhecemos o original, essa fica sendo a imagem definitiva. E a boa surpresa é que o mérito interpretativo vai muito além de Sean Penn, já que todo o elenco prima pela excelência. A ponto de parecer injusto que somente Josh Brolin tenha sido indicado ao Oscar de melhor coadjuvante, já que a honraria seria igualmente merecida por Emile Hirsch e James Franco. Apenas Diego Luna parece fora do tom, mas, como trata-se de um personagem real, fica o benefício da dúvida. Talvez o verdadeiro Jack Lira fosse, de fato, aquela drama queen.

A trama começa em 1970. Milk, prestes a completar quarenta anos, ainda era um funcionário burocrata e homossexual enrustido. Depois de se apaixonar pelo jovem Scott, muda-se com ele para as imediações da rua Castro, em São Francisco, onde os dois abrem uma loja de fotografia. Harvey começa se libertar e mudar de atitude depois de ser hostilizado por um comerciante vizinho e logo descobre o poder que os gays poderiam alcançar se “saíssem do armário” e se unissem. E decide não descansar enquanto não conseguir se eleger para um cargo de supervisor em seu distrito (uma espécie de sub-prefeito). Vale lembrar que isso ocorreu em uma época em que a sociedade americana era extremamente conservadora: pessoas perdiam o emprego por serem homossexuais e até eram presas por frequentar bares gays.

Mesclando ao filme imagens de arquivo e também de um documentário realizado sobre o político, a fotografia saturada e envelhecida faz com que a costura fique harmônica diante dos olhos do espectador. Também é bacana a direção de arte, que recria o clima misto de euforia e repressão dos anos 70 – pura nostalgia ver Harvey Milk dançando ao som de You Make me Feel. Por fim, a direção sóbria e segura de Gus Van Sant dá o toque final nesta produção 100% caprichada. O cineasta finalmente deixou um pouco de lado os exercícios de estilo em cima de uma juventude perdida que vinham caracterizando sua filmografia recente para se concentrar em contar uma história. Verdadeira, tocante, engraçada e, sobretudo, adulta. Resultado? Realizou um filmaço.

Milk estréia aqui em 20 de fevereiro, véspera de carnaval e antevéspera do Oscar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Sandálias da Humildade


- "Tenho uma visão muito realista de mim mesmo. Algumas pessoas acham que é humildade excessiva, ou até mesmo falsa modéstia, quando digo que nunca fiz um grande filme. Quando eu dramatizo minhas observações da vida, dizem que é cinismo. Mas não é nada disso, em nenhum dos casos. Estou dizendo a verdade. Não me vejo como um artista. Eu me vejo como um cineasta trabalhador, que escolheu seguir no rumo de trabalhar o tempo todo em vez de fazer dos meus filmes algum evento especial do tapete vermelho de três em três anos. Não sou cínico, e estou longe de ser um artista. Sou um sortudo viciado em trabalho."

(o gênio Woody Allen e a visão totalmente deturpada que tem da importância de sua obra, em trecho do excelente livro Conversas com Woody Allen, de Eric Lax)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Quem Quer ser Milionário? ganha mais uma

Na disputa entre O Curioso Caso de Benjamin Button e Quem Quer ser Milionário? pelos Oscars, o cão favelado milionário ganhou mais um round. Acabam de ser anunciados os vencedores do Bafta, o prêmio da academia britânica, e o filme de Danny Boyle abocanhou nada menos que sete estatuetas, deixando apenas três prêmios menores para Benjamin Button.

Outros favoritos incontestáveis para o dia 22 de fevereiro são Heath Ledger como melhor coadjuvante, Kate Winslet como melhor atriz e Wall-E como filme de animação. E a migração de Kate para a categoria principal parece ter favorecido Penélope Cruz, agora a nova favorita na categoria atriz coadjuvante. Já entre os atores, a briga fica entre Mickey Rourke (vencedor do Globo de Ouro e do Bafta) e Sean Penn (vencedor do SAG, o que pesa mais do que os dois prêmios de seu concorrente juntos).

