domingo, 5 de outubro de 2008

Choke


Victor Mancini é viciado em sexo e trabalha em um parque temático sobre a era colonial. Para complementar o orçamento e, assim, poder arcar com a clínica onde a mãe está internada, Victor costuma angariar a simpatia de estranhos indo em restaurantes e simulando engasgar. Assim, ele estabelece um laço afetivo com seu salvador que lhe rende presentes e até mesmo dinheiro. Sua compulsão sexual parece ter fim quando ele se interessa pela médica que cuida de sua mãe, ao mesmo tempo em que seu melhor amigo Denny, masturbador compulsivo, se apaixona por uma stripper.

O filme é baseado no livro No Sufoco, de Chuck Palahniuk, também autor de O Clube da Luta. Embora sejam histórias bem diferentes, percebe-se alguns pontos em comum entre elas: o tom irreverente, o humor negro, a provocação e, sobretudo, um protagonista desajustado e cheio de carências afetivas impotente perante uma sociedade que não compreende bem. Assim como o personagem de Edward Norton em O Clube da Luta buscava sentir-se vivo quebrando alguns narizes, Victor busca nos estranhos que “salvam” sua vida mais do que uma vantagem financeira: ele quer o carinho, a preocupação, o afeto que nunca recebeu voluntariamente. E ter que representar um pequeno drama para consegui-lo certamente é um preço pequeno para ele.

Choke pinta um quadro surrealista da espécie humana, endossando aquela velha máxima de que, olhando de perto, ninguém é normal. Mas faz essa radiografia moral de uma maneira muito engraçada e, ao mesmo tempo, bastante crítica e inteligente. Das figuraças apresentadas, o grande destaque é o amigo com compulsão pela masturbação interpretado por Brad William Henke. Hilário. Sam Rockwell está ótimo em mais um tipo esquisitão. Está certo que o ator, de uma maneira geral, costuma interpretar sempre esse tipo de personagem, mas não se pode negar que ele faz isso muito bem. A divina Anjelica Huston tem participação luxuosa e, completando o time, uma inspirada Kelly MacDonald. O ator Clark Gregg, mais conhecido aqui como o ex-marido de Julia Louis-Dreyfuss no seriado The New Adventures of Old Christine, estréia na direção com este filme, além de fazer um pequeno papel. Um belíssimo começo. Parabéns pra ele.

Choke (idem), de Clark Gregg. Com Sam Rockwell, Anjelica Huston, Brad William Henke, Kelly MacDonald, Clark Gregg. EUA, 2008. 89Min.

Mostra Panorama

Nota: 8,5

sábado, 4 de outubro de 2008

Vingança


Em uma pequena cidade gaúcha, uma garota é violentada e espancada. No Rio de Janeiro, o misterioso Miguel desembarca de um ônibus e parece ter um objetivo muito claro em mente ao espreitar a gatinha de praia Carol. Os dois iniciam um relacionamento tenso e apaixonado, embora Miguel faça de tudo para não revelar quem é nem o que está fazendo na cidade.

Vingança é um filme diferente, com uma tensão muito presente da primeira à última cena. A violência é muito mais latente do que presente, tanto que nos momentos em que ela ocorre causa menos impacto do que a forte sensação de algo pairando no ar. O filme retoma um tema bem clássico – a lavagem da honra com sangue – e o insere dentro de um contexto contemporâneo. E o legal é que algo tão arcaico fica bastante possível dentro daquele universo de “macheza gaúcha” representado principalmente através do personagem de José de Abreu. Fica claro que aquele homem controla os empregados e a família (conceitos que se misturam no caso de Miguel) com o mesmo pulso com que controla seu gado.

O elenco parece um pouco inseguro no início, mas depois vai ganhando força. O personagem de Erom Cordeiro, com seu jeito calado de matuto e o olhar inquieto que demonstra uma esperteza sub-aproveitada, é a mola propulsora do filme. Manipulado em seus brios e empurrado para a desgraça como “boi de piranha” para satisfazer a sede de sangue daqueles que não querem se sujar, o personagem tem um quê de herói trágico que contrasta com a leveza e inconseqüência de Carol, personagem da bonitinha Branca Messina (como essa menina se parece com a Giovanna Antonelli!).

