Fazer uma resenha sobre o filme Bruna Surfistinha passa por duas questões bem distintas: o filme propriamente dito e o enfoque dado pelo mesmo à história verídica de Raquel Pacheco, adolescente que sai de casa aos 17 anos com uma ideia nada ortodoxa na cabeça: conquistar sua independência trabalhando como garota de programa. O resultado todo mundo já sabe: um dia Raquel assume o codinome Bruna Surfistinha e começa a contar sua vida e suas experiências sexuais em um blog, atitude que a transforma em escritora best-seller e grande celebridade.
Quando ouvi falar da personagem pela primeira vez, me perguntei por que, afinal de contas, Bruna Surfistinha teria ficado famosa. Não era a primeira nem seria a última garota de classe média a achar a prostituição mais atraente do que um emprego convencional. A resposta é simples: numa sociedade onde participantes de reality show são tratados como estrelas, o diferencial de Bruna era sua rara disposição em escancarar os detalhes do métier na internet, ao contrário da maioria das garotas de programa, que costumam fugir de publicidade como o diabo da cruz.
E então agora a vida de Bruna ganha as telas. A moça tem declarado em programas de entrevistas que não quer se justificar nem influenciar ninguém. Mas, ao contrário do que ela diz, o enfoque do filme é justamente no sentido contrário. A protagonista é retratada de forma vitimizada – embora tenha chegado a tal situação por opção própria – e altamente positiva, como se o crescimento pessoal de alguém devesse necessariamente passar pelas drogas e pela prostituição. Não se trata aqui de moralismo e sim de detectar uma visão tendenciosa e parcial do longa em relação a uma mazela bastante séria da sociedade brasileira. O roteiro trata como brincadeira situações como Bruna se livrar de uma multa oferecendo seus dotes a um policial, por exemplo. Se não fosse baseado numa história real, seria menos preocupante.
Mas aí entra a outra questão a ser analisada: e o filme em si, é bom? Como passatempo, é sim. O roteiro é bem azeitado, com ritmo ágil e diálogos naturalmente fluentes. E, claro, é um filme com muito bom humor. Como não rir diante da coleção de pervertidos que desfila pela tela? Tratar o sexo de forma desinibida é sempre divertido e surpreendente. Deborah Secco vai muito bem no papel-título, e convence tanto como a menina introvertida do início quanto em sua transformação em furacão sexual. O filme ainda é enriquecido por uma penca de ótimos atores em papéis secundários, com destaque para a cafetina irônica de Drica Moraes e a prostituta com pavio curto de Fabiula Nascimento.
Resumindo: Bruna Surfistinha é um bom filme para quem conseguir enxergá-lo pelo mero viés do entretenimento, mas também é potencialmente deficitário no sentido de ser um espelho da realidade.
Amanhã nos cinemas.









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