Confiram os vencedores:

Filme – Quem Quer ser Milionário?
Atriz – Kate Winslet (O Leitor)
Ator – Mickey Rourke (O Lutador)
Direção – Danny Boyle (Quem Quer ser Milionário?)
Roteiro Original – Na Mira do Chefe
Roteiro Adaptado – Quem Quer ser Milionário?
Filme em Língua Estrangeira – I've Loved You so Long (França)
Filme de Animação – Wall-E
Ator Coadjuvante – Heath Ledger (Batman – O Cavaleiro das Trevas)
Atriz Coadjuvante – Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)
Música – Quem Quer ser Milionário?
Fotografia – Quem Quer ser Milionário?
Edição – Quem Quer ser Milionário?
Direção de Arte – O Curioso Caso de Benjamin Button
Figurino – A Duquesa
Som – Quem Quer ser Milionário?
Efeitos Visuais – O Curioso Caso de Benjamin Button
Maquiagem – O Curioso Caso de Benjamin Button
Curta de Animação – Wallace and Gromit: a Matter of Loaf and Death
Curta (Live Action) - September

(Penélope Cruz em sua chegada, elegante até debaixo de chuva; Kate Winslet comemora a merecida premiação; Danny Boyle confirma o ditado sobre quem ri por último ao sair da festa com sete estatuetas)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O Lutador


Eu nunca simpatizei muito com Mickey Rourke. Acho que ele nunca foi grande coisa como ator e, com o tempo, só piorou. E ainda especializou-se em capitalizar em cima da própria decadência, mantendo um certo orgulho de ser freak. Mas dou a mão à palmatória: restrições à parte, Rourke é o corpo e a alma de O Lutador. Da cara deformada por tanta brutalidade ao físico que oscila entre forte e banhudo, Rourke em cena é o retrato fiel de uma pessoa em fim de carreira – seja ela nos ringues ou na tela. Não é exagero dizer que ninguém faria melhor este papel. O que não quer dizer que eu concorde com sua indicação ao Oscar, muito pelo contrário; o mérito é muito mais de quem escalou o ator do que dele mesmo.

Darren Aronofsky, cineasta de filmes complexos e visualmente ricos como Réquiem para um Sonho e Fonte da Vida, aqui opta pela simplicidade absoluta. Não só pelo fato de ter deixado de lado o apuro estético de suas obras anteriores para mergulhar na breguice do mundo dos lutadores de telecatch, mas também por realizar um bom filme a partir de um fiapo de trama: Randy, “o carneiro”, é um lutador que foi famoso nos anos 80 e ainda mantém alguns fãs e bastante trabalho, apesar de já estar mergulhado na meia-idade. Solitário e decadente, tem nos colegas de ringue sua única família e em uma melancólica stripper seu principal ponto de afeição.

O Lutador não é um filme de surpresas ou reviravoltas. Embora a princípio pareça ser uma espécie de saga edificante ao estilo Rocky, logo o espectador percebe que aqui não valerá a velha fórmula sobre perdedores e segundas chances. Randy está numa curva descendente, não importando muito o quanto ele se esforce para não descer ainda mais. Perceber isso ao longo de toda a projeção e ligar a feiúra e decadência do personagem ao muitos pontos de interseção entre ele e o próprio Rourke é a principal força do filme.

Marisa Tomei, boa atriz que nunca mais acertou na carreira depois de ganhar um Oscar de coadjuvante há quase duas décadas (por Meu Primo Vinny, em 1992), é quem divide a tela com Rourke como a stripper Cassidy. Pode até parecer um dueto de perdedores, mas com a diferença de que Marisa realmente cria uma personagem e se entrega a ela sem inibições. Isso fica evidente em cenas como a que mostra um grupo de rapazes rejeitando-a por ela não ser mais tão jovem. Cassidy é comovente em sua alternância de cansaço com esperança, já que tem um filho e planos de se “aposentar”. E ainda faz um contraste com Randy, que arruinou até mesmo essa possibilidade do apoio familiar. Para completar, uma irreconhecível Evan Rachel Wood morena interpreta a filha com quem Randy tem um relacionamento estremecido e conflituoso.


Outro aspecto interessante é o dos bastidores das lutas, todas armadas e com golpes combinados. Especialmente bacana é a cena em que Randy corta a si mesmo na testa com um pedaço de gilete escondido dentro da munhequeira após um golpe encenado, deste modo levando a multidão ao delírio.

O Lutador é um longa realizado com competência e que extrai o máximo de um argumento simples, que poderia ser resumido em uma linha. Por outro lado, tal história em mãos menos habilidosas poderia ser transformada em um dramalhão apelativo. O corte seco no final deixa claro que a intenção de Aronofsky nunca foi inventar uma solução de última hora e sim questionar até que ponto o sol nasce para todos.

Ah! Uma curiosidade bizarra para a platéia brasileira é a fachada de uma igreja universal que pode ser vista claramente na cena em que Randy e Cassidy conversam em frente a um brechó. Reparem no “pare de sufrir” escrito abaixo do letreiro.