O roteiro peca por algumas soluções que parecem forçadas, como o motivo que obriga Miguel a se aproximar de Carol primeiro ao invés de seguir direto para seu objetivo. Afinal de contas, não seria nada difícil abordar diretamente a questão que lhe interessava. Mas também se não fosse desse jeito não teríamos filme, não é mesmo? Algumas situações que não são bem explicadas (como a história da foto de Bruno em um jornal) ficam em segundo plano, ainda mais se considerarmos que, já em seu primeiro filme, o diretor e roteirista Paulo Pons conseguiu um feito por vezes raro na sétima arte brasileira: realizar um filme que não pareça uma colagem de tudo que anda fazendo sucesso por aí.

Um atrativo a mais nas sessões deste Festival é poder assistir também ao simpático e romântico Um, curta apresentado antes de Vingança.

Vingança, de Paulo Pons. Com Erom Cordeiro, Branca Messina, Barbara Borges, Marcio Kieling, Guta Stresser. BRA, 2008. 102min.

Première Brasil – Mostra Competitiva

Nota: 7,0

Adoração


Sabine, professora de francês, pede a seus alunos que traduzam uma reportagem sobre um terrorista que usou a namorada grávida como bomba humana. Simon, adolescente solitário que perdeu os pais em um acidente de carro, escreve um texto misturando a tragédia do jornal com seus próprios traumas familiares e o que era apenas um exercício literário ganha proporções enormes. Exibido em competição no Festival de Cannes 2008.

Adoração tem, a meu ver, dois principais pontos fracos: o fato de apoiar grande parte de sua carga emocional em um ator que não dá conta do recado (o inexpressivo Devon Bostick no papel de Simon) e também a pouca credibilidade das ações da personagem da professora (aqui, o que incomodou foi a personagem em si e não a atriz). Eu simplesmente não consigo acreditar em Sabine e em seus joguinhos neuróticos, mesmo porque ela é representada no contexto do filme como uma pessoa ciente de suas ações. Sua aparição disfarçada perante o tio de Simon com aquele discurso sobre o Natal é, no mínimo, desconexa. Ao final, ela simplesmente se justifica dizendo que tem “atitudes estranhas”. Não convence.

No mais, a história tem seus altos e baixos e se desenvolve em um ritmo lento que não consegue empolgar em nenhum momento. Apenas razoável.

Adoração (Adoration), de Atom Egoyan. Com Arsinée Khanjian, Scott Speedman, Rachel Blanchard, Noam Jenkins, Devon Bostick. Canadá, 2007. 100min.

Mostra Panorama

Nota: 5,0

Rainhas

Documentário abordando as particularidades e bastidores do concurso de Miss Brasil Gay. O foco principal é Fábio, um cabeleireiro de Rondônia que vem para o Rio sonhando vencer o concurso.

O principal fator de curiosidade do longa é mostrar um universo meio desconhecido para o grande público e o quanto o evento representa para a comunidade gay. Interessante também descobrir que a principal característica do concurso é não aceitar travestis, apenas rapazes que se vestem de mulher. Ou seja, não vale “trapacear” já tendo no corpo atributos físicos femininos como implantes ou hormônios, a proposta é justamente criar a imagem feminina através de recursos como enchimentos, perucas e maquiagem.

Outro destaque é o casal entrevistado, Fábio (Michelle Honda na passarela) e seu namorado Junior. Simpáticos, os dois contam um pouco da dificuldade de assumir um relacionamento estável com outro homem em Porto Velho. Chama atenção, ainda, o carinho e admiração de Junior por Fábio e o modo como ele apóia incondicionalmente seu sonho de vencer o concurso. Sempre com palavras positivas, acreditando e torcendo pelo namorado tanto quanto uma verdadeira “mãe de miss”. Muito bacana.

O que atrapalha bastante a boa percepção do longa é uma certa precariedade em termos de som, em várias seqüências excessivamente alto e distorcido. Considerando que isso não ocorre no filme inteiro, não se pode culpar a sala de exibição e sim a mixagem de som do filme em si.