O filme estréia semana que vem, na sexta-feira 13.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Noivas em Guerra


Existem atrizes que começam como uma promessa e se tornam uma decepção; outras não parecem nada de especial a princípio, mas com o tempo e certa dose de dedicação provam seu valor. Kate Hudson se encaixa na primeira categoria: revelada como a groupie Penny Lane do ótimo Quase Famosos, com o passar dos anos virou uma cópia (em aspecto físico e perfil profissional) de sua mãe, Goldie Hawn. Já Anne Hathaway ficou famosa com o sucesso teen O Diário da Princesa, mas seguiu na contramão do que se espera de uma estrelinha adolescente: seja numa comédia como O Diabo Veste Prada ou num drama como Brokeback Mountain, Anne manteve a constante de escolher bons papéis em filmes de bom nível e este ano obteve sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz (por O Casamento de Rachel, que estréia semana que vem). Portanto, não é surpresa que Kate esteja em um filme como Noivas em Guerra; difícil é entender porque Anne está a seu lado.

No filme, Kate é Liv e Anne é Emma. As duas são melhores amigas desde a infância e têm um ideal em comum: casar no mês de junho com uma festa inesquecível no Hotel Plaza de Nova Iorque, sonho alimentado desde que, ainda meninas, assistiram a uma cerimônia lá neste mês. Por uma dessas coincidências que só acontecem em comédias românticas, as amigas são pedidas em casamento quase simultaneamente. Nada poderia ser mais genial, se um erro cometido pela empresa de cerimoniais não tivesse marcado o casamento de ambas para a mesma data. Liv, advogada de sucesso que não está acostumada a ser contrariada, espera que Emma seja flexível e mude sua data. Emma, cansada de estar em segundo plano, quer uma vez na vida ter a preferência. Está declarada a guerra entre as ex-melhores amigas.

O argumento já é uma bobagem, que só se sustenta graças a não uma, mas toda uma série de coincidências e tropeços que atrapalham o caminho das amigas. Toda a trama já parte do absurdo da melhor organizadora de casamentos da cidade cometer um erro dessa magnitude. E o pior é que a tal parece não dar a mínima para o problema causado por sua empresa. Atitude temerária quando se tem como cliente uma advogada, mas tudo bem. Outra estranheza é que o fato de, meses antes, ter três datas disponíveis para o Plaza em junho, e dias depois, ou seja, feita a confusão, a mesma organizadora toda-poderosa dizer que a próxima data vaga em junho seria para dali a três anos.

Esses são apenas pequenos exemplos do nível de insanidade de toda a trama que, mesmo sendo uma comédia, não necessitava partir de pressupostos tão pouco verossímeis. Isso sem contar a facilidade absoluta que as protagonistas têm para sabotar uma à outra. Liv entra numa clínica de bronzeamento artificial onde está Emma e simplesmente vai até a máquina e troca o tubo, alterando a tonalidade do bronzeado da amiga; Emma invade o salão onde Liv está retocando os cabelos e troca sua tinta com a mesma facilidade. O que essas meninas têm, uma capa da invisibilidade?


Kate Hudson compõe Liv com a mesma caricatura de mulher mandona e ambiciosa, metida a sabe-tudo, que tem apresentado em todos os seus papéis recentes. E ela não está sozinha: a veterana Candice Bergen repete praticamente o mesmo papel de Miss Simpatia, ou seja, de perua ícone de bom-gosto e sofisticação. Somente Anne Hathaway consegue dar um pouquinho mais de nuances à sua personagem, uma professora pacata e de índole conciliadora – o que não significa que ela seja uma mosca-morta. Mas assim como uma andorinha só não faz verão, o esforço individual de uma atriz não salva um filme ruim. Não quando o diretor Gary Winick – que também fez o simpático De Repente, 30 – liga o piloto automático e deixa o barco navegar à deriva.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O Leitor


Stephen Daldry foi indicado ao Oscar de melhor diretor em três ocasiões. Até aí, nada demais. Muita gente já concorreu a essa estatueta mais vezes do que ele. O grande diferencial é o fato de Daldry ter dirigido apenas três longas em sua carreira: o simpático Billy Elliot (2000), o emocionalmente devastador As Horas (2002) e, agora, O Leitor. É preciso acrescentar, ainda, que tais indicações são mais do que justas, já que a curta filmografia do cineasta britânico faz grande contraste com a alta qualidade de seus filmes.

Quase todo passado em flashbacks, O Leitor gira em torno de segredos enterrados que assombram um homem por toda sua vida. Aos quinze anos, Michael se apaixonou por uma mulher austera, misteriosa e vinte anos mais velha, Hanna. Com o tempo foi ficando difícil sustentar o relacionamento e um dia, depois de um desentendimento, ela achou por bem sumir e não procurá-lo mais. O que deveria ter sido um romance de verão sem maiores traumas ganhou proporções dramáticas quando, anos mais tarde, Michael reencontra Hanna. Ele é um estudante de direito acompanhando um julgamento de crimes de guerra; ela está no banco dos réus.

Em comum com As Horas, O Leitor tem a preponderância que a literatura tem na vida de seus personagens principais. Uma das características do relacionamento entre Michael e Hanna é o prazer que ela tem em ouvi-lo ler em voz alta para ela, ao mesmo tempo em que a atividade simboliza para ele um modo de ganhar autoconfiança e maturidade. Mais do que uma bela referência, o ritual dos amantes tem um papel muito importante adiante no filme. E a literatura também influi bastante na estrutura do filme, como, por exemplo, quando um professor explica a Michael que toda história parte de um segredo que algum personagem guarda e, por alguma razão nobre ou mesquinha, não quer partilhar. Hanna tem um segredo, Michael logo terá o seu também. As razões de ambos parecem muito mais mesquinhas do que nobres, mas a comovente trama vai aos poucos ensinando ao espectador o quanto é complicado julgar os atos alheios.


O Leitor é uma história onde nada é exatamente o que parece e as cores possuem muito mais matizes cinzentos do que preto e branco. E um dos fatores principais para o ótimo resultado final é ter uma atriz versátil e incrivelmente talentosa como Kate Winslet em um papel cheio de nuances como o de Hanna. Alternando rigidez e doçura, força e fragilidade, paixão e frieza, a atriz arrasa em cena. Uma atuação que não pode ter outro resultado que não seja sua consagração com o Oscar no próximo dia 22. Inclusive um dos motivos que me deixou mais ansiosa para assistir a esse filme foi justamente o fato dela ter sido indicada por esse papel e não por Foi Apenas um Sonho. Confesso que não sei em qual filme ela está melhor, mas talvez a balança tenha pesado mais para esse por conta das diferentes fases da personagem. O personagem Michael é dividido entre Ralph Fiennes na fase adulta e David Kross na adolescência. Fiennes, é claro, dispensa maiores apresentações. A (boa) surpresa é Kross, de apenas 18 anos, que além de ser bom ator também tem boa química com Kate e – mais importante – consegue não se intimidar diante da profunda carga emocional da estrela. Completando o elenco irretocável, Bruno Ganz (o Hitler de A Queda) faz participação de luxo como o professor de direito de Michael.

O Leitor é mais um excelente filme deste comecinho de 2009 abençoado para a sétima arte. Nessa época, devido à corrida para os Oscars, sempre temos a impressão de que o ano que se inicia será repleto de maravilhas cinematográficas. Não é à toa que em dezembro, ao fazer um balanço dos melhores filmes aos quais assisti, sempre reparo que grande parte da lista estreou em janeiro ou fevereiro.

Meu encontro com Tom Cruise


Eu sei que não é exatamente um encontro quando a pessoa em questão está a uns cinco metros e separada de você por uma cordinha de isolamento, mas eu não podia perder a chance de usar esse título. A real é que eu estive ontem no Copacana Palace, na coletiva de imprensa que Tom Cruise concedeu à imprensa brasileira. O ator veio ao Rio de Janeiro para promover seu novo longa, Operação Valquíria, e conversou durante quarenta minutos com repórteres que vieram de todos os cantos do país.

Depois de posar para fotógrafos, Tom adentrou a sala pontualmente às duas da tarde e falou durante quarenta minutos. O assunto principal foi o novo filme – em que ele interpreta um alto oficial nazista que comanda um ousado plano para assassinar Hitler –, mas também houve espaço para suas impressões a respeito da cidade, brincadeiras e até mesmo um inusitado momento de tietagem explícita. Depois de ser anunciado por um porta-voz da Fox, o moço do sorriso bonito entrou na sala acompanhado de um tradutor e iniciou a conversa agradecendo o carinho que todos os brasileiros têm demonstrado por sua filha Suri. Aliás, um assunto recorrente em seu discurso era a preocupação com as crianças, o público infantil e o exemplo dado a elas. Coisas de sua fase pai de família.