Legal mesmo foi ver Michelle na sessão, vestida a caráter, com faixa e tudo. Segue abaixo a foto tirada com o simpaticíssimo casal. O filme, como produto, até tem seus problemas. Mas os entrevistados são nota 10!


Rainhas, de Fernanda Tornaghi e Ricardo Bruno. BRA, 2008. 75min.

Mostra Mundo Gay

Nota: 6,0

Todos os Meus Fracassos Sexuais


É incrível a que ponto as pessoas chegam para descolar verba para um filme. Usar o próprio umbigo como tema de um documentário não é idéia nova, já foi feito pelo cara que queria (e conseguiu) um encontro com Drew Barrymore. Já o inglês Chris Waitt resolveu colocar em película seu fracasso com o sexo oposto, desse modo piorando ainda mais suas chances de sucesso nesta área (ou não, algumas mulheres são realmente loucas). Bom, o título acima dispensa maiores explicações sobre o tema em questão.

O filme é mais um making of sobre as dificuldades de Chris em colher material para seu filme do que um documentário de verdade. O cara põe na cabeça que vai atrás de todas as garotas que já lhe deram um fora para tentar entender o que há de errado com ele (sim, você já viu esse argumento antes em Alta Fidelidade). O problema é que as garotas não querem falar, todas o detestam. Uma delas chega a dizer que tem ânsias de vômito só de pensar nele.

OK, a idéia tem seus momentos de graça. Mas o assunto se esgota muito rapidamente por falta de fontes. E aí é hora de partir para todo tipo de apelação: Chris marca encontros pelo MySpace, busca tratamentos e terapias para resolver seus problemas de ereção, tenta se excitar com uma dominatrix, etc. Quando percebemos, o filme vira muito mais uma série de consultas públicas com diferentes tipos de profissionais do que uma análise do porquê de seus relacionamentos terem fracassado. Mesmo porque o difícil não é entender porque as garotas o abandonaram e sim porque algum dia quiseram ficar com ele. Chris é imaturo, não trabalha, mora num pardieiro, tem aparência desleixada e pouco higiênica e, como se esses horrores não fossem o bastante, ainda sofre de impotência. Pior do que isso tudo ainda é sua absoluta falta de capacidade de manter uma conversa inteligente. Quem precisa fazer um filme para descobrir o motivo de sua vida sexual ser um fracasso?

Todos os Meus Fracassos Sexuais (A Complete History of My Sexual Failures), de Chris Waitt. Reino Unido, 2007. 80min.

Mostra Midnight Movies

Nota: 4,0

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Vicky Cristina Barcelona


Woody Allen é sempre Woody Allen. Assim como Almodóvar, Allen chegou a um ponto de maturidade artística em que dificilmente fará um filme que não seja pelo menos bom. Ótimo com diálogos e melhor ainda na direção de atores, o cineasta ganhou fôlego extra com suas recentes produções européias. Em Vicky Cristina Barcelona, ele reúne em um triângulo amoroso sua nova musa Scarlett Johansson e os atores espanhóis mais quentes da atualidade: Javier Bardem e Penélope Cruz.

As americanas Vicky e Cristina são duas amigas de personalidades opostas que viajam de férias para Barcelona. Enquanto a centrada Vicky está prestes a se casar, Cristina vive em busca de paixões fortes. Quando conhecem numa vernissage Juan Antonio, um pintor sexy e fogoso, as amigas reagem de maneira diferente: Cristina declara seu interesse abertamente e Vicky finge não achá-lo atraente. O caso fica mais confuso com o aparecimento de Maria Elena, a explosiva ex-mulher por quem Antonio ainda é apaixonado. Exibido no Festival de Cannes 2008.

Tudo indicava uma atmosfera intensa, explosiva, forte. A começar pela trilha sonora. Pela segunda vez em poucos anos – a primeira foi a ópera em Match Point –, Woody abandonou sua característica trilha sonora jazzística. Desta vez, em favor dos ritmos flamencos que aceleram o coração do espectador já nos créditos iniciais. Em contraste com esse clima caliente, o cineasta insere uma ironia curiosa na trama: um narrador formal, estranhíssimo, que narra as paixões arrebatadoras dos personagens como se estivesse falando em um vídeo da National Geographic. Conheço quem não gostou da esquisitice. Eu gostei.

Então por que será que, no geral, eu fiquei com a impressão de que assisti a um filme morno? Certamente é um belo filme, com locações privilegiadas e um elenco bacana (destaque especial para Penélope Cruz, que diferença vê-la atuando em sua terra natal!). Mas, sei lá, ainda assim o filme não me apaixonou. Achei bem-feito, redondinho, mas sem nenhuma grande surpresa. Faltou o toque de genialidade, que podemos pinçar até mesmo em filmes imperfeitos com Scoop (que, apesar de ser bastante irregular, tem pérolas como a barca do além e as aparições do personagem de Ian McShane). Já Vicky Cristina, embora não tenha nenhuma falha aparente, tampouco apresenta um grande diferencial. Não vou nem tecer comparações com o último exemplar do cineasta a aportar por aqui, o excelente O Sonho de Cassandra.

De todo modo... Woody Allen é sempre válido. Fica como ponto positivo o interessante espelhamento entre essas amigas: uma que faz exatamente o que quer, mas no fundo não sabe o que procura; e outra que encontra o que procura, mas não é senhora de seus desejos.

Ah! Um aviso aos marmanjos que estão babando por ver Penélope e Scarlett “se pegando”: não se animem demais, porque muita coisa é sugerida e pouca é mostrada.

Vicky Cristina Barcelona (idem), de Woody Allen. Com Javier Bardem, Scarlett Johansson, Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Rebecca Hall. Espanha / Estados Unidos, 2008. 97min.

Mostra Panorama

Nota: 7,5

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Feliz Natal


Selton Mello é uma pessoa admirável. Não apenas por ser um ator genial, mas principalmente pelas escolhas que fez ao longo de sua carreira. Ator e dublador desde criança, em certo momento Selton se apaixonou pelo cinema e começou a voltar todos os esforços para essa área. Nem sei se foi uma decisão deliberada, mas é inegável que ele é um “homem de cinema”. Mais do que um rosto assíduo na telona, um incentivador e propagador da indústria. Daí para sentar na cadeira do diretor era só questão de tempo. Eis que, depois de rodar apenas um curta, Selton estréia na direção de longa-metragem com a mesma competência e paixão sempre demonstrada em seus projetos como ator.

Feliz Natal é um filme sentimentalmente intenso que parte de um argumento aparentemente simples: acompanhar as mazelas de uma família desestruturada durante as festas de Natal. A história começa na noite do dia 24 e termina na manhã do dia 26. Caio é um homem que cometeu muitos erros no passado, mas agora conseguiu se reerguer. É dono de um ferro-velho, tem uma namorada, abandonou as drogas. Na noite de Natal, ele resolve rever a família, de quem andava afastado, e aparece na casa do irmão Theo. A recepção não é das mais calorosas. Mas seria Caio o renegado, o pária? Ou ele incomoda por ser o único que teve uma segunda chance?

A primeira coisa a chamar atenção no filme é seu aspecto visual, totalmente integrado com a história que está sendo contada. A fotografia escura e granulada, os planos fechados, o rosto dos atores sempre em primeiríssimo plano. Usando de ousadia estética, Selton coloca o espectador junto dos personagens e transfere para nós toda a carga de dor e angústia que cada um guarda dentro de si. Mesmo quando sorriem e dizem estar bem, o desespero em que se afundam não pode ser disfarçado. Não com aquela proximidade quase indecente. E isso faz com que nos sintamos mal, como se fôssemos voyeurs da desgraça alheia, invasores de horrores que não temos o direto de espreitar.

A casa onde acontece a festa de Natal, apesar de espaçosa, transmite uma sensação de confinamento muito forte. E isso ocorre não somente pelo filme ser feito quase todo em closes, mas pela atmosfera de abandono e decadência expressa em pequenos detalhes como a piscina suja, a tapeçaria feia da escada, a apatia presente nos convidados. O mais curioso é fazer um contraponto desta casa da família com a casa dos amigos de Caio, onde o calor humano e aconchego torna a precariedade do local secundária.