Respondendo a uma das perguntas iniciais, Tom destacou a afinidade com o diretor Bryan Singer e afirmou que, neste filme, toda a equipe estava unida no sentido de suscitar não só o interesse do público, mas também de buscar um resultado diferente e inesperado. O ator afirmou mais de uma vez seu amor pelo que faz e garantiu que se empenha para sempre entregar o melhor possível de si. Sobre seus personagens preferidos, disse considerar cada personagem que faz como o personagem da sua vida. Mas confessou ter um carinho especial por seus trabalhos em Top Gun (por gostar de voar) e O Último Samurai (devido ao intenso treinamento em artes marciais e estudo da cultura japonesa). Em Operação Valquíria, longa produzido por ele, Tom diz ter realizado um antigo sonho:

“Sempre admirei clássicos de ação, como A Grande Escapada, e queria fazer um filme moderno, mas que tivesse essa visão clássica, de filme de época. O filme não é um documentário, é claro, mas nós queríamos fazer um thriller e ao mesmo tempo passar esse espírito da resistência alemã e eu acho que o roteirista (o oscarizado Christopher McQuarrie, de Os Suspeitos) foi muito meticuloso nesse sentido.”

Tom declarou, ainda, que costuma trabalhar sempre respeitando bastante os roteiros e que, mesmo quando cria algo, isso acontece como um processo natural a partir do que está escrito no roteiro. Suas declarações também sempre evidenciavam certa preocupação em ressaltar o filme como um trabalho de toda a equipe. Sobre as dificuldades criadas pelo governo alemão para autorizar a filmagem em algumas localidades históricas, o astro minimizou os problemas e elogiou a boa acolhida que recebeu tanto do povo alemão quanto dos órgãos oficiais. Disse que vem lidando com controvérsias ao longo dos seus vinte e cinco anos de carreira e que as capas de revistas costumam aumentar contratempos de pequena importância, o que teria se tornado especialmente incontrolável com a rapidez da internet. E, parecendo considerar o disse-me-disse como efeito colateral de seu trabalho, concluiu: “Eu vivo sob um microscópio, as pessoas querem saber”.

Sobre seu personagem em Operação Valquíria, o ator se mostrou especialmente empolgado com o fato de interpretar um personagem histórico. Segundo ele, um herói bem diferente dos que está acostumado a interpretar. Também contou que não conhecia a trama antes de se envolver no projeto e que acha que o filme é um bom modo de divulgar a história das pessoas que fizeram resistência a Hitler dentro de seu próprio governo. E concluiu confessando o quanto o personagem lhe trouxe de realização pessoal:

“Desde criança eu odeio nazistas. Quer dizer, acho que todo mundo odeia Hitler. E eu tive a satisfação pessoal de quase matá-lo em um filme. Eu sempre me interessei por História e um filme como esse traz a possibilidade olhar para esses fatos através dos olhos de outra pessoa.”

O clima ficou ainda mais descontraído quando um jornalista perguntou a Tom se, durante o período de produção do longa, ele algumas vezes se comportou com o diretor Bryan Singer da mesma forma que seu personagem em Trovão Tropical, um chefão de estúdio insensível e casca-grossa. O ator deu boas risadas e garantiu que, como produtor, não se parece nada com tal personagem. A essa altura, o astro começou a brincar com a ansiedade dos repórteres para tentar fazer uma pergunta (muitas mãos levantadas para poucos microfones): “As pessoas estão acenando ali. Está tudo bem ou tem alguma coisa pegando fogo?”. Foi quando um jornalista que finalmente conseguiu fazer uso do disputado microfone aproveitou para, após uma longa introdução sobre seu sobrinho que seria fã da série Missão Impossível, se aventurar a pedir: “Eu prometi a ele que ia tirar uma foto com o Ethan Hunt. Posso?”. A concordância do ator empolgou uma moça na primeira fila a pegar carona na interrupção, para desespero do segurança que a seguia dizendo “senhora, volte para o seu lugar”.

É, minha gente. Não se pode subestimar o poder de sedução de um astro de primeira grandeza, mesmo num ambiente onde apenas profissionais da imprensa estavam presentes. O encontro encerrou-se, como não podia deixar de ser, com uma pergunta sobre as impressões de Tom sobre o Brasil e a possibilidade futura de filmar aqui. O ator não economizou nas gentilezas:

“Claro, sem dúvida nenhuma. Aqui tudo é lindo: a música, as pessoas, as paisagens belíssimas. E eu adoraria voltar para filmar aqui.”

Então está combinado, Tom. Até a próxima.

Tom posa para fotos antes da coletiva

Eu na sala de conferências (maldito flash que sempre me faz piscar)

Criativo vendedor ambulante que achou um modo de faturar com a estadia de Tom Cruise