Mas todo esse capricho em termos de concepção, embora demonstre o cuidado com cada aspecto do longa, está longe de ser o mais importante. Não tenham dúvidas: Feliz Natal é um filme de atores. Inspirado no universo de John Cassavettes, o roteiro expõe a fragilidade, a solidão, a incomunicabilidade. Feridas que numa suposta data festiva vêm à tona com uma violência muito maior do que no cotidiano justamente porque existe uma pressão para que as pessoas se sintam felizes. Mas como é que vai ter Natal feliz para um homem só sabe suprir a expectativa dos outros? Ou para uma esposa que não ama mais o homem com quem casou? Ou para um pai amargurado que não consegue perdoar o filho? Ou para uma mãe que tem como único refúgio incorporar a louca?

O elenco perfeito é liderado por Leonardo Medeiros, que faz as vezes de protagonista e também de observador do hospício que é sua família. Seus momentos mais belos em cena são justamente os que mostram sua emoção com poucas ou nenhuma palavra. Paulo Guarnieri, que andava há alguns anos sem atuar, interage muito bem com Leonardo como o irmão travado. Se eu tivesse que eleger a cena mais bela dentre tantas, seria justamente a conversa entrecortada de diálogo e plena de emoção dos dois numa cozinha decrépita tendo uma geladeira enferrujada como plano de fundo. Podemos observar que, mesmo sendo aparentemente tão diferentes, os dois irmãos têm a mesma dificuldade de verbalizar seus sentimentos. Dá um nó na garganta quando, ao final desta cena, Theo pergunta a Caio se ele queria lhe dizer alguma coisa e este responde “queria” sem ir além disso.


Uma caracterização que vale destacar é a da diva Darlene Glória como a mãe, personagem que não existia originalmente no roteiro e foi criado às vésperas das filmagens. Ela tem uma espécie de loucura com glamour que lembra personagens clássicas como a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses ou a velha dama de Grandes Esperanças. Inesquecível sua imagem rodopiando no jardim imersa em seu delírio.

Também brilham no elenco uma sofrida e forte Graziella Moretto como a esposa que está no limite das forças, Lucio Mauro como o pai rancoroso e cabeça-dura, Thelmo Fernandes como o amigo de copo falastrão e desbocado (prestem atenção para seu hilário discurso sobre o cigarro, é uma pérola) e o fofíssimo Fabrício Reis. Mais do que um momento de leveza numa história angustiante, o menino representa o último resquício de inocência naquele ambiente viciado.

Feliz Natal ganhou três prêmios no recém-criado Festival de Cinema de Paulínia: melhor diretor, atriz coadjuvante (dividido entre Darlene Glória e Graziella Moretto) e menção especial para Fabrício Reis. Mesmo não tendo assistido a todos os filmes em competição, torço entusiasticamente para que saia vitorioso do Festival do Rio também. Um filme dessa qualidade e que gera um grau de emoção tão forte – ainda mais vindo de um cara como Selton Mello – tem mais é que ganhar todos os prêmios.

Feliz Natal, de Selton Mello. Com Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Lucio Mauro, Paulo Guarnieri, Graziella Moretto, Thelmo Fernandes, Fabrício Reis. BRA, 2008. 104 min.

Première Brasil - Mostra Competitiva

Nota: 10,0

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Primeiras Lágrimas

Filmes bons eu já tinha visto no Festival, como vocês podem conferir por algumas notas altas que andei distribuindo ao longo dos dias. Mas hoje rolou o primeiro filme que me emocionou de verdade: Feliz Natal, delicado retrato de uma família desconstruída. A estréia de Selton Mello na direção de longas recebeu certamente a acolhida mais entusiasmada por parte da platéia que eu tive o prazer de testemunhar. Tá certo que o público do Festival do Rio faz o gênero amiguinho e aplaude os piores filmes se a equipe estiver presente, mas é muito perceptível a diferença entre aplausos educados e aplausos sinceros. Selton mostra com esse filme que não apenas é um ator genial como também entende tudo de cinema. O melhor, até agora. Aguardem a crítica. A nota vocês já podem imaginar.

Selton e a equipe apresentam o filme em foto cedida pelo CinePlayers.

La Leonera


Julia acorda suja de sangue e encontra seu namorado morto e o amigo dele gravemente ferido, ambos esfaqueados, mas ela não se lembra de nada. Presa em flagrante, é enviada para um pavilhão especial por estar grávida. Julia dá à luz a Tomás atrás das grades, e sabe que só poderá ter o filho junto de si até que ele complete quatro anos. Exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes 2008.

O filme se apóia todo no (ótimo) trabalho de Martina Gusman, que, curiosamente, tem uma carreira mais voltada para a produção do que interpretação (antes desse filme, ela atuou apenas em Nascido e Criado). Produtora dos longas anteriores de Pablo Trapero, aqui ela acumula as duas funções. O filme gira em torno de sua personagem: primeiro, mostra a adaptação de uma universitária de classe média à vida carcerária; em um segundo estágio, o foco passa a ser a leoa defendendo o direto sobre a cria com todas as armas. Rodrigo Santoro também está muito bem nas poucas cenas em que aparece, só é uma pena que seu personagem, apesar de importante, tenha tão pouco tempo em cena.

O maior problema em La Leonera está no ritmo da história, que é demasiado lento e naturalista em dois terços do filme e, por causa disso, acaba concentrando acontecimentos demais em sua reta final. A mudança deixa a trama desigual e o espectador com uma sensação de que o diretor apressou as coisas no desfecho porque estava na hora de terminar o filme. Tampouco convence a seqüência em que as presas se rebelam violentamente a partir da reivindicação de Julia, trecho que dá a impressão de ter sido inserido ali somente para injetar mais dramaticidade.

No geral, um filme que vale a pena conferir pelo elenco e também pela abordagem desse aspecto singular do sistema carcerário: a presidiária grávida.

La Leonera (idem), de Pablo Trapero. Com Martina Gusman, Rodrigo Santoro, Elli Medeiros. Argentina / Coréia do Sul / Brasil, 2008. 113min.

Mostra Première Latina

Nota: 6,0

Ano Unha


Como avisa em legendas antes do início do filme, o diretor Jonás Cuarón (filho de Alfonso Cuarón) escreveu o roteiro de Ano Unha a partir de imagens que ele registrou durante dois anos. Fotos reais, história fictícia. A trama que ele criou a partir de seus flashes é a seguinte: Molly, jovem americana em viagem ao México, aluga um quarto na casa de Diego, adolescente explodindo de testosterona. Diego, que só pensava na prima, passa a investir suas atenções em Molly, que se sente lisonjeada. Mas a garota volta para Nova Iorque e Diego, decidido a reencontrá-la, planeja ir atrás dela escondido dos pais.

Eis que na era do digital um cineasta estreante resolve voltar aos primórdios da sétima arte e fazer um filme usando fotografias para ilustrar a história a ser contada. Descrevendo assim, pode até parecer tosco. Mas o filme, apesar de ser uma espécie de fotonovela, consegue criar uma ilusão de movimento tão grande que por vezes o espectador até esquece que está olhando a projeção de imagens estáticas. Lembra um daqueles filmes do cinema mudo, como se tudo estivesse se movimentando em câmera lenta, mas com a diferença de que o ritmo da história é bastante ágil.

Talvez o resultado seja tão bacana por conta dos diálogos joviais e engraçados, especialmente do personagem Diego (cujas falas lembram bastante o modo de se expressar dos garotos de E Sua Mãe Também, dirigido pelo Cuarón pai). OK. Claro que não teria a mínima graça se Jonás começasse a fazer outros filmes assim. Ano Unha é uma fofurice, mas como uma experiência.

Está curioso com o título? Só digo que ele faz todo sentido.

Ano Unha (Año Uña), de Jonás Cuarón. Com Diego Cataño, Eireann Harper, Salvador Elizondo, Michèle Alban, Cristina Orozco. México / Estados Unidos, 2007. 82min.

Mostra Première Latina

Nota: 6,5